[Resenha] As Garotas Madalenas – V. S. Alexander

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Capa do livro, imagem de uma moça com roupas em tons marrons, segurando uma mala com as duas mãos frente ao corpo, não se mostra seu rosto. Em primeiro plano, no centro, o titulo do livros, e o texto:
Capa do livro, imagem de uma moça com roupas em tons marrons, segurando uma mala com as duas mãos frente ao corpo, não se mostra seu rosto. Em primeiro plano, no centro, o titulo do livros, e o texto: "Quem poderá salvá-las?"

Criar uma história baseada em fatos reais exige de quem escreve os mesmos desafios de uma história ficcional: a narrativa precisa ser envolvente, as personagens, cativantes a ponto de nos importarmos com elas e a trama precisa ter coerência dentro de si. Nesse sentido, um fato histórico poderoso não necessariamente se tornará uma boa obra de ficção. É preciso uma mão habilidosa para dar vida a ela, algo que é muito bem executado por V. S. Alexander ao contar a história dos reformatórios de trabalhos forçados em “As garotas Madalenas: quem poderá salvá-las?”.

A história se passa em Dublin, na Irlanda, em 1962, dentro dos portões do convento das Irmãs da Sagrada Redenção, onde funciona uma das Lavanderias de Madalena. A proposta é tentadora: um refúgio para “endireitar” moças que desviaram de seu caminho. A realidade, muito mais sombria: um reformatório de trabalhos forçados. Nesse cenário assustador, conhecemos Teagan e Nora, as duas jovens que nos guiarão pelos corredores escuros e a rotina maçante e violenta perpetrada pela Madre Superiora e corroborada pelas outras freiras da instituição.

O primeiro ponto que chama atenção já nas primeiras páginas é a facilidade com que o autor consegue nos jogar dentro da narrativa e nos passar de forma precisa as sensações das personagens. O prólogo da obra — que depois entendemos ser um flashfoward — já introduz a obra enfiando o pé na porta mostrando a punição de três moças por desobedecerem às ordens.

Distorção dos preceitos religiosos

Já nessa primeira cena, a Madre Superiora evoca o amor de Cristo para justificar sua ação. Essa lógica se repete em diversos momentos ao longo do livro, deixando claro como a interpretação das passagens bíblicas é feita de forma conveniente para justificar todas as formas de violência que acontecem nas dependências do convento.

Essa é mais uma mancha na história da Igreja Católica, uma prática que durou até a década de 1990, de acordo com a nota da autora. A intenção do livro não é desqualificar a religião em si, mas mostrar como até mesmo as mensagens de amor e devoção, em mãos mal intencionadas, se tornam a desculpa perfeita para todo tipo de humilhação.

“Lembre-se de minhas palavras. Eu amo vocês”, disse Irmã Anne depois de aplicar a punição. E o mais estarrecedor é que, ao longo do livro, fica claro que ela realmente acredita nessas palavras.

Enquadramento das mulheres

Como dito mais acima, eram admitidas nessas lavanderias mulheres tidas como “em desgraça”, que ia desde prostituta e menores infratoras, até garotas comuns, cujo único pecado era ser bonitas ou independentes demais. No fundo, o que se esperava era enquadrar essas moças em um ideal de mulher: bem educada, submissa, invisível.

A rotina pesada de trabalho, a alimentação parca, a imposição do silêncio, tudo era usado como artifício para desumanizar as internas, ao ponto de elas perderem a própria identidade. E tal tentativa já começava no momento em que elas dão entrada no convento: todas ganham um novo nome.

Ao longo da narrativa, dia a dia, vamos vendo essas moças perderem a vitalidade, a ponto de se tornarem apenas um corpo vivo, mas sem nenhuma essência ou vontade de viver. Com a mudança de ponto de vista da narrativa, também percebemos as formas diferentes de Teagan e Nora lidarem com a nova realidade: enquanto a primeira tenta passar despercebida e reflete a educação castradora que recebeu, a outra se revolta e enfrenta as freiras, procurando a todo momento uma forma de escapar.

De uma forma ou de outra, ambas sabem que não podem demorar muito tempo lá, ou perderão a sanidade. E é esse desejo que faz com que as duas se unam e tentem lutar contra esse sistema opressor.

“A monotonia e a penitência iriam matar sua alma um pouquinho a cada dia até não sobrar nada além de uma casca vazia e robótica de uma mulher que reza continuamente a Deus, mas que não tem vida ou alguma razão verdadeira para viver.”

E elas sabem que têm pouco tempo para darem um jeito de fugir, pois sabem que serão “quebradas” como as outras se não arranjarem uma solução. E é triste vê-las definhando a cada dia, por mais que lutem contra isso. Mas a força repressiva é forte demais, até para os espíritos mais valentes.

Um retrato da sociedade machista

Todas essas atrocidades só são possíveis porque há um sistema que a facilita. No início, parece que as pessoas não sabem o que acontece dentro do convento, porém, conforme a narrativa caminha, fica claro que é justamente o contrário: os estabelecimentos que contratam os serviços da lavanderia sabem muito bem as condições que as meninas vivem, mas a história é pintada de forma que os empregados levam e buscam as roupas acreditem que elas merecem o que têm — a fama das Madalenas é conhecida e é preciso tomar cuidado com essas mulheres perigosas.

Nessa realidade, é claro que a voz de um homem tem mais valor — como o padre que coloca em Teagan a culpa por seus pensamentos sexuais, ou o namorado de Nora, que acha que ela não presta por tomar a iniciativa de querer transar, mesmo que ele a instigasse há muito tempo.

É esse tipo de pensamento que permite com que atrocidades aconteçam. Não é muito diferente da lógica que temos hoje em dia.

“As garotas Madalenas” é um livro que, mesmo trazendo conteúdos pesados, flui em uma leitura rápida. Apesar de um item da trama ser conveniente e parecer ter sido colocado apenas para chocar e ter o clímax, ainda é uma obra que vale a pena ser conhecida, especialmente pela capacidade do autor de, ao narrar em diferentes pontos de vista, dar uma dimensão mais completa das causas e consequências dos acontecimentos.

Como obra ficcional, é potente; como relato histórico, é assustador. Uma leitura necessária para refletirmos até quando permitiremos que grilhões prendam as mulheres em uma lógica de violência e tentativa de padronização.

Nota

Quatro selos cabulosos. A nota mais alta são 5 selos cabulosos.
Quatro selos cabulosos. A nota mais alta são 5 selos cabulosos.

 

 

 

 

Garanta a sua cópia de As Garotas Madalenas e boa leitura!

Ficha Técnica

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Nome: As garotas Madalenas: quem poderá salvá-las?
Autor: V. S. Alexander
Tradução: Nilce Xavier
Edição:
Editora: Gutenberg
Ano: 2019
Páginas: 288
ISBN: 9788582355824
Sinopse: Dublin, 1962. Dentro dos portões do convento das Irmãs da Sagrada Redenção opera uma das Lavanderias de Madalena da cidade. Outrora um lugar de refúgio, as lavanderias haviam evoluído para sombrios reformatórios de trabalhos forçados. É para lá que a jovem Teagan Tiernan, de 16 anos, é levada pela família, depois de ter sido transformada em personagem de uma intriga que também envolvia um jovem e belo padre.

Convivendo com mulheres “em desgraça” – mães solteiras, prostitutas, menores infratoras – e garotas comuns, cujos únicos pecados se resumiam a serem bonitas ou independentes demais, Teagan faz amizade com Nora Craven, uma jovem rebelde que pensava que nada poderia ser pior do que sua miserável vida familiar. As duas jovens se tornam reféns da Madre Superiora e de suas punições cruéis – sempre em nome do amor. Entre fracassadas tentativas de fuga, Teagan e Nora vão descobrir como é árduo o mundo exterior, principalmente para jovens de reputação arruinada.

Narrado com franqueza, compaixão e riqueza de detalhes históricos, As garotas Madalenas é um primoroso romance sobre a vida dentro dessas polêmicas instituições da Igreja Católica. É uma história inspiradora de amizade, esperança e incansável coragem.