[Resenha] A Sucessora – Carolina Nabuco

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[Resenha] A Sucessora – Carolina Nabuco
Capa do livro. Um fundo de cor bege, em primeiro plano alguns vestidos de época antiga em vários pontos da capa, mostrando os sapados, chápeus, luvas, etc. No centro, na vertical, o titulo do livro, e o nome da autora.

A Sucessora se passa no início da década de 1930 onde acompanhamos Marina que cresceu na fazenda da família, Santa Rosa, hoje decadente, mas que durante séculos se sustentou pela mão de obra escrava. A moça fica noiva de Roberto, um milionário do Rio de Janeiro, e deixa sua vida de reclusão no interior para viver em meio às festas e ao luxo dos novos amigos do marido.

Apesar de não se sentir à vontade no novo meio, o que realmente incomoda Marina é a presença da antiga esposa de Roberto, Alice, que ainda existe na casa onde moram. Sendo constantemente comparada com ela, Marina desenvolve uma obsessão pelo quadro da mulher morta e luta contra os próprios pensamentos para se estabelecer na nova vida.

A Sucessora é um livro intimista, retrato da sociedade e do Brasil da época em foi escrito, mas que ainda traz discussões interessantes para o nosso presente.

Desafio LeiaMulheres

As resenhas do mês de março aqui do Leitor Cabuloso estão seguindo o Desafio Leia Mulheres 2021. Todos os desafios propostos serão cumpridos ao longo do mês, então dêem uma olhada aqui no site para conferir o que já saiu e acompanhem as redes sociais para ver os próximos desafios.

Desafio do mês de setembro: Uma Autora da Região Sudeste do Brasil.

Romance psicológico

Esse é um livro curto, onde a autora centrou sua história inteiramente em Marina, seus pensamentos, medos, obsessões e alegrias. Eu gostei bastante da personagem. Apesar de jovem e inexperiente no seu novo meio, Marina é firme em suas decisões, ainda que constantemente confrontada com as comparações que os outros fazem entre ela e Alice. A escrita de Carolina Nabuco também é gostosa e ela conduziu a trama de forma a me deixar o tempo inteiro curiosa.

“Roberto e marina passaram de mãos dadas pela porta da primeira sala, sorrindo um para o outro, até verem o retrato de alice. na parede central, com os olhos pretos e brilhantesdirigidos para a porta, com a mão levantada acolhedoramente,. alice, fazendo de dona da casa, parecia receber a sucessora como hóspede passageira, a dizr ao marido: ‘amo-te e quero-te feliz.não receio comparação.'”

Isso porque, apesar de retratar uma vida distante, pouco relacionável com o leitor atual, tanto pela classe social quanto pelo tempo em que viveram, a forma como a autora apresenta os dramas vividos por Marina e a ambientação nessa casa, ainda cercada pela vida de uma mulher que já morreu, é instigante. Ajuda o fato de ser um livro curto, então não existe enrolação, embora eu tenha achado o final um tanto anticlimático.

Um retrato não muito fiel do Brasil

Mesmo que essa história seja bastante centrada na vida de Marina, Carolina Nabuco dedicou algumas passagens a refletir sobre o Brasil e sua formação. Para mim, o tom foi um tanto idílico, ressaltando a miscigenação do povo brasileiro, mas me passou uma impressão de que esses povos que serviram de mistura vieram para cá por vontade própria, quando sabemos que os negros foram arrancados da sua terra para ser escravizados, imigrantes vieram para cá fugidos da fome e das guerras em seus países, entre outras situações surgidas de eventos trágicos.

Além disso, Marina se vê como alguém mais evoluída e livre de preconceitos que sua mãe, por exemplo, mas é tratada como “sinhazinha” pelos trabalhadores da fazenda, todos negros, descendentes de escravos ou até mesmo que viveram como escravos antes da abolição. O texto também é repleto de termos e passagens racistas, mas isso é um reflexo da época em que foi escrito.

Então para mim, ficou a impressão de que a autora teve boa intenção, mas não soube retratar de forma verídica e crítica a realidade, provavelmente por não ser a realidade dela. Acredito que isso geraria discussões interessantes.

A comparação com Rebecca

Difícil não mencionar a polêmica do plágio. A Sucessora provavelmente “inspirou” Daphne Du Maurier a escrever o romance Rebecaa, o qual se tornou mundialmente famoso e sei que muitas pessoas chegam até A Sucessora por conta dessa polêmica.

Apesar de a premissa ser basicamente a mesma, as semelhanças encerram aí. A Sucessora é um drama psicológico, não um thriller com mistério. Aqui, acompanhamos o amadurecimento de uma jovem em meio à sociedade e não o que está por trás da morte da antiga esposa do marido. É importante ter isso em mente para não ler com expectativas totalmente equivocadas.

Mas é bom?

É uma boa leitura. A escrita é agradável e instigante e quem gosta de livros que falam sobre alta sociedade, com um pouco de fofoca e com um viés mais intimista deve gostar. Mesmo não sendo espetacular, com certeza foi uma leitura que gostei e valeu a pena.

Nota

Três selos cabulosos. A nota mais alta são 5 selos cabulosos.
Três selos cabulosos. A nota mais alta são 5 selos cabulosos.

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Ficha Técnica

Título: A Sucessora
Autora: Carolina Nabuco
Editora: Instante
Ano: 2018
Páginas: 200
iSBN-13: 9788552994022
ISBN-10: 
855299402X
Sinopse: A sucessora une prosa intimista e psicológica ao dar voz a uma protagonista feminina: Marina, uma jovem recém-casada que após uma romântica lua de mel muda-se para a mansão do marido, o milionário Roberto Steen. Ao entrar em sua nova residência, depara-se com um imponente retrato de Alice, a primeira mulher de Roberto, falecida poucos meses antes de Marina e ele se conhecerem. Alice era dona de uma personalidade exuberante e um ícone da sociedade carioca, enquanto Marina, criada na fazenda da família, sempre levou uma vida simples e distante dos costumes liberais da cidade grande. Marina é então invadida por sentimentos de insegurança e inadequação. Afinal, numa vida em que todos – involuntariamente ou nem tanto – a comparam à primeira Madame Steen, será que seu amor por Roberto resistirá ao fantasma de uma mulher tão especial?

A sucessora é um romance envolvente escrito por Carolina Nabuco, uma das primeiras mulheres brasileiras a atuar como escritora. Publicado em 1934, alcançou grande sucesso editorial, recebendo várias reedições no Brasil. Em 1941, com o Oscar de melhor filme para Rebecca, a mulher inesquecível, do diretor Alfred Hitchcock, um debate internacional teve início: o romance que inspirou o filme, da inglesa Daphne du Maurier, publicado em 1938, teria sido plágio de A sucessora. A semelhança entre os romances foi reconhecida por críticos literários da época, e não se trata de mera coincidência: antes da publicação, Carolina Nabuco enviou ao agente literário da escritora inglesa os originais de seu livro, traduzidos por ela mesma para o inglês. Nabuco, contudo, preferiu evitar conflitos judiciais.

Décadas mais tarde, a narrativa de A sucessora foi adaptada para o formato de telenovela por Manoel Carlos e exibida com sucesso pela Rede Globo entre 1978 e 1979, tendo Susana Vieira no papel de Marina.

Ficção / Literatura Brasileira / Romance / Suspense e Mistério