Fio Puxado

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Exaurida, segurei a mão de minha mãe até o fim, no leito daquele hospital. Amanda veio junto. A menina acabara de fazer onze anos. Valéria não a queria por lá; achava que não era lugar de criança. Mas a menina bateu o pé: “Quero ficar com a Nana!” Aquelas bochechas gordinhas e rosadas eram muito fofas. Não dava para resistir.

Valéria era mãe solteira. O marido sumiu quando soube que estava grávida. “Não tenho vocação para ser pai”, disse o escroto. O pai de Valéria tinha morrido quando ela era pequena e a mãe era uma mulher que só sabia julgá-la, embora mal tivesse condições de seguir o próprio caminho.

Desempregada, sem família e quebrada, Valéria pensou em abortar. Até que apareci em sua vida. Eu sabia exatamente onde encontrá-la, sentada no ponto de ônibus em frente à clínica, soluçando com a maquiagem borrada. Na verdade, sabia de Valéria desde as minhas primeiras lembranças, quando vi uma girafa no zoológico de São Paulo.

Ajudei-a como pude. Ela era muito inteligente; estava no último ano da faculdade de Engenharia de Computação. Os livros eram caríssimos e ninguém queria contratar uma mãe com uma criança de colo. Eu sabia dessa época, quando as mulheres eram tratadas como cidadãs de segunda classe, mas sentia meu coração ferver de ódio mesmo assim. Uma coisa era a lembrança da infância; outra, vivê-la como adulta.

Passei um tempo sem saber o que fazer. O mundo era um lugar de céu e paredes cinzas. Sim, eu tinha dinheiro suficiente, mas Valéria era orgulhosa. “Não aceito caridade”, dizia.

De vez em quando ela me irritava. Era igual à mãe que eu conheci, teimosa como uma mula. “Gosto de dirigir”, minha mãe costumava dizer com o cigarro no canto da boca. “Quando dá três da manhã com a Janis Joplin no rádio e estou numa estrada de pista dupla lá no meio do país, com a chuvinha caindo no para-brisa fazendo pleque, pleque, pleque, é como se entrasse num túnel para outro mundo, outra realidade.” Viciada em rebite, capotou com seu caminhão no asfalto numa madrugada comum e deu perda total na minha infância.

Meus colegas de trabalho haviam me alertado, antes de eu embarcar nesta viagem, que mexer com o passado era errado: “O espaço-tempo é como uma malha de lã: se puxar um fio, a trama toda pode se desfazer”. Segurei firme o chaveiro e decidi ignorá-los. Valéria merecia uma segunda chance.

O plano parecia correr bem. Se driblei o seu orgulho ou se ela só se acostumou comigo, não tenho certeza. Aproveitei-me dos meus conhecimentos de engenharia, muito à frente daquela época, abri uma empresa de alta tecnologia e a contratei.

Consegui parte da minha fortuna com informações privilegiadas. Fiz poucos e certos investimentos no mercado de ações, o suficiente para lucrar muito sem chamar a atenção dos órgãos reguladores. A princípio, não tinha como perder: conhecimentos obtidos no futuro não eram ilegais. Uma tese corrente, a do efeito borboleta, não se confirmou: a minha viagem não alterou eventos do passado como loterias e jogos de futebol. Em contrapartida, criei uma fundação dedicada ao apoio e à educação de mães solteiras.

A empresa cresceu rapidamente e se tornou referência no mercado. Eu, por outro lado, comecei a ficar puída, a desbotar. Conhecimentos antes triviais começaram a se tornar escorregadios. De início, não dei muita bola; achei que era só estresse. Por via das dúvidas, comecei a anotar o que era importante, todos os teoremas e equações fundamentais para a construção da máquina do tempo.

Amanda, que se chamava de Nana desde pequenininha, passou bastante tempo comigo. Engraçado como me perdia na minha infância quando íamos para o zoológico — fiquei emocionada quando vi uma girafa — ou jogávamos videogame juntas. Ela adorava desenhar foguetes, robôs e inventar teorias sobre filmes de ficção científica. Eu, na medida do possível, contava pequenas coisas da minha vida, dos meus amigos e do meu trabalho. A prudência recomendava não compartilhar informações sobre o futuro, mas imaginava que não tinha problema. Afinal, como Nana era muito nova, provavelmente essas lembranças se perderiam como uma meia na lava-roupas do passado.

Valéria se formou com honras na faculdade e engatou um doutorado. Quatro anos mais tarde, defendeu a tese que tornou pública as bases da viagem no tempo. Admito que fiquei apreensiva por dias, pois não sabia se tinham criado uma polícia do tempo ou algo parecido. Nada aconteceu. Acho que às vezes espero demais da humanidade.

Um dia, assustei-me ao notar que estava no meio de um shopping center sem saber como havia parado lá. Era como se tivesse acordado do nada de um sono sem sonho. Nana puxava a minha mão, chorosa, falando para eu “acordar”.

Consultei um especialista e fiz uma série de exames. Entrei em câmaras que lembravam sarcófagos barulhentos. Enfiaram-me agulhas. Mediram-me como um rato. O resultado: câncer no cérebro em metástase. O médico olhou-me com espanto quando gargalhei com a notícia. Se tivesse ficado no meu tempo, isso não seria problema. De quando vim, um câncer no cérebro é tão fatal quanto uma picada de pernilongo. Mas hoje, neste ano, era como a peste negra.

Desafiando uma última vez os avisos de meus colegas do futuro, deixei uma carta para a minha mãe. Pedi para o enfermeiro papel e caneta e desandei a escrever com minha letra ruim. Não sabia quanto tempo me restava. Disse que a amava e que não me arrependia de nada. Disse que ela foi a mãe que nunca tive a oportunidade de conhecer direito e que Amanda a amava mais do que era capaz de admitir; que eu a amava mais do que podia admitir. Disse que a vida era um caminhão às três da manhã sob uma chuva fina no Mato Grosso e que era melhor tomar o volante e partir do que nunca pôr os pés na rua.

Valéria, minha mãe mais jovem do que eu, trouxe Amanda pela última vez. A menina, com os olhos vermelhos, me abraçou forte. “Não chore, vai ficar tudo bem, tenho certeza disso”, ela me disse. “Tome, uma lembrança pra você, era da minha mãe”, dei-lhe o chaveiro do caminhão.

Amanda ficava cada vez mais parecida comigo. Quer dizer, embora distintas, éramos a mesma pessoa. Sorri ao pensar que brincar com a sua versão infantil era filosoficamente divertido. Uma vez perguntei para Valéria se Amanda tinha esse nome por minha causa, mas ela não me respondeu.

Depois que a menina saiu do quarto, Valéria encostou a porta e, enquanto acariciava meus cabelos, prometeu: “Filha, vou montar a máquina que você projetou e vou te salvar, você vai ver, e vamos ficar juntas de novo nessa estrada”. Não falei nada, mas senti nela o cheiro forte de cigarro.

Esforcei-me para sorrir.

Minha mãe ficou comigo até o fim naquele leito de hospital.

 


Rodrigo Assis Mesquita, [deletado], é adepto da pré-pós-verdade, da liberdade dentro da cabeça e do brigadeiro de colher. Autor de ficção científica e fantasia, com contos e novelas publicados e despublicados, é criador do universo Brasil Cyberpunk 2115.