SobrEscrever #006 – Vozes Narrativas

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Mais um SobrEscrever no ar e nesse episódio falamos sobre vozes narrativas. Como usar cada voz narrativa, quais os cuidados a se ter com primeira e terceira pessoas, e o que nos incomoda em cada uma delas são alguns dos assuntos desse programa. E a segunda pessoa, é possível escrever um livro nela? Ouça o programa e traga suas impressões sobre esse tema tão interessante aos comentários!

Atenção!

Para ouvir basta apertar o botão PLAY acima ou clique em BAIXAR.

Participantes:

Lucas Ferraz (@ferraz_lucas)

Rodrigo Rahmati (@rodrahmati)

Matheus Salfir (@MatheusSalfir)

Edição:

Matheus Salfir

  • Acho que é possível ter um personagem mediano sendo o porta-voz de uma história. Se pegarmos O Guia do Mochileiro das Galáxias, mesmo que tenhamos uma narrativa em terceira pessoa, ela não deixa de ser feita sob o ponto de vista do Artur Dent, que é um personagem bem parvo. Sobre a terceira pessoa, tenho preferência pelo discurso indireto livre, como forma de tirar o poder divino do narrador em terceira pessoa. No fim, tudo depende da capacidade de execução do autor. E ow: cadê o cast sobre diálogos?

    • Rodrigo Rahmati

      Olá Soraya! Aí é que está: o Artur Dent é parvo mas não é mediano. Aliás, ele é exagerado em sua “medianice” — e é isso que eu quis dizer: talvez seja necessário haver um traço de personalidade muito marcante para que uma narrativa em primeira pessoa — ou em terceira através de um ponto de vista, como você exemplificou — fique memorável…

    • Diálogos é um puta tema! Vamos colocar na pauta, mas deve demorar, já temos programa gravado quase até novembro!! rsrsrs

      Valeu por comentar 🙂

  • Isa Prospero

    Oi pessoal! Primeiro, concordo muito sobre o Scalzi e a voz dos personagens. É o maior motivo de eu não ter gostado muito de Guerra do velho, mas nunca vejo ninguém reclamando disso rs.
    Acho que uma pessoa “normal” funciona como narrador/personagem, ainda mais se houver uma evolução ao longo da obra – indecisões, inseguranças etc. são características com que a gente se identifica. Um personagem completamente sem qualquer opinião/ponto de vista seria mais difícil (mas também o autor precisaria se esforçar um tanto pra criar um personagem desses!).
    Acho que o narrador onisciente pode funcionar muito bem, mas é mais difícil de acertar do que o limitado, justamente por ter a possibilidade de falar tudo, do ponto de vista de todos os personagens. Hoje em dia acho mais comum o uso do limitado. A exceção que pensei em fantasia é Jonathan Strange & Mr. Norrell, mas o livro retoma um estilo mais antigo propositadamente.
    Agora, sobre segunda pessoa: The Fifth Season, da N.K. Jemisin (vencedor do Hugo do ano passado) tem 3 pontos de vista: dois em terceira pessoa e um em segunda pessoa. E funciona tão bem que depois de um tempo você nem repara. Vai sair aqui em breve, recomendo muito pra quem tá curioso pra ver isso funcionar (além do livro ser foda!). E lembrei também de uma noveleta indicada para o Hugo e o Nebula narrada em segunda pessoa, e que está disponível aqui: http://uncannymagazine.com/article/youll-surely-drown-stay/ 🙂
    Pronto, parei. Abraços!

    • Rodrigo Rahmati

      Valeu pelo comentário, e lerei essa história aí do link! 😉

    • Oi Isa! Muito obrigado pelas dicas, vou procurar ler com certeza!
      Sobre o Scalzi, essa é a única coisa que realmente me desagrada nele. Tipo, eu ainda gostei do livro, tanto que li todas continuações lançadas até o momento, mas em todas elas o problema se repete, infelizmente. =/

  • Lucas Scaliza

    Olá, galera. Sobre narração em segunda pessoa: O “Noite Dentro Da Noite”, do Joca Reiners Terron, lançado este ano, é inteiro em segunda pessoa, e lá se vão quase 500 págs. O “Caixa Preta”, da Jennifer Egan, também é inteiro em segunda, embora seja um conto lançado como livro. Mas é aquela coisa: que dá para fazer, dá, mas SEMPRE depende da habilidade do escritor.

    • Rodrigo Rahmati

      Obrigado pelo comentário, Lucas. É, de fato, depende da habilidade. Eu ainda quero tentar escrever em segunda pessoa pra ver se vira algo que preste, rs.

      • Lucas Scaliza

        Tenta sim. O do Terron é bem interessante para ver como é possível contar a história sem parecer um longo manual (coisa que senti lendo o conto da Egan, por exemplo).

    • Lucas, fiquei muito interessado nesse livro do Joca, já foi para a fila de leitura! Gosto muito da escrita dele, e também fiquei curioso com o uso da segunda pessoa.
      Obrigado e continue escutando! =D

      • Lucas Scaliza

        In Terron we trust!!!

  • AJ Oliveira

    Fala, pessoal. Tudo bem?

    Gostei bastante do papo e gostaria de por como dica o jogo “Allan Wake”, que retrata exatamente o que penso sobre a segunda pessoa.

    Pra quem não jogou, Allan é um escritor que foi se isolar com a família para quebrar um bloqueio criativo (não, não é tipo o Iluminado), então, em um não-tão-belo-dia sua esposa some enquanto coisas estranhas acontecem durante a noite. Durante a jornada, Allan encontra páginas do seu manuscrito espalhadas pra todo lado e, coincidentemente, os rascunhos contam exatamente o que vai acontecer com ele em instantes. Vale muito a pena jogar isso, sério.

    Sobre a Segunda pessoa nas obras do Chuck… Bem, de fato ele usa e abusa da segunda pessoa com maestria, mas ele costuma geralmente fazer isso somente nos fluxos de pensamento em que ele vai te encher de informações das quais você não fazia ideia que existiam (Tipo de dar uma aula sobre como funciona a rotina do mercado publicitário com relação a facas) e isso deve garantir, de certa forma, uma maior eficiência sobre como o leitor se encaixaria em uma situação absurda.

    Sobre primeira e terceira pessoa, não tenho uma preferência. Na verdade, ambas tem características maravilhosas quando o autor consegue brincar com os limites da voz narrativa

    Enfim, parabéns pelo episódio, pessoal! Continuem com o cast =)

    • Rodrigo Rahmati

      Obrigado pelo comentário, amigo AJ 😀

    • Estou com livros do Chuck já faz um bom tempo pegando poeira, preciso ler!
      Obrigado pelo comentário!

      🙂

      • AJ Oliveira

        Eu preciso de alguns que já não vendem mais =/

        Mas também jogue o Allan Wake, Lucas. É massa demais!

  • E aí, gente?

    O estilo dos livros do Martin, na verdade é o estilo narrativo mais comum nos EUA e Europa, é simplesmente uma questão de ter um ponto de vista estabelecido em cada capítulo. Eu gosto dessa opção e prefiro escrever assim.

    Não curto quando o texto fica pulando de um ponto de vista para o outro o tempo todo, mostrando o que todos os personagens em cena estão pensando, acho muito confuso e cansativo.

  • Duas dicas de narração em segunda pessoa, uma clássica e outra contemporânea. A clássica é do grande Ítalo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno”. O livro é de 79 e qualquer coisa do Calvino merece atenção. A segunda fica por conta do “Modos Inacabados de Morrer” do André Timm. O André segura um livro inteiro em segunda pessoa com uma fluidez impressionante. De brinde, o protagonista sofre de Narcolepsia. O livro foi lançado no ano passado pela editora Oito e Meio. Abs!

    • Rodrigo Rahmati

      Como assim, “o protagonista sofre de narcolepsia”? O protagonista, sendo em 2.ª pessoa, não sou eu, o leitor? É isso? Que legal 😀

      • É exatamente isso. VOCÊ sofre de narcolepsia! 🙂

        E acabei de descobrir que o livro do Timm é finalista do São Paulo de Literatura deste ano.

        • Rodrigo Rahmati

          Já tá na minha lista de “quero ler” hahaha

  • Rodrigo Basso

    Olá, trio! Sobre narrativas e narradores, existe um diferença entre o Narrador e o Foco Narrativo. O “narrador” pode ser um personagem ou não da história (primeira ou terceira pessoa) e o Foco Narrativo é de “onde” ele narra, isto é, se ele narra a partir dos conhecimentos apenas de determinado personagem ou se ele é onisciente.

    No caso do Game Of Thrones citado, a narrativa se dá em terceira pessoa, pois o narrador sempre se refere ao personagem do capítulo na terceira pessoa. Exemplo: Tyrion pensou isto, Jon disse aquilo etc… Mas o Foco Narrativo é em primeira pessoa, pois apenas o que AQUELA personagem sabe/vê/sente nos é transmitido. Exemplo: quando lemos um capítulo da Arya, só vemos aquilo que os olhos dela vê; só escutamos os pensamentos dela e não é narrado nenhum evento o qual ela não tenha testemunhado.

    • Excelente comentário! Obrigado por compartilhar o conhecimento 😀