Wolverine: Arma X de Marc Gerasini

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Não posso fazer esta resenha sem spoilers. Para poder explorar os problemas que encontrei, necessito não apenas falar sobre o livro como também do quadrinho, sintam-se avisados…

Wolverine: Arma X é a romantização da clássica HQ homônima, escrita e desenhada por Barry Windsor-Smith, que conta a história de como Wolverine conseguiu o esqueleto de adamantium.

Após ler o livro de Guerra Civil, o qual já fiz resenha (e você pode lê-la clicando aqui), decidi que leria essas versões em formato de romance de todos os quadrinhos que eu possuía. Guerra Civil fora uma excelente leitura e atingiu minhas expectativas ao dar profundidade e, na minha humilde impressão, corpo a ideia que Mark Millar construiu na HQ. Porém, o trabalho feito por Marc Gerasini, em Arma X, está muito longe disto.

O romance tem dois graves problemas. Foram duas decisões do escritor que me fizeram desgostar de cada página que lida: a primeira diz respeito a humanização dos torturadores de Logan. Em ambas as narrativas (livro/quadrinho), Logan é sequestrado e usado como cobaia para o experimento Arma X. É desumano o que fazem com ele. Fica claro que a equipe desconhecia o fato dele ser um mutante o que acabou por ser sua benesse, mas também sua maldição, já que se por um lado, devido ao fator de cura, um dos seus principais poderes mutantes, ele consegue sobreviver, por outro conseguir se regenerar o torna praticamente o único capaz de suportar a dor que é possuir um esqueleto todo feito de adamantium.

Há uma HQ da coleção da Salvat de capa vermelha intitulada Procura-se Mística. Na qual Wolverine está caçando Mística após trair os X-Men. Uma das passagens mais interessantes deste quadrinho é quando ele acaba nos revelando quais as consequências do adamantium no seu corpo. Segundo, Logan:

“Engraçado… as pessoas pensam que, só porque tenho fator de cura, não sinto dor. […] Senti cada tiro, facada, soco e queimadura que me detonaram ao longo dos anos. Mas pior ainda é a sensação quando meu corpo começa a se remendar… quando os músculos e nervos voltam a crescer. Tu não imagina a agonia. Além da dor constante de ter um esqueleto coberto por adamantium…”

Eu também achava que o fator de cura era um alento para ele, mas através desta passagem é evidente a dor terrível que Logan teve que suportar durante a injeção do metal em seu corpo. No momento que está próximo de não suportar mais, seu fator de cura começa a agir e o faz permanecer vivo. Mesmo que durante o experimento, o MER, programa de computador controlado pela ex-cientista da NASA Carol Hines, mantivesse o cérebro dele inconsciente, a luta do corpo de Wolverine para mantê-lo vivo acaba por lhe causar mais dor ainda.

Há uma cena, que ocorre após a descoberta das garras de Wolverine, na qual por meio de um raio-x os cientistas percebem que as garras possuem alguns filamentos que provocam mais dor quando as garras são extraídas. Então, os responsáveis decidem fazer uma cirurgia para cortar estes filamentos. As mãos são abertas cirurgicamente em quanto Logan está em um estado de semi-consciência. Aqui, tem-se o seguinte diálogo:

“Deus! Ele está voltando a si! […] ele… está consciente?

Sim, doutor.

E pode sentir o que estamos fazendo?

Quase tudo. Ele está imerso em dor.”

É importante frisar que essa humanização só ocorre no livro. O autor escolheu diante de diversas possibilidades narrativas para preencher os espaços do quadrinho a humanização dos participantes do experimento X. Passar páginas e páginas lendo sobre os dramas pessoais de pessoas capazes de um ato tão desumano foi enfadonho e até certo ponto irritante.

Eu tinha uma expectativa sobre a leitura de Arma X acreditando que seria um romance onde nós mergulharíamos na mente de Logan e em toda a agonia e sofrimento que ele passara. Até mesmo, talvez, nos aprofundarmos na confusão que essa experiência traumática causara na mente dele. O autor desejou transformar uma história de terror em uma narrativa aventuresca.

E aqui exploro o segundo ponto que me desagradou nesta romantização. Durante o período de inconsciência, no qual a mente de Logan estava dominada pelo MER, Gerasini decidiu contar uma aventura em paralelo na qual Logan, agente do governo canadense, invade, no período da Guerra Fria, uma instalação coreana para resgatar algo ou alguém (não fica claro objetivo da missão dele).

Novamente temos páginas e mais páginas de uma história sem nenhuma relevância para trama (talvez a cena final seja relevante, mas é um fato tão previsível que ao chegarmos nela, talvez, outro leitor possa ter a mesma impressão que eu: “Ah… então quer dizer que me levou até aqui para mostrar isso?”). Se retirarmos essa aventura, percebe-se não fazer falta ao todo da história.

Existem pontos positivos na leitura? Claro que sim. Em uma passagem próxima do final onde é mostrado o momento no qual Logan desperta e começa a massacrar toda a equipe do laboratório, militares, faxineiros… somos mergulhados na agonia da mente dele. Percebi que o escritor tinha competência para fazer uma trama mais subjetiva, mais psicológica… Destaco também as informações que nos são passadas a respeito do próprio experimento. Informações estas, vale ressaltar, não presentes na HQ.

Outro ponto positivo é quanto a edição em si. Li em formato ebook e não tenho do que me queixar: diagramação e revisão são impecáveis. As folhas que separam os capítulos possuem, algumas, claro, uns rasgões como se garras houvessem destruído as páginas.

Avaliação:

Wolverine: Arma X é um livro que deseja transformar em aventura uma clara narrativa de terror. Faz péssimas escolhas para preencher os espaços presentes na trama do quadrinho e pouco acrescenta de informação a cerca do personagem Wolverine e do próprio experimento X. Traz profundidade onde não se faz necessário e deixa rala questões importantes levantadas na HQ. Recomendo para fãs do carcaju.

Deixo claro, sempre, que as informações expressas nesta resenha evidenciam as minhas impressões pessoais como leitor de Wolverine: Arma X. Cada leitor, a partir de sua própria leitura, deve construir a sua opinião. Caso tenha se interessa em ler, não deixe de fazê-lo por causa deste texto e adquira clicando no link abaixo.

Dados da obra

Título: Wolverine: Arma-X

Autor: Marc Gerasini

Capa comum: 352 páginas

Editora: Novo Século; Edição: 1ª (1 de julho de 2016)

Idioma: Português

Dimensões do produto: 22,8 x 16 x 2 cm

Peso do produto: 499 g

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Sinopse:

Um violento andarilho com um passado misterioso torna-se cobaia de um experimento biotecnológico ultrassecreto. Logan, ex-membro das Forças Especiais do Canadá, é capturado por um grupo de cientistas e levado a um complexo de pesquisa nas Montanhas Rochosas Canadenses. Lá, sob direção do brilhante, inescrupuloso e enigmático Professor, Logan é submetido a um agonizante processo que visa despertar seus poderes mutantes e transformá-lo em Arma X – um incessante e indestrutível gerador de caos com garras de adamantium retráteis e a habilidade de se regenerar de qualquer lesão. O Professor deseja possuir e controlar sua máquina mortífera. Para atingir seus objetivos, alia-se a cientistas brilhantes, e Dr. Abraham B. Cornelius, inovador imunologista procurado pelo assassinato de sua esposa e filho. Os três invadem e torturam a mente e o corpo de Logan. Com o ímpeto de metamorfosear homem em monstro, os cientistas subestimam a força inabalável de Logan. E os resultados podem ser catastróficos. Para todos os envolvidos, a vida torna-se mais preciosa, e a morte, iminente. Nasce um Frankenstein moderno.