Terminal 9 – Conto

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Desenho em computação gráfica do interior de um quarto no estilo de comodos espaciais, uma cama de solteiro com dois travesseiros e um lençol caindo, algumas fotos coladas na parede logo ao lado, e uma janela que mostra uma paisagem com prédios futuristicos e montanhas ao fundo.

Sobre os ombros, Larsson estudou a garota na fila de embarque.Tinha traços delicados, embora os cabelos estivessem pintados de branco e os lábios se destacassem com um roxo tão reluzente quanto neon. Desviou o olhar quando ela notou seu súbito interesse.

“Alguma coisa aconteceu”, pensou. “Era para ele já ter aparecido.”

Projetores passavam uma propaganda de adesivos de nicotina, onde uma ruiva com uma roupa preta colada ao corpo os exibia no pescoço. Larsson preferia fumar da maneira tradicional, mas isso passara a ser proibido devido ao excesso de poluição no ar. Uma grande piada, no final das contas, visto que não havia como monitorar todos os lugares e, nos becos mais escuros, ninguém se importava com as regras.

Os seguranças do espaçoporto se aproximavam, portando bastões atordoadores. Sem pressa, percorriam as fileiras do saguão de embarque, escolhendo aleatoriamente pessoas para serem revistadas.

— Você! — um segurança apontou para Larsson. — Venha até aqui.

Contrariado, saiu da fila. Tinha deixado a arma na moto. Não correria o risco de tê-la confiscada por um prazo indeterminado — o porte de arma era restrito, afinal, um disparo indevido em algum ponto da redoma poderia despressurizar o setor.

— Qual o motivo da viagem?

— Negócios — Larsson respondeu.

— Não vai mais voltar à Lua?

— É claro que vou. Meu visto na Terra só se estende por quatro semanas.

— Me mostre o passaporte.

— Está no bolso.

— Sem movimentos bruscos — o segurança segurou firme o bastão como se Larsson tivesse a intenção de atacá-lo.

— Na verdade, vou lhe mostrar um documento que… — parou de falar ao avistar o alvo atravessando o saguão. Deu-se conta que ele escaparia pelo portão de embarque VIP e não seria capaz de persegui-lo ali.

Larsson agiu instintivamente. Afastou-se do bastão do segurança e pressionou um ponto específico em seu pescoço. O homem perdeu os sentidos e desabou no chão. No mesmo instante, um grito de mulher fez com que perdesse o foco no alvo.

Três seguranças cercavam a garota. Um deles deu-lhe uma descarga elétrica com o bastão na perna. Pareciam se divertir com a situação. A maioria das pessoas não estava impressionada com aquela atitude. O espaçoporto era área da Federação e tinha regras próprias.

— Não façam isso! — Larsson pegou-se dizendo.

A garota aproveitou a distração para fugir. O segurança mais próximo puxou a arma, mas Larsson o nocauteou com um soco. Desarmou os outros dois em questão de segundos e foi atrás dela.

— Espere!

Ela era ágil, ultrapassava os obstáculos com uma habilidade fora do comum. Larsson não conseguia se aproximar. Resolveu então tomar um atalho. Só havia um ponto de saída no espaçoporto. Esperou, mas ela não apareceu. Logo se viu sob a mira dos seguranças. Deu um passo para trás com os braços no ar.

— Já estou fora da jurisdição de vocês. A propósito, sou da Polícia Lunar.

O distintivo brilhava na palma da sua mão.

 

***

 

— O que você estava pensando? — gritou Tudor.

Larsson ficou em silêncio. Era o melhor modo de agir com seu chefe. Se ficasse calado, talvez o velho não pegasse tão pesado com ele.

— Em primeiro lugar. O espaçoporto é zona dos terráqueos. Não está sob nossa alçada. Em segundo lugar, não agredimos pessoas sem motivo. Estou com várias denúncias aqui que…

— Mas eles…

Tudor ergueu a mão num gesto autoritário.

— Não terminei. Não há justificativa para o que você fez. Além de ter deixado escapar o suspeito.

— Estou suspenso?

— O que acha?

Larsson jogou o distintivo na mesa.

— A sua arma também.

Saiu da sala, batendo de propósito a porta do chefe. Apostava que vários dos seus colegas de trabalho tinham ouvido os gritos da discussão. Antes de deixar a delegacia, Galder, seu antigo parceiro, veio até ele.

— Foi tão ruim quanto penso que foi?

— Pior. Conseguiu o que lhe pedi?

— O cara está no Bar do Dock. Tenha cuidado, ele é perigoso.

— É? Eu também.

Larsson deixou Galder com seus temores e seguiu de moto até o Distrito 5. Não havia muito trânsito, as pessoas optavam por transportes públicos à noite. Fazia tempo que não ia àquele bar. Da última vez, ele não fora muito bem recepcionado. Puxou o capuz antes de chegar ao estabelecimento. Não queria ser reconhecido, por ora. Havia um porteiro marciano na entrada. Um maço de cigarros e teve a passagem garantida.

Encontrou o homem em um reservado, bebendo algum whisky barato. Ele fez cara de poucos amigos, claramente não querendo ser interrompido.

— Preciso de uma informação, Kron.

— Está com tanta vontade de morrer?

— Resposta errada.

Larsson golpeou o peito do homem com dois dedos e se sentou.

— Não consigo me mover. O que fez comigo?

— Pontos de pressão. Uma técnica que aprendi. Se cooperar, faço você voltar a se mexer. Quero encontrar uma pessoa. Uma garota de estatura baixa, cabelos brancos e…

— Você também?

Larsson puxou Kron pela jaqueta.

— O que quer dizer com isso?

— Costello está atrás da garota. Está pagando uma boa recompensa para quem localizá-la. Se eu soubesse o paradeiro dela, estaria rico agora… Aonde você vai? Vai me deixar assim?

— Vai melhorar dentro de alguns minutos – Larsson deu as costas e rumou para fora do bar.

Mesmo sendo um fantasma, Costello era o homem mais poderoso do submundo. “No que aquela mulher está metida?”, refletiu, ao subir na moto.

Um movimento despertou o seu interesse. Penetrou na penumbra do beco com cautela, mas foi rendido por uma faca no pescoço. Aquela garota era mesmo sorrateira.

— Estava à sua procura — ele falou.

— Por que me ajudou?

— Não gosto de verem ameaçar uma mulher indefesa.

— Não sou tão indefesa assim, detetive Larsson.

— Estava me seguindo? — esboçou um sorriso.

A garota concordou com a cabeça.

— Fiquei sabendo que pisou no calo do Costello. Sempre achei que ele fosse uma espécie de lenda. Ninguém jamais o viu e, se viu, não viveu para contar a história.

— Ele é real. Conheço bem o rosto dele.

— Por isso estava fugindo?

— Não, foi porque roubei os seus planos.

— Se incomoda de abaixar essa faca?

— Vai tentar alguma coisa contra mim?

— Só quero conversar. Pode me dizer o seu nome?

Ela retirou a faca, mas a manteve em mãos.

— Allana.

— Teve sorte de escapar do espaçoporto.

— Teria mesmo se tivesse conseguido fugir para a Terra. Aqueles seguranças estão na folha de pagamento de Costello. Ninguém deixa a Lua sem a permissão dele.

— Ele pode ser perigoso, mas não é tão poderoso assim.

— Você não faz ideia. Acreditaria na minha palavra se o conhecesse.

Larsson voltou-se para dois sujeitos que pararam na entrada do beco.

— Dêem o fora! — falou. Depois fitou Allana nos olhos. — Você disse planos? O que pode ser tão importante para colocarem uma recompensa pela sua cabeça?

— Costello pretende assassinar um importante político terráqueo. Nos planos constam detalhes do atentado e o itinerário do alvo.

Larsson cofiou a barba rala do queixo. Checaria depois se algum político da Terra visitaria a Lua nos próximos dias ou semanas. Não era tão incomum assim.

— Só uma coisa não se encaixa.

— O quê? — ela quis saber. Seus lábios cintilavam na escuridão.

— Como conseguiu esses planos?

— Foi muito fácil. Costello é meu pai.

 

***

 

“Devo estar louco em seguir com isso”, avaliou Larsson ao estacionar a moto. Allana puxou o binóculo e fiscalizou o lugar. Depois, passou para ele. Ao longe, dentro de uma cratera, era possível ver a instalação de perfuração e expansão.

Allana indicou um galpão de teto baixo. Lugar perfeito para um covil. Estavam tão afastados do centro que demoraram horas para chegar. Tiveram que percorrer caminhos sinuosos, estradas que Larsson jamais pensou existir. Já era dia, apesar de a cidade ser sempre iluminada. O sol não atravessava as redomas de proteção, então os lunares viviam dias perpétuos. Havia apenas um controle de intensidade de luz, o que possibilitava identificar quando anoitecia.

— Não conheço esse lugar.

— Aqui é o Terminal 9. É um dos pontos de expansão, mas não está mapeado. Costello não está preocupado em expandir. Ele está escavando, criando no subsolo uma cidade dentro de outra cidade.

— Como é possível um gângster dirigir esse centro de expansão?

— Já lhe disse para não subestimá-lo. Ele é uma pessoa pública, muito influente na prefeitura.

— Você ainda não me falou o verdadeiro nome dele.

— Saber irá colocá-lo em perigo.

— Estou acostumado. Vai me dizer ou não?

Allana hesitou por um instante, estudando a determinação do detetive.

— Ness Volmann — disse, por fim.

— O vice-prefeito? E o que ele ganha ao assassinar esse político terráqueo?

— Não sei.

Larsson voltou-se novamente para o terminal.

— São presidiários? — observou dezenas de pessoas saindo de um prédio e entrando no galpão. Todas vestiam as roupas amarelas do sistema penal. — Eles deveriam estar nas prisões de Marte, não aqui. Como nunca soubemos disso?

— A cidade está crescendo, detetive. Você sabe bem que a força policial não dá conta dos incidentes que ocorrem no centro e nas periferias, lutando dia a dia para impedir a disseminação do caos. Não é mais possível estender os olhares para todas as direções. Todos estão ocupados demais para sequer prestar atenção ao que acontece a duzentos quilômetros de distância do centro.

Larsson franziu a testa.

— É só descer por aquela rampa de acesso. Há alguns pontos com escadas que levam diretamente ao subsolo… O que foi?

O detetive se encaminhava lentamente para a moto. Ao se virar, disse:

— Eu sei farejar uma armadilha.

A garota foi mais rápida do que Larsson esperava. Acertou seu joelho, tirando o seu equilíbrio. Outro chute lhe atingiu a barriga e ele se retorceu, sem fôlego, no chão.

— Estou ficando velho — resmungou, buscando a arma na bota.

— Procurando isso?

Antes que pudesse pensar como ela havia tomado a sua arma, um veículo parou na estrada. Dois brutamontes desceram, escoltando um homem calvo. Não estava com a farda oficial da prefeitura, mas Larsson reconheceu imediatamente o rosto.

— Volmann — cuspiu no chão. — Vai passar o final dos seus dias quebrando pedras em Marte.

O vice-prefeito riu da afronta.

 

***

 

A água no rosto o despertou.

— Olhe para mim!

Larsson não identificou o interlocutor. Ainda estava atordoado,  mas o soco no estômago reavivou seus sentidos. Era um dos brutamontes. O detetive estava amarrado a uma cadeira e o vice-prefeito o observava. Allana permanecia indiferente ao seu lado.

Depois de um novo golpe, ouviu a voz de Volmann:

— Pode parar, Vox. Acho que o detetive Larsson vai prestar mais atenção agora em nossas palavras.

— Ele não parece estar intimidado — a garota falou.

— O que querem de mim?

Volmann se avizinhou e disse próximo ao ouvido de Larsson:

— Baruk Von Nitz. Por que você o estava vigiando?

— Assunto policial.

Desta vez, foi o próprio Volmann quem lhe golpeou.

— Podemos continuar por horas e horas, detetive. Vai chegar um momento que você vai implorar para contar.

— É melhor cooperar — aconselhou a garota.

Larsson analisou a situação e resolveu ceder. Não havia motivos para guardar segredo quanto a Nitz.

— Ele é suspeito do assassinato de pelo menos três mulheres. — A expressão de Volmann se suavizou. — Estava de olho nele há duas semanas, mas Nitz desapareceu. Obtive depois a informação, pela controladoria de registros de embarque, que deixaria a Lua.

— Entendo — Volmann assentiu.

— Não vou deixar que mate um dos políticos da Terra.

— Você acredita mesmo que eu teria algum interesse nisso? Acha que Allana é mesmo minha filha? — riu o vice-prefeito. — Ela executou bem o seu trabalho. Agora vamos dar uma volta pelo Terminal 9.

Os brutamontes escoltaram Larsson enquanto se aprofundavam por corredores, cada vez mais para o subsolo. A técnica de pressão do detetive não surtiria efeito contra a força bruta daqueles capangas. Mesmo se os derrotasse, ainda teria que lidar com Allana. Seguiu, assim, os passos do vice-prefeito, que se vangloriava da construção.

— Vou lhe apresentar um amigo — disse, batendo na porta.

O detetive não acreditou nos seus olhos.

— Como é possível?

Aquela pessoa era idêntica a ele.

— Milagres da cirurgia plástica — Allana respondeu. — Já troquei de rosto três vezes. Estamos de olho em você faz tempo, estudando todos seus movimentos.

— O que esperam se passando por mim?

— Instaurar uma nova ordem, é claro — Volmann falou com entusiasmo. — Depois que o chefe de polícia for morto na própria sala pelo seu sósia, convencerei o prefeito a criar uma milícia especial comandada por mim. Sou um visionário, detetive.

— Seu plano não vai dar certo.

Um dos brutamontes o ergueu pelo pescoço. Larsson resistiu à pressão do aperto até ficar sem ar e desmaiar.

 

***

 

Encontrava-se agora numa sala lacrada. Uma janela circular reforçada mostrava a superfície da Lua. Sempre desejara viajar pelo espaço, desbravar outros planetas. Se tivesse nascido na Terra haveria a oportunidade de se alistar na Academia da ONU e se tornar um dos tripulantes das naves exploratórias. Um sonho de criança que se perdera no tempo.

— Gostou da vista? — era a voz de Allana. Vinha de outro lugar, possivelmente da sala ao lado.

Larsson sabia o que aconteceria. Aquele era o lugar em que Volmann despejava suas vítimas. A porta se abriria e ele seria lançado na superfície.

— Você me enganou desde o princípio.

— Dei o nome real de Costello para que confiasse em mim — ela explicou. — Não se recrimine tanto.

— Na verdade, tenho que lhe agradecer. Eu sabia que Nitz tinha ligações com Costello. Só foi questão de ver onde essa insistência de persegui-lo me levava. A força-tarefa da polícia já deve estar tomando os setores do império de Costello. Desculpe, mas acho que enganei todos vocês.

A porta pressurizada se abriu com um chiado. Allana avançou com a faca na mão.

— Sabíamos até mesmo do infiltrado na polícia — ele continuou. — Só faltava descobrir a localização do Terminal 9 e a identidade de Costello.

A faca dela mirava o coração, mas ele bloqueou o ataque. A lâmina rasgou a carne e chegou a atravessar o braço. Com a proximidade, a guarda dela ficou exposta. O detetive a atingiu em um ponto abaixo da costela esquerda. Allana recuou, aturdida. Um fio de sangue escorreu pelo seu nariz. Ela levou a mão ao pescoço, sem ar. Quando ficou inconsciente, Larsson reativou sua respiração. Esperava que a garota não tivesse sequelas depois daquele golpe, mas não havia como saber até ela acordar.

Rasgou um pedaço do tecido da calça e improvisou um torniquete. Minutos depois, Tudor apareceu na porta.

— Galder era o informante, como você suspeitava.

— Prenderam todos?

— Toda a gangue. O prefeito não vai acreditar quando descobrir que Volmann estava por trás de tudo.

— Avise pelo rádio para procurarem um sujeito idêntico a mim. Torça para que ele não tenha escapado. Não quero minha foto estampada em todos os muros da cidade.

O chefe de polícia concordou.

— Mais uma coisa, Tudor. Preciso de férias.

— Férias? Certo, vou lhe dar dois dias.

— Dois dias? Prefiro sangrar aqui até a morte.

— Não posso deixar que faça isso. O prefeito vai querer cumprimentá-lo pessoalmente. Mas não se preocupe. Vou chamar um médico antes que morra — disse Tudor, saindo da sala.

Larsson observou o espaço mais uma vez, encostado no aço frio. As estrelas estavam mais brilhantes que nunca. Fechou os olhos, sentindo-se cansado e vazio por dentro. Uma garrafa de whisky resolveria seu problema até o próximo caso. Sempre resolvia.


Rafael F. Faiani é escritor, engenheiro e cinéfilo. Nasceu no dia da mentira em Cravinhos, estado de São Paulo. Apesar de não ser mentiroso, inventa histórias o tempo todo. Tem contos espalhados pela Internet e em antologias no Brasil e Portugal.