[Coluna] Abandone a ideia genial

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Antes de passar às linhas subsequentes assumo que não sou escritor publicado, muito menos famoso. Este texto não visa ser “um guia de prático de nada”. O único objetivo é compartilhar um pensamento que vem martelando minha cabeça desde que comecei a ler Os Segredos da Ficção, do escritor pernambucano Raimundo Carrero. Estabelecidos os limites, vamos ao texto.

Acordar no meio da noite assombrado por uma ideia que nos parece genial não é incomum entre escritores. Stephanie Meyer disse que sonhou com a cena em que Edward revela para Bela que é um vampiro. Uns acordam e anotam em um pedaço de papel. Outros deixam a ideia enraizar em suas cabeças para no dia seguinte poderem começar a escrever; há aqueles que adormecem desejando lembrar cada fragmento de iluminação na manhã seguinte.

O novo dia começa. Diante da empolgação você começa a escrever ou decide contar para alguém a tal ideia genial e à medida que vai falando (ou escrevendo) percebe que ela não é tão espetacular assim… chega a parecer meio boba, ingênua, talvez até parecida com aquele outro livro, série, filme… que assistiu recentemente.

Já ocorreu comigo? Quantas vezes já comecei a escrever algo que me empolgava e dominava cada pensamento até perceber – em dado momento – que a gênesis não era tão notável assim. Mas, como afirmei no começo, a leitura do livro do Carrero tem mudado a minha percepção sobre a ideia genial. A principio, antes de citações ao autor, quero desenvolver um exercício baseado em questionamentos feitos por mim, em episódios do CabulosoCast, a respeito da obra do Martin.

O exercício é bem simples e você pode fazê-lo também. Pegue a sua obra favorita, seja livro, série, filme… agora reduza-a a uma frase, uma ideia. Vou pegar como exemplo O Chefão, escrito por Mario Puzo, que inspirou o filme O Poderoso Chefão de Francis Ford Coppola, com roteiro do mesmo Puzo. Sem sombra de dúvida um livro incrível que deu origem a um clássico estudado hoje em diversas escolas de cinema. Como resumir o livro/filme?

“A história de uma família de mafiosos italianos”.

Agora, partindo desta frase, busque em sua memória: quantas obras já não foram escritas ou filmadas com base nesta premissa? Mas não acabei ainda, vamos continuar…

O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien. Sintetizemos A Sociedade do Anel:

“Um perigo eminente obriga um grupo improvável a se unir para combatê-lo”.

Lembra Vingadores? Cavaleiros do Zodíaco? Guardiões da Galáxia? Sei que outros exemplos estão passeando pela sua mente. E se estendêssemos o exercício ao Martin? As Crônicas de Gelo e Fogo poderia ser descrito como:

“Uma luta pelo poder”?

Qualquer conhecedor das obras citadas irá dizer, “mas Lucien, não é apenas isto”. Exatamente! É neste ponto que quero chegar, porém ainda preciso de algumas linhas para concluir.

O propósito deste exercício é simplesmente mostrar que a grandiosidade de certas obras não estão na sua ideia, mas sim na sua execução. Pegue aquele ideia mais ingênua que você já teve, sim, aquela que você teria vergonha de contar para seus amigos mais íntimos. Vou compartilhar uma com vocês: quando era adolescente, influenciado por Neon Gênesis Evagelion, comecei a escrever uma fanfic “original” sobre um menino brasileiro que precisava pilotar um robô gigante para combater alienígenas.

Não era uma ideia genial, mas me dava prazer imaginar o cenário de Evangelion aplicado à realidade brasileira, com as mesmas maracutaias políticas que vemos hoje em Brasília, com funcionários públicos que eram questionados pela população, pois mesmo com a Terra sendo invadida por alienígenas, havia pessoas que achavam que o dinheiro deveria ser investido em educação, saúde, moradia… É óbvio que essa fanfic nunca teve um final, porquê? Por que não era uma ideia genial, daí a abandonei.

Mas não apenas abandonei esta fanfic como também deixei de lado a minha paixão pela escrita, pois, assim eu julgava, eu não possuía ideias geniais para escrever. E se você está pensando em aplicar esse raciocínio para outras estâncias da sua vida que não a escrita, eu também o estou fazendo.

Lembro, por exemplo, quando procurava um tema para minha monografia da especialização em letras. Queria uma ideia genial, revolucionária. Fiz, desfiz e refiz projetos. Cada aula me dava novas ideias incríveis para escrever que logo em seguida eram abandonadas.

Anos depois fui criar um podcast literário, afinal de contas “não existiam podcasts literários”, disse à minha irmã, Serena, para motivá-la a abraçar o projeto. Nem se passara alguns meses de criação do CabulosoCast, ao digitar “podcast literatura” no Google, descobri que não era o tal pioneiro que pensava.

Retomando o assunto do ponto de vista da escrita: há um outro pensamento que vem sempre atrelado ao da ideia genial. É o que chamarei de escrita fast-food. Acontece assim: você acorda com a ideia genial ou talvez nem tenha dormido direito de tanto pensar nela, levanta, liga o computador, pega uma xícara de café e começa a escrever. No fim do primeiro parágrafo, além de perceber que aquela ideia não é tão incrível quanto soava em seus pensamentos, começa a sentir dificuldade de transformá-la em texto. No segundo parágrafo, talvez nem lembre mais o motivo de tanto esforço, já que a escrita não está fluindo, então a ideia não pode ser boa.

Agora sim, recorro ao livro do Raimundo Carrero, Os segredos da Ficção:

“O jorro do impulso, onde nasce a voz narrativa, pode ser respeitado, mas não amado em excesso. Não se ama tanto um texto a ponto de não se fazer alterações. Os ajustes são mais do que necessários”. (pág. 51)

E, mais a frente, ele acrescenta:

“Uma oração pensada é muito diferente da oração escrita. Tem outro ritmo, outra montagem. E nem sempre as palavras pensadas se ajustam no papel da mesma maneira como foram imaginadas. As palavras precisam estar diante dos olhos”. (pág. 52)

Partindo de Guerra dos Tronos: apesar de não ter lido a obra (tampouco acompanho a série), quando fizemos o primeiro episódio do CabulosoCast questionamos se o Martin era um bom escritor apenas porque matava indiscriminadamente os seus personagens ou porque possui sangue e sexo nas Crônicas de Gelo e Fogo. Talvez até seja isso que o grande público aprecie e absorva, entretanto ao olhar com acuidade o estilo de escrita e a maneira que o Martin escolheu contar a sua história fazem toda a diferença.

É o que Carrero diz quando fala do “jorro do impulso”. O impulso de escrever um conto, uma noveleta, um romance, uma série… deve ser obedecido. Deixe fluir mesmo que pareça a princípio vindo de uma ideia com pouca originalidade. A questão é: “não ame demais o texto a ponto de não fazer alterações”. Revisar é muito mais do que corrigir erros de grafia, concordância e regência. É procurar também uma nova forma de contar aquela história que parece óbvia e sem vida.

Colocar “as palavras… diante dos olhos”, faz com que

você deixe de ser um autor que tem uma ideia genial para escrever um livro e passe a ser um escritor que está escrevendo um livro.

Ao abandonar o princípio da ideia genial você se permite pensar o seu texto enquanto uma estrutura que pode ser mexida e remexida na busca pela “voz da narrativa”.

Fica evidente a necessidade de um escritor/leitor neste ponto. Estudar outras obras é fundamental. Como saber qual o impacto na troca de um narrador em primeira pessoa para um narrador em terceira? E se seu narrador não for confiável? Como Brás Cubas? E se o seu narrador em terceira pessoa falasse em alguns momentos com o leitor? Leitura e estudo podem trazer essas respostas (ou propor mais perguntas – que equivalem a mais opções na hora de contar uma história, a sua história).

A partir da leitura do livro do Carrero comecei a escrever o conto que deveria ter sido enviado para a coletânea Sentimentos à Flor da Pele. A ideia genial deveria ser uma aventura steampunk. O conto começava com uma cena que gostei bastante de escrever, o marido matando a esposa a sangue frio, mas durante as linhas seguintes comecei a duvidar do texto e aquela ideia genial que deveria vir acompanhada da escrita fast-food começou a mancar na terceira página. Desisti. Retomei, agora partindo daquela cena inicial. O marido deseja matar a esposa. O sentimento que escolhi foi o amor, mas como a morte pode falar de amor? Foi então que lembrei de um senhor que mora aqui próximo da minha casa, ele é/era catador de papelão, mora com a esposa e uma filha. E se a esposa estivesse doente? Pobre, sem dinheiro para comprar o remédio, ele decide matá-la? Não. Ainda não tem ligação com o amor.

Amor lembra sacrifício, não no sentido pejorativo, falo de abrir mão pelo outro. Então decidi que ele não vai matá-la, pelo menos não como tinha sido escrito. Não é uma ideia original, sei disso, mas o que realmente me apaixona nessa escrita é a possibilidade que vem após esse “jorro do impulso”, como diz Carrero. Depois que as palavras estiverem dispostas no papel, quero repensar o meu texto, na execução do meu texto. Será que a esposa poderia contar a história? E se a filha do casal relatasse o fato? Primeira pessoa? Ou terceira? Pensar no texto além da ideia, além da narrativa. Pensar no texto como uma estrutura.

Repito que comecei este post com a intenção de questionar a ideia genial e inspirar escritores a pensarem no processo de escrita como algo que não nasce do nada. Todas as histórias dentro dos parâmetros propostos no “exercício” mostram que podemos desmistificar os grandes clássicos em ideias singelas e, em até certo ponto, previsíveis. A execução, o modo como seus autores escolheram contar aquelas narrativas, é o que faz com elas sejam, talvez, diferentes das demais. Não desista dos seus textos apenas porque aquela ideia que antes soava sedutora tornou-se lugar-comum. Já disse isto, mas quero enfatizar: deixe que ser um autor COM uma ideia e passe a ser um autor que ESCREVEU uma grande ideia.

Caso tenha achado este texto irrelevante e pouco esclarecedor, gostaria de finalizar com este pensamento do próprio Raimundo Carrero:

“No campo das artes não existem regras absolutas”. (pág. 45)

  • Hamilton Kabuna, 36 anos, Magé, RJ. Professor, Quadrinista e membro do coletivo de quadrinhos Capa Comics. Lendo A Cabeça Bem Feita, de Edgar Morin.

    Lucien, adorei o texto!! Conforme eu ia lendo (e anotando) reparei que muito do que vc escreveu se encaixa na produção de histórias em quadrinhos. Terminei de lecionar para uma turma e muitos tinham essa visão de ‘produzir a mais fodástica ideia para revolucionar o mundo (e, pq não, o multiverso) dos quadrinhos!’. Resultado: todos desistiram, pq fiz esse exercício que vc citou e eles reparam que não ‘existem’ grandes ideias, mas grandes execuções de ideias (e conheci esse exercício através roteirista de quadrinhos Warren Ellis. Não conhecia o livro do Raimundo Carrero, mas já vou procurar).

    Obrigado pelo texto e já compartilhado com meus alunos.

    Abraços, xará!

  • Oi Lucien! Eu não sei se deveria estar comentando, porque eu nem sou autora e também atualmente tenho essa visão de que eu não gostaria de escrever a menos que fosse “revolucionário e original”; mas ao mesmo tempo meu sangue de ficwriter palpita quando eu estou escrevendo um romance – cliché, como diriam minhas amigas – mas o que posso fazer se eu QUERO escrever um texto, por mais que o casalzinho já estivesse mastigado por inúmeras mentes? Eu gostaria de escrever um universo onde o casal fica junto, como tantas outras mentes gostariam; mas da minha forma de contar e de imaginar eles servindo café um pro outro, por mais normalzinho que seja esse tipo de cena.

    Eu como leitora de mangás (acho que eu só apareço mais no Leitor Cabuloso pra comentar os posts de mangás LKDKSLJDADA~DA) eu tenho essa ideia fixa muito concreta na minha cabeça. Afinal, quantos shoujos e shounens não seguem um “enquadro”, que o faz se classificar em tal revista, em tal demografia? Eu li várias vezes a mocinha introvertida ficando com o garoto popular, mas eu simplesmente não consigo largar a mão de querer ver isso sendo recontada por várias mentes e mãos diferentes.

    Acho que na própria arte que vemos tem muito disso; aquele autor fodástico que escreve o livro e ele já sai pronto. Mas a real é que na escrita, assim como no design, acabamos fazendo modificações e mais modificações que em certo ponto o produto final pode ser tão diferente até da ideia original do qual o rascunho foi feito (aquela história do photoshop pra designers que nomeiam o arquivo psd com o nome “final 1”, “final 2”, “final 2 finalizado”, “final concluído”, etc HUSAHSHAHAS). Não é à toa que conhecemos a história de que “livros são escritos ao longo de ANOS, e não dias, por mais que a ideia não seja tão inovadora”.

    Bem, adorei o post <3 Beijos~

  • Preciso dizer que me identifiquei após a leitura!

    É curioso notar que muitos autores (e eu me incluo) começam uma ideia a partir do conceito de uma frase e então quebram a cabeça pra transformar a frase num parágrafo e o parágrafo num texto.

    Meu conselho é nunca ficar satisfeito. Pode ser que tal ideia venha a ser algo revolucionário, mas, não é por causa disso que você deve estar contente com ela. “E quando ficar satisfeito?” Quando você olhar para o texto e falar para si próprio: “É isso que eu quero contar. É isso que eu quero que leiam.” Acredite se quiser, isso só vai acontecer depois de muitas e muitas revisões e alterações!

    Grande abraço, Lucien! Ótimo texto, pode contar que estou anotando e levando pra vida!

    Lucas Cristovam, Quadrinista carioca, autor das tiras Nick Felix, Detetive.