Macunaíma – Mário de Andrade

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Recorte da capa do livro. Um desenho quase abstrato, com um fundo rosa e uma área verde semelhante a uma planta, na frente uma faixa vermelha em ondas.

Publicado em 1928, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter é, por alguns, considerado o romance modernista de maior expressão. Neste livro, a narrativa fantástica e a realista caminham lado a lado. O livro narra desde o estranho nascimento até a morte do herói, cujo nome estampa a capa, que ao longo do livro abandona sua pequena aldeia indígena para se aventurar na desconhecida e perigosa cidade metropolitana de São Paulo. Entre alguns dos acontecimentos mais memoráveis do livro, temos:

        • Macunaíma se envolver sexualmente com esposa do seu irmão;
        • Se deparar e fugir do Curupira;
        • Se lavar em uma poça onde deixa de ser negro para se tornar um (príncipe, segundo as palavras do livro) branco;
        • Fazer macumba contra seu inimigo (o Gigante);
        • Enfrentar e derrotar o Mapinguari.

Faço menção a esses acontecimentos polêmicos, pois, na época em que foi publicado, Macunaíma foi recebido de maneira nada agradável pelo conservadorismo reinante na época (bem como aconteceu com os demais modernistas). Temáticas sexuais, culturais e raciais trespassam o livro, como acontece com poucos da época, e por isso é considerado uma publicação tão polêmica. A ousadia de Mário de Andrade, inclusive, não está restrita somente aos temas que trata em sua obra, mas também na escolha do registro, da linguagem, que, para além da coloquialidade, também abarca termos indígenas, ditos populares, gírias da época e neologismos (algo também nada comum para época, nem mesmo para hoje em dia e, talvez, alguns leitores tenham a impressão de ser uma linguagem inverossímil, cartunesca, teatral, e é tudo verdade). A dimensão inventiva de Macunaíma é o que o faz um dos maiores romances da literatura brasileira.

Experiência de leitura

Durante o último ano do ensino médio, meu professor de língua portuguesa trabalhou o filme Macunaíma (1969), produzido durante o período da ditadura militar de 64. Esse detalhe histórico faz com que a adaptação do livro homônimo, escrito por Mário de Andrade, seja a peça de humor escrachado de maior sutileza que já vi. Assistir e debater esse filme me motivou a ler o livro e ainda acredito que adaptações possam estimular a leitura da obra original, como aconteceu comigo. Então, talvez seja um bom passo começar por elas.

Macunaíma tem por mérito a satirização da procura de um herói nacional, que abarcasse características tipicamente brasileiras. Mário de Andrade escolheu as piores, conscientemente, e, apesar do grande trabalho de exposição da diversidade cultural do nosso país (que é, ainda assim, incompleta, insatisfatória, mas, imagino, ter sido o melhor que ele pôde fazer), seu principal objetivo foi o de desvirtuar a figura de um suposto herói nacional.

É um livro crítico em todos os aspectos, desde os temas tabus até mesmo a linguagem e os personagens. Certos capítulos, como o famoso “Carta pras icamiabas”, o autor mete o dedo tão fundo na ferida de alguns, que o leitor pode sentir a dor em si mesmo. No trecho a que me refiro, nosso herói de origem indígena tece uma longa crítica à linguagem oral e a linguagem escrita do português brasileiro são diferentes, sendo a escrita propositalmente pomposa, enfeitada, talvez, como sugerido, pela procura de uma (inexistente, quem sabe?) erudição daquele que escreve.

Como dito antes, a linguagem coloquial que é constante durante todo livro, foi rechaçada por parte da crítica da época. Esses mesmos ficaram exaltados pelas perversões presentes no romance, que são (apesar de veladas) grande coisa para época e nem tanto para os dias atuais (ou não, já que temos uma onda conservadora).

Macunaíma e as contradições da literatura

Imagino que a literatura, ainda hoje, seja exigida demais por um certo conservadorismos dos seus leitores (principalmente os que se consideram eruditos e acabam por ser tolos elitistas). Por estes, as transgressões não serão, imagino, bem vistas (sejam ou não transgressões válidas, pois não se trata de fazer juízo de valor dos limites de um texto). O fato é que a literatura não costuma se acovardar perante a crítica e acredito que ela siga assim, ainda mais nos tempos que temos vividos.

Aqui nosso herói não tem caráter, pode ser lido como antiético e imoral, mas também pode ser lido como indignado e revolucionário. Como todo bom livro, é extremamente polissêmico e infinitas leituras podem ser feitas. Mas, reitero, na minha opinião, o legado de Macunaíma é contra os heróis nacionais, contra os salvadores puritanos que a elite tem buscado há tempos e que jamais encontrará.

Nota

5 selos cabulosos

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Ficha Técnica

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Nome: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter
Autor: Mário de Andrade
Edição:
Editora: Penguin Companhia
Ano: 2016
Páginas: 240
ISBN: 9788582850411

Sinopse: Mário de Andrade publicou Macunaíma em 1928. O livro foi um acontecimento. Debochado e intensamente brasileiro – ainda que muito pouco ou nada nacionalista -, este romance é ainda hoje um dos textos fundamentais do nosso Modernismo. E continua a influenciar as mais diversas manifestações artísticas. Nascido nas profundezas da Amazônia, o herói de Mário de Andrade é cheio de contradições – assim como o país que lhe serve de berço. É adoravelmente mentiroso, safado, preguiçoso e boca-suja. Suas peripécias vêm embaladas numa linguagem rapsódica e inventiva, um marco das pesquisas de seu autor em torno de uma identidade linguística brasileira.