Matadouro Cinco – Kurt Vonnegut

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Montagem com a capa do livro. Ao fundo uma imagem de uma área urbana destruida pela guerra, em vista aérea. No centro, um fundo de um céu roxo estrelado, com o título: "Matadouro" no topo, em vermelho e letras grandes, e abaixo, no mesmo aspecto a palavra "Cinco". No centro da capa, silhueta de três aviões se destacam sobre circulos brancos.

Os livros são capazes de nos impactar de maneiras diversas, nos proporcionando uma viagem que pode (em diversos aspectos) ser tanto engrandecedora quando terrivelmente devastadora, deixando cicatrizes profundas na nossa mente. As emoções proporcionadas por narrativas habilidosamente tecidas podem ser tão chocantes quanto uma interação física direta, e é essa a sensação que você vai experimentar ao ler Matadouro Cinco.

Com um estilo simples e direto, ao narrar um dos episódios mais cruéis e (até que se prove o contrário) desnecessários da Segunda Grande Guerra Mundial, Kurt Vonnegut foi capaz de enfiar uma faca no coração dos leitores, e essa é uma ferida que vai demorar a cicatrizar.

A Florença do Elba

Em meados de 1945, nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial, Vonnegut era um soldado raso de infantaria do exército americano e, em uma das suas missões foi feito prisioneiro pelo já combalido exército alemão. Em seguida, foi conduzido ao lado de diversos outros compatriotas ao cativeiro na cidade de Dresden, na época conhecida como “A Florença do Elba”. Devido principalmente ao seu patrimônio arquitetônico histórico com diversos museus, igrejas e edificações do Período Barroco, Dresden era uma considerada um dos polos culturais da Europa, e não tinha importância militar para o exército aliado.

Pouco tempo após o seu “encarceramento” em Dresden, Vonnegut presenciou e sobreviveu a um dos ataques mais brutais da Guerra, quando entre 13 e 15 de fevereiro de 1945 a Força Aérea dos Estados Unidos e a Força Aérea Real do exército Inglês lançaram, em quatro ataques surpresas, mais de 3.900 toneladas de dispositivos incendiárias e bombas altamente explosivas na cidade alemã. A devastação causada por esse bombardeio destruiu completamente mais de 39 quilômetros quadrados do centro da cidade, matando dezenas de milhares de civis (as estimativas variam entre 25 mil e 250 mil civis mortos).

A alegoria da estupidez

Matadouro Cinco foi originalmente publicado em meados de 1969 nos EUA, projetando a carreira literária de Vonnegut em direção ao sucesso. O que vamos encontrar ao longo dessas 284 páginas é uma das alegorias mais inventivas, de certa forma esquizofrênicas e caóticas que já tive a oportunidade de ler. Trata-se essencialmente de uma narrativa em terceira pessoa, onde o autor assume um papel ativo na narrativa, aparecendo na história de maneira nada sutil.

Situações vivenciadas pelo próprio autor são mescladas com elementos fantásticos que envolvem desde abduções alienígenas e viagens interplanetárias até uma raça extraterrestre superdesenvolvida cujo o conceito de tempo e vida é diametralmente diferente do nosso. E tudo isso é contato de uma forma tão casual e despretensiosa, que em diversos momentos do livro você vai começar a confundir o que pode ser real ou inventado.

É assim mesmo

Billy Pilgrim, protagonista de Matadouro Cinco, é um homem simples que após ser abduzido pelos Traufamadoreanos vive saltando no tempo, viu desde o momento do seu nascimento até o momento da sua morte. Ele é o elemento central do enredo, sendo sua participação nada relevante no último ano da Segunda Guerra Mundial, onde é aprisionado pela reserva “improvisada” do exercito Alemão, indo parar em Dresden onde é obrigado a realizar trabalhos forçados com outros prisioneiros de guerra.

O livro segue uma sequência temporal complexa, saltado para momentos diversos da vida de Pilgrim e, dessa forma, Vonnegut segue pintando com ironia, sarcasmo e um realismo brutal os momentos que vivenciou durante o bombardeio de Dresden.

Fantasiado de ficção Científica, Matadouro Cinco é um relato visceral de um dos (muitos) momentos mais abjetos da Segunda Guerra Mundial, definitivamente uma leitura obrigatória que vai deixar uma marca permanente na sua vida.

Nota

4 selos cabulosos

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Ficha Técnica

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Nome: Matadouro Cinco
Autor: Kurt Vannegut
Editora: Intríseca
Edição: 1°
Ano: 2019
Numero de Páginas: 288
ISBN: 9788551004593

Sinopse: Edição comemora os 50 anos de um clássico moderno, o mais importante da obra de Kurt Vonnegut.
O humor e estilo únicos e originais de Kurt Vonnegut o fizeram um dos escritores mais importantes da literatura norte-americana. Sarcástico, ele foi capaz de escrever sobre a brutal destruição da cidade de Dresden, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial — sem apelar para descrições sensacionalistas. Em vez disso, criou uma história imaginativa, muitas vezes engraçada e quase psicodélica, estrategicamente situada entre uma introdução e um epílogo autobiográficos.

Assim como Billy Pilgrim, o protagonista de Matadouro-Cinco, Vonnegut testemunhou como prisioneiro de guerra, em 1945, a morte de milhares de civis, a maior parte deles por queimaduras e asfixia, no bombardeio que destruiu a cidade alemã. Billy tinha sido capturado e destacado para fazer suplementos vitamínicos em um depósito de carnes subterrâneo, onde os prisioneiros se refugiaram do ataque dos Aliados. Salvo pelo trabalho, depois de ter visto toda sorte de mortes e crueldades arbitrárias e absurdas, Billy volta à vida de consumo norte-americana e relata sua pacata biografia, intercalando sua trajetória aparentemente comum com episódios fantásticos de viagens no tempo e no espaço.

Ao capturar o espírito de seu tempo e a imaginação de uma geração — afinal, o livro foi publicado originalmente em 1969, em plena guerra do Vietnã e de intensos protestos e movimentos culturais —, o livro logo virou um fenômeno e sua história e estrutura inovadoras se tornaram metáforas para uma nova era que se aproximava. Ao combinar uma escrita cotidiana, ficção científica, piadas e filosofia, o autor também falou das banalidades da cultura do consumismo, da maldade humana e da nossa capacidade de nos acostumarmos com tudo. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.