Formas do Nada – Paulo Henriques Britto

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Capa do livro. um fundo azul, com alguns traços grossos de cor preta, em coluna à esquerda. Em primeiro plano, o titulo: Formas do Nada, e o texto: "Poemas", na linha de baixo o nome do autor: "Paulo Henriques Britto", sobre um fundo branco.

Consagrado como um dos maiores poetas brasileiros em vida, bem como um dos maiores tradutores, Paulo Henriques Britto tem uma sólida obra literária. Publicou diversos livros de poemas e alguns volumes de contos e até mesmo ganhou Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2004. Além disso, é professor de literatura e tradução na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde se graduou e concluiu seu mestrado. Mais tarde, recebeu o título de notório saber, que é um reconhecimento necessário para que seja possível dar aulas na graduação e pós-graduação sem ter doutorado. Também traduziu grandes nomes, como Philiph Roth, Thomas Pynchon, Elizabeth Bishop, Henry James.

Para os leitores de poesia mais interessados em poemas mais formulescos, com métricas e rimas bem definidas, Formas do Nada será um prato cheio. O uso de formas rígidas contrasta com uma linguagem e temas muito coloquiais, descreveria como um formalismo-pé-descalço (talvez tenha ouvido isso em algum entrevista, vale ver essa).

Formas poéticas consagradas sofrem pequenas subversões, por exemplo sonetos com frases cortadas interrompidas no fim do verso. Pelo domínio da língua inglesa, Paulo Henriques Britto arrisca introduzir uns poucos poemas nela em seu livro, o que é interessante tanto pela sonoridade quanto pelos sentidos possibilitados por este idioma. Existe uma indeterminação semântica dos versos, de forma que são entregues ao leitor como se pare serem manuseadas em todas as direções, rumo a um inesgotável poço de sentidos. A batida forte dos seus poemas, diferente do comum, não parece estar disposta ao diálogo. É quase uma reclamação, uma declação. It is a claim.

OPINIÃO

Pela característica profundamente polissêmica dos seus poemas, as possíveis reflexões não nos parecem apontar direção alguma. Parece-me que o carácter do livro, descrito no título, é de nos levar a nada concluir. Há um toque de ironia e pessimismo na maneira como as situações são vistas e descritas, o que é até certo ponto divertido. É meio niilista, eu diria. Como Paulo Henriques Britto escreve no penúltimo poema do livro, “a coisa não tem jeito./ Nem nunca teve, aliás; Desde o início.” É como se todo o esforço através da construção poética, no fim das contas, não levasse a nada. Afinal, nada tem sentido…

Para mim, enquanto leitor de poesia mais comumente dedicado ao verso livre, senti uma certa resistência ao estilo do autor no início. Considerava métrica e rima um esforço vazio para uma forma esgotada e arrogante. Argumentaria que deveríamos é superá-las. Mas descobri, graças ao Paulo Henriques Britto, que, diferente da minha ideia inicial, não há necessariamente uma alegação de grandeza em um poema formal. Na verdade, a formalidade necessária a poesia está presente em todo grande poema. Em “Formas do nada” não é diferente. Contudo, a maneira como o autor equilibra formalidade e coloquialidade é, talvez, o grande valor do livro. Temas cotidianos, formas consagradas. uma pitada de pessimismo é a receita das Formas do nada.

NOTA

3 selos cabulosos e meio

Nome: Formas do nada
Autor: Paulo Henriques Britto
Edição:
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2012
Páginas: 80
ISBN: 9788535920536
Sinopse: Desde o título, Formas do nada não deixa dúvida sobre o jeito de Paulo Henriques Britto praticar a poesia. O som aberto e incisivo dos “as” e a batida firme e séria do ritmo anunciam a pegada combativa de quem não está para contemplações ou devaneios. Sofisticado em seu uso da rima e da métrica, o poeta faz exercícios para melhor estourar a forma clássica: “A realidade é um calhamaço insuportável?/ Tragam-me então resumos./ A vida que se leva é um filme inassistível?/ Vejamos só os anúncios.// São os limites do corpo intrusões malignas/ de um demiurgo escroto?/ O corpo não é preciso, e o espírito é impreciso:/ eu não é um nem outro”. A inteligência busca o sentido das coisas e quase teme não encontrar nenhum. “Quase” porque o temor se transforma em força e desafio diante do ilimitado: o poeta, que se vê frágil e irredutível, trata de organizar o mundo com sua voz, com a qual captura o que talvez viva na sensação de vazio e sem sentido. A poesia de Paulo Henriques Britto, permeada pelo humor irônico de quem quase não se permite ter esperança, opera uma prestidigitação impecável e engana o leitor: diz produzir “sofríveis simulacros de sentido”, mas na verdade produz vida palpável e sonora.