[Resenha] Pssica – Edyr Augusto

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Peço um pouquinho de paciência, pois já vou falar sobre Pssica! Antes, eu preciso fazer algumas considerações. Calma, tudo vai fazer sentido no final (espero).

Um longo preâmbulo

Uma das técnicas de escrita literária que mais me impressiona é a concisão. Grosso modo, um bom texto sabe sabe o momento de ser conciso. Para mim, é uma tarefa hercúlea escrever textos curtos. É uma tortura ter de cortar as palavras, de diminuir as frases, de escolher quem fica e quem sai, de lidar com o fato de que as pessoas anseiam a objetividade, especialmente em um gênero como a resenha. As resenhas, aprendemos desde cedo, são textos curtos, não são? Aprendi que a concisão é uma virtude. Uma das várias com as quais não fui agraciado. Tudo bem. Acho que algum esforço pode me ajudar a amenizar esse problema.

Nesse momento, enquanto lê essas palavras, você de estar se perguntando onde quero chegar. E esse é o problema da minha verborragia. Então, vou direto ao ponto: Edyr Augusto é virtuoso. Em termos de concisão, seu romance “Pssica” é uma aula de como dizer muito com tão pouco. O livro tem 96 páginas. É curto, mais do que isso. É conciso. As palavras são apenas o necessário, nenhuma a mais e nenhuma a menos.

Contradições da nossa realiadade

Uma das outras possíveis virtudes da escrita do Edyr Augusto em Pssica é sua capacidade de retratar a inverossimilhança brasileira. Lembro de como algumas pessoas que vi falarem do seu livro exaltavam o retrato da violência. Na minha opinião, não há problema em enxergar uma certa beleza na violência estética retratada em obras de arte. Contudo, Edyr Augusto é jornalista e a violência que retrata em sua ficção, tenho a sensação, tem menos um objetivo estético e mais uma necessidade de registrar. Em entrevista a revista Vice, o próprio autor toca o assunto:

A cidade está extremamente violenta pela presença das drogas e pelas diferenças financeiras que existem. Há uma elite que tem apartamentos em Miami, que dirige carros importados pela cidade, mas, quando põe o pé no chão, pisa na lama. […] Vivemos em Belém com um medo terrível. Talvez seja interessante do ponto de vista dramático, pra escrever. Mas pelo ponto de vista civil, muitas pessoas tem saído de lá.Hoje, você sai como se estivesse numa cidade sitiada, olhando pra todos os lados. Isso não é forma de viver.

Dados reais sobre a ficção

De acordo com dados de 2018 de um estudo referenciado em uma matéria da revista Exame em abril de 2019, Belém é a 12ª cidade mais violenta do mundo. Por mais inverossímil que a violência retrata em “Pssica” possa parecer, os dados a confirmam. Além de Belém, o livro retrata violência na Ilha de Marajó, também no Pará, e na Caiena, na Guiana Francesa. Então, por mais belo que a violência retrata por Edyr possa de alguma forma parecer, o que vemos é uma denúncia do estado de violência a qual as pessoas estão submetidas naquela região. De acordo com levantamento do G1 em outubro de 2019, houve uma redução de 23% no número de mortes violentas no Pará. O que não apenas confirma a denúncia, como também apresenta alguma melhoria, ainda que miníma.

O Pará não é um dos estados no eixo Sul-Sudoeste do país, para onde os olhos se voltam. Não à toda, é uma área esquecida não apenas pelo estado, mas também por nós, leitores. Lembro de me fazer essa pergunta ao ouvir falar do trabalho do Edyr: “Quantos autores paraenses eu li na vida?” A resposta: “Nenhum.” Quantos você leu? Talvez isso não pareça fazer muita diferença, mas faz. Afinal, em termos de literatura, conhecemos muito pouco do que é produzido em nosso país. A resposta mais óbvia é: nossa país tem dimensões continentais, não conheceremos autores de todas regiões.

Questão para refletir

Tudo bem, há algo de correto nesse raciocínio. Mas se pergunte quantos autores de regiões diferentes dos EUA você leu, se pergunte quantos autores de nacionalidade diferentes você leu; agora se pergunte quantos nordestinos, quantos nortenhos. Em entrevista ao jornal Rascunho, ao ser perguntado sobre o que mais o incomoda no cenário literário nacional, Edyr Augusto respondeu:

“O fato que nem o encolhimento das distâncias, trazido pelas comunicações, acabou com o esquecimento de muitos, de escritores que não moram no Centro-Oeste do país. Gostaria de ser convidado a participar de mais eventos literários”

Você deve estar se perguntando que diferença todo esse preâmbulo faz para essa resenha. Talvez, nenhuma. Mas, talvez, faça toda. Não tenho certeza disso. Mas me furtar de apresentar isso, seria pura covardia da minha parte. Afinal, como destaca o autor do livro na já mencionada entrevista a Vice ao tratar da arte literária, mas que aqui estendo até mesmo para uma resenha:

“De alguma maneira, o escritor quer mudar o mundo pra melhor. Ele quer afetar a realidade. Pra isso é que a arte serve. Penso que meus livros, com esse peso que eles têm, farão com que muita gente saia da sua zona de conforto e perceba assuntos importantes que devem ser olhados, examinados. O livro serve pra incomodar”

Tramas e personagens de Pssica

Como disse acima, Pssica é um livro curto. Contudo, há pelo menos três núcleos centrais nesse romance.

O primeiro e mais importante é a história de Janalice. No início do livro, a garota tem que encarar uma situação um tanto quanto atual sobre a qual não tenho sequer capacidade de comentar. Alguém, provavelmente seu namorado, vaza um vídeo íntimo dos dois. Obviamente, aquilo se espalha por toda escola onde ela estuda. O que não apenas resulta em uma situação total de constrangimento, como uma expulsão e uma surra aplicada pelos seus pais.

Janalice é enviada para viver com seus tios, no centro da cidade. Lá, ela passa a ser sexualmente abusada pelo seu tio. Talvez, por causa disso, procurando refúgio em alguma amizade, a garota se envolve com uma garota usuária de crack, que mais tarde envolve-a em uma venda. Janalice é sequestrada e vendida como uma escrava sexual. A partir disso, desenvolve-se sua história.

A trama se complica…

O segundo núcleo de Pssica trata de contar a história de Manoel Tourinhos. O sujeito é um angolano que serviu ao exército como atirador durante a revolução angolana. Manoel, então, mudou-se para Portugal e, então, para o Brasil, Belém. Por ser branco, foi apelidado de Portuga, ainda que tenha inúmeras vezes explicado sobre sua nacionalidade angolana.

Em uma festa na Ilha do Marajó, conheceu a mulher com quem se casou. Os dois decidiram em Marajó ficar. Abriram um mercadinho. Um dia, ratos d’água tentam assaltar sua vendinha. Contudo, o conhecimento prévio como militar, possibilita que Manoel Tourinhos se defensa e consiga não apenas evitar o assalta, como também matar um dos assaltantes. Como vingança, os demais criminosos matam e esquartejam sua esposa diante dos seus olhos. A partir de disso, Manoel Tourinhos envereda em uma busca por vingança que sejam banhada em sangue.

“Na minha região, que é de muita capilaridade, os rios são as ruas. As pessoas trafegam em navios grandes, navios pequenos. E esses ratos d’água atacam não só as grandes balsas, mas, também, sobretudo as pessoas. Eles são muito violentos. Eles usam a violência como uma expressão de força. Eles machucam as pessoas. Eles estupram as mulheres na frente dos cônjuges pra que todos vejam a violência deles. A lei quase não chega ali e é determinada pelo mais forte. O arquipélago do Marajó tem quase cem ilhas. É uma área que não tem muitos recursos, não tem lanchas disponíveis, não tem pessoal disponível” (Em entrevista para a Vice)

… mais um pouco…

Há ainda um terceiro núcleo, que desenvolve-se a partir do de Manoel Tourinhos. Graças a sua vingança, ele acaba por matar o líder de uma quadrilha de ratos d’água. Assim, o filho desse líder, Préa, assume os negócios de seu pai. A história passa, então, a contar a história desse jovem bandido, que irá conhecer as entranhas políticas do crime paraense e, ainda, cometerá e sofrerá muita violência.

… e se desenrola

Em diversas entrevistas que li e ouvi com Edyr Augusto, ele conta que não planeja sua trama, não sabe onda as coisas podem e vão acabar. Apenas transborda, deixa que as coisas aconteçam. Talvez por isso seja interessante ver como essas três tramas vão, pouco a pouco, se interligando, fazendo as coisas fazerem cada vez mais sentido.

Um interessante comentário que li acerca dos personagens de Edyr Augusto vem de ninguém menos que o diretor Fernando Meirelles (Cidade de Deus, 2002; Ensaio sobre a cegueira, 2008; Dois Papas, 2019). Em entrevista ao blog da Boitempo Editorial, ele diz:

“Os personagens parecem decidir seus próprios caminhos à revelia do escritor, é como se fizessem o que têm urgência de fazer e ao autor só restasse correr atrás tomando nota apressado do que é possível”

Porque ler Pssica

Houve dois comentários fundamentais para me convencer a ler esse livro. O primeiro foi o vídeo do canal Livrada, que destaca a violência sobre a qual comentei no início desse texto. O segundo foi a menção na lista “Dez livros da década que passou” em uma das edições da newsletter Dentes Guardados, do escritor Daniel Galera. Ele escreveu o seguinte comentário.

“[…] a encarnação mais sucinta e perfeita do clichê “narrativa vertiginosa”, um trem descarrilhado de assombro e violência no norte profundo do país”

Gostaria, ainda, de destacar uma outra curiosidade sobre o livro. Na supracitada entrevista na Vice, Edyr Augusto explica o significado do título do livro, que é talvez uma das chaves interpretativas da narrativa.Ele diz:

“Vem do nheegatu, um idioma dos índios. Falamos muito em Belém quando se quer desejar azar para alguém. Você deseja uma psica pra pessoa. Quando um jogador vai cobrar um pênalti contra o seu time e você quer que ele erre, você fala: “Psica, psica, psica, psica”. Por isso, coloquei os dois “s”, porque tem um sibilar na pronúncia. Em dado momento do livro, um dos personagens diz: “Poxa, parece que jogaram uma psica em cima de mim porque as coisas não estão dando certo”. É uma palavra que decidi colocar como provocação. Uma palavra que soa interessante, melódica”

Muito além da violência

Apesar de toda violência, de toda sangue que escorre pelas 96 páginas de “Pssica”, há muita beleza em certos momentos da trama. Seja nas curtas descrições de violência, seja nas curtas descrições das contradições dos personagens, ou ainda nos momentos de “bondade” que volta e meia saltam discretamente na trama, nos lembrando sempre que nem tudo é desgraça, morte, tristeza etc. Talvez, ainda que inconscientemente, o próprio Edyr Augusto soubesse disso, pois ao responder sobre como conseguia dormir após escrever sobre acontecimentos tão trágicos, desesperadores, assustadores, ele disse:

“Respondi que dormia muito bem e feliz, não pelos acontecimentos em si, mas por ter conseguido o melhor resultado possível, segundo meu julgamento” (Entrevista ao jornal Rascunho)

O melhor resultado talvez tenha a vez com a possibilidade de denunciar a absurda violência a qual o povo é submetido pelo estado quase ausente daquela região. Outra possibilidade é que o melhor resultado seja o texto conciso de que tanto falei e que me deixa tão deslumbrado com esse romance. Mas quero mesmo acreditar que o melhor resultado é nos lembrar que no meio de tanta violência, mortes, desgraças, tristezas e tragédias, ainda há os tais lampejos de “bondade” da espécie humana. Acho que precisamos deles, precisamos lembrar, viver e praticar. Só assim podemos melhor mesmo que minimamente nossa catastrófica situação.

LAVEM AS MÃOS. FIQUEM EM CASA SE PUDEREM. COBREM MEDIDAS DOS PREFEITOS E GOVERNADORES DO ESTADO ONDE VOCÊS VIVEM. E SE CUIDEM.

Nota

Cinco selos cabulosos. A maior nota do site.
Cinco selos cabulosos. A maior nota do site.

 

 

 

 

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Ficha técnica

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Nome: Pssica
Autor: Edyr Augusto
Editora: Boitempo Editorial & Samauma Editorial
Ano: 2015
Páginas: 96
ISBN: 9788575594469
Sinopse: Uma adolescente é raptada no centro de Belém do Pará e vendida como escrava branca para casas de show e prostituição em Caiena. Um imigrante angolano vai parar em Curralinho, no Marajó, onde monta uma pequena mercearia, que é atacada por ratos d’água (ladrões que roubam mercadorias das embarcações, os piratas da Amazônia) e, em seguida, entra em uma busca frenética para vingar a esposa assassinada. Entre os assaltantes está um garoto que logo assumirá a chefia do grupo. Esses três personagens se encontram em Breves, outra cidade do Marajó, e depois voltam a estar próximos em Caiena, capital da Guiana Francesa, em uma vertiginosa jornada de sexo, roubo, garimpo, drogas e assassinatos.