ENTREVISTA: VALENTINA SILVA FERREIRA

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A Valentina nos concedeu uma entrevista que já adianto, está bem gostosa de ler. É bom conhecer mais de uma escritora que admiramos. Também fiquei ansiosa com o novo livro dela, com lançamento neste fim de ano. Confiram!

1 – Como surgiu a idéia para escrever Distúrbio e tratar de um tema tão forte?

Eu sempre gostei de crianças. Em nova, quis ser professora primária. Mas depois, nem sei bem por que razão, a área do crime começou a fascinar-me e a palavra “advogada” ganhou uma força muito grande. Entrei em Direito aos 17 anos com o sonho de que iria salvar todas as crianças do mundo. Logo percebi que isso seria impossível, que, enquanto estudantes, somos preparados para atuar enquanto máquinas, sem olhar a qualquer emoção. A desilusão foi muito grande. Entretanto, e porque a minha mãe trabalha na polícia e eu já tinha idade para ouvir histórias terríveis, fui convivendo com realidades tão graves que surgiam diariamente. De todos os crimes, a pedofilia era a que mais me repugnava mas, ao mesmo tempo, percebi que o tema mexia tanto comigo que eu deveria trabalhar com ele. Enquanto a maioria da sociedade tapa os olhos perante esse problema, eu pesquisei muito, procurei o máximo de informação, li e tentei, ao máximo, falar sobre isso às pessoas que me rodeiam. O “Distúrbio” nasceu da minha vontade de exorcizar toda a minha frustração com o curso que estava a tirar, que oferece (e uso este verbo porque se trata mesmo de um presente) penas demasiado brandas aos prevaricadores. Eu sabia que no meu livro, eu poderia contar uma história que não seria ignorada pelo leitor e que de alguma forma marcaria as pessoas que o lessem. Infelizmente, vivemos num mundo cínico. Eu própria, depois de escrever o “Distúrbio”, olho para os outros de forma diferente, mais atenta. Nunca se sabe o que está escondido por detrás de uma família aparentemente normal.

2 – Completando a pergunta anterior, algum autor ou situação teve influência na escrita?

Nenhum autor influenciou-me na escrita do “Distúrbio.” Li muitos livros de psicologia, profiling criminal e alguns de ficção que abordavam o tema. Mas a vontade de escrever sobre isso veio de tudo o que contei anteriormente.

3 – Como é ser portuguesa e ter um livro publicado no Brasil? Você estranhou alguma coisa?

Após escrever “Distúrbio”, tentei algumas editoras portuguesas. Fui recusada por todas, por diversos motivos. Um deles, e provavelmente aquele que me marcou mais, foi terem dito que o livro era demasiado violento para ser publicado. Na altura, cheguei a ponderar suavizar algumas cenas, eliminar alguns detalhes mas depois caí em mim e vi que eu estava a fazer o mesmo que os outros: esconder a crueldado do acto pedófilo. Então, decidi deixá-lo como estava. Imprimi-o e ele foi passando de mão em mão. Moro numa ilha relativamente pequena e eu já ficaria muito contente se os meus amigos o passassem aos amigos que, depois, passariam aos amigos e assim sucessivamente. Mas um dia, numa pesquisa pela internet, encontrei a Estronho e decidi enviar um conto para “Cursed City”. Quando recebi o e-mail a dizer que tinha sido selecionada, o meu mundo ficou gigante. Pensei na sorte que tinha porque, normalmente, um escritor começa no seu país para sair (ou não) para fora. E eu, que nunca havia publicado nada, tinha conseguido ser aceite em uma antologia no Brasil. Mais tarde, depois do envio do “Distúrbio” para o Marcelo, de ele ter dito que queria publicá-lo e de eu começar a participar em todas as fases de edição de um livro (até o tipo de papel, eles perguntaram a minha opinião), eu entendi que tinha encontrado a casa certa, mesmo que no outro lado do oceano. Ontem dei uma palestra numa escola e uma menina perguntou-me se, com apenas 23 anos, eu já estaria na editora certa. A minha resposta foi muito rápida (até porque sou tímida e estava a tremer como uma doidinha). Eu disse que, provavelmente, se tivesse encontrado uma editora em Portugal, que fosse correta, eu também estaria feliz. Mas eu sinto que, mais do que uma editora que publica os meus livros, eu encontrei pessoas que amam a literatura, que gostam de conversar sobre isso, que dão sugestões e aceitam opiniões. Portanto, publicar no Brasil não me causa nenhuma estranheza, bem pelo contrário. Se sinto algum ressentimento em relação a não ser publicada no meu próprio país? Nem por isso. Se algum dia isso acontecer, ficarei muito contente. Se não acontecer, sei que em alguma parte do mundo, alguém lê o que eu escrevo. Para além disso, o Brasil é muito maior que Portugal hihi.

4 – Você recebeu muita influência na infância para a leitura? Gosta de ler que tipo de livros?

Em criança, os meus pais obrigavam-me a dormir depois do almoço, aos fins-de-semana. Coisa que eu detestava. No meu quarto havia uma estante com alguns livros que me eram oferecidos no Natal e no aniversário. Então, em vez de eu dormir, ia lendo repetidamente tudo o que tinha na estante. Claro que me fartei. Então, passei para o armário de baixo que era onde a minha mãe guardava os livros dela. E mesmo que eu não entendesse o conteúdo da história, gostava de ouvir os sons das palavras.

Eu leio todo o tipo de livros. Acho que um escritor deve ler tudo. Desde o autor mais conhecido, ao mais difícil, àquele de que ninguém ouviu falar. É importante conhecermos géneros, formas de escrita, de pensar, de agir para que possamos nos identificar com uns autores e discordar com outros. Acho que só assim será possível encontrarmos a nossa luz, o nosso território confortável, a nossa verdadeira paixão. Mas confesso que tenho um carinho especial por livros de terror, suspense e drama.

5 – Quando descobriu que gostaria de ser escritora? Alguma dica para quem quer seguir o mesmo caminho?

Não acordei um dia e disse: quero ser escritora. Na adolescência, nas férias de Verão, costumava escrever cartas para mim própria como sendo outra pessoa. E depois respondia. Andava nisto durante semanas. O mesmo acontecia com os meus diários que, claro, servem para contarmos o nosso dia-a-dia e os nossos sentimentos. Os meus não. Eu mentia descaradamente. Inventava coisas incríveis que nunca aconteceram comigo. Provavelmente, foi aí que tomei consciência de que a escrita era um modo de vida que eu facilmente adoptaria. O “ser escritora” só se tornou palpável a partir do momento que me aceitaram para a primeira antologia.

E para aqueles que sonham com o mundo das letras apenas posso sugerir: 1º Escrever muito, todos os dias, independentemente de estar doente, ocupado, de chover ou da deusa da inspiração não o ter incorporado nesse dia. Escrever é um trabalho que requer muita dedicação que só aqueles que verdadeiramente amam a “profissão” conseguem enfrentar. 2º Ler, ler, ler, ler. 3º Não desistir nunca. Algum dia, em alguma parte do planeta, alguém irá olhara para o teu trabalho.

6 – Sei que no final do ano você irá visitar nossa terra para o lançamento do seu segundo livro: A Morte é uma serial killer. Poderia nos falar um pouco sobre ele?

Sim, vou ao Brasil e ando a contar os dias no calendário para esse momento.

“A Morte é uma serial killer” é um livro sobre cinco assassinos em série que são  transferidos da Unidade de Segurança e Reinserção de Assassinos em Série para uma casa desabitada. O objetivo seria fazerem parte de um programa psiquiátrico que, segundo a diretora do hospital, os levaria ao remorso e à culpa. Esse tratamento seria mais simples do que aquilo que possam imaginar: eles apenas teriam que viver normalmente, como se de uma família se tratasse. Porém, alguns acontecimentos estranhos começam a deixar os assassinos impacientes. Será que isso faria parte do tratamento? Será que a transferência para aquela casa os estaria a deixar ainda mais loucos? Ou será que alguma entidade sobrenatural os estaria a vigiar? E é isso que eu quero que vocês descubram. Neste livro, continuarão a encontrar algumas coisas que me incomodam, à semelhança do “Distúrbio”. Temos um novo pedófilo, um homem que maltrata idosos, uma madrasta cruél, uma rapariga que assassina homens e um homicida de prostitutas.

7 – Tem alguma recomendação para os leitores do Policial da Biblioteca?

Sinceramente, antes de entrar para este “mundo estronho”, eu nunca tinha lido nada de literatura fantástica brasileira. Aos poucos, graças às antologias e aos blogues dos colegas escritores, tenho encontrado preciosidades. Por exemplo, li o livro da Natália Couto Azevedo – “O Reino dos Sonhos” – e estou desejosa de que saia o segundo. “Aos olhos da Morte”, do M.D.Amado, mostrou-me que, além de um excelente editor, ele escreve mesmo bem. Estou muito curiosa para ler alguma coisa (maior que um conto) da Ana Cristina Rodrigues, da Nikelen Witter, do Richard Diegues, da. Alliah, do Eric Novello, da Camila Fernandes… Sou fã do Lucas Lourenço, que é um autor que revela uma sensibilidade quase feminina. Li “O castelo das águias” da Ana Lúcia Merege que, apesar da trama não me cativar muito, fiquei com a sensação de estar perante uma mulher que ama o que faz. Espero encontrá-la em outro registo. Adoro a escrita crua e rápida da Celly Borges e a escrita doce e quase poética da Celly Monteiro. Admiro muito a Carolina Bernardes. Eu poderia ficar aqui o resto do dia. Mas tudo isto para dizer o seguinte: vocês têm a hipótese de adquirir os livros de toda essa gente num piscar de olhos. Eu não. Eu estou no outro lado do Atlântico. Portanto, aproveitem a regalia de estarem tão perto de escritores fantásticos e leiam, apareçam nos eventos que as várias editoras organizam e façam-me um pouco de inveja. Como podem ver, eu vou voltar pobre do Brasil hihihi.

Obrigada por esta oportunidade de mostrar uma parte mais intíma de mim e espero vê-los a todos – a ti também, Priscilla – nos eventos em que estarei participando. Beijos com sotaque português.