RESENHA: “A CIDADE DO SOL” DE KHALED HOSSEINI

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Mariam tem 33 anos. Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos e Jalil, o homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rashid, um sapateiro de 45 anos. Ela sempre soube que seu destino era servir seu marido e dar-lhe muitos filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Laila tem 14 anos. É filha de um professor que sempre lhe diz: “Você pode ser tudo o que quiser.” Ela vai à escola todos os dias, é considerada uma das melhores alunas do colégio e sempre soube que seu destino era muito maior do que casar e ter filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Confrontadas pela história, o que parecia impossível acontece: Mariam e Laila se encontram, absolutamente sós. E a partir desse momento, embora a história continue a decidir os destinos, uma outra história começa a ser contada, aquela que ensina que todos nós fazemos parte do “todo humano”, somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios.

ISBN: 8520920101
ISBN-13: 9788520920107
Idioma: Livro em português
Encadernação: Brochura
Dimensão: 23 x 16 cm
Edição:
Editora: Nova Fronteira
Ano de Lançamento: 2007
Número de páginas: 368

Este livro chegou me como um presente, literalmente, já que foi um presente de minha mãe, contudo o livro ficaria à espera dos meus olhos durante um ano. No ano passado, no CabulosoCast #10 – Retrospectiva 2010 prometi que o leria neste ano. Promessa cumprida!

Contudo a leitura não fora tranqüila e sem atribulações, mas foi pesada e repleta de reflexões, não sei se a obra chegou-me na hora certa; acabara de ler Apátrida um livro que mexeu bastante com meu emocional exigindo, às vezes, paradas reflexivas (dada a densidade da leitura). E escolho como leitura subseqüente exatamente um livro onde duas mulheres sofrem e pensei: “Caramba! Mulher sofrendo novamente?” Isto talvez seja uma justificativa chula, porém considero-a a única para explicar a demora em concluir a obra.

A cidade do Sol poderia ter como síntese: “a história de duas mulheres que sofrem nas mãos de um marido cruel e insensível”. Além de um reducionismo exacerbado soaria muito novela das 8. Ler este livro é muito mais do que ler a síntese que lhes apresentei, trata-se de mergulhar profundamente na cultura do oriente médio vista e descrita do ponto de vista de quem realmente sabe aquilo que diz. Longe dos estereótipos noveleiros conhecemos Mariam e Laila, duas afegãs que tem vidas distintas, mas um futuro semelhante e um desfecho inevitável (será?).

Mariam é filha de Nana que no passado fora empregada de Jalil um rico empresário. Jalil engravidou Nana. Como era uma filha concebida fora do seu casamento para evitar a desonra da família compra uma kolba afastada da cidade e lá ela (Nana) teria sua harami (filha bastarda) Mariam e ambas viveria ali até os 12 anos desta. Nana era uma mulher triste e amargurada que vivia convencendo a filha de que a vida não era algo bom e que os homens muito menos, contudo Mariam não concordaria com ela, pois Jalil vinham lhe visitar constantemente e mandava mantimentos para as duas. Por uma série de acontecimentos, Mariam é obrigada a se casar com Rashid um sapateiro muito mais velho que ela e os dois vão morar em Cabul. Após descobrir que a esposa não poderia ter filhos passa a desprezá-la e espancá-la sem motivo aparente.

É quando Mariam passa a viver em Cabul que conhecemos Laila: filha de um antigo professor universitário e de uma mãe depressiva. É uma garota audaz de personalidade forte que vive a brincar com seu amigo Tariq por quem nutre uma paixão singela. Laila, diferente de Mariam, fora instruída e chegara a freqüentar a escola. Por causa da morte repentina dos pais casa-se com Rashid e passar a morar, portanto, com Mariam que a despreza de início.

O livro vai alternando entre as duas personagens, mesmo sendo narrado em 3ª pessoa, Khaled Hosseini faz isso com maestria sem tornar o texto repetitivo (pois em alguns autores percebemos que uma mesma cena acaba sendo repetida, por pontos de vista diferentes, o que faz em muitos casos a leitura ficar lenta), as cenas são na verdade contínuas, enquanto Mariam sofre uma determinada ação, vemos o resultado da mesma pelos olhos de Laila. Isto dá uma dinâmica ao texto que faz com que desejemos passar para o próximo capítulo e conhecer o desfecho dos acontecimentos. As duas personagens passam por dramas e angústias semelhantes, mas sofrem de forma completamente diferente se ambas são espancadas pelo marido a maneira como encaram o fato faz com que o leitor veja uma grandeza particular em cada personagem.

É importante destacar que a história do próprio Oriente Médio serve como pano de fundo para a passagem da vida das duas protagonistas. Para mim, este é o ponto em que o livro difere-se de qualquer novela global, todos os conflitos e guerras pelos quais aquela região passou são descritos pelo autor de modo sutil, mas com os detalhes que muitas vezes deixou-me perdido em certos momentos, contudo é positivo percebemos que os fatos transmitidos pela televisão e pelos filmes americanos são muito ora deturpados ora confirmados. O regime talibã é exposto em sua sutil brutalidade. Ver o impacto de um conjunto de normas que transformam a mulher num mero acessório do homem é chocante e revoltante, porém esclarecedor para olhos estranhos como os meus. Não há como não torcer para que ambas possam sair daquela claustrofobia fundamentalista e esperar a cada página que elas alcancem a liberdade.

Com descrições arrebatadoras, duas heroínas carismáticas e reais e com um desfecho digno das suas protagonistas A cidade do Sol é um romance envolvente que promete levar o leitor para a fascinante cultura islâmica com todos os seus contrastes, polêmicas e belezas, sem ser tendencioso.

FODA +

O livro só perde meio-ponto dado ao excesso de nomes e referências e a personalidades peças-chaves dos conflitos, mas que para olhos ocidentais deixaram este que vos escreve confuso e desorientado em muito momentos.

  • Aha, eu tenho esse…mas não li ainda, deu vontade de ler!!!!

    • Beatriz,

      Minha sensação foi a mesma que a sua! Contudo quando comecei a ler bateu um arrependimento terrível, pois se soubesse que a leitura seria como foi teria lido antes.

      Obrigado por comentar!

      Abraços.

  • Ola!!
    Eu li O caçador de pipas que é do mesmo autor, e depois de ler a sua resenha não tenho dúvidas sobre a grandeza que é esta leitura,percebi no caçador de pipas a personalidade marcante que ele atribui aos seus personagem e claro a forma delicada e ao mesmo tempo agressiva que o autor descreve as cenas, as situações e o terror do regime talibã. eu chorei muito tanto assistindo o filme como lendo o livro O caçador de Pipas e tenho certeza que A cidade do sol(que vou sim ler) vai arrancar rios de lágrimas e emoções a flor da pele, e por se tratar de história com personagens femininos que ajudam as leitoras se identificarem, vou sensibilizar ainda mais com a narrativa.
    Bjos!!

    • Dany,

      Pensei em ler “O Caçador de Pipas” logo em seguida, mas achei que não iria aguentar. Vai para as leituras do próximo ano assim espero!

      Obrigado pelo comentário.

      Abraços.

  • Delma Mônica

    Esse livro,sem dúvidas é um dos melhores q já li,se não o melhor. A história de Mariam e Laila é mto comovente,elas passam por mtas dificuldades. Através deste livro aprendi a dar valor ao pouco q tenho, por tornar grande riqueza diante de suas condições de vida.
    Recomendo a todos q leiam,esse livro é uma “Lição de Vida”. O que absorvi desse livro com certeza se tornou uma bagagem, q vou levar sempre comigo a vida inteira.

  • Rodrigo Portugal

    Acabei de ler O Caçador de Pipas e emendei esse logo na sequência. Khaled Hosseini deveria se mudar para o México e passar a escrever novelas. É tanto sofrimento de todo mundo, a cada página, que a leitura se torna cansativa, pesada. Em determinado momento, torna-se impossível sentir empatia por qualquer personagem, pois parecem aqueles amigos chatos que só reclamam de tudo. Sabe, aquele pessoal que já responde a um “bom dia” com “ah, mais ou menos, minhas costas doem, meu cachorro morreu, meu chefe me chamou a atenção…”. Além do quê, algumas reações chegam a ser exageradas. Muito sofrimento desnecessário a cada página.