[Resenha] Um Pedaço de Madeira e Aço – Chabouté

[Resenha] Um Pedaço de Madeira e Aço – Chabouté
Capa da HQ. Uma ilustração mostrando na base um banco de praço com um balão amarrado. Boa parte da capa é preta formando a silhueta de folhas de uma arvore. No centro, sobre o fundo preto o nome do autor no topo, e em branco, no centro o título da HQ.

Artes atraem outras artes? Cada vez mais as obras não se centram em si mesmas. Filmes podem ter os buracos das narrativas tampados com quadrinhos; livros adotam as linguagens próximas da série para ganhar um lugar no mundo dos streamings e jogos são aprofundados através de calhamaços literários. Isso parece mais que comum em um mundo tão conectado. Chabouté em Um pedaço de Madeira e Aço atrai para si muitos gêneros literários.

Escrever com desenhos?!

O quadrinista francês é um mestre com as palavras? De uma meia dúzia de verbos ele cria uma narrativa? Precisa somente misturar dois pares de substantivos para criar poesia? Não, não precisa. Chabouté usa o máximo da mídia quadrinho em vez das palavras para criar literatura. Parece loucura, uma lorota, mas é a pura verdade.

Como peça central temos um banco de madeira. Um objeto comum em cidades grandes movimentadas e praças tranquilas do interior. Na obra o artista usa o seu dom de criar expressões e a sensibilidade em construir cenários e pessoas para brincar com gêneros literários. O enquadramento e a fluidez nos quadrinhos cria movimento e o leitor, que não precisa de palavras, mantém a atenção em Um Pedaço de Madeira e Aço e vê as histórias se formarem.

Preencha, você vai gostar

Li através de traços pretos a poesia de um casal que convive bem com o tempo; acompanhei a crônica de um homem que volta do trabalho todo dia pelo mesmo local e sempre fazendo a mesma cara; me diverti com a saga de um morador de rua e um guarda dedicado; criei as minha próprias história ao ficar só olhando para o banco sem virar nenhuma página e ao ver as memórias de um objeto simples reanimei lembranças.

Tanto dito através do mostrar, sem utilizar as palavras. E agora, pensando a respeito da obra, percebo que a HQ convida o leitor a sentar e preencher algumas linhas sobre aquilo que vê. Passar por essa obra de Chabouté e não rabiscar algumas palavras é difícil.

Devo revisitar?

Vontade de ver de novo. De novo? Não, não se trata disso. Só de pensar em voltar para a primeira página já me vem a sensação que encontrarei novos personagens passando por aquele banco. Mesmo se eu não voltar o banco continuará lá, sendo um pedaço da vida das pessoas.

Por que essa HQ tem um final? Queria que ela tivesse infinitas páginas. Ela poderia estar sempre no mesmo lugar e ser um descanso para o trabalho, para as preocupações… para a vida. Muitos poderiam lê-la, ocupá-la com seu sentimentos e ninguém teria o direito de mudá-la. Tenho vontade de conhecer pessoas que sempre leem ela e se sentem animadas por uma conversa. Todo esse discurso metalinguístico para falar que o final é ruim? Não, não é não. O final de Um Pedaço de Madeira e Aço convida o leitor a imaginar o futuro e viver novas lembranças.

Um convite

A ausência de palavras exige silêncio? Esse ato de limpar os sons de um ambiente convida ao ato de preencher. Preenchi essa obra com literatura. E você? Como vai preencher as vidas ao redor de um banco de praça criado por Chabouté? Será com música? Com cinema? Com teatro? Só sei que preencher dá uma sensação maravilhosa.

Nota

Cinco selos cabulosos. A maior nota do site.
Cinco selos cabulosos. A maior nota do site.

 

 

 

 

Garanta a sua cópia de Um Pedaço de Madeira e Aço e boa leitura!

Ficha técnica

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Nome: Um Pedaço de Madeira e Aço
Autor: Christophe Chabouté
Tradutor: Daniel Lopes
Edição:
Editora: Pipoca & Nanquim
Ano: 2018
Páginas: 340
ISBN: 9788593695100
Sinopse: A história de um simples banco de praça pública, que vê pessoas passarem durante horas, dias, estações, anos. Muitas passam, algumas param, outras voltam e há aquelas que esperam.

O banco é um refúgio, uma ilha, um abrigo, um palco. Um balé de anônimos conduzidos por uma coreografia habilmente orquestrada, em que pequenas curiosidades, situações incríveis e encontros surpreendentes dão à luz uma história singular, por vezes cômica, por vezes trágica.

O quadrinista Chabouté (Moby Dick), com sua arte inigualável e seu excepcional domínio do preto e branco, tece uma narrativa gráfica com a magia de Jacques Tati, a beleza de Chaplin e pitadas de Marcel Marceau e Buster Keaton… 340 páginas de um drama cujo herói é um banco.