Boas meninas não fazem perguntas – Lucas Mota

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“O pai a deixou na loja. Marina se tornou um produto.”

Essa é a primeira frase do livro “Boas Meninas Não Fazem Perguntas” do escritor independente Lucas Mota. É uma frase impactante que serve como um convite a quem lê. A quem daqui seguir, uma experiência com misto de sentimentos está por vir. No universo distópico criado por Lucas, a misoginia impera fazendo com que mudanças sociais se justifiquem em prol da melhoria econômica em troca da liberdade e independência das mulheres. A lupa é posta e o que vemos… bem, não é nada bonito.

A temida vitrine do mundo de medo e desprezo

Imagina um mundo onde as mulheres não são mais vistas como seres humanos. Nesse mundo, elas passam por cursos preparatórios para aprender a como se comportar, comunicar, vestir e a servir a homens. Após o curso, elas são vendidas por seus pais para lojas, onde são postas à venda. A objetivação é tão real, que elas literalmente ficam expostas em vitrines, para que os possíveis compradores possam se sentir atraídos à compra. Depois, uma apresentação pessoal ao objeto de desejo e, por fim, a comercialização.

Esse é o mundo de “Boas Meninas Não Fazem Perguntas“. A estória é contada sob a ótica de Marina, a protagonista, que logo após sair do seu curso é vendida para uma loja.
Lá, ela conhece outras mulheres que também estão à venda e começa a se deparar com a realidade do que a espera nesse mundo de servidão.

Como uma boa personagem de distopia, Marina não se contenta com o seu destino e planeja uma fuga. O problema é que ela não conhece as ruas da Metrópole e, pior do que isso, a coleira que carrega em seu pescoço e a delimita como um objeto a ser comprado e consumido a lembra o tempo todo do que vai acontecer se ela planejar uma ação destemida: ela será eletrocutada e um destino ainda pior do que ser vendida a aguarda.

O que fazer?

Análise Crítica

O livro “Boas Meninas Não Fazem Perguntas” é um livro curto e rápido de se ler. Os capítulos não são muito extensos e a linguagem é simples e fluída.

Apesar de a estória ser contada sob a visão de Marina, a narrativa apresenta o ponto de vista de outras personagens: existem mulheres que aceitam a sua situação, outras que não; existem as sobreviventes e as lutadoras; existem as que tem um plano dentro do sistema e existem, é claro, os homens.

O livro é dividido em capítulos que contam o tempo presente dos atos, onde acompanhamos a vida de Marina e nos interlúdios conhecemos o “Protocolo Mud”, o documento que deu origem aos acontecimentos que desdobraram na construção social para que houvesse essa divisão de gêneros dentro da sociedade. Embora o autor não apresente o documento todo e não determine datas, a utilização deste recurso se torna aproveitável a partir do momento que isso é o máximo de informações que vamos ter sobre a origem dos fatos. Vale lembrar, contudo, que essa estória não é sobre como começou e sim sobre Marina, uma das inúmeras mulheres que estão inseridas nesse universo.

Apesar de compor o gênero de literatura nacional / distopia, a proposta do livro não é discutir sobre o sistema ou sobre as situações. É um livro sobre uma protagonista e suas relações. O livro é sobre Marina.

Não por isso, o convite para a reflexão, principal propósito de obras distópicas, está ali. Está nas conversas, nas ações das personagens, na ação dos homens, nas dúvidas, receios e aprendizados das mulheres. Está no absurdo de um mundo aceitar que homens e mulheres são diferentes ao ponto de mulheres poderem ser vendidas e deverem obrigações a seus donos; está no absurdo de que essas mesmas mulheres não podem se demonstrar infelizes, uma vez que é nossa obrigação sempre sorrir e estar bem. Está no absurdo de uma obra como essa poder ser lida como uma obra que se baseia na realidade de violência de gênero que vivemos todos os dias.

Encerro essa resenha dizendo que: se algo no parágrafo anterior faz sentido para você, é hora de dar uma chance para esse livro. Pois a arte é feita para isso: para que saiamos do nosso conforto e vejamos o mundo sob outra lente (aquela que permite que olhemos para dentro de nós mesmos).

Observações sobre a obra

O livro “Boas Meninas Não Fazem Perguntas” do Lucas Mota não foi lançado e está em financiamento coletivo pela plataforma Catarse até o dia 11/05/2018.

Você pode ler os dois primeiros capítulos do livro para fazer a sua degustação.

Apesar da proposta ambiciosa, o livro tende ao gênero Young Adult, um gênero que está em alta no mercado atual. Esse é um ponto positivo para quem procura por um livro de leitura mais rápida e focada.

Devo salientar que li o livro inicialmente com um pouco de receio. Afinal, estamos falando de um livro escrito por um homem sobre um universo onde mulheres são vendidas. Ao final da leitura, saldo positivo: o livro foi escrito com cuidado e conhecer Marina me rendeu horas agradáveis. Sem entrar em spoilers, o final do livro me deixou pensando na possibilidade de continuação, contudo Lucas me disse que não está nos planos. Para saber se isso é bom ou ruim… bom, aí o livro tem que ser financiado e disponibilizado para a venda.

Quer ler a estória e ajudar um autor independente brasileiro? Apoie o projeto “Boas Meninas Não Fazem Perguntas” no Catarse e #LeiaNovosBR.

 

Nota

 

 

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Nome:
 Boas Meninas Não Fazem Perguntas
Autor: Lucas Mota
Edição: 1ª
Editora: Independente
Ano: 2018
Páginas: 170
ISBN: B0791FK981
Sinopse: Após uma descoberta científica questionável, a Metrópole superou seus anos de recessão econômica através da legalização do comércio de mulheres.
Cansada de ser tratada como um produto, Marina decide fugir. Para isso, precisará enfrentar a Força, um departamento policial com alta tecnologia especializado na vigilância e aprisionamento feminino. Isso, é claro, se puder se livrar de sua coleira, que emite choques ao ser removida além de denunciar sua localização.

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