O Último Reino – Crônicas Saxônicas # 1 | Bernard Cornwell

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À esquerda está a capa do livro
#Acessibilidade Fotomontagem para divulgação. À esquerda está a capa do livro "O Último Reino" de Bernard Cornwell. Na capa tem um guerreiro olhando para a direita, seu rosto em perfil , no horizonte o mar e outros guerreiros segurando escudo. No centro da capa está escrito em letras maiúsculas e em preto "O Último Reino - Bernard Cornwell". À direita tem uma imagem montada com fundo sépia onde está escrito em preto "Inicie seus matadores ainda novos, antes que a consciência deles cresça. Inicie-os novos e ele serão letais."

Uma dívida precisa ser paga

A primeira coisa que é preciso entender sobre a saga As Crônicas Saxônicas é que ela é sobre uma rixa de sangue.

Sim, existe a história da unificação dos reinos que viriam se tornar a Inglaterra, existe a ascensão da Igreja Católica, o reinado de Alfredo e seu filho Eduardo, existe toda uma ambientação realizada por um grande historiador para você refletir sobre como era o modo de vida no séc. X. Existe tudo isso, claro, mas no centro de tudo tem um saxão chamado Uhtred: um garoto que sonha se tornar um guerreiro para retomar sua terra que lhe foi roubada e em matar a pessoa que hoje está sentada no salão que é seu por direito.

O Último Reino é o primeiro livro da saga escrita por Bernard Cornwell e se encaminha para o 11º, sem previsão de terminar. Entretanto, diferente de outras sagas (beijos para George R R Martin), cada livro conta um arco fechado e o autor publica com uma certa regularidade (o 1º livro é de 2004 e o 11º está prometido para 2019), então não há motivos para preocupação.

O cenário onde se passa a história é a Inglaterra antes de se tornar Inglaterra que conhecemos, quando existiam diversos reinos não unificados que tentavam prosperar naquele ambiente isolado. Ou não tão isolados assim, já que sofriam diversas incursões dos dinamarqueses e noruegueses que vinham saquear suas terras. Numa dessas invasões, o senhor das terras de Bebbanburg vai ao combate com seus homens contra os dinamarqueses, perde e seu filho Uhtred (ainda criança) é capturado pelos invasores. A partir daí ele começa a viver com seus captores, comendo com eles, lutando com eles, fazendo guerra com eles: enfim, tornando-se um deles. Com tanto sangue derramado, seja por terra, deuses ou ouro, um simples homem no meio de tudo isso pode ouvir seu sangue falar mais alto…

A parede de escudos forma o guerreiro

Um dos grandes talentos de Bernard Cornwell é a descrição dos combates. Seja uma pequena escaramuça entre bandoleiros numa ponte ou 2 exércitos se enfrentando num descampado, ele faz o leitor se sentir dentro da batalha. É quase possível experimentar o furor da batalha, enjoar com o cheiro de tripas e vômitos, sentir no rosto o sangue que jorra do inimigo abatido! A narrativa é crua, visceral, cheia de detalhes sujos e xingamentos que fariam um sargento corar de vergonha… E o auge da batalha, o motivo pelo qual o Crônicas é lembrado são as paredes de escudo. A famosa formação militar é colocada aqui como prova máxima do guerreiro e onde são decididos os destinos dos homens e dos reinos. Existe apenas um punhado de escritores que conseguem descrever tão bem uma batalha quanto o Cornwell.

Mas não só de paredes de escudos é formado esse livro. Pertencendo ao gênero “romance histórico”, é possível ter alguns vislumbres de como eram as relações de vassalagem daquela época e como foi a semente do que iria se tornar a Inglaterra algumas dezenas de anos no futuro. Claro que há uma certa liberdade narrativa para se contar a história, mas mais preocupado do que passar datas e nomes, Bernard transmite uma ideia de como eram as relações naquela época entre as pessoas que tinham o poder, as que serviam e aqueles que não pertenciam àquela sociedade (os invasores). No final do livro há um anexo do autor confirmando os fatos que realmente aconteceram e aqueles que foram incluídos/alterados para dar sentido à narrativa.

Em meio a História (com H maiúsculo) existe o pequeno Uhtred que tenta ser senhor da sua própria história, enquanto as moiras olham para ele e riem de seus pequenos planos. Alheio a tudo isso, ele prossegue o caminho de volta para Bebbanburg.

Afinal, uma rixa de sangue precisa ser paga.

Leitura que diverte e ensina

O Último Reino foi o meu primeiro livro do Cornwell (atualmente li mais de 10) e fiquei imediatamente cativado. Uma das minhas maiores surpresas foi como os personagens são bem construídos, sendo preciso apenas um parágrafo de descrição para saber quem eles são. Mesmo coadjuvantes como o Padre Beocca ou o dinamarquês Ragnar tem personalidades tão distintas que é fácil identificá-los, ajudando muito na leitura. Apesar do maior carisma pertencer ao Uhtred, todos os leitores com quem já conversei lembram de pelo menos mais 2 ou 3 personagens que os marcaram.

Como bom RPGista que sou, claro que as batalhas foram um atrativo a mais. Poucas vezes me senti tanto dentro de uma cena de luta durante a leitura de um livro! E não é uma cena “bonita”: o combate descrito aqui é sujo, fedorento e insano, nada parecido com os combates que normalmente vemos em livros de fantasia onde o oponente é abatido com uma flecha certeira ou um corte limpo da espada do herói. Sendo um grande fã dos livros do Leonel Caldela, logo fiz a comparação entre eles e os livros do Bernard Cornwell. Sem surpresa nenhuma descobri depois numa entrevista qual era uma das grandes inspirações do Leonel…

Outra coisa que chamou muito minha atenção foi a parte histórica. Eu aprendi muito mais sobre a formação da Inglaterra e a ascensão da Igreja na leitura deste livro (e dos próximos da saga) do que nas minhas aulas de História. Mais do que isso: eu ENTENDI o porquê e como esses reinos se uniram. E eu nem percebi que estava recebendo uma aula!

Por isso eu recomendo esse livro e o restante da saga. Você também pode ouvir os podcasts que fiz sobre os 10 livros da saga, o especial Covil de Livros 100 – As Crônicas Saxônicas – Parte 1 e Covil de Livros 101 – – As Crônicas Saxônicas – Parte 2.

Nota

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Nome:
 O Último Reino (Crônicas Saxônicas #1)
Autor: Bernard Cornwell
Tradução: Alves Calado
Edição: 1ª
Editora: Grupo Editorial Record
Ano: 2006
Páginas: 364
ISBN:9788501073525
Sinopse: O Último Reino é o primeiro romance de uma série que contará a história de Alfredo, o Grande, e seus descendentes. Aqui, Cornwell reconstrói a saga do monarca que livrou o território britânico da fúria dos vikings. Pelos olhos do órfão Uthred, que aos 9 anos se tornou escravo dos guerreiros no norte, surge uma história de lealdades divididas, amor relutante e heroísmo desesperado. Nascido na aristocracia da Nortúmbria no século IX, Uthred é capturado e adotado por um dinamarquês. Nas gélidas planícies do norte, ele aprende o modo de vida viking. No entanto, seu destino está indissoluvelmente ligado a Alfred, rei de Wessex, e às lutas entre ingleses e dinamarqueses e entre cristãos e pagãos.