Filosofia Trágica

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Quarta entrevista, por Hugo Pinheiro, no papel de substituto. Vinte e um de janeiro de 2017, às dez e treze. As perguntas de hoje vão ser sobre… As perguntas dessa gravação são sobre o caso de Beatriz Pinheiro. Os oficiais estão trazendo Bruno.

Boa tarde, é…?

Hugo. Boa tarde, Bruno. Então… Tudo bem por aqui?

Não; na verdade, pelo contrário. Porém, pouco importa. A que veio?

O Arthur não pôde vir, ele me entregou um roteiro de perguntas pra que eu substitua ele hoje.

Ele me ligou avisando que não poderia vir.

É. Eu estava com ele quando ele te ligou. Bem, as perguntas são especificamente sobre um crime… Pra pesquisa do livro.

Crime? Ah, tanto faz. O que você faz da vida? É jornalista também?

Não… Não exatamente. Eu até escrevo. Faço freela para algumas revistas e sites, como colunista.

Sobre o quê escreve?

Filosofia, que é minha área de formação. Mas muito sobre política também.

Filosofia… Por isso essa tatuagem?

Você viu? É da época da faculdade. Uma pequena… homenagem a Nietzsche.

Sempre achei filosofia Nietzschiana um tema interessante; talvez essa conver…

Nietzsche é bem acessível pra leigos. Enfim, vamos às perguntas? A sua paciente, Bea… digo, a senhorita Pinheiro; pode me falar sobre sua relação com ela?

Ora, o que posso dizer? Ela era uma paciente, como todas as outras, problemática. Veja bem, Hugo: a senhora Pinheiro se encaixa no diagnóstico de depressão pós-parto. Depois de dar à luz sua filha, Julia, ela desenvolveu certa… certa aversão por si mesma. E não tardou a rejeitar também a criança. Como deve saber, a gravidez foi inesperada; eu até diria indesejada, em certo ponto.

Indesejada…? Explique melhor, por favor.

Ora, eu trato a senhora Pinheiro por “senhora” pela força do hábito. Na verdade, Beatriz era uma mulher jovem. Tinha vinte e dois anos quando começou a visitar meu consultório, se não me falha a memória. Ela já apresentava um quadro de depressão fazia alguns meses.

Pode explicar a “gravidez inesperada”?

Beatriz engravidou cedo, quando ainda estava na faculdade. Conhecia um jovem, cursavam Direito juntos, flertavam às vezes. Um dia eles se encontraram em uma festa…O que acontece é: ela engravidou. E Richard, o jovem de que falei, se não tinha interesse algum em um relacionamento sério, imagine em um filho. Acredito que também não foi o momento para Beatriz. Concordaram em abortar, porém… como em muitos casos, os pais de Beatriz não. Disseram que, se ela abortasse, deveria deixar sua casa e se esquecer de que eles eram sua família.

Espere um segundo, ninguém… Não, não. Prossiga, acho que entendi o que disse.

Bem… Beatriz decidiu dar ouvidos aos pais e não interromper a gravidez. Sete meses depois ela deu à luz, após pagar por um processo clandestino de cesariana, com a criança ainda prematura. Não cabem detalhes neste ponto, mas em março do ano passado os pais de Beatriz me contataram, indicados por um colega da área. Eles sabiam que sou especialista em depressão, então contaram sobre Beatriz e os problemas que tinham com ela. Até fiquei interessado pelo caso, apesar de não saber o suficiente a respeito. Pedi que trouxessem Beatriz ao meu consultório tão logo fosse possível. Na semana seguinte, então, eu a conheci.

O que o interessou nesse caso? Pelo que o Arthur conversou comigo, você é bem seletivo com seus clientes.

Ora, você tem a informação anotada, não tem? Não se faça de…

Tenho várias informações sim. O que sei é…

É que Beatriz saiu com o bebê em uma tarde, após uma crise de ansiedade, e deixou a criança no banco de um parquinho.

Exato. O que diz aqui é que a senhora Estela Marino levou Julia para sua casa, pois, segundo ela mesmo, “estava pra chover”. E, de casa, ela entrou em contato com a polícia. Milhares de mães abandonam seus filhos todos os dias, não é? Por quê Beatriz?

De fato, muitas mães fazem isso. Porém, consta nas anotações que Beatriz voltou para buscar a criança?

Tenho para mim que foi por isso, apesar de saber que não. Talvez tenha sido o destino.

Destino… Acredita nisso?

Não, não. Porém seria limitador propôr apenas um motivo. Na verdade, foram muitos. É como se, após ouvir toda a história dela, minha mente montasse um quebra-cabeça com os acontecimentos. Eu vi uma coisa se repetir diversas vezes. E tive um estalo, uma hipótese para o caso.

Hipótese? Explique melhor, por favor.

Não tenha pressa, Hugo. Aos poucos você entenderá.

Se puder me fazer entender agora, eu ficaria agradecido.

Já disse para não ter pressa, Hugo; as coisas ficarão mais claras com o tempo.

Se esclarecer agora, que diferença fará?!

Deixei claro para Arthur e deixarei para você: não gosto de ser pressionado!

Me desculpe, me desculpe; é que…

Só não me pressione; estar encarcerado aqui já é estressante o suficiente. E me desculpe pela irritação, não estão sendo bons dias.

Eu que me desculpo. Por favor, prossiga. Qual foi o diagnóstico do caso dela?

Beatriz se torturava. Não compreendia porque desprezava tanto o bebê. E, na mesma medida, não compreendia por quê ligava para isso. Quando os pais de Beatriz entraram em contato com a polícia, após ela aparecer sem Julia em casa, foram convidados a fazer a identificação de uma criança encontrada por uma senhora. Confirmaram ser o bebê e levaram Julia consigo, e decidiram isolá-la totalmente de Beatriz.

Compreendo o porquê…

Porém, isso não vem ao caso. O que acontece é: Beatriz ficou arrasada quando afastaram a criança dela.

Espere… Isso deveria fazer sentido?

Não. Não deveria fazer sentido. Era isso que atiçava minha curiosidade.

Me explique melhor.

Nesse ponto, tudo não passará de presunção.

Que seja; sua opinião é o mais importante aqui, não é?

O que acho é que Beatriz sofria de um quadro de Múltiplas Personalidades; no entanto, não tive tempo de confirmar a presença do distúrbio; apenas enxerguei alguns sintomas durante as consultas. Ela sempre agia diferente; ora alegre, ora triste, ora eufórica, ora depressiva. Na minha opinião, haviam personalidades se contradizendo o tempo todo, e isso é comum nesses casos. Por um lado, o eu X de Beatriz culpava o bebê por todos seus problemas. Trancar a faculdade, brigar com o namorado e com seus pais, além de sua presente melancolia… E, por outro, o eu Y a culpava por odiar a bebê.

É tão paradoxal…

Sim, é muito. Eu até poderia descrever como um Paradoxo de Personalidade; porém, acho que é um termo nunca cunhado.

Agora eu… entendo.

Continue, por favor, Bruno, continue.

Bem, a autotortura que eu citei era literal. Muito antes de se consultar comigo, Beatriz já praticava esse tipo de punição.

O quê…? Isso não está citado nos autos.

Era mais uma prática antiga. A polícia deve ter presumido que era de conhecimento da família; porém, Beatriz escondia bem. De qualquer forma, não há uma relação entre isso e o suicídio.

Como não?! É um sintoma da depressão!

O suicídio dela não tem relação com a depressão em si, Hugo. Não simplifique as coisas.

O quê?! É visível que Beatriz decidiu suicidar por ressentimento!

Não. Você está errado, Hugo. O caso é bem mais complicado do que isso. Sou um psicólogo experiente, dê mais crédito às minhas palavras; não é só uma questão de consciência.

Se acabou de me dizer que ela se autoflagelava, só pode ser isso!

Sim. Ela tinha esse… esse hábito, porém, foi antes de começar as sessões comigo. Assim que ela me contou sobre isso, eu a proibi de continuar.

Acha que ela iria parar por quê você pediu? Não seja arrogante!

Está com meu fichário?

Com uma cópia dele.

Me dê aqui.

Veja isso.

Sempre tirei fotos dos pulsos e tornozelos dela antes das sessões. Assim, eu a mantinha ciente de seu esforço, e me mantive ciente do meu. Me fazia bem saber que a estava ajudando. Me faz até hoje.

Uhum, eu imagino… Vocês tinham três encontros por semana, não é? Sobre o quê conversavam?

Sobre a vida, normalmente. Sobre como falta sentido nela. Não tem essa impressão, às vezes?

Às vezes, sim…

É uma noção bem trágica.

Eu sei. Pode se aprofundar mais nos assuntos das conversas?

Veja bem; não é algo que eu queira fazer, entende? Apesar de estar preso, continuo sendo um psicólogo. E devo sigilo aos meu pacientes; ao menos o sigilo essencial.

Arthur disse que você responderia a todas as perguntas.

Arthur se enganou. Eu não posso simplesmente contar tudo.

O que exatamente pode contar?

Posso dizer que Beatriz pensava muito na vida. Na verdade, pensava muito mais na morte.

E eu posso dizer que eu já imaginava isso, afinal, ela se matou.

Suicídio, Hugo. Ela cometeu suicídio.

Dá no mesmo…

Sabe qual a diferença entre a morte e o suicídio?

Você escolhe o suicídio. É como desistir, abrir mão da ilusão na qual vivemos.

Acha que pode falar sobre filosofia comigo, Bruno?

Não vejo problema nisso. E acontece que perguntou. Beatriz lia muito Schopenhauer, sabe?

Sim, sabia… Mas não creio que levava a sério aquela corrente filosófica.

Então engana-se. Ela levou, sim. Em dados momentos, ela quase se convenceu de que a vida não passava de um erro, graças ao pessimismo schopenhaueriano.

Conversavam sobre suicídio, então, não é?

Desde a primeira sessão; Beatriz pensava muito à respeito.

Ela acreditava que a vida era um erro? Acha que por isso ela cometeu suicídio, não é?

Não, não por isso. A opinião dela mudou radicalmente após as sessões começarem. Beatriz lia muito Schopenhauer, e em contrapartida sempre li muito Nietzsche. Discutimos bastante a respeito das noções de vida, mundo e suicídio; sempre enxergando além dos dois lados. Porém, sempre tive certa vantagem, pois como você sabe, Nietzsche estudou Schopenhauer especialmente para contrapô-lo.

Mas acha ético falar sobre suicídio com alguém com tendências a cometê-lo?

Sou um psicólogo, Hugo. Eu falo do tema que achar relevante para meus pacientes. Não ignoro uma questão simplesmente pelo que o senso comum pensa a respeito.

Então acredita que o suicídio é uma escolha?

Eu diria que admiro essa… essa noção. Porém, como psicólogo, eu sei que há uma série de implicações quanto à sobriedade dessa escolha. Para que você entenda, me diga: qual o discurso de Nietzsche a respeito do suicídio?

Que pode ser uma escolha…?

Não apenas isso, na verdade. Nietzsche diz: pode ser uma escolha, se feita em plena consciência, e sem nenhum fator do meio pesando sobre a escolha.

De fato é quase isso, com um tom mais visceral.

Bem, como psicólogo, posso afirmar que nosso meio influencia diretamente nossas escolhas, independente de qualquer coisa; então, não tenho coragem de concordar com as palavras de Nietzsche.

Já pensou em suicidar, Bruno?

Quando jovem, sim, cogitei muito a possibilidade. Porém, mudei de ideia quando comecei a cursar Psicologia, porque enxerguei além.

E, mesmo assim, admira essa noção niilista?

O problema é: Nietzsche não foi pessimista o suficiente. Acreditava que as pessoas teriam discernimento para escolher plenamente. No meu papel de psicólogo, de analisar as pessoas, concluí que poucas pessoas têm tal consciência… Por isso, discordo da posição dele, em certo ponto. Claro, considerando isso mais pelas pessoas do que por mim mesmo.

Acha mesmo que existem pessoas assim? Que conseguiriam escolher, sem serem influenciadas pelo meio em que vivem?

Acredito, sim. No entanto, sei que são pouquíssimas, senão quase nenhuma. E, em geral, optam por viver, como eu.

Acho que você se considera pleno para fazer essa escolha, não é?

Sem dúvida. Como psicólogo, meu esforço consciente me isenta do meio. Assim, tenho discernimento para escolher.

E escolheu viver, não é?

Por enquanto… Ao menos por enquanto.

Considera Beatriz uma dessas pessoas, que poderiam escolher?

Antes das consultas? Creio que não.

E enquanto ela se consultava?

Não posso atestar, apesar de acreditar que pude ajudá-la a enxergar que o suicídio tem que ser pensado como um direito. Mostrei que ela tinha uma escolha; a de terminar consigo quando bem entendesse. Contanto que tivesse certeza do que estava fazendo, e de que fazia por si, e por mais ninguém.

Acha mesmo que uma jovem depressiva teria consciência para escolher isso?! Não seja prepotente!

Você não entende, Hugo. Beatriz havia superado a depressão. Nada de pulsatilla ou de paroxetina, não mais. Beatriz abandonou essas drogas; obviamente, sem o conhecimento da sua família conservadora. Ela já conseguia lidar com o fato de ter uma filha, apesar de não se considerar apta para criá-la.

Esses remédios… esses antidepressivos… constam como prescritos por outro doutor.

Sim, os pais dela julgavam necessário, porém eu não uso esses recursos. Eles  apenas prejudicam o tratamento e o paciente. Raro os casos em que prescrevi alguma droga, talvez apenas no caso do senhor Emanuel.

Um dos outros suicidas, não é?

Não. Ele não. Emanuel morreu de overdose, por causa desses mesmos remédios. Enfim… Isso não vem ao caso.

Overdose?

Prefiro não tocar nesse assunto; por favor prossiga.

Tudo bem, não precisa falar então. Voltando. Tinha alguma ideia de que Beatriz podia cometer suicídio?

Não; porém, era uma possibilidade debatida. Ocasionalmente, ela se indagava se seria um bom caminho, como eu havia dito.

Aqui consta que ela se consultou no dia do ato, não foi?

Sim, sim. Ela ficou pelo menos das três às cinco.

Sobre o que falaram naquele dia?

Faça-me um favor… eu sei que você ouviu a gravação.

Sim, infelizmente ouvi. Não é meu objetivo tirar conclusões sobre isso, mas por curiosidade, por quê gravava?

Já esclareci para Arthur a respeito.

Não faz parte da pesquisa. Como disse, é por curiosidade. Se quiser, posso desligar o gravador.

Desnecessário. Eu gravava apenas os casos complexos. Escutava as consultas dias antes de realizar outras, para me atentar a certos pontos e tomar nota das coisas importantes…

Importantes em que sentido?

Importantes para o tratamento. Assuntos nos quais tentava me aprofundar em outras consultas.

Não achava antiético fazer as gravações?

É antiético a polícia ouvir. Do mesmo jeito que irrita o paciente saber sobre. Porém, para todos os efeitos, se ficar comigo, teoricamente não há problema algum.

Mostrou as gravações para alguém, não é?

Não. Apenas uma vez… Foi um erro, eu sei. Você sabe como são as coisas.

Se quer saber, não considero crime o que você fez, Bruno. Talvez você seja doente, como as pessoas dizem, mas… acredita que estava ajudando as pessoas, não é?

Não “acredito”. Eu estava.

Mesmo quando dizia que talvez a morte fosse melhor?

E não concorda comigo, Hugo?

O problema é que a sociedade não concorda, Bruno.

A sociedade não sabe de nada! Esse é o problema! Não temos liberdade, Hugo. Não temos direitos, não podemos viver nossa vida como desejamos… Nem mesmo podemos deixar de vivê-la sem sermos julgados. Em algumas religiões o suicídio é um pecado, porém, eu vejo como uma ação nobre, corajosa. Algumas pessoas simplesmente não têm motivos para viver, e não as culpo. Às vezes, é difícil mesmo para mim enxergar motivos.

Sei como é. Pra alguns filósofos, a relação entre viver e pensar é a única coisa que temos. E é o que nos mantém vivos.

Me imagine, então: preso, sem poder fazer o que melhor faço. Meu regime fechado me privando de sequer desejar um “bom dia” para alguém que não vista uma farda. Ultimamente, penso muito se vale a pena viver nesta situação.

Não acha que pode ser inocentado? Que pode mostrar a todos o que faz, abrir um precedente?

A verdade?

Sim, afinal é o que importa aqui…

Não acredito que eu vá sair daqui nunca. A única coisa que me mantém vivo, por enquanto, é seu amigo Arthur. Ele será meu legado. Vai escrever minha história e, talvez, fazer algumas pessoas refletirem a respeito.

Já pensou em fugir?

Todos que entram aqui pensam nisso. Porém, desisti da ideia; seria como admitir a derrota. Acreditar que tudo que fiz foi uma farsa, que eu mesmo sou uma farsa. E sei que não é verdade… Concorda?

Em alguma medida, sim… Sinto muito pela sua situação, também. Nem sempre as pessoas estão prontas para certas coisas.

Tem razão… porém, como estariam? É incomum se discutir a respeito… E… E sabe, me enoja pensar que estou preso por ser realista. Estou aqui pura e simplesmente por conceitos retrógrados e… porra! Isso me tira o sono, Hugo. Todas as noites, quando deito, penso que devíamos ter mais liberdade… As pessoas poderiam não julgar umas as outras para viver.

E por elas continuarem a fazer isso, em toda nossa mísera existência, perco mais e mais as esperanças em nossa raça. Como lidar com isso?

Eu… eu também não sei.

Quantas vezes não pensei em desistir… Não de nossa luta; desistir de mim mesmo. Fazer da minha existência algo maior. Um marco. Se mais pessoas lutassem por nossa causa, pelo direito sobre a vida e a morte, talvez nos escutassem. Sabe do que precisávamos?

Do quê?

Precisávamos de mártires, de ídolos, figuras de inspiração, que discursassem por nossas ideias e lutassem por nossos direitos.

Acredita mesmo que isso funcionaria?

Quanto mais pessoas desistissem, menos o conceito soaria errôneo. O cristianismo foi criminalizado há séculos, e isso mudou com o crescimento dos adeptos. O divórcio já foi errado, assim como ter relações homoafetivas e uma série de outras questões… Todas essas coisas foram julgadas como pecados por nossa sociedade. No entanto, as pessoas mudaram esse paradigma, aos poucos. Começaria com a luta dos mais fortes, a linha de frente; que, aos poucos, abririam mão de suas vidas em prol da causa. E se tornariam mártires. O próprio Jesus foi um. Então, a partir de um, todas as correntes seriam quebradas, e as pessoas se livrariam dessa ilusão.

Você também sente vontade…?

De me livrar dessa ilusão?

Não. De se tornar um mártir, uma figura de inspiração.

Nunca fui um protagonista, se é que me entende. Sou mais como um militante da causa. No entanto… eu faria, mas pelos outros, não por mim. E você, sente?

Talvez… Não sei se teria coragem para assumir essa responsabilidade.

Entendo. É uma escolha e aceitá-la não significa consagrá-la. Diferente do que a sociedade costuma fazer, nossa causa nada impõe.

Acredita que vale a pena morrer por algo em que se tem fé?

“Apenas as cabeças pequenas e limitadas temem seriamente na morte, a destruição total do ser; para espíritos verdadeiramente privilegiados tal medo fica afastado.”

Precisamos de mais pessoas como você, Hugo.

Precisam?

Nossa causa precisa. Você é o tipo de pessoa que se torna um mártir.

Sou…?

Imagine quantas pessoas iriam… Quantas pessoas iriam tê-lo como inspiração?

Não quero ser fonte de inspiração.

Mas pode ser uma; tem muito potencial.

Então explique: como eu faria isso?

Torne-se um exemplo da liberdade! Prove que temos o direito de acabar conosco, quando quisermos!

E como vou fazer isso?!

Vá além. Prove que pode ser livre, que pode fazer suas escolhas.

Me libertando dessa “ilusão”, não é?

Exato. Apenas com exemplos nós nos tornaremos relevantes aos olhos do povo.

Então… Eles deveriam saber que fiz isso pela causa… Não é?

Sim, é a melhor forma de divulgar nossas palavras, nosso discurso.

Talvez escrever um bilhete suicida?

Uma postagem na internet poderia viralizar, uma carta chegaria às mãos da imprensa. Porém, o mais importante é deixar claro que luta por uma causa.

É sempre a mesma conversa, não é Bruno?

Como é?

Acha que não percebi o que tentou fazer comigo? Me diga: usou aquelas pessoas fragilizadas como ídolos da sua causa?

Não foi?

Responda, Bruno. Afinal, gravei tudo; ficar calado agora não vai mudar nada. Me diga: acredita mesmo nessa causa?

É claro. Você não?

Não vou mentir; concordo com suas palavras. Mas não acho que uma onda de suicídios associada a uma luta por direitos seja uma boa jogada. São como as revoluções armadas: estão usando o mesmo artifício do opressor. Usando as mesmas armas.

Como venceremos uma luta, senão pela força? Toda revolução depende do impacto que causa, não seja ingênuo!

Sua ideia de impacto é meio… é meio radical.

Não seja hipócrita!

Não. Eu não sou.

Você diz apoiar nossa causa; porém, discorda da luta que a acompanha. É um sacrifício, Hugo. Conseguimos muitos direitos apenas após muito sangue e suor.

Mas o que acabou contra mim, consta no Código Penal, artigo 122: “Indução, instigação ou auxílio ao suicídio” é crime. Por isso está preso, Bruno. E até concordo que todos deviam ter o direito de escolher, mas isso não é escolha: você tentou me influenciar. E, se fez isso comigo, fez com todos.

Quando Arthur se ofereceu para escrever acerca da minha vida, concordamos: sem julgamentos.

Eu não sou Arthur, Bruno; eu não prometi nada e não posso ignorar o que fez. Você se lembra de todos seus pacientes? Todos que induziu, aos poucos, alimentando suas frustrações, seus piores sentimentos? É falta de ética o que fez, não é? Logo a ética que tanto o proíbe de falar.

Se lembra bem de Beatriz, não é? Pode me contar como foi o último dia dela?

Eu já falei o que tinha para falar!

Ela disse algo sobre nó… sobre sua família?

Tudo bem, se não quer responder, estou indo…

Ela disse que amava toda sua família. Ainda que seus pais não fossem os melhores, tinha um bom irmão e uma filha perfeita. Sempre dizia que eles eram seus pilares.

É. Ela era amável. Sabe… Me lembro como ela estava naquele dia. Tinha saído de casa pra tomar um café com o redator do site. Quando me despedi dela, ela disse “adeus”. Foi a última vez que ouvi sua voz.

Acho que não entendi muito bem, Hugo. Pode repetir?

Espere. Não, não diga…

É… É um mundo pequeno, não é Bruno? Eu precisava te encontrar de alguma forma. Quando Arthur disse que estava trabalhando em um livro sobre seu caso, não consegui acreditar. Puta coincidência, né? Um colega de trabalho, convivendo com o assassino da minha irmã…

Assassino…

O mundo é mesmo pequeno. Arthur sabe que Beatriz era sua irmã?

Não. Ele não contei até agora. Não o culpe por isso.

Diga àquele… Diga a ele para jamais voltar aqui.

O que é isso, Bruno? Sei que o que você mais quer são os holofotes. E uma biografia escrita por Arthur Muller… Bem, isso garante algum prestígio, não é?

Contarei tudo a ele hoje à noite, e provavelmente ele ligará te pedindo desculpas. E virá amanhã, com mais desculpas e pedindo para perdoá-lo pelo incidente, prometendo ser mais profissional…

Hugo, sobre o que ocorreu com Beatriz… Quero dizer que… que não foi pessoal.

Eu sei, Bruno, eu sei que não foi. O que eu fiz hoje também não. Mas, no fundo isso não muda nada, não é?

Só precisava entender por quê você fez isso com tantas pessoas. Por isso decidi vir aqui. Precisava entender o que isso significava pra você.

E entendeu?

Estou indeciso entre: “Sim, você acredita no que fala, apesar de ser medroso demais para lutar por sua própria causa” e o “Não, você é apenas uma pessoa doente que precisa se tratar, pois no fundo adora fazer o papel de… de ceifeiro“. Acho que é um bom termo, não é?

Bem; eu preciso ir, porque está tarde. Nos vemos de novo no julgamento. Até lá, espero que sobreviva a essa merda de lugar; apesar de tudo, acho que nem você merece esse inferno. Qualquer dia eu te ligo; acho que você pode me ajudar a superar.

Não vai mais falar nada, não é? Isso confirma minha hipótese. Você realmente acredita no que diz, só é medroso demais para seguir sua própria filosofia. Foi bom conversar com você. Suas palavras me lembram as de Beatriz.

Éramos muito parecidos.

É, eram mesmo. A diferença é que ela foi uma mulher corajosa, e você é apenas um psicólogo metido a Messias de um novo credo.

A propósito, a tatuagem foi só uma prenda por perder uma aposta, coisa de universitário bêbado. Na verdade Nietzsche não é uma grande inspiração; como você percebeu, prefiro Schopenhauer. Mas sabe, eu te perdoo, afinal “tudo aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.” Até mais, Bruno.

 



Matheus Salfir
é um rato de livraria que adora ler no ônibus e olhar para o vazio. Costuma dormir quatro horas por noite; escuta menos podcasts do que queria e escreve menos do que deveria. É fascinado pelo ser humano, por suas invenções, descobertas e histórias. Tem uns textos no Wattpad, e perdeu vários quando seu HD deu pau. Trabalha numa livraria e produz podcast quando pode, no Diário de Livreiro e no Wattcast. E busca estar perto das coisas que ama: tudo o que foi citado (menos o HD dar pau).

  • Haniel Lucas

    O que é de filosofia trágica nisso?

  • Valéria Gravino

    Genial!!! Adorei!!????

    • Matheus Salfir

      Obrigado Valéria! É legal quando alguém lê o Manifesto e depois vai para o Filosofia e vice-versa!