Black Hole – Charles Burns

Recorte da capa da HQ. Desenho em preto e branco, com o fundo em preto, parte do rosto de uma pessoa de cabelos curtos e mostrando os dentes. Plantas ocupam as laterais da imagem. Em primeiro plano uma faixa vermelha horizontal atravessa a imagem, nela está, em branco, o logo da DarkSide Books, o título "Black Hole" e o nome do autor. A faixa cobre os olhos do personagem da imagem.

As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) muitas vezes estão escondidas dentro do corpo, esperando para serem descobertas e ocultadas pela sociedade. E se DST gerassem uma mutação? Uma marca evidente no corpo. Esse é o panorama da HQ Black Hole, obra premiada do artista Charles Burns.

Mergulhar ou não mergulhar?

Temos como cenário uma cidade típica do interior dos Estados Unidos e o que sobrou da era Hippie se tornou o meio cultural de muitos jovens em um colégio. Em um primeiro momento, pensei que a obra tivesse como alvo adolescentes, um publico que sempre está a procura de uma identidade. Mas como conseguir identidade mergulhado em insegurança e medo? Depois que me fiz essa pergunta durante a leitura percebi que o “Buraco Negro” (Black Hole) pode ser visitado por qualquer um.

Viver um amor, fugir da solidão, tentar apagar a carência ou medo marcam os personagens dessa obra. Temos Rob, Keith, Eliza e a Cris. De todos esses personagens quem mais me marcou foi a Cris. Você sente a personagem viva. O autor fez um trabalho minucioso em mostrar como essa adolescente está perdida. Ele acha um caminho; um trajeto que a ingenuidade da adolescência acredita que resolve tudo. O autor é delicado, preciso e escolhe momentos-chave no decorrer da obra em que Cris simplesmente confessa o que há dentro de si. O seu choro e suas palavras pesam e a ligação se torna forte com o leitor.

Querer ler mais de uma vez

Engraçado, sinto que o ideal seria ler essa HQ quatro vezes. Uma com olhar totalmente em Cris, outro em Rob, depois Keith e por fim Eliza. Cada um deles é muito humano/quebrado e é difícil mergulhar em todos eles de uma vez só. E esses garotos e garotas estão cercados pelo o quê? Volto a citar a mutação sexualmente transmitida que pode ser descrita com uma única palavra: bizarro. Para mim, o bizarro estava sempre atrelado a um monstro que tem escamas dos pés a cabeça, com o rosto desfigurado, cortes pelo corpo e tudo mais. Charles Burns faz diferente. O autor precisa somente de um detalhe para gerar desconforto. A HQ sabe conduzir o leitor e o artista aos poucos faz o bizarro se tornar comum, corriqueiro… até o momento que ele te choca novamente.

Além dos quadros

Características técnicas também devem ser elogiadas. O traço carrega personalidade e combina com toda a atmosfera sinistra, há uma narração em primeira pessoa que te aproxima da obra e os diálogos transmitem muito mais do que palavras. Sempre quando penso em cenário a primeira imagem que vem na minha cabeça é de algo grande. Charles Burns não segue por esse caminho e cria cenários cheios de significado dentro de uma barraca ou em um canto próximo de uma janela.

Fui sugado para esse Buraco Negro e vou aproveitar para fazer um relato pessoal. Muitas atitudes de alguns personagem são impensadas e a minha cabeça julgou:

“Que irresponsável”.

Fui conduzido, fui sugado, senti a dor dos personagens, notei o contexto social e refleti:

“Quando eu era adolescente, não pensei em fazer o mesmo?”

Como adolescentes quebrados, uma mutação que exemplifica o bizarro e uma atmosfera sinistra formam uma HQ premiada que demorou 10 anos para ser concluída?

Leia, obtenha a resposta.

Nota

5 selos cabulosos

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logo da “amazon” em preto num fundo amarelo

Ficha Técnica

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Autor: Charles Burns
Tradução: Daniel Pellizzari
Edição:
Editora: DarkSide Books
Ano: 2017
Páginas: 368
ISBN: 9788594540515
Sinopse: Terror existencialista em preto e branco.
Vencedor do Eisner Award de Melhor Álbum de 2006 e de nada menos que nove Harvey Awards e outros dois Ignatz Awards, além do prêmio Les Essentiels d’Angoulême (2007), Black Hole é a mais importante graphic novel de Charles Burns. Publicada de forma seriada durante uma década, foi reunida em 2005 para aclamação mundial e reforçou o lugar do artista como o mestre dos quadrinhos independentes de horror. Agora, orgulhosamente inaugura a publicação de clássicos dos quadrinhos pela DarkSide Graphic Novel.

Black Hole se passa nos arredores de Seattle, extremo noroeste dos Estados Unidos, em meados da década de 1970, quando uma praga inominável e traiçoeira se alastra entre os adolescentes locais através do contato sexual e parece não poupar ninguém. Ela se manifesta de maneira diferente em cada um dos infectados — enquanto alguns apresentam apenas manchas na pele, algo sutil e fácil de ocultar, outros se transformam em grotescas aberrações, vagas lembranças do que foram um dia. E uma vez que você foi contaminado, não há mais volta. Para estes seres monstruosos, não há alternativa além do auto-exílio em acampamentos precários, na floresta que circunda a região. Conforme vamos nos familiarizando com os diversos protagonistas da história — garotos e garotas que foram infectados, outros que não foram e aqueles que estão prestes a ser —, o clima de horror, delírio e insanidade toma conta dos adolescentes.