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The Ghost in the Shell – Shirow Masamune

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The Ghost in the Shell
é um mangá de ficção científica do subgênero ciberpunk, escrito e desenhado por Shirow Masamune, lançado originalmente no japão entre 1989 e 1990. Publicado no Brasil, pela primeira vez na integra pela editora JBC no final de 2016.

Em um futuro próximo, o misterioso Daisuke Aramaki (conhecido como Cara de Macaco) funda uma tropa de elite de segurança pública do Japão, a Seção 9, cujo principal objetivo é investigar crimes ligados a tecnologia. Nesse esquadrão, quase todos os membros são ciborgues, pessoas que tiveram partes de seus corpos subsistidas por implantes cibernéticos que lhe conferem capacidades sobre-humanas. Com destaque para a líder de campo, Motoko Kusanagi. A “Major”, como ela é chamada, possui o corpo inteiramente robótico, tendo apenas mantido seu cérebro humano. O mangá tem 12 capítulos, reunidos nesse único volume pela JBC.

Cada um dos capítulos mostra uma missão da Seção 9. Estas são focadas em política, espionagem e contra-terrorismo. Variando os personagens que compõem a equipe, com exceção de Aramaki e Kusanagi que são constantes. Apesar de serem histórias independentes, existe um fio condutor que relaciona todas elas, que é o vilão Mestre dos Fantoches. Devido a essa dinâmica de histórias independentes, os capítulos variam bastante de tom, como uma serie de TV procedural, tendo algumas mais centradas em investigação, enquanto outras na ação.

Mesmo com todos esses elementos de espionagem e ação, o que chama a atenção em The Ghost in the Shell e o destaca de outras produções similares, além do pioneirismo do tema, é a filosofia por trás de cada história. Massamune criou um mundo em que a tecnologia está tão, literalmente, entranhada na vida humana que gerou mudanças irreversíveis na sociedade. Abordando questionamentos como, até que ponto humano pode se unir a maquina e ainda se considerar humano? Ou, em um mundo em que seu cérebro pode ser hackeado, ainda existe livre arbítrio? Será que as decisões que você tomou na sua vida foram realmente suas, ou foram implantadas por um agente externo? Isso é Ghost in the Shell e não é a toa que ele influenciou tantas produções que vieram depois, sendo a mais famosa delas Matrix.

Vamos dar um pouco de destaque a qualidade dessa edição da JBC. Além do cuidado de ter trazido a obra completa em um só volume, o acabamento está de uma qualidade bastante superior ao das outras publicações da editora. Com destaque para o tamanho, bem maior que os mangás tradicional, as páginas coloridas e a sobrecapa mostram o capricho que foi dedicado a esse material, e que eu espero que se repita em outros materiais no futuro (coff, Evangelion, coff, coff). Uma dica, deixem de lado os textos adicionais explicativos do autor, que ficam nas margens dos quadrinhos, pois eles podem atrapalhar o fluxo da história. É melhor deixá-los para uma segunda leitura.

Apesar de ser um lançamento, praticamente todo fã de anime/mangá já teve algum contato com The Ghost in the Shell, por se tratar de um clássico da cultura pop, e possuir uma famosíssima adaptação em longa metragem da década de noventa. Sabendo disso, é bom fazer um disclaimer. Existem muitas diferenças entre o mangá e suas adaptações, a principal delas é a protagonista. Aqui, a Major é retratada como uma bom-vivam, bem-humorada e tem uma aparência mais juvenil. Ao contrario da versão séria e introspectiva que vemos nas animações. Outra questão é o peso da época. Por se tratar de um Mangá de 1098, ele é carregado de marcas desse período, como o design dos personagens e a sexualização das personagens femininas. Mantenha isso em mente quando vir algumas enfermeiras usando cinta-liga.

Outra questão que eu vejo, e que não posso deixar de comparar com as adaptações, é a pressa de algumas histórias, que ao ler você sente que elas poderiam ser melhor desenvolvidas se fossem mais longas. Essa é provavelmente uma marca da época em que a série saía dentro da revista Young Magazine e que possuía uma limitação de páginas. Enquanto que nos filmes e series de TV, essas histórias possuem muito mais tempo para serem exploradas e aprofundadas.

São por esses e outros motivo que eu considero que as adaptações, principalmente a série Stand Alone Complex, superiores ao mangá. Mas não, não vou tirar pontos por isso, principalmente porque elas tiveram quase trinta anos para refinar tudo o que havia de bom no original.

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Nome:
 Koukaku Kidoutai: The Ghost in the Shell, The Ghost in the Shell, 攻殻機動隊 THE GHOST IN THE SHELL
Valor: R$ 64,90 (volume único)
Páginas: 352
Distribuição: Nacional (Somente em livrarias)
Publicado (no Japão): 1989 ~ 1991
Autor: Shirow Masamune
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Sinopse: Influenciado por obras “cyberpunk” do final dos anos 1980 como Akira e por filmes como Blade Runner – O Caçador de Androides, o cenário escolhido por Shirow para The Ghost in the Shell foi o futuro distópico de 2029, onde a alta tecnologia se mistura a uma sociedade decadente e desigual.
É nesse mundo à beira do colapso que a Major Motoko Kusanagi encabeça a Seção 9 da Segurança Pública. Motoko é uma ciborgue altamente treinada incumbida de desmantelar uma série de crimes cibernéticos realizados por um hacker conhecido como o Mestre dos Fantoches.
Em meio à caça ao criminoso virtual, Masamune Shirow insere na trama questionamentos existencialistas, ponderando até mesmo se alguém provido meramente de Inteligência Artificial é, de fato, um ser vivo. E foi exatamente essa mistura de ficção científica, ação e temas filosóficos que fizeram do mangá The Ghost in the Shell uma leitura obrigatória.

Editorial #1

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A ideia de trabalhar melhor os contos publicados no Leitor Cabuloso é antiga, mas só conseguimos a colocar em prática esse ano, e isso só porque eu, Lucas Ferraz, pude contar com a valiosa ajuda do meu amigo Rodrigo Rahmati, na seleção, revisão e edição do material que recebemos.

Em janeiro tivemos a chance de trabalhar com 4 autores e postar contos de estilos diferentes mas todos igualmente fantásticos. Tivemos fantasia, ficção científica e até mesmo um conto de zumbis com pegada humorística! Nossa expectativa é de que possamos continuar a postar contos de qualidade no site e no fim do ano, organizar um ebook com o melhor desse material. Para isso precisamos que vocês continuem enviando seus contos, nossa seleção está sempre aberta!

Abaixo os contos publicados em janeiro, e se você não os leu ainda, deveria fazer isso agora! Quanto aos contos novos, nossa expectativa é voltar a postá-los no site semana que vem.

Onironauta, de J.M. Beraldo: Inauguramos os contos com essa obra de J.M. Beraldo, escritor e vencedor do Prêmio Argos 2016.

Eva & Morte, de Joe de Lima: Esse conto de Joe de Lima conta a história da menina Eva e sua relação com a morte, que é mais profunda do que parece.

Ziggy Stardust, de Magdiel Araujo: O aconteceria se um bem humorado zumbi perdesse suas memórias mas conservasse sua inteligência? Esse conto revela tudo.

Memento mori com Fernet, de Michel Peres: Um conto de ficção científica fascinante, com tecnologias bizarras e robôs desmemoriados. Altamente recomendado.

Por enquanto é isso pessoal, aproveitem a leitura, comentem nos contos e espalhem por aí, além, é claro, de nos submeter suas próprias obras, observando sempre nossas Regras de Submissão. Quem sabe você pode estar na lista do próximo editorial!

Kalciferum – Andrei Fernandes

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Kalciferum é o livro de estréia do Andrei Fernandes conhecido por ser o host do podcast Mundo Freak. E quem conhece o Mundo Freak não poderia esperar menos de Kalciferum, senão um livro recheado de demônios e rituais.

Rafael é um ser humano pacato: desempregado e desesperado. Ele consegue uma entrevista em uma grande empresa de eletrodomésticos e apesar do chefe ser um homem grande, nervoso e intimidador, características que assustam qualquer funcionário, Rafael se sai surpreendentemente bem e é selecionado. Na empresa ele conhece Cal, um estagiário recluso que se destaca por não usar as vestes apropriadas ao escritório e por e passar despercecido por todos na maior parte do tempo. Uma discussão entre Rafael e o estagiário não demora a acontecer e chama a atenção de todos e acaba fazendo com que o chefe determine que os dois devem trabalhar juntos. Isso acaba se tornando um pesadelo para Rafael que precisa do emprego e não vê como trabalhar com alguém como Cal. Logo ele descobre que para Cal a situação não é menos irritante quando o estagiário lhe envia um contrato, porque Cal é nada menos que um demônio. Assinar um contrato com um demônio é uma grande burrice se formos levar em conta os filmes do tema e Rafael se recusa a assinar de princípio, mas se vê sem saída quando seres que nunca poderia imaginar que estivessem vivendo nas sombras de São Paulo começam a persegui-lo. Como Cal teria de protegê-lo ao assinar o contrato, Rafael não tem escolha a não ser conviver com o demônio.

E assim Kalciferum nos leva a embates contra criaturas demoníacas além de trazer diversos outros personagens que acrescentam a trama. Tudo isso acontecendo em São Paulo e Andrei utiliza muito bem desse cenário. Dá para perceber pela trama que ele pesquisou a história da cidade e usa a história de certos bairros para rechear a história. Além é claro dos vários rituais e entidades citados no decorrer do livro que acredito não serem totalmente à base de ficção e devem ter sido tirados da experiência do autor com os casos bizarros.

Li o livro em formato digital, porém a Domenica adquiriu o livro físico e me enviou as imagens. Tive oportunidade de ver e tocar o livro na Bienal e posso dizer que é muito bonito, com capa dura e ilustrações no início de cada capítulo. As ilustrações me deixaram um pouco confusa, porque o estilo delas remete a uma obra infanto-juvenil, uma espécie de “coleção vaga-lume” e a obra não me remeteu a esse formato.

Como já citei, Kalciferum é o livro de estreia do Andrei e o primeiro de uma série. A leitura é a de um livro de estreia, de um autor iniciante, mas superior a muitos iniciantes que já tive oportunidade de ler. Se você já é ouvinte do Mundo Freak a leitura é obrigatória e se ainda não… bom, ouvir o podcast e ler Kalciferum é um grande adendo.

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Nome:
 Kalciferum #1 – Demônios, Bruxas e Vagantes
Autor: Andrei Fernandes
Edição: 1ª
Editora: Penumbra
Ano: 2016
Páginas: 384
Sinopse: O que faria se descobrisse que o seu colega de trabalho fosse na verdade um demônio fugitivo?

Kalciferum – Demônios, Bruxas e Vagantes apresenta um mundo onde a segurança e a certeza providas por grandes metrópoles não passam de uma patética ilusão cercada de concreto e aço. Agora, imagine se por trás dessa “normalidade” você descobrisse que algum colega de trabalho seu é na verdade um demônio fugitivo? O protagonista da história, Rafael, nunca foi perguntado sobre isso, mas a resposta ele já sabe. Após conseguir um emprego precisa trabalhar junto com uma entidade demoníaca que se esconde na burocracia para mundana para não ser descoberto. O mundo é completamente diferente do que sempre se acreditou e criaturas sobrenaturais vagam além dos olhos mundanos.

 

Suicidas – Raphael Montes

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Suicidas, romance de estreia do autor carioca Raphael Montes, já começou chamando a atenção em sua época, sendo finalista dos prêmios Machado de Assis e Benvirá. Entretanto, independente de premiações e honrarias, sendo um romance de estreia, será analisado enquanto tal.

Nove jovens se reúnem para um jogo da morte. Uma Magnum 608 e nove balas contadas. Uma para cada um deles. Mas o que levaria jovens aparentemente sem problemas a participar de um jogo onde o game over e o prêmio final são ao mesmo tempo a morte certa?

A história começa com a delegada Diana Guimarães presidindo uma reunião extraordinária com as mães dos jovens que cometeram suicídio num sítio do interior do Rio de Janeiro. A reunião acontece um ano após os trágicos eventos, e é motivada pela descoberta de uma nova pista e fonte de informações sobre o que pode ter acontecido para que os corpos estivessem daquele jeito quando encontrados. A pista, que até então havia sido mantida em segredo pela equipe investigativa que cuidou do caso, é um manuscrito que estava sendo produzido por um dos jovens que pereceu em Cyrille’s House (o nome do sítio), e nosso guia por toda a história, Alessandro Parentoni.

A narrativa do livro segue então três linhas diferentes de perspectiva: O diário pessoal de Alessandro, o caderno em que Alessandro registrou tudo o que aconteceu na fatídica noite da roleta-russa, e a reunião das mães um ano depois.

É entre as anotações do diário pessoal de Alessandro, que os leitores passam a conhecer os suicidas que integram o grupo dos nove, com destaque para Zak, amigo de infância de Alessandro e peça-chave na trama do romance. Zak é o riquinho de corpo atlético e mulherengo, enquanto Alessandro é o nerd esquisito com manias de escritor e nem um pouco popular entre as mulheres.

Dentre os pontos negativos do livro posso destacar os personagens estereotipados como: o playboy rico e mimado, o nerd, a gostosa sem inteligência, a moça feia e feminista, o esquisito cujo amor não é correspondido pela gostosa do grupo, o emo gótico suicida, etc. Todos os personagens são estereotipados, mas isso passa batido à medida que eles vão se desenvolvendo e se complexificando, adquirindo personalidades próprias e fluidas. Entretanto, isso não acontece com todos os personagens, sendo necessário notar que muitos dos secundários sequer necessitariam papéis na história, só servindo mesmo para justificar uma ou duas cenas muito chocantes.

Outro problema que se faz presente é na hora da transcrição em tempo real da noite no porão de Cyrille’s House. Alessandro tinha como missão registrar tudo o que acontecia ali, não só para que quando os encontrassem soubessem exatamente o que se passou, como para ter finalmente seu sonho de ser publicado – mesmo que postumamente. Contudo, convenhamos que não seria nem perto do possível ficar escrevendo coisas com tamanha precisão, principalmente num ambiente de extrema tensão. No entanto, a delegada Diana Guimarães parece não ver problema nenhum nisso quando trata o manuscrito de Alessandro como prova irrefutável do que aconteceu no porão.

Ademais, é preciso reconhecer a habilidade de Raphael Montes. O autor escreve com simplicidade e clareza, e apesar dos clichês que permeiam o livro do início ao fim (mesmo3 no plot twist do final, que nem é tão surpreendente como falam), consegue manter o leitor atrás das páginas com uma história cativante. Conseguimos até esquecer algumas pontas soltas, e as muitas páginas desnecessárias para formar volume.

Suicidas é um dos poucos livros da produção nacional que conseguiu me convencer. Indico para quem quiser se deleitar com uma boa história.

Nota

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Nome:
 Suicidas
Autor: Raphael Montes
Edição: 1ª
Editora: Benvirá
Ano: 2012
Páginas: 488
Sinopse: Um porão, nove jovens e uma Magnum 608. O que poderia ter levado universitários da elite carioca – e aparentemente sem problemas – a participarem de uma roleta-russa?

Um ano depois do trágico evento, que terminou de forma violenta e bizarramente misteriosa, uma nova pista, até então mantida em segredo pela polícia, ilumina o nebuloso caso. Sob o comando da delegada Diana Guimarães, as mães desses jovens são reunidas para tentar entender o que realmente aconteceu, e os motivos que levaram seus filhos a cometerem suicídio.

Por meio da leitura das anotações feitas por um dos suicidas durante o fatídico episódio, as mães são submersas no turbilhão de momentos que culminaram na morte dos seus filhos. A reunião se dá em clima de tensão absoluta, verdades são ditas sem a falsa piedade das máscaras sociais e, sorrateiramente, algo muito maior começa a se revelar.

Coração de Aço – Brandon Sanderson

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Coração de Aço é o primeiro livro da trilogia Os Executores, do autor estadunidense Brandon Sanderson. Lançado nos EUA em 2013, chegou ao Brasil em 2016 pela editora Aleph. Trata-se de um romance de fantasia para jovens adultos (YA).

Em um mundo similar a terra contemporânea, após um evento conhecido como A Calamidade, uma pequena parte da humanidade ganhou super-poderes. Ao contrario dos mundos de histórias em quadrinhos com as quais estamos acostumados, aqui nenhum desses indivíduos super-poderosos,  chamados de épicos, decidiu se tornar um super-herói. Ao invés disso eles dominaram e escravizaram a humanidade, e como alguns deles são praticamente invencíveis, os governos do mundo não tiveram escolha a não ser aceitar que os épicos simplesmente estavam a cima da lei e podiam fazer o que bem entendessem.

É nesse mundo que vive David Charleston, um jovem que assistiu, aos oito anos, seu pai ser assassinado pelo épico mais poderoso do planeta, Coração de Aço (um análogo do Superman). A partir daí, David dedicou a vida a estudar os épicos e descobrir formas de matá-los, para poder executar sua vingança. Mas para isso ele vai precisar encontrar e se juntar aos Executores, um grupo para-militar que caça e mata épicos ao redor do mundo.

Uma coisa você pode dizer a respeito de autores de YA, eles sabem como prender um leitor em uma narrativa. Eu sou um grande consumidor do gênero super-heroico e cheguei a Coração de Aço atraído pela ideia de um mundo onde humanos normais precisam lutar contra semi-deuses praticamente imortais. E posso dizer que Coração de Aço entrega o que promete. O livro é recheado de cenas de ação, com direito a tiroteios e perseguições, até batalhas épicas entre… bem, entre épicos. O autor é bom em finalizar cada capítulo deixando o leitor ansioso pelo próximo.

Só não entendo porquê do senhor Sanderson não ter procurado um bom desenhista para levar essa saga aos quadrinhos, que é a mídia que praticamente foi criada para esse gênero. Quem sabe um dia.

Quero deixar uma coisa clara a partir daqui, se você que está lendo isso se sentiu interessado pelo que eu contei nos parágrafos acima, esse livro é para você. Vá lá, compre e leia que você vai gostar, como eu gostei, apesar de ele não ser um livro nota dez. O que faz esse livro perder pontos é sobre o que eu vou falar daqui para frente. Acredito que alguns dos pontos que eu vou citar podem ser concertados nas sequencias, mas eu vou me concentrar neste volume e não na série.

A meu ver, o primeiro defeito desse livro tem um nome: Megan. Ela é a mais jovem dos executores e interesse romântico de David, descrita como uma garota loira de olhos azuis e extremamente bonita. Meu problema com Megan é que ela é uma personagem chata, sem proposito e sem personalidade. Em um mundo em que vivemos hoje, em que tantas personagens femininas fortes ganharam a cultura pop, eu acho que Megan é um retrocesso. Os fãs do livro podem argumentar que ela não é tão desenvolvida por não ser a protagonista. Bem, Hermione também não era. Para ser justo com a personagem, o motivo de ela ser como é será explicado no final do livro, mas até chegar lá ela já tem enchido a paciência do leitor e do herói por dois terços da história.

Brandon Sanderson tem um problema com relação a sua narrativa, principalmente nas horas em que tenta fazer comédia. Cody, o personagem que deveria ser o alivio cômico, recheando todos os diálogos com piadinhas, simplesmente não funciona. E outra coisa são as metáforas horríveis. O livro é narrado em primeira pessoa, e David explica no começo que ele é péssimo em criar metáforas, daí saem coisas como: Vocês dois parecem um par de guaxinins em um dia chuvoso. Eu me sinto como um tijolo feito de mingau. Eu me deixava distrair, como um coelho resolvendo problemas matemáticos em vez de procurar raposas. Essa piada pode até funcionar em diálogos, mas não no corpo da narrativa, atrapalhando o ritmo da leitura.

E pronto, é isso, não vou falar sobre os advérbios, vou dizer apenas que Stephen King tinha razão, e quem entender entendeu.

Nota

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Nome:
 Coração de Aço (Executores #1)
Autor: Brandon Sanderson
Edição: 1ª
Editora: Aleph
Ano: 2016
Páginas: 392
Sinopse: Tudo começou com Calamidade, que surgiu nos céus como uma estrela de fogo, e que ninguém sabe o que é realmente: seria algo alienígena, ou então um experimento do exército norte-americano? Seus efeitos, entretanto, podem ser sentidos algum tempo após seu surgimento: pessoas comuns passam a ter poderes que desafiam as leis da física e da lógica. Parece que uma nova era está para surgir. E surge: os nomeados Épicos não apenas se tornam poderosos, mas também ganham uma sede insaciável de poder e parecem perder toda sua humanidade no processo, deixando o resto da população à mercê de suas vontades e caprichos. Dentre eles o mais poderoso é Coração de Aço, um ser invulnerável a qualquer tipo de ataque e com capacidade de manipular e transformar objetos inorgânicos em metal, que decide tomar a cidade de Chicago e ali estabelecer seu império.

Dez anos se passam e os Épicos governam com poder absoluto, com todos os direitos e nenhum dever, se apossando de tudo o que querem a seu bel-prazer, e matando aqueles que ousam desafiá-los. Não existe nada e ninguém que possa impedi-los. A exceção a essa regra são os Executores, humanos normais, munidos de tecnologia de ponta que se utilizam de táticas de guerrilha para derrubar e matar o maior número possível de Épicos. O sonho de David, um jovem criado em um orfanato/fábrica de Nova Chicago é juntar-se aos Executores e destruir Coração de Aço, o homem que matou seu pai e mudou sua vida para sempre.

Memento mori com Fernet

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Conheci Charlotte alguns meses antes dela desaparecer. Nunca cheguei a compreender o que de fato aconteceu a ela, o motivo do seu desaparecimento ou mesmo como ela o fez. Apenas sei que ainda sinto sua presença às vezes.

Fazia cinco meses que eu havia me mudado para o Rio. Boa parte do meu tempo era dedicada ao cultivo de roupas, tarefa que eu realizava com a ajuda do André. Estava ainda me adaptando ao calor da cidade e qualquer um que entrasse na minha loja encontraria a geladeira estocada com latas e mais latas de Sergipe, aquela bebida de suco de manga e chá que havia se tornado essencial para minha sobrevivência ao verão carioca.

Em um dia particularmente quente, eu estava cuidando do cultivo de cinco jaquetas de tecidos diversos, modelos inspirados nas antigas M-65 que os punks de Santiago e Auckland adoravam. Eu bebia um Sergipe, sentindo a bebida gelada espantar o calor como um taser. Foi quando André apareceu descendo as escadas, fazendo um barulho dos infernos sobre as suas sandálias de plástico.

{Mariana,} ele disse. {O que está fazendo?}

Eu olhei por cima do ombro. “Cuidando da encomenda de Bogotá.”

Ele se aproximou, inclinando diante do biorreator onde eu cultivava as jaquetas. Com quase dois metros, ver aquele droide se abaixar era quase como assistir a uma árvore de tronco amarelo dobrando ao vento. A enorme câmera que ele tinha por cabeça moveu verticalmente, exibindo o adesivo de caveira que eu havia colado ali.

{Elas estão crescendo bem,} ele comentou, apontando para as jaquetas.

“Não é?” eu disse e sorvi do Sergipe. “Mantenha os níveis de nutriente altos, André. É o que eu sempre digo.”

Ele bateu um dedo na cabeça metálica, reproduzindo o gesto de alguém a pensar. {Você precisa ir lá em cima comigo.}

“O que aconteceu?”

{Problemas,} ele disse. {O híbrido está se comportando mal.}

“De novo?” eu perguntei.

Larguei a lata em cima do biorreator das jaquetas e fui com André ver o que estava acontecendo.

A casa que eu alugara no Santa Teresa era pequena, mas com dois andares eu tinha espaço suficiente para desenvolver o meu trabalho. E isso era fundamental. Apesar de cultivar poucos modelos, cada um deles era feito de um tecido diferente. E tecidos diferentes demandam tratamentos diferente. Para se ter uma ideia, as jaquetas M-65 precisam de um controle rígido dos níveis de dióxido de carbono e estímulos biológicos, enquanto os quimonos são estimulados tanto quimicamente como mecanicamente; já as huaraches apresentam um padrão de crescimento celular próprio, e os vestidos camiseiro exigem uma temperatura quase antártica durante a sua formação.

Mas, de todos os tecidos com que eu trabalhava, o híbrido era o que demandava um cuidado mais especial (quase psicológico, eu diria). Ao mesmo tempo em que era necessário manter o nível de umidade constante e aplicar estímulos químicos e biológicos, eu também tinha de estar atenta às variações de humor desse tecido. André sempre me corrigia dizendo que se tratavam apenas de espasmos, mas eu preferia encarar a partir da perspectiva de temperamentos; ver o híbrido como uma criança mimada ou uma pessoa em depressão me ajudava a pensar o tempo todo nele e ir sempre checar se tudo estava correndo bem. Era um trabalho exaustivo, mas as peças que eu podia criar com esse tecido eram gloriosas.

Eu havia separado um lugar especial na casa para ele: um quarto com sacada, por onde o sol entrava vagaroso todas manhãs e se podia até mesmo sentir um pouco da brisa do mar. A visão dali era fantástica, os prédios se assemelhando a confeitos salpicados nas encostas verdes do Rio.

Fui em direção ao biorreator. Era o mesmo usado em hospitais para o cultivo de corações e havia me custado uma pequena fortuna. Mas valia cada centavo. E eu confirmava isso toda vez que entrava no quarto e era recebida pelo brilho azul e dourado do híbrido.

Passei a ponta do dedo sobre o vidro, sentindo uma lenta vibração como se houvesse acariciado um gato. O híbrido estava calmo, expandindo e regredindo como um pulmão a trabalhar em câmera lenta.

“Ele parece bem para mim,” eu disse, voltando para André.

André se aproximou e deu a volta no biorreator. Ele coçou de novo a cabeça na sua tentativa de imitar um humano. {Há exatos três minutos ele estava se comportando daquele modo estranho.}

Eu ergui uma sobrancelha. “Estranho como?”

{Ele tinha se desenrolado e estava todo agitado. Até a cor havia mudado.}

Bug, eu pensei, sentindo uma gota de suor descer pelas costas. “André… será que você não está vendo coisas?”

O droide olhou para os lados, movendo a câmera, perdido como um menino de dois metros.

“Me lembre de irmos na assistência amanhã, tudo bem?”

{Claro, Mariana.}

“E dê uma conferida no biorreator das M-65 para mim. Acho que a mangueira de CO2 está vazando.”

Ele balançou a câmera e desceu as escadas.

Soltei um suspiro.

Não era a primeira vez que André agia assim. Em outras ocasiões ele havia enxergado pessoas andando pela casa, túneis dentro da geladeira ou avenidas percorrendo o céu. Isso não era de se espantar, afinal, ele tinha quase a minha idade e um droide de vinte anos já era praticamente um velhinho. Sua memória urrava para lidar com a quantidade de informações que se acumulava dia após dia, fazendo com que erros de leitura e interpretação fossem comuns.

“Pobre Andréoide”, murmurei, encarando o híbrido dentro do biorreator. Ele já havia adquirido um tamanho razoável — cerca de um metro de largura por quinze de comprimento — e estava enrolado em si mesmo como um pedaço de fazenda viva ou um rocambole de pele sintética azul. Naquele momento eu não tinha ideia do que fazer com ele, nem podia imaginar no que ele se transformaria alguns meses depois.  

Abri a porta da sacada. Um silêncio imperava no ar, entrecortado apenas pelos sons de buzinas distantes e o zumbido de televisões sintonizadas em alguma partida de futebol. Havia uma casa do outro lado da rua, uma pensão cuja laje ficava paralela com a minha sacada.

Foi quando vi Charlotte pela primeira vez. Ela apareceu usando um biquíni de crochê laranja e uma canga que lhe cobria parte das pernas. Seus cabelos pretos estavam presos por um par de hashis e sua pele possuía um brilho turvo, como óleo sobre água. Ela tirou a canga e se deitou desajeitadamente sobre a espreguiçadeira, uma modelo de Lucian Freud sob o sol do Rio.

Nossos olhares se encontraram apesar dos óculos escuros que ela usava. Eu sabia disso pelo modo como ela colocou a perna por cima da outra, exibindo a prótese com orgulho para mim. Seu rosto, levemente inclinado, estava virado na minha direção.

* * *

Ela veio a aparecer na loja no dia seguinte. Pouco depois das dez horas, André me chamou, a reclamar de novo do híbrido. Fui com ele até o quarto, e, para o meu espanto, o híbrido estava mesmo com um péssimo temperamento.

Ele se debatia contra as paredes do biorreator, espichando-se contra o vidro; sua cor tinha mudado do belo azul dourado para um cinza pálido e seus poros estavam abertos como os de um animal encurralado.

Fechei a porta da sacada e corri para acender o conjunto de LEDs que havia instalado por cima do biorreator. Como eu esperava, a luz roxa acalmou o híbrido, que retrocedeu de volta. Havia aprendido o macete dos LEDs com um designer de jaquetas de Amsterdã, que, além das roupas, também cultivava orquídeas.  

Mas eu tinha aprimorado a sua técnica: junto com a luz calma do LED, eu introduzia The Big Ship, de Brian Eno. Liguei o aparelho de som. A música começou aos poucos a se desenvolver no quarto escuro como uma terceira presença. Era quase hipnótico assistir ao híbrido enrolar-se de volta para o seu pedestal ao som dos instrumentos que se sobrepunham uns aos outros em camadas de melodia.

Ficamos eu e o droide a observá-lo, tensos como pais de primeira viagem zelando o sono de um recém-nascido.

{Eu falei,} André disse em um sussurro eletrônico.

“Verdade,” sussurrei de volta.

{O que acha que deu nele dessa vez?}

“Não faço ideia,” respondi. “Mas vou até o Walmart comprar alguns cilindros de oxigênio. Não podemos nos fiar apenas na ajuda do senhor Eno.”

Desci as escadas, mas antes de sair, voltei alguns degraus. “André…”

O droide voltou a câmera para mim. {Sim, Mariana?}

“Pode cancelar a visita à assistência,” eu disse e saí.

Voltando do Walmart, encontrei André e Charlotte no térreo, parados diante de um biorreator onde um corset de pele de lagarto crescia. André tentava apresentar meus produtos a ela, sem muito sucesso.

{Ela chegou,} disse o droide, e Charlotte olhou em direção à porta.

Aproximei dos dois, notando a lata de Sergipe entre os dedos dela.

{Esta é Mariana,} ele comentou, as mãos postas uma sobre a outra. {Ela é a dona da loja.}

“Olá,” eu falei e olhei para o droide. “André, pegue as compras no carro, sim?”

O droide acenou com a câmera e saiu pela porta.

Charlotte lançou um olhar ao redor. “Perguntei sobre as suas roupas, mas o droide não me pareceu saber muita coisa”, ela disse em um sotaque espanhol.

Coloquei minha bolsa sobre a mesa ao lado do biorreator das huaraches. “André é um excelente ajudante,” eu respondi. “Mas falta um if else de vendas no código dele.”

Ela riu divertida. “Eu percebi.” Ela usava um vestido preto, que lhe deixava os braços brancos à mostra. Vi um pequeno Mickey dançar em sua mão, enquanto cenas de algum filme de Tarkovsky percorriam sua pele. Ela girou o rosto para o lado, exibindo uma cicatriz estrategicamente colocada no queixo.

Aproximei dela. “Se incomoda se eu ver?” perguntei, apontando para a sua mão.

“Sem problemas,” ela disse, erguendo a mão como a um cavalheiro.

Segurei-a pelos dedos. Mickey havia dado lugar a um casal em trajes de banho, acessando um computador antigo em uma praia.

Videoskin,” eu disse. “Nunca vi um desses de perto antes.”

Ela retirou a mão delicadamente. “No Uruguai chamamos de videopiel.”

Eu assenti, levemente envergonhada. “Aqui no Brasil temos essa mania boba de manter palavras estrangeiras.”

“Acho bonito. Torna a língua mais aberta, mais mutante,” e se colocou a caminhar.

Respirei aliviada. Algo na presença dela tornava o ar esmagador. O que era estranho para uma garota que não devia pesar mais que cinquenta quilos.

“Está procurando alguma peça em especial? Uma calça ou uma jaqueta?” perguntei, desviando o rosto dos geeks de praia.

Ela moveu os olhos escuros. “Não, mas vi no sítio da sua loja que você trabalha com híbrido. É verdade?”

“Sim, eu trabalho com híbrido.”

“E você tem alguma roupa feita com esse tecido? Só para eu ver como fica.”

“No momento, não,” eu disse. “Mas estou cultivando alguns metros lá em cima.”

Seu rosto se iluminou. “Será que eu poderia ver?”

Eu respondi que sim e a acompanhei até as escadas.

Chegando ao quarto, acendi o conjunto de LEDs. O híbrido estava calmo em seu pedestal.

“Tivemos um pequeno incidente hoje mais cedo,” eu disse.

Ela entrou. “Por isso a luz roxa?”

Eu assenti. “Ajuda a acalmar o híbrido.”

Ela foi até o biorreator e pousou um dedo sobre o vidro. “Pobrezinho.”

Apesar da penumbra no quarto, vi os vídeos percorrerem os braços e antebraços dela como serpentes de luz. Houve um estalo no ar. Uma pequena faísca emanou do biorreator, e o híbrido desenrolou-se como um cassete desregulado, vibrando contra o vidro à maneira de uma bandeira hasteada. A mulher lançou um olhar para mim, lábios pressionados como uma criança travessa.

Sem esperar que a situação piorasse, corri até o aparelho de som, servindo-me novamente da ajuda do senhor Eno. Vi o momento exato em que o híbrido retrocedeu, rebobinando de volta ao formato de rolo.

Ela olhou para mim sem entender, absorta entre o biorreator e o estéreo de onde o grande navio de artrock inglês estava partindo.

“Brian Eno acalma ele?” ela perguntou.

“Sim,” eu disse, apoiando-me sobre o aparelho de som.

Ela sorriu ao ouvir aquilo e lançou um olhar maternal para o biorreator. “Quem diria… um tecido com bom gosto.”

“Fascinante, não é?” comentei, abrindo as portas da sacada e deixando o sol de meio-dia entrar no quarto. Do outro lado da rua, a espreguiçadeira bronzeava solitária sob o sol.

“Então,” voltei o rosto. “Está há muito tempo no Rio?”

“Cheguei na segunda-feira,” ela respondeu, piscando para o sol.

“Também não sou daqui. Mudei para cá há pouco mais de um ano.”

Ela assentiu, movendo o queixo cicatrizado. “Eu vim a trabalho, na verdade,” ela falou e disse que se chamava Charlotte e que era uma artista do corpo.

“Começo a me apresentar hoje no Ninho. Por que não vai lá conferir?” ela falou, os vídeos em sua pele movendo como um friso animado. “Minha performance começa às nove.”

* * *

Cheguei no Ninho às sete.

Localizado na Lapa, o Ninho era uma antiga masmorra de sadomasoquismo que tinha sofrido uma espécie de reengenharia cultural. Lá agora funcionava uma galeria de arte, mas vários acessórios de couro do seu passado foram mantidos na decoração; a referência era tão explícita que eu quase podia ouvir os murmúrios e choros abafados de empresários gordos ecoando pelas paredes.

Havia um bar instalado num dos saguões da galeria. Fui direto a ele e pedi um fernet com Coca a um bartender amordaçado. Recebi a bebida e paguei, torcendo para que meu cartão não fosse recusado. Seria constrangedor ter de discutir com um homem usando uma bola de 4 cm de diâmetro na boca.

Fiquei com as costas voltadas para o bar e dei uma olhada no saguão. O lugar estava tomado por um grupo de pessoas segurando celulares e drinques. Elas observavam em silêncio um jovem pendurado nu a um pau de arara. Ele gemia e tinha sensores por todo corpo, o rosto conectado a óculos de RV. Em uma tela ao seu lado, via-se um porão sujo, onde apenas uma lâmpada balançava mórbida no ar.

“O que está acontecendo?” perguntei.

“Uma performance,” o bartender respondeu, balançando os ombros.

Beberiquei da bebida. Estava boa. “E qual o nome dela?”

Ele levou um dedão ao queixo, esfregando o lábio inferior. “’DOI-CODI de bolso’ ou algo assim. O rapaz ali está pendurado desde as duas da tarde.”

Balancei a cabeça. Um homem corpulento surgiu na tela. Ele tinha um cigarro nos lábios e ares de poucos amigos. Já imaginando o que viria em seguida, desviei os olhos e resolvi me dedicar apenas ao Fernet.

 Às nove em ponto Charlotte apareceu no saguão. O pau de arara já havia sido desmontado, e o silêncio que se estabeleceu com a presença dela foi ensurdecedor; quase pude sentir os murmúrios morrendo um a um, enquanto ela lançava olhares implacáveis em direção às pessoas.

Eu estava no meu segundo Fernet com Coca e notei o bartender amordaçado ao meu lado. Ele tinha os olhos fixos em Charlotte e deslizava um pano branco no balcão como se estivesse a polir uma arma.

Charlotte usava um qipao longo e verde, que parecia pulsar sob a luz da galeria. Uma música brotou de caixas de som e, como que vivo, o vestido se desprendeu do seu corpo sem que ela movesse um dedo sequer. Por baixo, ela estava nua, e pude ver que os implantes de videoskin deixavam intocado apenas o seu rosto. Nem mesmo seu pé havia escapado. Todo o corpo dela era uma grande e única tela, flashes pulsando em seu torso como uma sirene.

Os olhos das pessoas estavam grudados nela. Pelo menos foi o que pensei, pois os meus estavam. Charlotte se movia de maneira fluida e hipnótica, sua pele exibindo vídeos que se sobrepunham uns aos outros como fotografias em dupla exposição. Vi palmeiras em uma praia distante, devassadas por um sol indiferente; lobbies de hotéis vazios, onde a única coisa viva era o reflexo das lâmpadas nos pisos de mármore encerado. Cenas de um filme em preto e branco, em que a chaminé de uma casa sem paredes estava exposta a um céu cinza, davam lugar a blocos de pele apertados contra uma superfície de vidro, a pele formando padrões de carne semelhantes a espirais amarelas. As imagens eram entrecortadas por gravações de outras performances de Charlotte, e, ao vê-las, a única coisa que veio em minha mente foi um Clive Baker chic, algo como Hellraiser sob o sol privilegiado de Ko Kut. Belo e obscuro, excitante e aterrador ao mesmo tempo.

Percebi que Charlotte tinha conseguido, de alguma maneira, manipular os celulares das pessoas. Por mais que elas tentassem desviar os olhos da performance, acabariam por topar com os mesmos vídeos circulando nos seus próprios dispositivos. Charlotte queria atenção e não havia como negar isso a ela.

Ao final da performance, ela recolheu o qipao e saiu do palco, liberando as pessoas de sua presença levemente tirânica. A sua saída teve o efeito de uma rolha tirada de uma garrafa; as pessoas voltaram a si e para suas bebidas, sem entender ao certo o que acabara de acontecer.

Com olhos petrificados, encarei o bartender. Ele esboçou um sorriso mole por baixo do couro na sua boca e apontou para o meu copo, perguntando se eu queria outro fernet.

* * *

{Impressionante,} André comentou, enquanto assistia ao vídeo. Ele estava consertando o sistema de alimentação do biorreator onde estavam as bawaws, peças que eram um mix entre thawbs e bermudas e que tinham grande saída na minha loja. Sem o líquido que as envolvia, as bawaws pareciam pássaros molhados. {O que é isso na pele dela?}

Videoskin,” respondi, segurando o celular para ele. Uma gravação em vídeo da performance de Charlotte havia aparecido no meu celular logo após ela ter saído do palco. Como eu havia suspeitado, Charlotte manipulara os dispositivos das pessoas no Ninho. Agora, como ela fez isso era algo que eu não fazia ideia.

{Ela lida bem com plateia.}

Eu assenti. “E sabe o que é estranho?”

{Estranho: fora do comum; desusado; anormal; singular—}

“Não, André,” eu o cortei, guardando o celular no bolso. “Não perguntei o significado da palavra estranho. Estou falando da mulher do vídeo.”

{Eu… ainda me confundo nas perguntas.}

Dei tapinhas na lataria dele. “Não se preocupe… O que eu ia dizer é que eu não baixei esse vídeo. A artista, a que você viu na gravação, de alguma maneira o enviou para mim. Para mim e para todo mundo que estava na galeria, ao que parece,” eu disse, afastando um pernilongo. “Além disso, eu acho que ela exerce algum tipo de influência sobre o híbrido.”

{Por que acha isso?}

“Quando ela esteve aqui ontem, ela pediu para vê-lo”, respondi. “Ela veio aqui ontem, lembra disso?”

{Sim, Mariana,} disse André, colocando um sensor sonda de volta ao biorreator.

“Pois bem… Eu achei que não seria nada demais, então a levei até o quarto do híbrido. Então algo estranho aconteceu. Quando ela se aproximou do híbrido, ele ficou louco. Parecia querer atacá-la. O que acha disso?”

O droide não respondeu de imediato. Alguma coisa na cozinha havia lhe chamado a atenção.

{Híbridos e celulares têm sensores}, ele disse após um tempo. {Isso talvez explique como essa mulher consegue controlá-los.}

“Talvez,” respondi. “Mas no caso do híbrido não me pareceu intencional.”

{Como assim?} perguntou André, sem olhar para mim.

“Não sei… Pareceu mais uma reação, uma reação do híbrido à presença dela, entende?” eu disse, mas André ficou em silêncio.

“André… Está me ouvindo?” perguntei. Ele estava quieto, sua câmera voltada para a cozinha. “O que foi?”

{A dona Carmem…}

“O que tem a minha mãe, André?”

Ele apontou para cozinha. {Ela veio lhe visitar?}

Olhei em direção à cozinha. Não havia ninguém ali. Outro bug, pensei, voltando o rosto. “André… Faz cinco anos que mamãe nos deixou.”

A sua câmera abaixou. {Verdade.}

“Sabe,” eu disse, agachando perto do droide, “eu às vezes gostaria de ter bugs como os seus.”

Charlotte apareceu pouco depois. Eu estava fechando uma compra quando a vi entrando na loja. Ela carregava uma bolsa de praia.

“Você foi embora cedo ontem,” ela disse, erguendo uma sobrancelha. “O Felipe e eu improvisamos uma performance juntos.”

“O rapaz do pau de arara?”

“Ele mesmo,” ela confirmou. “Foi maravilhoso.”

“Duvido que tenha sido melhor que o seu solo,” respondi, deixando o notebook de lado. “Mostrei para o André um trecho do vídeo que você enviou. Ele gostou bastante.”

Ela fez uma expressão de dúvida, então disse: “Ah, está falando do suvenir? Fico contente que ele tenha gostado.”

Eu a encarei. Ela vestia uma saia verde musgo e sandálias que pareciam feitas do couro de algum animal alienígena. Sua pele estava quieta, nenhum frame percorrendo a epiderme. “Como você fez isso?” perguntei.

“Do que está falando?”

“Do vídeo. Como você conseguiu enviá-lo para o meu celular?”

“Ora, rede sem fio,” ela disse, colocando a bolsa a minha mesa. “Minha pele detecta dispositivos abertos e envia os arquivos que eu quero.”

Pensei em argumentar, dizendo que ela, na verdade, invadia dispositivos. “Então o videoskin obedece aos seus comandos?”

“Pode-se dizer que sim,” ela respondeu.

“Como?”

Ela deu uma risadinha. “Pense em mim como um Doutor Octopus controlando seus tentáculos, sim?”

“Está certo,” eu assenti e apontei para a bolsa. “Vai à praia?”

“Vou,” ela disse após uma pausa. Tirou os óculos escuros, olhos mais escuros ainda me encarando. “Está muito ocupada?”

“Só fechando uma compra para a loja. Por quê?”

“Porque eu não quero ir à praia sozinha. O Rio é lindo, mas ouvi dizer que é violento.”

Deslizei os dedos na bolsa dela. “Posso ir com você.”

“Mas e quanto à sua loja?”

“A maioria das minhas vendas é online. Além disso, minhas roupas são exclusivas. Se o cliente estiver mesmo interessado, ele volta.”

“Ótimo,” ela disse, exibindo a cicatriz no queixo. “Estoy loca para conhecer Ipanema.”

Passamos a tarde no Posto 8, entre mergulhos no mar e latas de Sergipe. Charlotte e sua pele causaram uma verdadeira sensação na praia. Os banhistas se aproximavam dela, tiravam fotos e gravavam vídeos como se estivessem diante de uma celebridade ou de uma obra de arte. Parecia que todos conheciam o seu rosto de algum lugar, menos eu. Uma hora, quando saí do mar, vi um ator da Globo tentando entabular uma conversa com ela. O galã se sentou na areia quente, exibindo o corpo de novela para Charlotte, que apenas sorria displicente. Ela lançou um aceno para mim ao me ver.

À noite, ficamos a conversar no seu quarto na pensão. Charlotte me contou que, apesar de ter nascido no Uruguai, passara boa parte da infância viajando pelo mundo. Seu pai era consultor de uma multinacional e, como sua mãe os abandonara quando ela tinha cinco anos, os dois estavam sempre a viajar.

“Quartos de hotel têm cheiro de casa para mim,” ela falou, abraçada ao travesseiro como uma adolescente.

Ela disse que começou a se interessar por modificação corporal aos quinze anos, logo após um acidente de carro que sofrera com seu velho em Mumbai. O pobre homem tinha ficado arrasado quando os médicos lhe disseram que teriam de amputar a perna esquerda da filha, mas ele mal sabia que, com o passar do tempo, ela iria aprender a gostar do seu novo corpo.

Desde então, seguiu-se uma série de procedimentos cirúrgicos, lacerações e tatuagens. A última delas, ela me mostrou, era uma pequena frase na parte inferior do pulso.

Memento mori,” eu li. “Significa ´lembre-se da morte`, não?”

Ela inclinou o rosto, deixando os cabelos escorrerem como um líquido negro. “Isso. Uma expressão que as pessoas da Idade Média gostavam de repetir. Uma forma de se lembrar que a morte é uma presença constante.”

Eu assenti, olhando para o escrito por um tempo. “Ou de se dizer que a vida é curta. Que devemos aproveitá-la,” eu disse. “Digo, se você não acredita em céu ou inferno.”

A cicatriz em seu queixo moveu levemente para o alto quando ela sorriu. Eu não havia me dado conta inicialmente, mas enquanto conversávamos, a pele de Charlotte exibiu uma série de imagens desconexas, vídeos de gazelas saltando sobre uma estrada, modelos seminuas correndo alegres em um descampado, pias a transbordar e um halo de luz rasgando um céu nublado. O silêncio entre nós duas cresceu, tornando as imagens ainda mais presentes; por um momento, a única coisa em que pude pensar era que tipo de música seu corpo seria capaz de emitir.

* * *

Nas semanas que se seguiram, eu continuei a acompanhar Charlotte em suas apresentações no Ninho. Ela era como um mestre Wuxia, ágil e leve, praticando algum tipo de taolu da pele. A cada noite, a galeria ganhava um público diferente, outras pessoas, outras mentalidades. Apesar disso, o efeito hipnótico que Charlotte exercia sobre cada uma delas parecia crescer.

O mesmo se podia dizer das roupas que eu cultivava. O que havia iniciado com o híbrido se estendera a praticamente toda a minha coleção. Quando Charlotte colocava os pés na loja, as roupas se viravam em direção a ela, tensionadas por uma força maior como um grupo de girassóis diante do sol. Ao menos era um comportamento brando quando comparado ao do híbrido, que continuava a reagir perante Charlotte de uma maneira estranha, tensa, violenta.

Mas foi próximo ao Carnaval que ela veio com a ideia daquele vestido. Era um sábado de manhã e eu a havia levado para assistir a um ensaio aberto da Portela. Enquanto caminhávamos juntas por entre os tamborins e agogôs, eu podia ver o brilho nos seus olhos.

“Nunca vi nada igual,” ela comentou, tentando acompanhar o movimento das baquetas. Para alguém que já havia morado em toda parte do mundo, isso devia ser algo difícil de se dizer.

Acho que ela acabou sendo inspirada pela vestimenta intrincada da Porta-Bandeira. Com um copo de cerveja na mão, eu a chamei para dançar, mas Charlotte estava compenetrada; seus olhos estavam voltados para os movimentos daquela enorme mulher negra, girando e rodopiando como uma guerreira de Iansã, o suor acima dos lábios como um desafio lançado em direção à plateia de gringos e ricos ao seu redor.

Na volta para casa, Charlotte não disse uma palavra. Acostumada a vê-la agitada e falante, eu havia até me preocupado.

Naquela noite ficamos acordadas até tarde, conversando e bebendo um vinho branco que ela havia comprado. Eu acordei durante a madrugada com sede, Charlotte dormindo ao meu lado. Notei um brilho e vi a Porta-Bandeira dançando nas costas e nos braços de Charlotte. De algum jeito a pele — ou a tela implantada em sua pele — parecia ser capaz de exibir o conteúdo dos sonhos de Charlotte.

Fui à cozinha pegar um pouco de água e, quando voltei, Charlotte não estava na cama. Sem entender, eu procurei por ela na casa, encontrando apenas André em stand by, sentado no chão perto do banheiro. Um fio ligava seu pescoço à tomada.

Ouvi um barulho vindo de um dos quartos do segundo andar. Antes mesmo de subir as escadas, eu já sabia de qual deles vinha o barulho.

Quando cheguei ao quarto onde ficava o híbrido, deparei-me com Charlotte, a porta da sacada aberta, deixando uma lua prateada varar o quarto com sua luz. A pele de Charlotte era uma profusão de aviões em chamas, máquinas a trabalhar e desfiles de carnaval. À sua frente, o híbrido crescia contra o vidro do biorreator, gordo e inchado como uma nuvem azul presa em um aquário.

Notando a minha presença, ela virou o rosto e sorriu. Havia um grande “Eureca” em seus dentes.

* * *

De manhã, durante o café, ela apareceu na mesa com um pedaço de papel em mãos.

“O que acha?” ela disse, mostrando o esboço de um vestido. Ela passara boa parte da madrugada desenhando ele.

Tomei o papel em mãos, enquanto sorvia meu café. Havia uma falda e tantas reentrâncias que o desenho se assemelhava mais ao esboço de uma armadura do que ao de um vestido, algo vindo de algum estado germânico do século XVI.

“É bastante complexo,” eu disse.

“Se você não conseguir fazer, eu procuro outra pessoa que possa.”

“De jeito nenhum,” eu respondi, afastando o papel das mãos dela. “Aguarde e confira.”

Começamos no mesmo dia. A primeira coisa a se fazer era tirar as medidas de Charlotte. Essa era a parte fácil, bastando ela ficar parada enquanto eu escaneava o seu corpo. Depois de passar os dados para o computador, era hora de criar o modelo.

Foi um trabalho minucioso e complexo, que exigiu bastante do meu conhecimento de modelagem. O nível de dificuldade ultrapassou ao das M-65, cuja parte em CAD me tomou três dias na primeira vez que sentei diante do computador para projetar uma dessas jaquetas. A diferença é que para as M-65 eu podia encontrar um ou outro arquivo online para ajudar. Já peças feitas sob medida — como o vestido de Charlotte — exigiam que eu partisse do zero, modelando desde os detalhes de caimento e ajuste até a velocidade de cultivo.

Mas a parte da modelagem em si não me preocupou. O fato de Charlotte ter insistido para que eu usasse o híbrido como tecido é que foi a minha verdadeira preocupação.

“Eu sinceramente não acho que seja uma boa ideia,” eu disse um dia. O desenho geométrico do vestido estava pronto e pairava no não-espaço da tela do meu computador.

“E qual é o problema?” ela perguntou, segurando o pequeno protótipo que eu acabara de imprimir. “Acha que ele pode me machucar?”

“Não. Mas ele pode não se adaptar ao seu corpo.”

“Meu corpo?” ela perguntou com uma sobrancelha erguida. “E o que quer dizer com isso?”

Eu peguei o protótipo gentilmente de suas mãos e expliquei a ela sobre o que eu chamava de psicologia do híbrido, e como ele poderia recusar o contato com a sua pele.

“Não importa,” ela respondeu. “Eu quero que seja feito com esse tecido.”

“Você notou como ele se comporta perto de você, não é?” foi a única coisa que consegui dizer.

O projeto do vestido me tomou o trabalho de três meses — desde o CAD até o cultivo no biorreator. Quando finalmente ficou pronto, André me ajudou a retirá-lo do tanque e a enxugá-lo do resto da cultura de células. Eu tinha de me parabenizar. Havia ficado incrível. Sob a luz das lâmpadas, o vestido brilhava como uma armadura recém-saída do ferreiro, má e pronta para enfrentar o Sete-Peles no inferno. Lembro de Charlotte atrás de mim, os olhos brilhando como os de uma criança na manhã de Natal.   

“Posso experimentar?” ela perguntou.

Eu a esperei do lado de fora do quarto. Quando a porta se abriu, a primeira imagem que me passou pela cabeça foi a de Elizabeth Taylor como Cleópatra ou Natalie Portman como a rainha Amidala, uma atriz destilando poder pelos olhos, envolta em um vestido-escultura.

Charlotte passou a mão pelo tecido, o brilho do híbrido lançando faíscas douradas e azuis. Ao contrário do que eu esperava, o híbrido parecia calmo, em movimentos suaves como um animal a respirar durante o sono. Parecia tudo bem até então.

No sábado, Charlotte estreou o novo vestido em uma performance que ela chamara de Clap! Clap! Para as crianças de Pyongyang. Suas performances, que já haviam se tornado a sensação da galeria Ninho, criavam sempre uma bolha de tensão nos minutos que as antecediam.

Eu aguardava no bar improvisado, fernet com Coca entre os dedos, e observava as pessoas, que também esperavam por Charlotte. Estavam todas em silêncio, os celulares iluminando seus rostos com uma luz barroca.

Ela apareceu diante de nós às nove horas. A primeira coisa que pude ver foi um pedaço do vestido despontar na lateral do palco, um movimento fluido e longo como o tentáculo de um polvo. O pé direito de Charlotte veio em seguida.

Envolta pela armadura do vestido, Charlotte ostentava um quepe militar sobre cabeça. Pyongyang, eu pensei, enquanto ela caminhava com passos curtos até o centro do palco.

Pude sentir a respiração das pessoas se prender quando o vestido abriu para os lados, como se duas asas azuis brotassem das costas de Charlotte; seu corpo, totalmente descoberto, exibia vídeos de um caça cortando os céus e o que me pareceu ser propagandas asiáticas de algum produto de limpeza. Seus braços esticaram e, a cada movimento, o vestido atuava como uma extensão, um movimento em delay dos músculos do seu corpo.

O vestido se fechou em torno da perna de Charlotte, a perna sem prótese, e ela se pôs a caminhar, ostentando duas próteses, uma verdadeira e outra falsa. Com os seios expostos, ela se assemelhou a uma deusa minoica das serpentes, e lançou um olhar possuído para a plateia.

Um pedaço do vestido flutuou por cima da cabeça das pessoas, atingindo uma das paredes da casa. A plateia se assustou, ao mesmo tempo em que estava extasiada com a performance de Charlotte. Vi soldados se jogando do seu corpo e um vídeo acelerado de um animal morto devorado por formigas. Quando encarei seu rosto, vi um olhar compenetrado e distante ao mesmo tempo.

Os vídeos em Charlotte aceleravam junto com seu corpo. Aos poucos, o vestido começou a envolvê-la, rodopiando à sua volta como um escudo azul.

Consigo ver ainda agora o momento em que um dos tentáculos saiu do redemoinho que Charlotte havia se transformado e acertou dois homens, fazendo-os cair no chão como sacos de cimento. Eles sangraram com o golpe.

Pânico se instaurou, e as pessoas correram para longe da performance, enquanto outros tentáculos alcançavam o ar. Vi os olhos de Charlotte por baixo do redemoinho de vento e tecido, seu rosto como um esboço apagado.

Gritei seu nome e tentei ir até ela, mas mãos fortes me puxaram para fora da galeria.

A maioria das pessoas já estava na rua, aglomeradas como um bando de animais amedrontados. Eu disse que precisávamos fazer alguma coisa, mas o bartender da mordaça balançou a cabeça para os lados. Uma energia vinha de dentro da casa, como um reator em crise.

Isso foi antes da luz.

As janelas dilataram e cuspiram estilhaços na calçada. Eu não podia acreditar no que estava vendo. Era como se dezenas de holofotes houvessem sido colocados no interior do prédio, lanças de luz varando a noite.

Eu esperei por uma explosão ou algo assim, mas não houve nada disso. Apenas um grande silêncio se seguiu, e eu pude ouvir a voz das pessoas ao meu redor e o som distante de um telefone.

Poucos minutos depois, voltamos para dentro do prédio. Charlotte havia simplesmente desaparecido. Entre murmúrios e comentários soltos, vi as pessoas encarando os celulares. Fiz o mesmo.

Por um momento, Charlotte apareceu ali, bem nas minhas mãos. Ela percorreu as telas de todos os celulares e, como um fantasma, desapareceu. Não havia nenhum suvenir dessa vez.

“Bruxa. Aquela mulher era uma bruxa, isso sim,” um homem comentou, apontando para o saguão onde minutos antes Charlotte se apresentara.

Eu olhei para os lados, ainda sem entender para onde ela poderia ter ido. Procurei nas outras salas da galeria, atrás de esculturas e até mesmo nos banheiros. Nenhum sinal. Era como se o ar a tivesse engolido, e ninguém parecia dar a mínima.

Encostada no bar improvisado, eu encarei o fernet com Coca que o barman colocou na minha frente. ´Cortesia da casa`, ele disse, ou pelo menos foi o que achei ter escutado. Era difícil se fazer entender com aquela mordaça na boca.

Beberiquei do fernet de leve, sentindo uma sombra de Coca, enquanto refletia sobre o significado das palavras que Charlotte tinha tatuadas sobre o pulso, palavras que eu li tantas vezes enquanto ela dormia.

Memento mori,” sussurrei, sentindo o álcool evaporar na língua.

Memento mori.

Lembre-se da morte.

* * *

Semanas se passaram, até que, um dia, André disse que Charlotte havia voltado.

{Ela está se bronzeando na laje da pensão.}

Subi as escadas correndo e, ao chegar na sacada, dei apenas com a espreguiçadeira vazia. Não havia ninguém ali.  

André apareceu ao meu lado e lançou um aceno para a espreguiçadeira.

{Viu? Você não precisava se preocupar,} André falou. {Eu disse que ela ia voltar.}

Eu desabei sobre ele, abraçando-o. Minhas lágrimas molharam sua carcaça fria.


Michel Peres é professor, engenheiro, escritor e leitor. Natural de Matozinhos (MG), escreveu poesias que nunca passaram pelo crivo da gaveta e vive a desenvolver a sua mitologia pessoal (divertindo-se bastante com isso). Já teve artigos publicados no site Obvious e um conto na revista Trasgo.

Wicked – Gregory Maguire

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“Wicked” escrito por Gregory Maguire e publicado no Brasil pela Editora Leya em 2016, é o livro que inspirou o musical de mesmo nome e chama a atenção por contar o outro lado de uma estória clássica e muito conhecida.

Vamos lá, você sabe do que eu estou falando! Estrada de tijolos amarelos, Cidade das Esmeraldas, um mágico, uma menininha encantadora que mata uma bruxa sem querer e entra em uma aventura acompanhada de personagens inesquecíveis e seu adorado cãozinho, essas coisas… Sim! “Wicked” é mais uma das estórias derivadas do clássico “O Mágico de Oz”, já resenhado aqui no Leitor Cabuloso.

Wicked e sua mágica nem um pouco mágica

A promessa do livro “Wicked” é simples: recontar a estória de “O Mágico de Oz” através do olhar e sob perspectiva da Bruxa Má do Oeste. A ideia é, em si, muito interessante: recontar uma estória já conhecida e muito amada, sempre referenciada, através do ponto de vista do lado mau. Promissor, certo?

Foi aqui que tomei um balde água fria que, confesso, poderia ter sido evitado por um mecanismo fácil: alguém ter me avisado que o livro se passa sim no universo de Oz, é contado sim pela perspectiva da Bruxa Má do Oeste, mas não é nada parecido com a estória clássica (seja ela no formato que for, no livro ou no filme).

Ao conhecer a proposta do livro imaginei uma obra completamente diferente da que tive em mãos. Vou ser franca com vocês: eu não havia lido o livro “O Mágico de Oz” e foi devido ao primeiro capítulo de “Wicked” que imediatamente corri para sanar essa dívida comigo mesma. Esse foi, talvez, o ponto mais alto que a obra de Gregory Maguire me proporcionou.

(Caro (a) amigo (a) leitor (a), caso você ainda não tenha lido a obra clássica de L. Frank Baum, por isso faça isso. Vá com o coração aberto e preparado – não é um livro infantil, muito pelo contrário, mas é lindo, lindo, lindo!)

Terminada a leitura do clássico, voltei a “Wicked” ansiosa para saber o que levou a Bruxa Má do Oeste ser a Bruxa Má do Oeste e conhecer tudo o que ela estava pronta para me contar. Aqui, as coisas começaram a não dar muito certo…

A Bruxa Má do Oeste que não era má coisa nenhuma

O autor de “Wicked” escolheu uma fórmula clássica, mas que costuma funcionar, para contar sua estória: ele começa a narrativa contando sobre os pais de Elfaba (ainda não me conformo com esse nome), seu nascimento e sua primeira infância. Pra mim, a primeira parte do cristal quebrou aqui quando, imediatamente após o seu nascimento, Elfaba já começa a ser odiada e desprezada pelos que a conhecem apenas por ser diferente deles. Para tentar amenizar a situação do preconceito, a situação do nascimento também não é a melhor possível…

Embora possamos detestar as pessoas por não gostarem de um bebê indefeso apenas pelo fato de ser verde (e mulher!), conforme a estória continua descobrimos que a futura bruxinha já tem uma tendência a ser fora do padrão e, porque não dizer, má. Atitudes pequenas mas que dentro do contexto fazem sentido e promovem maior desprezo como o fato de ela ser insuportável, mal criada e maníaca por querer morder e incomodar todo mundo que chega perto dela.

Vou resumir o que acontece: Elfaba cresce, a vida acontece, ela vai pra faculdade, lá conhece Galinda, depois chamada de Glinda (siiiim, a Bruxa Boa do Leste).

A primeira impressão? Que Glinda é muito mais insuportável que Elfaba e que Elfaba é muito mais legal do que Glinda. Entende a brincadeira com os personagens?

Na faculdade, Elfaba conhece outros personagens e aqui a estória realmente começa a caminhar para uma possibilidade de distopia YA – regime autoritário, discriminação, revolução, segredos e por aí vai. Foi aqui que pra mim deu.

Análise Crítica

Infelizmente o livro “Wicked” não funcionou pra mim. A estória não me convenceu, o jogo com a personalidade dos personagens me cansou logo no começo quando Elfaba começa a ser maltratada apenas por ser verde, quando a família começa a desmoronar devido às atitudes extremas de fanatismo religioso e definitivamente desandou após começar a misturar acontecimentos que esbarravam a vários gêneros de literatura dentro de uma mesma obra, sem definir muito bem onde queria chegar.

Como tive dificuldade com a leitura, insisti por meses e ao final das contas precisei ser honesta comigo mesmo: “Wicked” não é um livro que foi escrito para mim. Assim como em “O Mágico de Oz”, o escritor brinca com julgamentos do leitor, colocando-nos à prova de nossa ideia já formada sobre cada personagem, tentando quebrar preconceitos. A diferença é que em “O Mágico de Oz” isso é feito através das anedotas e do caminhar da estória, de forma sucinta, em “Wicked” isso parece forçado e ficou entalado.

Escrever uma obra atemporal como os clássicos é realmente uma tarefa difícil e os resultados costumam ser raros. Falo aqui de obras como o próprio “O Mágico de Oz” e outras como “Alice no país das maravilhas”, obras essas que quando lidas ou conhecidas em nossa infância nos ensina e mostra algo e depois de adultos nos ensina e mostra a próxima camada e assim por diante.

Também achei a escrita do livro confusa. Por várias vezes precisei voltar parágrafos e, embora o livro não tenha erros grotescos de gramática ou ortografia, o estilo de escrita do Maguire não me agradou. Penso que o “forçar situações, análises, julgamentos, mudança de gênero” acabou acentuando a sensação que, ao final, não, não vou terminar de ler “Wicked”.

Aaaah, mas você não gostou e por isso não devo ler?

Eu não disse isso! Caso você tenha vontade de ler “Wicked” vá em frente! O livro tem seus pontos altos e baixos e, não é porque não funcionou pra mim que ele não irá funcionar pra você! Apenas esteja ciente de que a obra não possui quase nada de proximidade com o clássico no qual foi inspirado e mantenha isso firmemente caso precise para prosseguir a leitura. Naturalmente, se você leu, me conte como os episódios da aventura de Elfaba se finalizam, seria interessante saber.

Nota

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Nome: Wicked
Autor: Gregory Maguire
Edição: 1ª
Editora: Leya
ISBN: 9788544103890
Ano: 2016
Páginas: 496
Sinopse: Imagine acompanhar a clássica e prestigiada história de O Mágico de Oz, de L. Frank Baum, pela perspectiva de Elfaba, a Bruxa Má do Oeste! Em Wicked, Gregory Maguire nos proporciona essa chance de conhecer o outro lado da moeda, e mergulhamos novamente no fantástico mundo da Terra de Oz.

Neste livro, descobrimos todos os detalhes da vida da garota de pele verde que cresceu cercada de desafios e preconceitos, até se tornar uma bruxa infame uma esperta, irritadiça e incompreendida criatura que põe à prova todas as noções sobre a natureza do bem e do mal. A improvável amizade da Bruxa Má do Oeste e Glinda, a Bruxa Boa do Norte, donas de personalidades tão opostas que se tornam melhores amigas; a rivalidade das duas ao se interessarem pelo mesmo homem; e a reação ao governo corrupto do Mágico de Oz também estão no foco de Wicked.

A obra de Gregory Maguire arrebatou milhões de pessoas em todo o mundo e baseou um musical na Broadway, que, desde sua estreia, em 2003, já quebrou diversos recordes e conquistou muitos prêmios, incluindo o Tony Awards, considerado o Oscar do teatro. Em 2016, o musical estreou em São Paulo.

Ziggy Stardust

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Oi. Meu nome é Ziggy. E eu sei ler. E escrever também. Estou tão emocionada. Nenhum outro zumbí sabe. Eles só ficam tipo “uaaaaaan uoooon” e revirando lixo por aí. Não sei pra quê fazem isso, já que eles nem comem. Eu também não como, estou morta. Nem sentir gostinho de nada eu consigo. Uma vez lambi todos os sabores de sorvete de uma sorveteria. Não senti nem frio. Acho que meu sistema nervoso… Ih! Eu sei o que é o sistema nervoso. Que demais! Eu não sou burra! Devo ser a única zumbí inteligente. Devo ser mais inteligente do que os humanos, que vivem nos atacando e dizendo que a gente come cérebro. A GENTE NEM TEM FOME! NOSSO ESTÔMAGO TÁ MORTO! Alguns zumbís nem têm dentes, e eu nunca vi nenhum cagando. Só ficam parasitando por aí, curtindo a existência deles. A pós-morte. É, acho que se pode dizer que é uma pós-morte. Vida é que não é. Nem tudo que existe tá vivo, certo? Cara! Eu tô muito impressionada, eu sei pensar! Pena que não lembro de nada da minha vida antes de ser zumbí. Quase nada. Eu me lembro do nome Ziggy Stardust. Acho que é o meu. É bonito e me vem muito à memória, então é como me chamavam. Aos poucos eu me vou lembrar de uma coisa ou outra. Sei pensar, sei o nome das coisas, sei o que é sistema nervoso, sei ler e escrever. E devo ter senso de me vestir. Acho que o nome é moda, mas lembro desse nome com desprezo, então significa que eu não tinha senso de me vestir? Quando minha consciência despertou e percebi que eu era uma zumbí, minhas roupas estavam rasgadas e sujas. Então eu fui a uma loja e me troquei. Nenhum outro zumbí fez isso. De vez em quando fico esperando algum despertar a consciência também, mas acho que não vai acontecer. Eles têm partes do corpo faltando, pele rasgada, coisas saindo pra fora. Eu tenho as duas orelhas, os dois braços, só meu nariz é partido. Minha pele só é rasgada no braço, mas eu ponho esparadrapo. A maior semelhança mesmo com meus amigos zumbís é a minha linda pele cinzenta. Eu achava que quando a pessoa morria ficava pálida, ou azul, sei lá. Mas eu gosto. Só sinto falta de alguém pra conversar. Nenhum zumbí fala. E quando aparece humano, é idiota, metendo bala nos zumbís. Os coitados não fazem mal a ninguém e só apanham. Às vezes me dá vontade de quebrar a cabeça desses humanos com um porrete. Já até arrumei um porrete, mas nunca me arrisquei. Tomara que eles peguem sorvete da sorveteria que eu lambi. Eu devia ter cuspido em cima, mas eu não tenho glândulas saliveiras. É saliveira que se fala ou saliveira é uma planta? De qualquer forma, é tão legal lembrar uma palavra que você nem sabia que conhecia. É legal falar glândula. Glândula glândula glândula. Vou escrever glândula bem grande com spray numa parede, espera só.

Escrevi.

Não gosto de humanos, prefiro ser zumbí. Zumbí tem acento? Vou escrever com acento. Ah, me esqueci de dizer que hoje achei um spray, além desse caderno (ele é vermelho). Escrevi meu nome na parede pra ver se pegava e pintei um zumbí inteiro de vermelho. Ficou até bonito, ele achou legal. Ao menos eu acho. Também acho que esse spray é infinito. E também escrevi bem grande numa parede para os humanos lerem “RESPEITE OS ZUMBÍS”. Não sei se vão respeitar, são muito idiotas. Uma vez eu até disse “ei! Nós não vamos atacar”, mas o humano jogou uma tora com fogo em mim. Queimou metade do meu cabelo e nunca mais nasceu. Ficou meio feio, mas eu arrumei com uma máquina e aí ficou legal. Tem um salão de beleza nessa parte aqui. Os humanos levaram tudo o que tinha lá, assim como em outras lojas, mas eu ainda acho algumas coisas por aí. É raro achar uma loja que não tenham saqueado. O bom é que eles nunca olham os lixos, e às vezes deixam passar os depósitos das lojas. Daí fica pra mim.

Eu não durmo, então tenho que arranjar algo pra fazer. Pintar paredes, pintar zumbís, escrever um diário. Não vejo motivo para eles levarem as tintas e as canetas, mas eles roubam qualquer coisa. Eu escondo meu caderno (esse diário aqui), embaixo de uma lata de lixo. Vou procurar mais sprays, tintas, pincéis, algo legal pra fazer. Eu queria fazer uma tatuagem, mas nunca achei um local com materiais, nem saberia o que tatuar e tenho medo de rasgar minha pele. E ela é tão bonita cinza que eu já estou desistindo da ideia. Só pus mesmo um brinco na parte superior da orelha (falar “parte superior” é legal). Bem, agora vou mesmo. Me fez bem escrever aqui, já que não tenho ninguém pra conversar. Pelo menos não que me responda alguma coisa além de “uaaaan uooon”. Eu sei que é besta escrever em um caderno como se estivesse falando com uma pessoa, mas é o que eu tenho. Embora tente não fazer com que isso aqui pareça um diário. Por esta razão, não me despedirei.

Até mais!

Ps.: Foi mais forte que eu.

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Olá! Juro que tentei não cumprimentar o caderno.

Hoje foi tenso, corri de uma horda de humanos. Me senti orgulhosa ao ouvir um deles dizer “essa peste corre mais do que eu”, achei bem-feito pra ele.

Nunca me pegarão viva!

E espero que nunca peguem depois de morta. Os ataques têm se tornado cada vez mais constantes. Às vezes aparecem do nada atirando, às vezes eu os avisto antes de chegarem e consigo trancar alguns zumbís em depósitos. Eu faço gestos pra eles, insinuando armas, e eles entendem que falo sobre humanos. Faço gestos para eles me seguirem e eles me seguem. Confiam em mim, isso é bom. Morrem de medo dos humanos (eu também), nunca vi um zumbí atacar ninguém. Só chegar perto.

O problema é que os zumbís são muitos. Não dá pra esconder todos e nem mandar correrem. Alguns nem andam. Havia um zumbí que tinha uma perna só, eu o chamava de Pilinho, ele vivia se arrastando usando os braços desgastados para aguentar o peso do próprio corpo (que nem era tanto). Certa vez achei um carrinho de madeira, era uma tábua grande com rodas, coloquei Pilinho em cima e o empurrei rua abaixo. Ele fez “uooooooo” de tão feliz. Sim, eu dou nome a alguns zumbís que vejo com mais frequência. Tem o Jaiminho, que usa roupa de carteiro. Sempre pergunto se tem carta pra mim e ele balança a cabeça dizendo que não. Tem a Dona Gertrudes, que é uma senhora bem simpática deficiente de um braço; o Ignóbio, que vive se esfregando em paredes; e a Jiliminha, que vive pondo lixo na boca e vomitando por aí. Ah, tem também o Zumbí do Não. Ele anda sempre balançando a cabeça pra esquerda e pra direita, sem parar. Não sei como ele consegue.

Eu havia dado nomes a mais alguns, porém eles sumiram e outros morreram. Saudades do Seu Girimba, que parecia um bêbado.

Às vezes eu fico me perguntando o que mantém os zumbís vivos. Se eu não como, como consigo ficar em pé? Como um zumbí consegue respirar sem pulmão? Se for uma bactéria deve ser muito poderosa. Deve ser por medo de não se contaminar que os humanos têm aversão aos zumbís. O QUE NÃO É MOTIVO PRA SAIR ATIRANDO EM QUALQUER UM QUE VÊ PELA FRENTE! É só não chegar perto, ora!

O ataque de hoje ocorreu quando eu estava realizando um lindo trabalho de pintura corporal num amiguinho que chamei de Tum. Enchi Tum de flores, faltavam só algumas para acabar quando ouvi os tiros. Corri para tentar salvar alguns zumbís, mas já estava cheio de humanos na rua. Tum conseguia até correr, mas correu pro lado contrário e morreu. Um cara falou “quem é que pinta esses zumbís”?

Respondi que fui eu, mas ele mirou a arma. Foi daí que eu corri mais do que ele.

Houve outro ataque agora há pouco. Corri e vim para outra parte da cidade. Aqui só tem casas. Ainda estou procurando onde tem tintas ou sprays. Não vi nenhum humano  nessa área por enquanto. Não sei de onde eles vêm, nem onde se alojam. Já pensei em descobrir, mas seria arriscado segui-los ou chegar perto do lugar. Pensei também em evitar ficar na rua, mas não posso abandonar meus irmãos zumbís. Eles podem não entender o que eu faço por eles, mas eu entendo, e é por isso que eu ajudo.

Passei o resto do dia explorando umas casas. Queria achar algo pra ler, mas, pelo visto, quem morava nesse bairro só lia propagandas. A não ser que os humanos também tenham levado. Mas duvido muito. Se gostassem de ler não teriam tempo pra matar. Tenho tanta raiva. Mas voltemos às casas.

Eu não achei nenhuma tinta, mas tinha várias pequenas estátuas em uma das casas. Só tinha sobrado isso, a casa estava totalmente saqueada. Algumas estátuas tinham chifres, outras eram vermelhas, haviam mulheres seminuas e com vestidos longos. Também tinha estátuas de senhores usando terno e chapéu. E já ia me esquecendo dos pratos. Grandes pratos de barro com tridentes de metal dentro. Alguns tinham um pó amarelo que não sei o nome. E também cera derretida, disso eu lembro o nome.

Agora tá muito escuro lá fora, preciso monitorar a rua com meu porrete de madeira nunca usado em alguém. Um dia bato em algum humano. Alguns saem à noite pra caçar zumbís. E SÓ POR DIVERSÃO. Eu fico indignada!

Bem, o dever me chama.

Afinal, pra ajudar alguém nem precisa ser chamado. Basta se pôr no lugar de quem precisa.

Ps.: Ah! Não me despedi dessa vez!

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VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE EU ENCONTREI! Eu estava explorando as casas de uma rua, todas quase vazias por conta de saques humanos, e em uma delas tinha algo que eles deixaram passar. A casa não é lá bonita, aliás; todas as casas dessas ruas são mais ou menos parecidas, mas essa era até arrumadinha em comparação às outras, com seus móveis vazios e quebrados. Na sala havia uma estante grande que tinha duas portinhas na parte inferior. Uma delas estava vazia, mas na outra encontrei vários discos. Que bom que os humanos não levaram. Eu não me lembro de nenhuma música que ouvi enquanto viva, por incrível que pareça, e também não reconheci nenhum daqueles discos, mas me encantei bastante. Havia até uma banda chamada Almôndegas, e outra chamada Secos e Molhados. Se alguém está seco, como pode estar molhado? Achei genial. Haviam cantores chamados Tim Buckley (bom nome para um zumbí), Joan Baez (esse vai para alguma mascote, se encontrar uma um dia), Patti Smith, Rita Lee, uma banda chamada Joy Division, e outra chamada Renaissance (será que eles “renaisseram”, como zumbís?). Mas agora é que vem a surpresa. Me deparo com um disco escrito Ziggy Stardust. Meu coração pararia se estivesse pulsando! Pensei “ai minha existência! Eu era cantora?” Mas então prestei atenção na figura da capa. Era um homem em pé. Vi então o nome David Bowie e pensei “então quer dizer que… esse cara fez um álbum pra mim! Será que era meu pai? Ou meu irmão? Será que eu morava aqui?” Olhei em volta e pensei até em me alojar na casa. Os humanos pelo visto já haviam passado por ali, talvez não houvesse motivo para eles voltarem. De qualquer forma, resolvi ao menos escolher essa casa para guardar o caderno, o porrete, as tintas, e o que mais eu recuperar. Então, tecnicamente, agora eu moro aqui, onde talvez já tenha morado. Irei voltar à cidade para procurar uma vitrola onde eu possa ouvir esses discos. Se o álbum com meu nome falar sobre a minha vida, ou de como eu era, já me ajuda muito. Ah, e também tenho que arranjar tintas e sprays.

Não consegui. Tinha muito humano por lá. Foi tão triste de ver vários irmãos destruídos pelas ruas. Não voltarei mais àquela parte. Estou com muito med

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Bem, caderno. Foram muito poucas as vezes em que escrevi aqui, e talvez seja a última. Dois humanos invadiram minha casa. Eu estava escrevendo quando ouvi uma voz do lado de fora dizendo “aquela zumbí que fala, eu vi ela entrando aqui” (“vi ela” é uma frase horrível de se dizer). Mal tive tempo de esconder o caderno em algum lugar e já invadiram. Corri para a cozinha e olhei em volta, mas não tinha nenhum lugar onde eu poderia me esconder. Eles entraram e atiraram em mim, mas só arrancaram minha orelha esquerda. Não senti dor. Gritei “espera! O que eu fiz de mal a vocês?” Eles me xingaram, me chamaram de monstro e disseram que eu era a líder dos zumbís, que iriam me matar antes que surgissem outros iguais a mim, e simplesmente atiraram mais. Eu me abaixei. Havia uma mesa no centro da cozinha entre nós. Ao me abaixar, fui para debaixo da mesa e me levantei jogando-a em cima deles. Corri para fora. Lá tinha mais humanos. Atiraram na minha perna e nas minhas costas. Não sinto dor, então continuei correndo, subi em um pequeno muro, pulei em um telhado e corri mais. Consegui me apartar para longe. Também não poderia morar lá. Não poderia morar em lugar nenhum. Enquanto existirem humanos, o mundo não vai ser um lugar seguro.

Decidi que, daí em diante, iria prosseguir sem me alojar em lugar nenhum. Procurando onde talvez eu possa ajudar meus irmãos de uma forma melhor. Como? Eu não sei, mas pretendo descobrir quando chegar a hora.

O problema é que meus discos e meu caderno ainda estavam na casa. Eu precisava voltar para recuperá-los. Eram meus. E o disco que meu pai fez pra mim talvez me ajudasse a lembrar de quem eu era.

Fiquei em cima de telhados e esperei amanhecer. Voltei até lá; felizmente não havia nenhum humano nas proximidades. Eu não lembrava onde havia escondido o caderno. Me desesperei, mas, para o meu alívio, eu o encontrei jogado atrás da estante. Essa caneta, inclusive, quebrou. Tá borrando tinta na minha mão agora. Após alguns momentos respirando lembrei dos discos. Não estavam mais no mesmo lugar. Procurei mas não estavam mais em lugar nenhum. Um imenso ódio tomou conta de mim e ainda está aqui dentro.

Decidi ir atrás do que é meu! É a única maneira de descobrir quem fui, mesmo eu me aceitando da forma como sou agora. Aquilo é meu! Foi feito pra mim! Então, se eu não voltar a escrever, provavelmente foi por ter sido explodida ou ter levado uma bala na cabeça.

E se algum humano encontrar esse caderno junto com meus pedaços, saibam que não os queremos mal. Só queremos viver em paz. Só isso.

Obrigada pela atenção.


Magdiel Araujo é Recifense, amante de gatos, artista, escritor e blogueiro. Tem paixão por música, ficção, quadrinhos, biscoito recheado, sorvete e coxinha. Cria personagens desde a infância e escreve histórias desde a adolescência, embora posteriormente tenha descartado essas histórias pela qualidade duvidosa. Foi só ao se tornar adulto que começou a realizar produções mais decentes. Faz alguns desenhos peculiares nas horas vagas, escreve o blog Código 137 desde 2010, e contribui para o projeto Recife Lo-Fi desde 2016. Atualmente vive em um plano cósmico transcendental a existência, com seus gatos lendários, muita paz e muita luz.

Desventuras em Série (1ª Temporada) | Crítica

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Se o caro leitor acredita que esta crítica tem a intenção de despertar emoções arrebatadorAs de fazer o coração explodir de felicidade, se busca impressões que corroborem com sua empolgante empolgação não encontrará nada disto aqui.

ALERTO QUE Se ainda nÃO assistiu a Desventuras em Série e teme receber spoilers, seja dA série seja dos livros, afirmo de maneira positivamente positiva que poderá ler o texto sem medo.

Para finalizar, peço imensamente que as pessoas que leram os livros não coloquem spoilers nos comentários. Spoiler aqui é umA palavra que significa “quando você revela uma cena importante que poderia estragar a experiência a quem não assistiu”. Respeitem os que como eu, apenas acompanharão a série.

Comecei a assistir Desventuras em Série após o lançamento, mas diferente de alguns não estava no hype, apenas não tinha nada mais importante para assistir. Não li os livros, e para ser bem franco, se já posso retirar um ponto do programa, não concluí a 1ª temporada interessado em lê-los. Muito pelo contrário, ao longo dos seus oito episódios fiquei com uma sensação de gratidão por não precisar mais tocar na obra original. O que neste caso é um ponto positivo.

Também não assisti a adaptação com Jim Carrey, logo este texto não será um comparativo entre as mídias, porém se você chegou até aqui e ainda não abandonou a leitura adianto que – apesar do tom pessimista – a nova aposta da Netflix me deixou impressionado por outras questões que, de certo modo, tangem a nossa sociedade.

O canal Pipoca e Nanquim fez uma excelente apresentação do universo dos livros (escritos por Lemony Snicket, pseudônimo de Daniel Handler, e ilustrada por Brett Helquist; no Brasil a obra é lançada pela Companhia das Letras) e revelou detalhes da produção da adaptação de 2004 que influenciaram na atual aposta da Netflix. Deixo links para vocês apreciarem o conteúdo.

A história dos desafortunados órfãos Baudelaire – que viviam felizes com seus pais até perdê-los num misterioso incêndio que não apenas vitimou ambos como destruiu sua casa e, portanto, tudo que ela possuía deixando Klaus (o leitor), Violet (a engenheira) e Sunny (um bebezinho de dentes afiados), sem ninguém que possa tomar conta deles, obrigando-os a ficar sob a tutela do terrível conde Olaf até que a irmã mais velha atinja a maior idade e possa ser dona da fortuna deixada como herança por seus pais – poderia ser um conto de fadas infanto-juvenil maniqueísta onde, apesar de todas as dificuldades, no final o bem triunfa e o mal é punido. Sim, poderia, mas se assim o fosse, esta não seria a história dos Baudelaire.

A visão maniqueísta do mundo de que no fim quem perseverar vencerá é uma analogia com o mantra que permeia livros e livros do meio empresarial stand up. Bordões como: “Acredite nos seus sonhos”, “Você controla o seu destino”, “Faça você mesmo” preenchem páginas e páginas de uma literatura vazia que leva o leitor a crer realmente que “só basta querer para acontecer”. É nesse momento, quando estamos esperançosos que o destino dos irmãos irá mudar para melhor que aparece o narrador (Lemony Snicket, interpretado por Patrick Warburton) e nos relembra pela enésima vez que se procuramos uma história com finais felizes deveríamos procurar outra forma de entretenimento.

E esse é o ponto alto de Desventuras, nos dar esse gosto amargo da frustração. Frustração a qual estamos muito pouco habituados. Se vivemos em uma sociedade onde ser feliz é uma obrigação, publicando fotos de nós mesmos seguidas de frases motivacionais como “amo meu trabalho”, “não permita que a inveja destrua seus sonhos”, “confie em Deus pois só Ele pode lhe tirar do caminho” e outras coisas do tipo; acompanhar uma jornada de “desventuras” talvez seja um tapa para despertarmos deste sonho que querem nos vender onde somos “heróis de nossa própria jornada”. E o elemento narrativo usado para isto é personificado na figura do Lemon Snicket.

Conde Olaf

Os adultos são os maiores vilões em Desventuras em Série. Focados apenas em seus “eus” não conseguem ver o óbvio, mesmo que seja o conde Olaf disfarçado (interpretado pelo Neil Patrick Harris que diferente do Jim Carrey, pelo que vi nas críticas ao filme não rouba a cena, mas cumpre muito bem seu papel na trama). Os adultos são egoístas, individualistas e sempre colocam seus próprios interesses na frente do futuro daquelas crianças. Desde a cena onde a esposa do banqueiro mostra o jornal com a foto da casa incendiada dos Baudelaire diante dos irmãos, onde ela afirma que eles deveriam sentir-se orgulhosos, pois estavam na primeiro página de um jornal, já que ela própria nunca estaria; até a insistência do conde em roubar a fortuna dos órfãos reitera que todos querem alcançar a felicidade plena, mesmo que para isso precisem acabar com o futuro daquelas crianças.

E esta é uma conclusão aterradora. Nenhum adulto da série consegue pensar coletivamente. Mesmo aqueles que veem que os irmãos precisam de seu auxílio não conseguem largar sua individualidade em prol do outro. Tio Monty, um dos poucos que trata os irmãos com carinho e atenção, é egoísta não reconhecendo o conde (novamente disfarçado) achando que tratava-se de um espião da sociedade de herpetologia. Seus sobrinhos o alertavam, gritavam que o perigo existia, mas ele estava focado demais em si para poder enxergar.

E o que fazem os irmãos? Eles precisam do “nós” para sobreviver. Separados já teriam perecido, mas juntos eles conseguem chegar na próxima etapa, não um final feliz, afinal de contas finais felizes só ocorrem em contos de fadas, certo? Pouco importa se o conde Olaf passou mais um episódio sem alcançar seu objetivo, os Baudelaire não venceram apenas ganharam mais um dia.

Quem nunca foi fruto de uma injustiça? Quem nunca levou a culpa por uma travessura de um irmão ou foi caluniado por um colega de trabalho? Não controlamos tudo a nossa volta. Às vezes você se programa para uma viagem e alguém próximo adoece e é isso. Nada de reembolso, nada de grande prêmio no final. Ninguém vai aplaudir por você ter cumprido sua função e ficado ao lado daquela pessoa que precisa. Não somos senhores de nossa jornada. Existem fatos terríveis que podem acontecer e quem estão além de nosso controle. O narrador reforça essa mensagem constantemente. Por quê? Porque a narrativa de que no final tudo dará certo retorna inconscientemente.

É como se estivéssemos nos dizendo o tempo todo: “ele está dizendo isso, mas no fim eles serão felizes”. Não em Desventuras, a série nos relembra que a vida não é linear, nem justa. Hoje pode ser um dia nublado, amanhã pode ter um temporal e depois de amanhã fará sol? Quem sabe. Contudo precisamos seguir em frente, por que é a vida. Não há troféus, não há medalhas, só o dia seguinte. No entanto, as narrativas atuais nos fazem crer que a felicidade está logo ali e basta queremos para alcançá-la. Não é à toa que passamos tanto tempo em rede social provando que somos felizes. Comer um lanche sem tirar foto? Sair sem publicar no instagram para que aquele momento ganhe corporeidade e que através das curtidas nossa alegria seja concretizada?

Por isso, Desventuras em Série é a antítese dessa sociedade do happy end. Contar uma série de desventuras com crianças vai contra as demais narrativas contemporâneas onde no final a mocinha sempre fica com o mocinho.

Da esquerda para a direita: Sunny, Violet e Klaus Baudelaire

Talvez a nova aposta da Netflix possa não ser uma série extraordinária. Pode não ter despertado em mim a chama para correr a livraria comprar e ler os livros, mas possui um bom elenco e uma narrativa que foge dos padrões do “vá em busca de seus sonhos”. Seus personagens são sobreviventes que não sabem como será o dia de amanhã, que não possuem uma jornada clara com um final predeterminado. Os irmãos nos levam por um passeio através de um mundo de adultos egoístas, estes sim, caminhando por uma estrada de tijolos amarelos que só eles conseguem ver, em busca do pote de ouro, ouro de tolo.

Nota:

Esperarei ansioso pela segunda temporada. Gostaria muito que ao término da história dos irmãos Baudelaire não houvesse realmente um final feliz e de que nossas expectativas continuassem frustradas sem saber como será seu fim.

A Colônia – Ezekiel Boone

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Quando pensamos em um livro apocalíptico acredito que à nossa cabeça venha coisas como: zumbis, aliens, bombas atômicas e doenças contagiosas. Ezekiel Boone traz em “A Colônia” um apocalipse, mas não é nenhum desses citados acima. O mundo aqui está prestes a acabar em aranhas. Isso mesmo: aranhas carnívoras que foram encontradas em uma escavação na China e ao perceberem o que elas eram, fez com que o país jogasse uma bomba atômica em seu próprio território com a esperança de que elas fossem contidas.

O livro é dividido em vários personagens em vários locais que vai desde a presidente dos Estados Unidos até um cidadão comum passeando com o cachorro na praia. Alguns desses personagens ficam e se tornam os principais da trama como a cientista que é especialista em aranhas, o agente federal, o obcecado com apocalipses que construiu um bunker. Todos os personagens mostram seu ponto de vista com a aparição das aranhas que não, a China não consegue conter e uma onda delas toma as cidades.

Uma coisa que chama a atenção é a forte presença de personagens femininas na história, como, por exemplo, uma mulher como presidente dos EUA e outra que é capitã de um pelotão das forças especiais. O autor claramente quis colocar mulheres fortes e empoderadas como personagens e isso é ótimo, porém, como são muitos os personagens nenhum ganha um grande destaque.

A Colônia” me desanimou um pouco com o seu final: sem fechamento. O que me levou a crer fazer parte de alguma trilogia ou série. O livro é super rápido e gostoso de ler, mas eu não senti nele um peso para se tornar uma série de livros. Gostaria que ele tivesse um encerramento e me desanimou o fato de não ver o fim da história. Sinceramente, não senti vontade de continuar com a leitura.

Os leitores irão encontrar em “A Colônia” um bom livro de um autor iniciante que traz um apocalipse que causa horror em diversas partes. Se você não curte aranhas, não recomendo a leitura, pois aqui elas vão sair dos lugares mais inusitados…

NOTA:

 

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Nome:
 A Colônia
Autor: Ezekiel Boone
Edição:

Editora:
Suma de Letras
Ano: 2016
Páginas: 272
Sinopse: Nas profundezas de uma floresta no Peru, uma massa negra devora um turista americano. Em Mineápolis, nos Estados Unidos, um agente do FBI descobre algo terrível ao investigar a queda de um avião. Na Índia, estranhos padrões sísmicos assustam pesquisadores em um laboratório. Na China, o governo deixa uma bomba nuclear cair “acidentalmente” no próprio território. Enquanto todo tipo de incidente bizarro assola o planeta, um pacote misterioso chega em um laboratório em Washington… E algo está tentando escapar dele. O mundo está à beira de um desastre apocalíptico. Uma espécie ancestral, há muito adormecida, finalmente despertou. E a humanidade pode estar com os dias contados.

Eva & Morte

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A adolescente ocupa um assento na última fileira do saguão de espera, ciente dos olhares sobre ela. Desde menina, Eva sempre odiou hospitais. Claro que ninguém gosta de hospitais, mas Eva tinha boas razões para odiá-los. Esse ódio não é por causa do inconfundível cheiro de consultório, nem se devia ao ambiente pesado que costuma imperar no saguão de espera. O que realmente a perturba sempre que pisa em um hospital são os sussurros etéreos que ninguém mais pode ouvir, as nuvens infecciosas que só ela vê e, principalmente, os rostos dos novos mortos encarando-a.

Quando ia ao cemitério enterrar algum parente a sensação era mais amena. O espírito já havia tido tempo suficiente para entender sua condição. Num hospital, a coisa é diferente. Os recém-morridos ainda não compreendem que estão mortos, especialmente os jovens, e acabam confusos e agressivos; um comportamento que só piora se percebem que Eva os enxerga. Por isso, a adolescente prefere baixar a cabeça, fingindo não ver nada fora do comum.

Vez ou outra, a curiosidade e a preocupação falam mais alto e Eva arrisca um rápido olhar, procurando o rosto incorpóreo da mãe. Como não o vê, conclui aliviada que ela continua viva. Pobre mãe, pensa. Já sofre tanto por ter como filha uma maluca que vê coisas, ainda precisa passar por isso.

Eva nem consegue se distrair com o celular; sua mente fica repassando os eventos que a trouxeram ao hospital, certa de ser a culpada pelo mal súbito que acometeu a mãe.

A verdade é que a mãe de Eva nunca a compreendeu. Na época em que falava sobre o que via, muitos pensaram que fosse uma esquizofrênica sofrendo alucinações. Sua mãe a tomou simplesmente por mentirosa e, ainda hoje, a considera uma coisa esquisita, que fuma baseado e beija outras garotas.

Quando voltou da casa da namorada no meio da noite, Eva encontrou a mãe à sua espera e o tempo fechou. Há muito as duas não conseguiam conversar sem discutir, mas a briga dessa noite tinha sido a pior. No auge da discussão, a mulher começou a sentir-se mal sem aviso e desabou no chão.

Durante todo o trajeto da ambulância, Eva ficou com ela, segurando sua mão. Aquela mulher a odiava, mas ainda era sua mãe. Não queria que morresse.

Arriscou olhar em volta novamente. É alta madrugada e, além do pessoal do hospital, poucas pessoas encontram-se por perto.

Um arrepio transforma sua espinha num cubo de gelo.

Só precisa de um instante para perceber que a menina de vestido preto, cujos cabelos escondem as orelhas, é diferente das outras pessoas. E não como a própria Eva. Também não se trata de um espírito recém-falecido. Esses evaporam à medida que ela se aproxima, desfazendo-se em nuvens de vapor etéreo.

— Oi! Importa-se que eu me sente aqui? Meus pés estão me matando! — Sem esperar pela resposta, a menina ocupa o assento ao lado de Eva, descalça as sandálias e, tomando o cuidado de ajeitar o vestido para não mostrar demais, cruza os pés sobre as coxas finas para massageá-los.

Eva a examina de esguelha, pouco à vontade com a sua presença. Se fosse julgar apenas pela aparência, daria uns sete, talvez oito anos de idade. A voz fina condiz com o aspecto, mas ela se move com o despojamento dos adultos e seus olhos são escuros, sem brilho. Olhos que parecem ter testemunhado muito mais do que uma pessoa seria capaz de vivenciar em uma única vida. Não há nada de infantil neles.

— Veio levar minha mãe? — pergunta Eva por fim.

A menina esboça um sorriso.

— Como eu levaria alguém comigo? Enfiando dentro de um saco? Não, querida. Não levo ninguém a lugar nenhum.

O tom irônico irrita Eva e a deixa mais ousada.

— Quero saber se minha mãe vai morrer!

— É claro que sim. E você também. E aquele enfermeiro… Todo mundo irá morrer um dia.

— Esse dia é hoje?

— Não posso responder essa pergunta. Bom, na verdade posso, mas iria contra todos os meus instintos. — A menina mostra o pé direito. — Isso parece um joanete para você?

— Só me responde uma coisa: você é ela mesmo? Quer dizer, a Morte?

A menina se move no assento, ficando de frente para Eva, a cabeça apoiada no encosto.

— Você fala dessa maneira porque tenta me imaginar como uma pessoa cujo ofício é ser a Morte. Se quer saber, eu sou a manifestação antropomórfica de um aspecto primordial da natureza universal… Mas é, pode me chamar de Morte. Apesar de ser um eufemismo colossal, acredito que é o máximo que seja capaz de compreender.

— Não precisa ser grosseira! Eu não sou burra — rebate Eva.

— Peço desculpas se a ofendi. Não foi minha intenção.

— Falando desse jeito, ninguém vai entender mesmo.

— Façamos o seguinte: massageie meus pezinhos cansados e eu explicarei — diz a Morte, pousando os pés sobre as coxas de Eva. A adolescente olha desconfiada, mas começa a fazer sua parte. — Que mãos macias! Onde é que estávamos mesmo?

— Manifestação do universo…

— Ah, sim! Vejamos… Você deve ter brincado de soprar bolhas de sabão quando era criança. Pense na maior e mais bonita bolha de sabão que jamais soprou. Imagine-a pairando no ar, sem nunca cair, sem nunca estourar. Eterna… Imutável… Durando o tempo suficiente para vir a ser mais que uma mera bolha. Aos poucos, ela se torna consciente do que há em seu interior, da água, do ar e do sabão que a formam. O passo seguinte é ganhar consciência de tudo que está do lado de fora: o chão abaixo, o céu acima, a criança que a soprou, tudo. A bolha de sabão percebe estar isolada em si mesma. O que está dentro não pode sair, o que está fora não pode entrar. Existe uma única maneira da bolha de sabão tornar-se parte de toda a grandiosidade que a rodeia… Estourar. — A menina encara a adolescente como se fosse uma professora. — Entende a quê me refiro?

Eva interrompe a massagem nos pequenos e machucados pés da Morte e responde de forma insegura:

— Acho que é uma metáfora para o ciclo da vida. Nascer, crescer, morrer… Essas coisas.

— Boa resposta, apesar de incorreta. Refiro-me ao Big Bang, a Grande Explosão, o princípio do universo… Melhor dizendo, do processo que levou a esse evento. Refiro-me à bolha de sabão do Big Bang: a Singularidade. Consegue imaginar toda a matéria do universo comprimida em um ponto infinitamente pequeno e, ainda assim, ilimitado; existindo simultaneamente antes do início do universo e após seu final? O que para nós são paradoxos, era lugar comum para a Singularidade. Tratava-se de uma realidade diferente, com suas próprias leis da física. À sua maneira, a Singularidade foi eterna, comprimindo em seu interior tempo, espaço e toda a matéria existente.

Eva precisa de um esforço maior para continuar acompanhando o raciocínio.

— Quer dizer que não havia nada em volta? — indaga a adolescente.

— Havia algo sim: possibilidades. — O semblante da Morte ganha cor. Ela começa a gesticular com mais frequência. — Tudo aquilo que existia compunha a Singularidade, ao passo que tudo aquilo que poderia ser a rodeava. Um oceano infinito de destinos esperando para serem traçados. A Singularidade desejou ardentemente ser parte daquele oceano, deparando-se com um obstáculo gigantesco: sua própria natureza imutável. Para mudar, para estourar, a Singularidade precisaria abalar um dos pilares de sua realidade. Teria de operar um milagre, por assim dizer.

— E que milagre foi esse? — pergunta Eva.

— Uma anomalia. A maior de todas. Descomunal. Interminável. Um elefante na sala de estar do Cosmos… Entretanto, a Singularidade não previu que, na nova realidade, tudo existiria em pares opostos: claro e escuro, quente e frio, doce e amargo… No exato momento em que a anomalia surgiu, ela ganhou uma gêmea oposta.

A menina para de falar e cruza os braços, desafiando Eva a chegar a alguma conclusão sobre o que acabara de dizer.

— A vida e a morte! O que está dizendo é que a vida e a morte criaram o universo.

— Bingo! — a menina estala os dedos. — Vê? Sou um dos pilares que sustentam nosso universo. O próprio tecido da realidade não pode existir sem mim. Não há razão para me temer.

— Você nos tira as pessoas que amamos — Eva se emociona. — Meu pai era o único que me entendia, o único que não me considerava maluca. Aí um dia, um ônibus avançou o sinal vermelho e tirou ele de mim. Foi o mesmo que arrancar um pedaço do meu coração! Como espera que eu leve isso numa boa?

— Veja bem… — a Morte suspira e esfrega as têmporas, cansada. — Não há problema em ficar triste. O problema é não aceitar que a morte é parte da vida. Sou tão natural quanto respirar, comer ou gozar. Irá surpreender-se com o quanto se sentirá mais leve se aceitar o que digo.

Elas permanecem em silêncio por vários minutos. Eva meditando sobre tudo aquilo, a Morte desfrutando de sua massagem nos pés.

— Pode parar, querida. Obrigada — A menina se ajeita no assento e calça as sandálias. — Gostei de você, Eva! Posso fazer algo para agradecer pela massagem?

— Não vai mesmo me contar se minha mãe vai morrer hoje? — A Morte sorri. É claro que ela não vai dizer, pensa Eva. — Por acaso, você vai ficar desse tamanho para sempre ou vai crescer? Se envelhecesse… Bom, tenho mãos macias.

A menina se acanha.

— Eu dou um jeito na minha aparência. Estamos combinadas — a Morte salta do assento, se espreguiçando.

— Posso perguntar uma última coisa: por que você apareceu para mim? — questiona Eva.

— Pouquíssimas pessoas conseguem me ver; sempre paro para conversar quando encontro alguma delas. Vamos tentar nos encontrar a sós na próxima. A recepcionista do hospital acredita que você está falando sozinha.

A menina indica a mulher de meia-idade na recepção. Ela parece assustada e se vira assim que Eva olha para ela. A adolescente dá de ombros.

— Não importa. Todo mundo me acha maluca mesmo.

— Por acaso, cogitou a possibilidade de estar me imaginando? De eu ser apenas o produto de uma de alucinação?

— Duvido. Aquela conversa sobre bolhas de sabão e singularidades é metafísica demais para ter saído da minha cabeça. Além do mais, já comprovei que meu dom é de verdade. Na sexta série, eu soube que minha professora de matemática tinha câncer antes dela própria descobrir.

— Você via o câncer?

— Eu podia ouvir. Durante as aulas, eu ouvia o tumor a comendo por dentro, mas foi só no final do semestre que ela descobriu.

— Curioso. — A Morte encara Eva com uma suspeita no semblante e pergunta: — Por que sua mãe foi hospitalizada?

Eva pensa antes de responder. A verdade é que continua sem compreender o que sucedera com a mãe.

— Ela teve um… mal súbito esquisito. A gente estava discutindo, pra variar. De repente, apareceu uma mancha de sangue enorme na barriga dela, depois começaram a aparecer outras manchas no peito, no rosto, nos braços, em todo lugar.

— Haveria a chance de você estar segurando uma tesoura ou faca quando isso aconteceu?

Eva fica confusa.

— Não que eu me lembre. Mas falando em faca, acho que estávamos na cozinha.

— Compreendo. Sendo assim, tenho um conselho para você… — a Morte beija Eva na testa, como uma irmã mais velha. Em seguida, se inclina para sussurrar em seu ouvido: — Comece a correr.

Quando a adolescente levanta os olhos, está sozinha. A Morte desaparecera por completo. Só então percebe que suas roupas estão manchadas de sangue, assim como seu rosto. Assustada, procura ferimentos, sem encontrar nenhum. É o sangue da minha mãe, conclui. Não havia nada de estranho nisso. É óbvio que ficara manchada quando socorrera a mãe.

Ela sai do hospital para tomar ar. A brisa da madrugada é um pouco fria, mas agradável. Uma imensa tranquilidade toma conta de tudo… Até que Eva nota as luzes azuis e vermelhas refletindo na fachada dos prédios no final da rua.

Teve certeza que as luzes vinham por ela e esse pensamento pareceu retirar uma espessa névoa da frente de seus olhos. Compreendeu melhor todos os eventos daquela noite e soube que não queria estar por perto quando as luzes chegassem.

Começou a correr.


Nascido em 1981, Joe de Lima sempre gostou de inventar histórias. Após um início trabalhando com fanzines em quadrinhos, passou a se dedicar à literatura. Publicou contos em antologias das editoras Infinitum, Literata e Buriti, na revista digital Nupo e no podcast Desleituras. Atualmente trabalha numa série de distopia young adult que já conta com dois volumes: Arcanista e Armamentista.

Assista ao perturbador primeiro trailer da série de “O Conto da Aia”

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Eu tinha outro nome, mas ele é proibido agora.” É com esta primeira frase que somos apresentados a república distópica de Gileard e ao primeiro trailer que o Hulu liberou no dia 09 de janeiro da série O Conto da Aia. Através da voz de Offred (Elisabeth Moss) vemos um pouco do seu passado, quando ainda tinha seu marido e seu filho até o momento em que estes lhes são retirados e Offred passa a ser “ensinada” pelas tias. Vamos ao trailer:

O perturbador O Conto da Aia já foi tema do CabulosoCast. Inspirado no livro escrito por Margaret Atwood a série estreia numa quarta-feira, dia 26 de abril.

Via Tor.com

Melanie e o medo frente ao desconhecido

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Em uma prisão controlada pelo exército, um grupo de crianças segue uma estranha rotina. Comparecem a aulas diárias. Semanalmente são banhadas e alimentadas. E, exceto quando estão em suas celas, permanecem contidas em cadeiras de roda reforçadas, onde passam a maior parte do dia. Esse é o overview básico de “A Menina que tinha Dons” do britânico M.R.Carey.

M.R.Carey é mais conhecido por seus trabalhos com quadrinhos

A protagonista é Melanie, uma criança superdotada e muitíssimo dócil por quem sentimos uma afeição imediata. Ela é aficionada por datas, que lhe passam a tranquilizadora sensação de controle. Também decorou boa parte da geografia de seu país e é um prodígio com números. Além disso, nutre uma devoção imensa por uma de suas professoras, a senhorita Justineau. O que Melanie não sabe sobre si mesma – o segredo que todos escondem dela – é que ela é uma Faminta – uma variação dos nossos tradicionais zumbis.

“A morte e a donzela embrulhadas num só pacote.”

Em seu romance de estréia, M.R.Carey traça um paralelo entre Melanie e o mito de Pandora. De acordo com a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher a existir e recebeu dádivas de todos os deuses – daí o seu nome: “aquela que tem todos os dons”. Como Pandora, Melanie é repleta de dons: força, inteligência e sagacidade. Ao mesmo tempo, representa enorme perigo: enquanto a maioria dos zumbis é guiado apenas pela fome, Melanie tem consciência de si mesma e do mundo. Quão perigosa é uma arma quando ela tem discernimento de sua capacidade de matar?

– Esta é a Pandora – disse a Srta. Justineau. – Ela era uma mulher maravilhosa. Todos os deuses a abençoaram e lhe deram dons. É isso que seu nome significa…’A menina com todos os dons.’ Então ela era inteligente, corajosa, bonita, engraçada e tudo mais que vocês iam querer ser.

O núcleo ao redor de Melanie é muito interessante, principalmente no conflito entre a senhorita Justineau, professora das crianças, e a doutora Caldwell, cientista-chefe do experimento que tenta criar uma cura para o vírus da Fome. Justineau quer tratar as crianças com humanidade e respeito – afinal de contas, não é a consciência de si que define os seres humanos? Caldwell, porém, tenta enxergar as crianças – e Melanie principalmente – como cobaias, como a única saída para salvar a humanidade. E, por não saber se há outros cientistas vivos no resto do mundo, está disposta a ir até as últimas consequências.

“A Menina que tinha Dons” é uma narrativa sobre como o medo frente ao desconhecido nos torna preconceituosos e cruéis. Mesmo sendo apenas uma criança, Melanie personifica o perigo, o estranho, o incomum. Portanto, deve ser ou destruída ou adestrada. É lindo vê-la se rebelar contra isso, principalmente quando põe os olhos pela primeira vez na imensidão do mundo e compreende tudo que seria capaz de realizar. Sem dúvidas, Melanie é uma leitura moderna e muito bonita para o mito de Pandora: de um lado, todos os males do mundo. Do outro, escondida no fundo da caixa, a esperança.

A importância do leitor para a literatura

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Hoje, dia 7 de janeiro, é dia do leitor. Muito já falamos aqui sobre o ato de escrever, sobre editoras, mercado editorial, sobre o livro em si… no entanto, e o leitor? Onde ele se encaixa? É pensando nisto que decidi guiar este texto.

Ano passado tivemos uma polêmica declaração de um escritor que sem papas na língua disse que por ele o leitor podia “se fuder”. Na época, diferente de muitos não achei a declaração tão aterradora assim, afinal de contas, ele enquanto escritor tem o direito de dizer que não escreve para o seu leitor, mas para si, pouco importa se seus livros serão comprados e lidos, sua fixação é pela escrita (essa foi a minha interpretação). Considerei, apenas, indelicado para um homem das letras dirigir a seu público desta forma, mas repito, para mim, é um direito dele.

Pensamos geralmente no leitor como uma etapa final. A ideia aparece, alguém escreve, alguém publica e um outro alguém lê. A leitura é, porém, uma atividade de interação entre o autor, o texto e o leitor. É impossível acreditar que o ato de ler ocorra sem estes três elementos.

Há em todas as etapas de produção de um livro um leitor idealizado.

  • O leitor para o escritor: todo o escritor precisa imaginar um leitor ideal, mesmo que inconsciente, faz-se necessário supor que quem lerá sua obra tenha um conhecimento prévio para compreender o que está escrito. Já pensou se o escritor tivesse que sempre explicar tudo para o leitor? Na frase: “Ele puxou a cadeira e sentou.” Você acha necessário que eu explique que “ele” é pronome pessoal do caso reto que retoma um substantivo masculino próprio que é o sujeito da frase citada para que você possa visualizar a cena de alguém pondo a mão sobre uma cadeira e sentando-se nela? Se escreve uma fantasia não precisa justificar o fato das viagens serem feitas sobre cavalos e não sobre motos. Se escreve ficção científica não precisa explicar por que o personagem esta conversando com um robô e por ai vai.
  • O leitor para o escritor (parte 2): considere que você seja um escritor que manda um “foda-se” para o seu leitor e relembrando que o conceito do leitor ideal é inconsciente, é impossível imaginar a escrita profissional de uma obra sem um leitor-beta (beta reader). Terminou de escrever? Por que não selecionar um grupo de pessoas da sua confiança para ler o seu trabalho e saber se as palavras dispostas no papel fazem sentido quando longe de seu criador? A revisão de um leitor beta é fundamental. Sem contar que quando um escritor assina um contrato com uma editora o livro ainda irá passar por outros olhos como do editor, por exemplo.
  • O leitor para a editora: se o livro é um produto e o leitor é o consumidor, saber o público-alvo direciona a capa, a diagramação, a divulgação… (caso o escritor já tenha ideia do seu púbico-alvo isto também ajuda no processo e faz com que o mesmo ganhe pontos com as editoras). Um exemplo simples são as capas da série de As Crônicas de Gelo e Fogo nacionais feitas pelo Marc Simonetti e as capas americanas. É quase inegável que para o leitor brasileiro as capas gringas não são atrativas. Isto, importante lembrar, porque estou pensando apenas em uma parte do livro, mas o leitor, pensado aqui como público-alvo, está presente em cada etapa até mesmo na disposição dos livros dentro de uma livraria ou você acha que uma editora paga que expor qualquer livro na entrada?
  • O leitor para o leitor: amigos, blogueiros, podcasters, you tubers. Não estamos só lendo o que queremos somos influenciados constantemente. Quem nunca ficou se contorcendo para enxergar a capa do livro que um desconhecido lia a uma certa distância? Quem nunca recebeu uma indicação de uma obra que se dependesse de nós, jamais estaria em nossa lista de leitura? Acompanhamos o trabalho de pessoas na internet as quais depositamos nossa confiança e/ou nos identificamos enquanto leitores e passamos, desta forma, a querer saber não só o que estão lendo, mas se gostaram ou não do que leram. E admitamos, olhamos atravessado para aquele livro que alguém de nossa confiança falou mal.

Tenho consciência que fui simplista elencando apenas quatro tópicos da importância do leitor para a literatura. Cada um deles leva a vários subtópicos que por sua vez levariam a outros subtópicos. Contudo quis provar que não estamos no final do processo, na calda da cadeia da leitura e que, também, não somos os cordeirinhos que consomem os produtos que foram escritos pelo escritor e publicados pela editora. Estamos presentes mesmo quando estes ainda nem sabem se vamos investir o nosso dinheiro em suas obras.

Um feliz dia do leitor e como não poderia deixar ser: boas leituras!

Prêmio Sesc de literatura 2017

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Estão abertas as inscrições para o prêmio Sesc de literatura 2017. Os candidatos poderão enviar os originais, nas categorias de conto e romance, entre os dias 09 de janeiro e 17 de fevereiro. O concurso tem o objetivo de revelar novos talentos da literatura nacional. Aos interessados basta clicar aqui para ter acesso a mais informações.

Caso deseje baixar o edital completo basta clicar aqui.

Boa sorte aos inscritos.

“Wild Times: an oral history of Wildstorm Studios” lança sua campanha através do Kickstarter

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Seguindo os passos de seu fundador, Jim Lee, o livro que conta a história dos estúdios Wildstorm será lançado através de uma campanha no Kickstarter após dois anos e meio de desenvolvimento.

Intitulado Wild Times: an oral history of Wildstorm Studios, com 450 páginas, traz entrevistas com 75 personalidades do mundo dos quadrinhos, incluindo muitos grandes talentos criativos que passaram pela editora em sua história de 18 anos, como J. Scott Campbell , Carlos D’Anda , Adam Hughes ,Gene Ha , Dustin Nguyen, Brian Azzarello , Brian Wood , Kurt Busiek , James Robinson ,Christos Gage , Alex Sinclair , Laura Martin , David Baron , Justin Ponsor , Scott Dunbier , John Layman , Ben Abernathy e Ted Adams. As entrevistas, de acordo com a descrição constante no Kickstarter, mostram tanto o começo do estúdio como de seus artistas, o processo criativo de trabalhos que redefiniram o gênero como Wild C.A.T.S, Gen 13 e The Authority, tornando-se assim o lar de grandes quadrinhos, tanto licenciados quanto de posse dos próprios criadores, a absorvção pela DC/Warner Brothers e os próprios personagens e arcos de quadrinhos.

A lista completa de entrevistas está abaixo:

Curiosamente o nome do próprio Jim Lee não apareceu. Em 2015, o criador do projeto Joseph Hedges disse que a DC não estava envolvida na produção do livro e negou-lhe qualquer acesso ao seu pessoal, no entanto a julgar pela lista a cima, percebe-se que ele entrevistou muitos talentos atuais da DC. Warren Elis, que atualmente conduz o último reboot da Wildstorm na DC Comics, também não aparece na lista, nem outros nomes que constavam na “wish list” de entrevistados divulgada por Hedges em 2015, como Brandon Choi e Travis Charest.

Doando apenas US $ 25 dólares, você consegue uma cópia do livro de 450 páginas, o que não é um mal negócio. Com US $ 15 dolares, obtém uma cópia digital. Para ter acesso a campanha no Kickstarter basta clicar aqui e colaborar com o valor que desejar.

Via Bleeding cold