A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector

Recorte da capa do livro. Ao fundo, algumas dunas e uma construção no estilo árabe. Em primeiro plano, o nome da autora em vermelho em letra de mão. Abaixo, o titulo do livro.
Publicado em 1964, A Paixão Segundo G.H.  anuncia desde o título que se aproxima do contexto bíblico. Portanto, vai revelar algo sagrado, por meio de um Visão de algo maior, algo incompreensível aos olhos comuns. Algo como a vida cotidiana, o seu eu interior e quem realmente somos.

A Paixão Segundo G.H.

G.H. é uma mulher de valores morais fortes, porém cansada da mesmice. É assim que somos apresentados à personagem principal (e que também dá nome ao livro).

O questionamento do que ela é ou não encontra-se muito presente nas diversas comparações com lugares sagrados, como o minarete, e com citações da Bíblia, como quando ela fala que limpará a casa por 6 dias e descansará no sétimo. Isso dá à trama um ar de místico, como se G.H. a todo momento tentasse explicar a vida e suas coisas através de comparações sagradas, transformando cada momento em réplicas de acontecimentos passados.

Logo no começo somos transportados para o quarto da empregada Janair, uma mulher negra que, segundo G.H., era bela e sua beleza e presença a lembravam uma rainha africana. Ao entrar no quarto de Janair, a personagem principal encontra quase um mundo paralelo ao seu: um quarto simples e branco, que destoava completamente de sua casa delicada e minuciosamente decorada. Ela, logo ao entrar, sente que aquele cômodo não faz parte de sua casa, e isso a sufoca. O fato de não ter tido controle daquele lugar a sufoca, pois G.H. não suporta que o mundo destoe daquilo que ela acredita.

Para a sua surpresa, ela encontra em uma das paredes três figuras desenhadas: a de um homem, de uma mulher e de um cachorro, e após passar minutos analisando aquele enorme desenho feito com carvão pela antiga empregada, chega à conclusão que a mesma retratou-a ali, como um modo de expressar o quanto odiava a patroa. Um ódio, segundo ela, sendo o pior de todos: o da indiferença, como se ela desprezasse tudo o que G.H. fosse e acreditasse.

Visto isso, ela chega à conclusão de que a solução seria lavar aquele quarto de cima a baixo, incluindo a cama empoeirada e o guarda-roupa desgastado. Porém, ao abrir o guarda-roupa, ela tem uma surpresa desagradável que será crucial para o desenrolar do resto da história. Algo que, por mais banal que pareça, tem o poder de mudar o interior da personagem: uma barata.

Do inseto à reflexão

Para ela, aquela não é simplesmente uma barata: é o estopim para uma reflexão sobre o que é ser humano e qual é o nosso papel aqui. Contudo, esta parte da história só se inicia após o fatídico acontecimento: a morte da barata, e até este momento, G.H. permanece estarrecida com o desconforto que aquele cômoda causa nela.

Com isto, G.H. começa a refletir, numa sincronia que por muitas vezes nos remete à paixão de Cristo, sobre até onde iria sua humanidade e a partir de qual momento ela acabava, dando uma visão quase que sagrada aos acontecimentos de sua vida e de tudo ao seu redor. A morte da barata, portanto, se torna a chave mestra para reflexões profundas sobre o nosso papel na nossa vida e na vida de todos ao nosso redor. Inclusive o papel de G.H. na decisão de cessar a vida do inseto em questão.

Mas, qual seria o ponto crucial onde G.H. definitivamente se dá conta de que abandonou toda a sua humanidade e a construção que a fez uma mulher?

O ponto crucial vem logo após a morte do inseto. É a parte mais desesperadora e inumana da história: quando a personagem consome do interior da barata que está escorrendo pela porta do guarda-roupa.

A partir deste acontecimento, G.H. transcende, transmuta o que é ser humano e o que nos faz reais, e ela começa a se questionar sobre o que é moral e o que é estar próximo a Deus, criando um paralelo entre a sua vida e a vida daquilo que é considerado divino, enquanto ao mesmo tempo conversa com o leitor para também colocá-lo em reflexão sobre o seu papel no mundo.

Mas, afinal, o que é A Paixão Segundo G.H.?

Este livro é, acima de tudo, interpretativo. Seu significado e importância se darão unicamente através da experiência de vida do leitor. Você pode compreender tudo, parte, ou simplesmente nada, e, mesmo assim, mesmo se for nada, terá entendido aquilo que G.H. entendeu: que a vida se me é, e eu não entendo o que digo.

Sobre a autora

Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva, buscava exprimir, através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise.

De origem judaica, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector, a família de Clarice sofreu perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918 a 1921. Seu nascimento ocorreu em Chechelnyk, enquanto percorriam várias aldeias da Ucrânia antes da viagem de emigração ao continente americano. Chegou no Brasil quando tinha dois anos de idade.

A família chegou a Maceió em março de 1922, sendo recebida por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin. Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania – irmã, todos mudaram de nome: o pai passou a se chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia – irmã, Elisa; e Chaya, Clarice. Pedro passou a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante.
Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância. Falava vários idiomas, entre eles o francês e inglês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno, o iídiche.

Foi hospitalizada pouco tempo depois da publicação do romance A Hora da Estrela com câncer inoperável no ovário, diagnóstico desconhecido por ela. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário. Foi sepultada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1977.

Nota

5 selos cabulosos

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Ficha Técnica

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Nome: A Paixão Segundo G.H.
Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Ano: 2009
Páginas: 180
ISBN: 9788532508096
Sinopse: Considerado por muitos o grande livro de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. tem um enredo banal. Depois de despedir a empregada, uma mulher vai fazer uma faxina no quarto de serviço. Mal começa a limpeza, depara com uma barata. Tomada pelo nojo, ela esmaga o inseto contra a porta de um armário.

Depois, numa espécie bárbara de ascese, decide provar da barata morta. Ao esmagar a barata, e depois degustar seu interior branco, operou-se em G.H. uma revelação. O inseto a apanhou em meio a sua rotina “civilizada”, entre os filhos, afazeres domésticos e contas a pagar, e a lançou para fora do humano, deixando-a na borda do coração selvagem da vida. Esse desejo de encontrar o que resta do homem quando a linguagem se esgota move, desde o início, a literatura de Clarice.

Mesmo sem ser um livro de inspiração religiosa, G.H. tem, ainda, um aspecto epifânico. Ao degustar a pasta branca que escorre da barata morta, a protagonista comunga com o real e ali o divino – a força impessoal que nos move – se manifesta. E só depois desse ato, que desarruma toda a visão civilizada, G.H. pode enfim se reconstruir. O escritor argentino Ricardo Piglia disse certa vez que toda a literatura pode ser reduzida a dois gêneros fundamentais: as narrativas de amor e as narrativas de mistério.

Em G.H., essas duas claves básicas da ficção se entrelaçam. Pois é justamente a mistura letal de amor e mistério que chamamos de paixão (José Castello – jornalista, escritor e mestre em Comunicação).