Quantos

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Quantos?

A pergunta era a pedra fundamental de seus dias. A decisão era tomada pela manhã? Não. Era tomada ao acordar, fosse a hora que fosse. Abria os olhos, olhava o vidro de tranquilizantes e se perguntava:

Quantos?

Queria saber se chegaria um dia em que a resposta seria nenhum. Não alimentava esperanças.

Levantou-se do meio de umas dez pessoas emboladas no chão de um quarto.

Quantos?

Um.

Todos dormiam sossegados, o sol ainda não havia aparecido. Ficou encarando o vidro de remédios, as letras do nome dançando em sua mente. Lembrou-se de Andréa. Andréa dançando, Andréa lendo, só Andréa. Ela era de um lugar diferente que ele — da mesma cidade, da mesma faixa financeira, mas normal, limpa. Ele era um viciado em tranquilizantes que levava a vida de bicos e trambiques, de aviões e serviços porcos. Andréa era o ideal inalcançável que o mantinha sobre as pernas.

• • •

“O que você vai fazer hoje?”

“Não sei, estou cansada, com preguiça.”

“Eu também estou cansada e vou sair. Vem comigo.”

“Não sei…”

“Vem logo, Andréa porra.”

“Tá bom, mas é Sr.ª Andréa Porra Silveira pra você.”

• • •

O sol foi nascendo e subindo, devagar. Quando sentiu a luz nos olhos, deu-se conta de que estava consciente.

Deveria fazer a pergunta?

Sentado, foi vendo todo mundo acordar com a luz do sol. Uma garota passou perto dele, olhou um pouco com os olhos apertados e lhe roubou um beijo.

“Você acorda cedo pra caralho.”

Um cara procurava o dono da casa, infrutiferamente. Alguém decidiu levar alguma coisa embora para sacanear. O lugar foi devastado.

• • •

“Desfaz essa cara e vem dançar.”

Andréa riu e acompanhou a amiga. Dançou com vontade, precisava gastar energia, estava cansada de descansar, o problema era a solução. Já começava a sentir o efeito da bebida: um rubor macio subia-lhe ao rosto, sentia vontade de espreguiçar como uma gata. Pensava em um monte de coisas. Pensava em provas, trabalho, estudo. Queria beber mais.

“Vem pro balcão!” gritou para a amiga.

• • •

Levantou-se, foi para a cozinha. A menina do beijo se apoiava na pia. Alice.

“O que houve?”

Ela suspirou, olhos fechados. Vomitou na pia.

“Nada não.”

Ela começou a rir e ele a acompanhou enquanto limpava os cantos de sua boca com um guardanapo.

“O que você bebeu afinal? Você não é de vomitar.”

“O que eu não bebi… Me dá um beijo?”

Se beijaram longamente. Ele a segurou pelas costas, para evitar que escorregasse para o piso. Olhou ela nos olhos, ambos sérios, ela o olhava com ternura. Beijou-o de leve nos lábios.

“Gostinho de pâncreas?”

Ele preparou um café, só estavam os dois na casa do cara agora. Quem era o cara mesmo?

Vai saber.

“Você vai mesmo tentar o curso de música?”

Ele se aquietou, transtornado com a pergunta. Ia tentar o curso de música?

“Vai? Eu tava pensando em entrar com você: canto. O que você acha?”

Manteve os olhos no café; sentia uma dor de cabeça vindo lá longe, bem no fundo. Tomou um comprimido para enxaqueca.

“Você e essas merdas de comprimidos… Fala comigo.”

“Não sei. Não sei.”

Ela o olhou nos olhos, balançou a cabeça devagar e sorriu.

“Eu te amo.”

Ele a olhou sem saber o que dizer. A amaria também? E Andréa?

Se nem conhecia Andréa direito… Ela pairava em sua mente, como um ideal, uma cenoura na ponta de uma vara.

Sorriu.

“Eu também te amo.”

Seus lábios se tocaram, a língua de Alice abraçando a sua e lhe trazendo uma bem-vinda e conhecida onda de calor. Durante o beijo, as mãos dela passaram pelo vidro de comprimidos no bolso de sua jaqueta, fazendo um som de paredes desmoronando.

• • •

“Eu já estou bêbada?”

Renata olhou a amiga com ares de engraçada.

“Se está perguntando isso: naturalmente.”

Andréa olhou em volta, curtindo enquanto as coisas ao seu redor vinham lentamente no encalço de sua visão. Olhou o rosto de Renata, que olhava em volta, fixou-se ali por um instante. Renata, notando, olhou de volta.

“Você beijaria o Jorge?”

Renata começou um sorriso.

“Sim.”

Andréa viu que a pergunta havia sido tola — Renata, em geral, beijaria qualquer um.

“Não! Você namoraria ele, sei lá, daria pra ele?”

“Nem um nem outro. Ele é depressivo e viciado, alguém vai aguentar isso?”

Andréa pareceu se abater um pouco, apoiou a cabeça nos braços, sobre o balcão. Seus cabelos louros tocavam o molhado do copo pela metade.

“A Alice aguenta…”

“A Alice é alcoólatra e também é depressiva, eles foram feitos um para o outro. Mas por que isso?”

“Nada não.”

• • •

Acabaram tomando um banho na casa do cara; a água quente fez com que se sentisse melhor, mais vivo. Alice insistia em conversar sobre a escola de música.

“É pública.”

“É boa.”

“Conta como superior, dá pra arranjar emprego na orquestra.”

“Não sei,” disse a tarde inteira, enquanto andavam pela rua olhando discos em lojas escusas.

“Mas você toca piano muito bem, você ia poder montar sua banda sabendo teoria.”

“Na banda eu gosto de tocar guitarra.”

“Você é bom no violão também.”

“O que você quer ouvir afinal?”

Alice pensou um instante.

“Casa comigo”.

Não. Uma hora ou outra ele ia perceber que ela o amava mesmo.

“‘Eu vou fazer se isso te faz feliz’, é isso que eu quero ouvir.”

“Te faz feliz?”

“Muito!” disse, manhosa.

“Então eu te faço feliz.”

Jorge começava a sentir os olhos doendo por causa da luz do sol. Esperou a namorada olhar para outro lado e pôs um calmante e um AAS na boca.

Alice havia aprendido a reconhecer as caras de Jorge; sabia quando ele ia tomar mil remédios nocivos e preferia não ver isso. Fingia que não via, que olhava em outra direção. Uma hora ou outra ela ia saber fazer ele parar, saber fazer ele viver.

Entraram numa lanchonete, ele pediu uma coxinha, ela uma dose de conhaque.

• • •

“Você gosta do Jorge?”

Gostava? Só havia falado com ele umas poucas vezes e sobre assuntos superficiais. Não sabia o que a atraía nele, achava que era o jeito que ele olhava para ela: se sentia importante, única, certa. Sua mão escorregou no balcão e quase bateu o queixo. No caminho de volta a sua postura original, viu um cara acenando, indicando Renata.

“Tem um cara ali querendo coisas muuuito feias com você.”

Renata olhou, respondeu a um sorriso.

“Posso ir? Não vai ficar muito sozinha?”

“Vai.”

Andréa se ajeitou no banco, ajeitou os cabelos, esfregou os olhos longamente.

“Um White russian, por favor.”

Gostava desse drinque, parecia café com leite, fazia se sentir mais limpinha. Olhou a pista de dança, viu o cara conversando com Renata. Notou que alguém havia sentado no banco ao seu lado, olhou, era um rapaz bonito, com cara de ser bem mais novo que ela.

“Oi, tudo bem? Eu estava te olhando faz um tempão, te achei linda. Quer dançar?”

Olhando o cara de cima a baixo, acabou não gostando — falava rápido demais. Odiava aquilo! Não merecia ela o tempo dele arrrrticularrrr as palavrrras? Olhou para ele com cara de impaciente.

“Você tem algum lugar decente pra me levar e se aproveitar da minha bebedeira? Porque se você tiver vamos agora.”

O rapaz abriu a boca sem emitir som, franziu as sobrancelhas.

“Foi o que eu pensei.”

O drinque acabou; deviam ter se passado uns bons minutos e só agora olhava para ver se o cara tinha sumido. O viu falando com um outro moço com ares de desespero e súplica. Olhou em seguida para a pista de dança e viu Renata beijando o carinha ardentemente, a luz do ambiente dando um aspecto mais forte à cena. Não pôde impedir um soluço de subir por sua garganta, limpou as lágrimas dos olhos com as mãos e pediu vodka.

Por que havia vindo, se sabia que aquilo ia acontecer?

• • •

Quantos?

Um.

A primeira sensação que lhe ocorreu, antes mesmo de reconhecer o lugar em que estava, foi o cheiro de Alice. Era uma mistura de perfume feminino com tequila e algo só dela. Uma espécie de cheiro de mulher. Olhou-a enquanto dormia; a pele era branquíssima e os cabelos pretíssimos. Assim, sem as roupas de roqueira/clubber/seilá,  parecia frágil, mais bonita. Ela dormia encolhida, de lado, como que se protegendo de alguma coisa. Poderia fazer teorias sobre essa postura enquanto o efeito do comprimido chegava, mas não. Ficou só olhando.

Só olhando.

• • •

Acabou ficando na casa de Renata, como costumava acontecer. Acabou dormindo na mesma cama que ela, pois não havia outra, como costumava acontecer. Acabou passando a noite em claro, como costumava acontecer e chorou escondida no banheiro com uma garrafinha cheia de uísque como — só às vezes — acontecia. Alice era uma alcoólatra depressiva, digna da pena e do sarcasmo de Renata — o que seria ela então? Sentia-se suja, errada, o que a amiga não diria, pensaria, se soubesse o que ela sentia ao dividir aquela cama ocasional? Era uma alcoólatra, depressiva e pervertida. Chorou a noite inteira, esvaziou a garrafinha aos poucos, para não ter vontade de beber álcool ou qualquer outra merda. Tudo por causa do amor. Não era tudo mesmo por causa do amor? Quando viu que já se aproximava uma hora boa para Renata acordar, escovou os dentes para disfarçar o hálito e deitou-se junto dela, pensando em todo tipo de coisa, menos no rosto suave dela, dormindo com um sorriso no canto do lábio. Ficou sonhando que aquele sorriso podia ser por ela.

Elas acordaram ao mesmo tempo, Renata foi fazer alguma coisa para comerem. Era sábado de manhã e para ela isso era sagrado. Andréa juntava todos os seus esforços para fingir não estar bêbada e sim de ressaca. Enquanto a amiga não via, tomou dois Engovs. Andréa sentou numa cadeira na cozinha e ficou observando a amiga montar o começo de seus dias, tanto na comida quanto na canção cantarolada devagar e nos pensamentos sempre ativos. Se flagrou olhando as pernas de Renata — enrubesceu. A amiga a olhou por um instante.

“Onde é que estão esses olhos perdidos aí?”

Não podia ficar ali, ia chorar — chorava fácil quando bebia. Levantou de um salto e foi ao banheiro inventar vômito, passou lá alguns minutos e voltou pálida e abatida. Sentou de volta na cadeira.

“Entendi,” disse Renata.

Olhou Andréa por uns instantes e falou, com voz de quem fala com um bebê.

“Vem cá, filhinha, mamãe vai te curar dessa ressaca monstro. Ô, tadinha.”

Renata segurava a cabeça de Andréa contra o peito e balançava devagar. Andréa andava bebendo demais. Por quê? Ela sempre fora dada aos porres dessa vida, mas agora era tão constante, e tão diferente. Ela parecia infeliz, comia pouco, não gostava de mais nada. Só a via sorrindo quando estavam juntas, de resto estava emburrada ou com os olhos perdidos em lugar nenhum. Seria o Jorge?

Andréa ouvia a voz de Renata de perto e ouvia as batidas tranquilas e seguras de seu coração. O único ritmo que gostava de seguir — o da vida dela. Ficou ali, rindo baixinho, conversando enquanto o leite esquentava e o café coava e o tempo passava.

• • •

Alice passou o fim de semana ensaiando sua voz enquanto Jorge ensaiava seu piano. Ela tinha uma voz bonita, aguda. Depois de um tempo a seriedade acabou e acabaram fazendo covers dos Pixies e do Elástica, as duas únicas bandas com vozes femininas boas de que se lembraram. No sábado ficaram em casa assistindo a filmes alugados e comendo porcarias em domicílio. No domingo, mais ensaios, Alice resolveu cozinhar, Jorge resolveu ajudar, saiu um macarrão com molho e almôndegas. Comeram ao som de Tchaikovsky, Concerto para piano n.º 2. Ao fim riram de seus refinamentos.

“Toca pra eu cantar.”

Jorge olhou para ela, sorrindo, curioso.

“Tocar o quê?”

“A do Casablanca: a fact is just a fact, a kiss is still a kiss…”

Jorge riu, pegou a mão da namorada, olhou seu sorriso divertido, agradavelmente doido.

“Vai, toca! Eu deito no piano e falo ‘play that again, Sam’. Quer dizer, eu deito no teclado.”

Os dois riram, ele levantou e se dirigiu ao teclado. Começou a música.

 

You must remember this

A kiss is still a kiss

A sigh is still (just) a sigh

The fundamental things apply

As time goes by

 

And when two lovers woo

They still say: “I love you”

On that you can rely

No matter what the future brings

As time goes by

 

Ela o olhou longamente.

“Eu te amo muito.”

“Eu também te amo muito.”

Impressionou-se um pouco com a velocidade de sua resposta. Beijaram-se longamente, ele a pegou nos braços e foram para o quarto, cantando.

• • •

Quantos?

Um.

Acordou instantes antes do despertador, ficou parado esperando o calmante fazer efeito.

O despertador gritou às 08h30, tinham de estar na escola às 10h00 para uma entrevista. Não sacava por que tinha de fazer entrevista para se matricular na escola; Alice achava que iam ter que fazer teste ali na hora, e por isso haviam ensaiado tanto. Ela acordou e olhou para ele com uma cara estranha, misto de mal-estar e dúvida.

“Tem tempo ainda, vai tomar banho que eu invento um café da manhã.”

Ela obedeceu sem dizer nada. Só quando ela escondeu o rosto da luz para passar do quarto pelo corredor e para o banheiro, Jorge percebeu que ela estava de ressaca. Devia ter levantado de noite e bebido — bebido bastante, pelo jeito. Ele, sedado, jamais perceberia. Ela poderia ter entrado em coma que ele jamais perceberia. Um calafrio percorreu seu corpo. Por segundos imaginou Alice morta, ele sozinho. Teve medo, lembrou-se o trecho de um livro: “…seu Marciano, morto? seu Marciano não parece que vai morrer…” Sua cabeça não pensava direito, teve medo de não conseguir tocar, decepcionar Alice, teve medo de conseguir e ela não, ver ela triste, ia dizer que fosse sozinho, ela não ligava.

Entrou no banho logo quando Alice saiu, pôde sentir seu cheiro, que pertencia às paredes do lugar. A água quente fluiu por sobre seu corpo artificialmente relaxado. Sentiu uma fisgada na cabeça, mastigou dois AAS do armarinho do banheiro.

Alice sentou com um copo cheio de café e um pão com manteiga; sua cabeça doía e sua boca estava seca. Tinha que beber um monte de água e comer bastante antes de ir. Resolveu aquecer a voz para se sentir mais segura — só agora notava a importância daquilo. Era segunda-feira e quase era o primeiro dia do resto de sua vida. Já havia cinco anos que tinha deixado as aulas de canto para entrar numa escola mais séria, uma universidade e não tinha coragem. O receio somou-se a um conformismo e acabou se tornando apatia. Finalmente aquele seria o dia de tentar. Podia conseguir; sabia que cantava muito bem. Viu-se refletida na tela da TV — viu uma garota com olheiras profundas, pele gasta, rosto derrotado, a mesma que vira no espelho do banheiro às três da manhã enquanto se ofendia e se humilhava bebendo vodca e até cachaça pura. Sentiu nojo, desviou o olhar, tentou em vão conter as lágrimas. Enterrou a cabeça no ombro direito e quando a levantou deu com Jorge a olhando. Teve vergonha, mas ao mesmo tempo queria que ele a visse daquela maneira — fraca, derrotada. Queria sua ajuda quando estivesse assim. Ele se aproximou e a abraçou, ele já estava vestido, quanto tempo estivera chorando?

“Não fica assim.”

“Você nem sabe por que eu estou assim,” disse entre lágrimas, agora nada contidas.

“Não importa, só não fica assim.”

• • •

Naquele dia foram ao shopping e passaram o dia inteiro lá. Era incrível o que se podia fazer num shopping grande — comeram, gastaram, Renata cortou os cabelos. Andréa olhava as pessoas ao redor, notou que algumas as olhavam — o que pensavam? Deliciou-se com a ideia.

Sentaram-se na praça de alimentação, Renata olhando fixamente o rosto de Andréa, que olhava para baixo, bebendo um refrigerante.

“O que você tem, Déa?”

“Nada.” A resposta já parecia automática, para qualquer um que perguntava:

Nada.

“Nada uma porra. Você fica com essa cara, olhando pra lugar nenhum, vivendo dentro da cabeça, por que isso?”

“Eu… não sei.”

Os olhos de Andréa se levantaram da mesa; Renata viu que ela estava prestes a chorar. Andréa olhou o rosto da amiga, segurando com todas as forças o choro que sempre vinha, em todas as horas. Nem notou que não conseguiu.

“Você sabe sim. O que é que te atormenta assim tanto? Eu me preocupo com você sabia? Fala, é o Jorge?”

Andréa pensou um pouco. Sim, era o Jorge, ele era seu maior problema. Em sua mente sua voz gritava. O Jorge era sim seu maior problema, já que era com alguém como ele que lhe restaria ficar, já que não era capaz de dizer a Renata que a adorava, que estava apaixonada por ela. Já que não era digna dela. Forçou um sorriso entre as lágrimas silenciosas.

“É, mais ou menos.”

Renata esperou umas pessoas passarem pela mesa em que estavam, sabia que Andréa odiava discutir perto de outros.

“Como assim mais ou menos? Me explica, por favor.”

Andréa sentiu a tensão se assentar em seus ombros, forçando-os para baixo.

“É que eu não gosto dele, mas quero me fazer gostar.”

Renata achou que sabia o que ela ia falar.

“Por que fazer gostar?”

“É que eu tenho que substituir alguém que eu não acho que possa ter.”

Andréa já não aguentava, chorava baixo controlando-se para ainda poder articular as palavras.

“Quem.”

Andréa não disse nada por algum tempo. Viu que ia ser a primeira vez na vida que diria aquilo em voz alta, que seria a primeira vez que até mesmo ela ouviria as palavras:

“Eu te amo.”

Renata sentiu uma sensação estranha ao mesmo tempo que sentiu sua face corar, tentou dizer algo, mas as palavras ficaram presas na garganta. Os pensamentos confusos tentavam se dar sentido, agora que tinham a chave. A chave dos últimos tempos de sua vida, que, agora notava, era a vida delas, das duas. Seus olhos marejaram enquanto observava sua amiga se encolher e olhar para lugar nenhum — como vinha fazendo havia algum tempo; comer os cantos dos dedos — como vinha fazendo havia algum tempo; chorar desesperada — como já havia ouvido no meio da noite. Quantas noites havia passado em claro pensando se devia ou não consolá-la, esperando que, no desespero, ela dissesse o motivo daquilo tudo. Mas ela não dizia, só a olhava, enquanto supostamente dormia.

Renata pegou as mãos da amiga bem de leve.

“Para, suas mãos tão bonitas.”

Andréa não conseguia falar, não conseguia olhar para Renata, sentia-se exposta, só podia fazer esperar e chorar, e chorar.

Renata olhou Andréa por uns instantes — na sua cabeça, todos os pensamentos repetiam perguntas um para o outro.

“Vem, vamos pra casa.”

• • •

Chegaram, subiram escadas largas e entraram. Os dois estavam visivelmente nervosos e não sabiam bem o que ia acontecer. Foram guiados até uma sala grande que ecoava até o som de suas roupas roçando na pele. No caminho havia bastante gente esperando, provavelmente pelo mesmo motivo. Viram que vários traziam instrumentos e partituras e tiveram medo: era mesmo um teste. E se tivessem que ter algo preparado? Na sala havia dois homens e uma mulher sentados atrás de uma mesa. Uma senhora bonita e sorridente veio cumprimentá-los em nome de todos, sua pele negra parecia brilhar com a luz do sol que entrava por uma grande janela.

Ouviram a explicação tentando parecer naturais, detrás de olhos fixos e maxilares travados: seria feito um teste e, como estavam em carência de horário, foi bom que quisessem fazer o teste juntos, economizaria algum tempo.

Quisessem? Jorge olhou para Alice levemente curioso, ela havia marcado a hora. Alice olhou Jorge com o mesmo olhar de dúvida, só concordou com a mulher. Sua mente, em disparada, imaginava tudo que podia explodir na cara dos dois. Talvez ele desmaiasse, sedado por um remédio forte engolido em segredo. Talvez ela vomitasse a bebida da madrugada na frente dos juízes. Talvez eles subitamente percebessem que não mereciam estar ali. Ou em qualquer lugar.

• • •

No caminho de volta, Renata tentava falar, tentava argumentar com a voz quase sumindo, um balbucio. Falava sozinha enquanto a amiga soluçava.

“Por que você não me contou nada?”

“Eu ia entender.”

“Calma, Andréa.”

Andréa sentia mais e mais dor no peito, como se ele fosse drená-la inteira para um buraco escuro. Não acreditava que havia realmente dito aquilo. Agora seria ainda pior do que antes. Talvez preferisse a expectativa, preferia só imaginar o que daria errado do que esperar que se desenrolasse diante de si.

• • •

Alice se aqueceu e obedeceu a alguns exercícios enquanto Jorge a olhava. Parecia outra pessoa: determinada, forte. Ao fim dos exercícios, os examinadores disseram que eles podiam começar. Alice não entendeu e olhou para Jorge, viu que ele olhava para ela, esperando qualquer tipo de resposta.

“Qualquer coisa?” perguntou ela, sem muita convicção.

“Sim senhorita,” disse a mulher num tom maternal.

Os dois se olharam, pensando ao mesmo tempo. Jorge notou que precisava desesperadamente de um calmante , mas não podia sair.

Tocaram As time goes by, a do Casablanca, e passaram.

• • •

As duas entraram no apartamento. Renata trouxe um copo de água para Andréa, enxugou suas lágrimas, a mente em parafuso. Olhava a amiga, sem saber o que dizer. Mesmo que soubesse, as palavras se represariam em sua garganta obstruída pela torrente de pensamentos. Não sabia o que fazer, não fazia a menor ideia do que fazer, mas mesmo assim segurou o rosto de Andréa com as duas mãos e a beijou. Foi um beijo rápido, desajeitado, cheio da sensação — de ambas as partes — de que seria interrompido a qualquer momento.

Aos poucos, como o calor recuperado ao se enfiar debaixo das cobertas num dia gelado, sentiu a felicidade crescer dentro de si. As dúvidas que acabavam de surgir calaram-se pelo momento; o medo que acabara de surgir se escondeu longe das vistas. Restou só amor, imenso, infinito.

Andréa não acreditou; sentiu mais lágrimas escorrerem pelo rosto, salgando o beijo nervoso que trocavam. Enfim, agarrou-se àquilo como se fosse o primeiro alimento que recebia em semanas, a primeira luz após a solitária. Beijou Renata com medo, com pavor real de que ela o fizesse por pena, que se arrependesse. Não podia acreditar, não podia nada, só sentir.

Renata a pegou pela mão e a levou ao quarto, um pouco assustada, mas decidida.

“Eu também te amo,” disse. “Muito.”

Andréa acordou com o nascer do sol invadindo a janela aberta do quarto. Levantou-se ainda entorpecida e foi assistir sentada sobre a cômoda. Olhou para a cama e viu Renata, seus cabelos cacheados espalhados pelo travesseiro, sua pele morena aparecendo em diversos vãos de um lençol emaranhado. Procurou seus sofrimentos e dúvidas e dores. Não encontrou. Sabia que nada era tão simples; que vergonha e autopiedade eram o tipo de sujeira que gruda nos ossos e só sai às custas de muita esfregação dolorosa. Sabia que já sentia vontade de beber, mas conseguiu optar por não saber. Naquele instante, ela teve — se outorgou — o direito de vasculhar as cavernas mais sujas e perigosas dentro de si e não encontrar nada.

E encontrar tudo.

• • •

Alice e Jorge saíram tão felizes que foram comemorar num restaurante e depois foram para casa. Passaram metade da noite tocando e cantando e rindo e o restante na cama também cantando, rindo e rolando. Jorge ainda estava acordado quando o sol nascia na terça. Olhou o céu por um longo tempo e em seguida Alice, dormindo abraçada a ele, relaxada, sorrindo. Notou que depois de tanto pensar, havia esquecido completamente Andréa, nem sabia mais porque havia pensado nela tanto e com tanta força.

Como não havia dormido, resolveu tomar o nascer do sol como ponto de partida.

Quantos?

Haviam acabado. Comprimiu os lábios e quase fez menção de se levantar. Sentiu o peso e o calor de Alice em seu peito.

Nenhum.

E todos os desejos do mundo.


Daniel dos Santos Soares é formado em História, violeiro duvidoso, apaixonado por dezenas de coisas ao mesmo tempo e um nerd devorador de histórias desde os cinco anos de idade – em que aprendeu a ler sozinho com a Monica, segundo a família. Decidiu escrever o primeiro romance aos 11 anos e,  obviamente,  não terminou. Escreve contos desde a mesma época e eles amadureceram com vida, estudo, depressão, milhagem, ódio e amor. Fantasia, crônica, humor – vale tudo. O que importa é estabelecer uma conexão, por mais sutil e passageira que seja.