As estrelas sob nossos pés – David Barclay Moore

0
Recorte da capa do livro. Ilustração de umm céu azul noturno e estrelado no fundo. No centro, o nome do autor no topo; o título: "As estrelas sob nossos pés", em branco no centro; na base, o texto: "Do vencedor do prêmio Coretta Scott King Honor". Nas laterais da imagem prédios escondidos na sombra representando so dois lados de uma rua.

A arte é uma ferramenta poderosa de transformação, especialmente em momentos sombrios — pessoais ou coletivos. Ela liberta o pensamento e constrói pontes onde, muitas vezes, não há nada senão descaso e tristeza. E o livro As estrelas sob nossos pés, de David Barclay Moore, explora esse tema de forma muito especial.

Lançada pela Editora Plataforma 21 com tradução de Stephanie Borges, a obra conta a história de Lolly Rachpaul, menino de 12 anos morador do Harlem, bairro de Nova York típico de negros e latinos. Ele passa por um período conturbado com a dificuldade de lidar com a morte do irmão mais velho, Jermaine, assassinado com um tiro.

Um dos destaques da obra, logo de início, é a ambientação. Todos os detalhes são muito bem pensados para dar veracidade à história, especialmente a linguagem, que é adequada à narração em primeira pessoa de um menino de 12 anos. Há também a presença de gírias e dos costumes da família do protagonista que é oriunda de Trinidad e Tobago.

Casa bem com a trama o bairro onde a história acontece. Toda a narrativa gira em torno do luto e de como seguir em frente depois de uma perda. E, além de lidar com a falta do irmão e a culpa que sente pela morte de Jermaine (a qual é explicada ao longo da narrativa), Lolly está inserido em uma realidade de violência que exige dele fazer escolhas sobre o que espera de seu futuro. São questões pesadas e complexas que não deveriam fazer parte da vida de um menino, mas sabemos que a realidade não é a ideal para todas as pessoas.

Construção de um novo caminho

Uma das belezas de As estrelas sob nossos pés é a forma sutil e poética com que entrega as mensagens. Haveria muitas formas de contar a trajetória de Lolly em busca da superação do luto e a luta para ter um destino diferente do irmão, e o autor fez da forma mais especial possível: usou a arte das palavras para exaltar a arte da escultura. Uma metalinguagem que dá ainda mais sabor à narrativa.

Lolly é apaixonado por Lego, e essa paixão permeia toda a narrativa. Ao mesmo tempo em que constrói Harmonee, sua cidade imaginária, começa a pavimentar um novo caminho para si e passa a enxergar o mundo com um olhar diferenciado, que oferece novas possibilidades e, até mesmo, novas amizades. O que começa como um exercício terapêutico para lidar com o luto, ganha contornos ainda mais profundos quando começamos a entender de onde vem esse interesse e para onde ele pode levá-lo.

Ao longo da leitura, fica a sensação de que cada capítulo é uma peça a mais encaixada por Lolly — literal e figurativamente. Por conta disso, no meio do livro a narrativa perde o ritmo e parece que se passam várias páginas sem que nada aconteça. Isso quebra um pouco a experiência de leitura, mas, no final, o fôlego é retomado e a história tem um lindo desfecho.

Assim como a construção com o Lego, o protagonista, um pouco de cada vez, vai construindo sua estrada e se encaminhando para que acha ser o correto para si. É notável o amadurecimento dele. E, nesse processo, os laços de amizade são essenciais. Por mais que cada um tenha sua trajetória para dar conta, fica mais fácil quando se caminha lado a lado.

Representatividade

Outro ponto positivo do livro é a diversidade dos personagens. Lolly é um menino negro, sua família é de imigrantes e a mãe dele tem uma namorada. Esses são elementos colocados na narrativa de forma muito natural, e só acrescentam qualidade e profundidade à narrativa.

Os personagens são muito bem construídos e tridimensionais. Mesmo com a narrativa focada na história de Lolly, há vislumbres dos conflitos de outros personagens, o que só enriquece ainda mais a trama.

No fim das contas, a grande temática de As estrelas sob nossos pés é o poder de escolha e como é preciso lutar para construir um futuro que vai além do que se espera, especialmente quando o que a sociedade oferece é um cenário de pobreza e violência para as minorias. Nesse processo, a arte é uma grande aliada. E é sempre bom lembrar: vidas negras importam.

Nota

4 selos cabulosos

Garanta seu As Estrelas Sob Nossos Pés no link abaixo e boa leitura!

logo da “amazon” em preto num fundo amarelo

Ficha Técnica

Capa do livro As estrelas sob nossos pésNão esqueça de adicionar ao seu Skoob

Nome: As estrelas sob nossos pés
Autor: David Barclay Moore
Tradução: Stephanie Borges
Edição:
Editora: Plataforma 21
Ano: 2018
Páginas: 318
ISBN: 9788592783754
Sinopse: Há um abismo na alma de Lolly Rachpaul. Aos doze anos, raiva e tristeza são tudo o que o garoto consegue sentir. Costumava ser diferente antes, quando Jermaine ainda estava por aqui. Mas, desde aquele tiro que silenciou a vida de seu irmão mais velho, Lolly deixou de ser uma criança alegre. Aliás, no Harlem – um bairro típico de negros e latinos em Nova Iorque – a infância passa tão acelerada quanto uma bala. Se não estiver atento o bastante, as ruas e suas gangues te engolem.

Vivenciando o luto em tempos de ódio, como preencher as partes que ficaram faltando dentro de si? Para Lolly, a resposta pode estar em Harmonee – a cidade imaginária que está construindo com as peças de Lego que ganhou de presente da namorada de sua mãe. A arte do garoto será sua forma de resistência à crueza do mundo, e uma ponte que sustenta novas e antigas amizades.

As estrelas sob nossos pés dá voz a personagens que são pouco retratos, e que tanto precisamos ouvir: jovens pobres, expostos à desigualdade, ao preconceito e à violência desde muito cedo. Diante do luto e da luta de Lolly para ter um destino diferente do irmão, devemos ouvir e valorizar uma verdade que jamais poderemos esquecer: Vidas negras importam.