O Visconde Partido ao Meio – Italo Calvino

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Recorte da capa do livro. Fundo amarelo, um retangulo em amarelo mais esculo, com o texto: "CALVINO, Italo. O visconde partido ao meio. Companhia das Letras, 1996. Iª ed. [Il visconte dimezzato, 1952] Tradução: Nilson Moulin"

O que um visconde partido ao meio, um cavaleiro inexistente e um barão que só vive no topo das árvores tem em comum? A resposta é a narrativa fabulosa de Ítalo Calvino.

Fabulosa no sentido mais literal da palavra, de fábula mesmo, onde uma alegoria fantasiosa é usada para apresentar uma moral. A diferença é que Calvino não usa animais falantes. Tão pouco sua moral é óbvia e clara para todos. Ele usa de metáforas como um visconde que foi partido ao meio e agora tem o lado esquerdo andando por aí sendo absolutamente bom e o lado direito absolutamente mesquinho; ou um cavaleiro nobre e admirado por todos, que é puro intelecto, mas sem corpo… literalmente! Ou o pequeno barão que um belo dia sobe nas árvores para fugir da irmã chata e acaba passando o resto de sua vida lá, abraçando e fugindo do mundo ao mesmo tempo; para falar sobre as principais questões vividas pelo homem pós-moderno.

Uma melancolia binária

O Visconde Partido ao Meio faz parte da trilogia Nossos Antepassados, escrita anos 50, durante a reconstrução da Itália pós Segunda Guerra Mundial. Calvino, como muitos de seus contemporâneos na época, fazia parte da resistência antifascista durante a guerra. Após os conflitos, se vê deixando a juventude e entrando na vida adulta de fato e tendo que lidar com as duras verdades de seu idealismo político perante o Partido Comunista. Os três livros são lançados entre 1952 e 1959, enquanto Ítalo embarcava lá nos seus 30 anos e (muito provavelmente) se perguntava sobre a natureza do homem dividido em um mundo binário, sobre qual era o papel da intelectualidade nesse novo mundo e, especialmente, sobre o que significaria viver nessa nova sociedade construída após meio século de atrocidades.

O poder do riso

Tudo isso permeia seus textos, mas não de maneira chata ou hiper política. Ao contrário. Calvino sempre foi grande defensor da diversão acima de tudo quando se trata de contar histórias. “Penso que o divertimento seja uma coisa séria”, diz ele em uma carta, “creio que divertir seja uma função social, correspondente à minha moral; penso sempre no leitor que deve absorver todas essas páginas, é preciso que ele se divirta”.

Italo acaba então por escrever pseudo fábulas para adultos, usando de um realismo mágico ou fantástico para imaginar um mundo além do real; um mundo onde existe a possibilidade de se ser partido ao meio, todo bom ou todo ruim, para então explorar a impossível dualidade da alma humana, o medo e o moralismo burguês, a alienação e a repressão. Especialmente a ética onde fazer o bem às vezes pode querer dizer ferir outros, ou fazer o mal faz parte do dia a dia de qualquer ser humano, em algum nível.

Vivendo no mundo da fantasia

Em O Visconde Partido ao Meio, o autor cria personagens profundamente humanos, onde o filho da comunidade hiper religiosa é um pequeno ladrão trapaceiro, cujo maior sonho é cometer todos os pecados possíveis (menos matar, porque matar não lhe convém), mas que ao mesmo tempo é ridiculamente honesto com seu melhor amigo, dizendo “não desanime, sabe, eu trapaceio” após ganhar desonestamente no jogo de dados. Ou o carpinteiro Pedroprego que cria obras de arte e engenharia incríveis, todas usadas para morte e tortura, e que se pergunta se só é capaz de criar coisas belas se elas forem usadas para o mal.

Por fim, temos o próprio Visconde, que ao ser mesquinho é a figura mais cativante e hilária da história. Ao passo que, ao ser bom, é tão inconsequentemente bom que dá sua bengala ao leproso sem questionar a situação e o homem imediatamente a usa para bater na mulher enquanto o próprio visconde segue mancando por aí, se sentindo o mais justo entre os homens.

Veredito

Ao misturar a linguagem fantástica de Jorge Luis Borges, com o comentário politico social de Orwell, com uma estética cinemática maravilhosa (que hoje em dia podemos comparar ao Tim Burton em seu auge, ou até mesmo a Wes Anderson em seus aspectos mais fantasiosos), Italo Calvino acaba criando um curto texto sarcástico, divertido, honesto e, acima de tudo, profundo.

Profundo porque tem camadas de leitura. Ele pode se destrinchado desde sua moral mais óbvia e fabulesca, até à mais profunda análise pós-freudiana, pós-moderna, pós-marxista possível. Não é a toa que Calvino e suas Cidades Invisíveis inspiraram tantos artistas plásticos. Não é a toa que ele foi capaz de inspirar uma jovem de 14 anos, 50 anos mais tarde e à um oceano de distância, à descobrir o tipo de histórias que ela gostava e que queria contar. Aquelas onde o mundo é o nosso mundo mesmo, mas existe um quê a mais de ficção e magia nele.

Calvino pode não ser o pai do realismo mágico (temos os latino-americanos a agradecer por isso), mas foi o primeiro autor a despertar esse gosto em mim, justamente por usar de uma linguagem bem humorada, acessível e não rebuscada para pintar um complexo quadro de figuras surreais, mas que no fundo são profundamente humanas.

Nota

5 selos cabulosos

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Ficha Técnica

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Nome: O visconde partido ao meio
Autor: Italo Calvino
Tradução: Nilson Moulin
Edição: 2a edição
Ano: 1996 (1a ed)
Páginas: 100
ISBN: 85-7164-617-1
Sinopse: O visconde Medardo di Terralba, em temerária arremetida contra a ímpia artilharia de turcos, leva um tiro de canhão no peito. O destemido mas inexperiente defensor da cristandade sofre sérias avarias, sobrando-lhe apenas uma metade do corpo, felizmente intacta. Graças ao entusiasmo dos médicos que o socorrem, Medardo sobrevive, embora partido ao meio. À mutilação física do senhor de Terralba seguem-se consequências indesejáveis em seu comportamento, causando grandes desgostos aos moradores de seus domínios. Mas quando os camponeses já estavam se acostumando às idiossincrastias do visconde, eis que ressurge a outra metade, para grande confusão e maior transtorno geral. Se meio visconde já incomodava tanta gente, o que dizer de duas metades contraitórias de Medardo di Terralba?