[Coluna] Metro 2033: Uma Reflexão Da Sociedade

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Cheio de enigmas, mitos, teorias e conspirações. Assim é a Rússia, berço de grandes histórias e grandes autores que proveram experiências únicas e marcantes. Mas essa não é a hora para clássicos como Dostoiévski, é a vez da nova ficção científica que marcou o início dos anos 2000 com o jovem escritor Dmitry A. Glukhovsky, autor do livro Metro 2033, uma obra que virou best-seller devido ao grande sucesso que obteve com sua distribuição gratuita na Internet, sendo depois lançado em mais de 20 países.

 

Dmitry Glukhovsky

metro01Nascido em Moscou em 1979, Dmitry é formado em Jornalismo e em Relações Internacionais pela Universidade Hebraica de Jerusalém, uma das 7 maiores do país. Além da sua língua materna, ele fala francês, hebraico e armênio. Criado praticamente nos metrôs de Moscou, ele conta que passou boa parte da infância nas diversas estações, indo e vindo da escola no que ele afirma ser o trajeto mais rápido, acessível e seguro. Após se formar, Dmitry foi para França em 2002 trabalhar com jornalismo no canal EuroNews e em 2005 voltou para Rússia. Inquieto, passou cerca de 3 anos viajando pelo mundo, conseguindo até mesmo acesso a área de exclusão da Usina Nuclear de Chernobyl, mas foi em 2007 seu maior feito, quando realizou a primeira transmissão ao vivo no extremo norte do Polo Norte, uma região onde o eixo de rotação da terra está geograficamente localizado.

Dmitry Glukhovsky começou a escrever seu livro quando tinha 18 anos, com inspirações autorais, o escritor confessa que seu protagonista é ele próprio, uma versão do não-herói, um desvio do já desgastado personagem-soldado. Sua infância no metrô teve grande importância na escolha do cenário principal da trama, que explora as diferenças de cada estação, verdadeiros palácios subterrâneos construídos por Stalin no ápice da URSS.

Em entrevista ao blog Mondo Pixel, ele conta que seu livro não pode ser definido como ficção científica, mas como uma gama de assuntos como distopia, fantasia urbana, sátira política e crítica social. Suas influências no gênero excluem os sempre citados Phillip K. Dick e Asimov, mas abraçam autores como Ray Bradbury, Stanislaw Lem e os russos Irmãos Strugatsky. Finalmente em 2002, o livro Metro 2033 foi disponibilizado no site do escritor de forma gratuita e conseguiu uma ótima recepção dos leitores, sendo rapidamente divulgado e alcançando a marca de 3 milhões de pessoas.

 

Um Palácio Subterrâneo

metro02Para contextualizar um pouco, o Metrô de Moscou, também chamado de Palácio Subterrâneo, teve sua inauguração em 1935 durante o governo de Josef Stalin na antiga União Soviética. São 194 estações que compreendem 12 linhas com um total de 325,4 Km de linha férrea, lhe garantindo o primeiro lugar em número de passageiros, cerca de 9,2 milhões de pessoas por dia. Porém um metrô nem sempre é usado para transporte, em épocas de guerra é comum o seu uso para abrigar a população, como fizeram tanto Moscou quanto Londres, durante a Segunda Guerra Mundial. As estações do Metrô de Moscou são conhecidas por uma incrível arquitetura chamada de Classicismo Soviético ou Arquitetura Stalinista, um período artístico que começou em 1933 com a aprovação do projeto do Palácio Soviético e terminou após a morte de Stalin, em 1955, quando seu sucessor, Nikita Khrushchev denunciou os abusos ocorridos durante o governo stalinista e o movimento artístico acabou por ser visto de forma negativa.

Durante a Guerra Fria, um novo complexo de estações foi construído abaixo das primeiras, com o objetivo de servir como bunker durante eventuais ataques nucleares. Tanto estas quanto as antigas estações eram equipadas com um sistema eficiente para sustentar vida, caso fosse necessário. E como sempre, as estações não podiam deixar de gerar teorias da conspiração, o chamado Metrô 2 ou D-6, é um teórico sistema de linhas mais profundas ainda que ligariam, em apenas uma linha férrea, o Kremlin aos diversos prédios importantes como a Universidade Estadual de Moscou, o prédio da KGB e instalações secretas, para uso exclusivo do exército e governo. Mesmo após o fim da Guerra Fria, o governo Russo nunca confirmou a existência do Metrô 2.

 

As Estações Como Simulacro Social

Após um grande sucesso online, o livro Metro 2033 foi finalmente lançado em março de 2005 na Rússia e apenas em 2010 nos EUA, devido ao lançamento do jogo naquele mesmo ano. A premissa do livro parte de uma guerra nuclear iniciada em 2013, forçando assim os moradores de Moscou a buscarem abrigo nas estações subterrâneas do metrô. Com o passar do tempo e tendo o inverno nuclear impedido que a população voltasse à superfície, uma nova sociedade emerge do caos e cada estação declara ser um Estado próprio, logo facções e grupos independentes se formam. Três Estados ganharam força e protagonismo: os independentes Rangers, os comunistas da Red Line e os neonazistas do Quarto Reich. Estes Estados permanecem em constante guerra pelo controle das linhas e dos suprimentos, negando qualquer aliança ou acordo. Além dos problemas subterrâneos, fora do metrô, a radiação assola a superfície e os animais que conseguiram sobreviver adquiriram mutações diversas. Porém eles não são a maior ameaça quando comparados com uma nova raça que se desenvolveu nesse clima, os chamados Dark Ones, humanoides de aparência negra e tolerantes à radiação, eles possuem habilidades psíquicas e estão sempre tentando invadir o metrô, mas seriam eles, uma ameaça?

metro03É nesse meio de pobreza, sujeira e linhas de metrô abandonadas e mergulhadas na escuridão que conhecemos esse mundo pós-apocalíptico onde os limites do Homem são explorados e expostos para o leitor. E é nesse meio que o protagonista Artyon, um jovem morador da estação VDNKh, explora junto do leitor os cantos mais sombrios tanto do metrô, quanto do Homem. Sua jornada começa quando Hunter, um dos caçadores mais respeitados, lhe convoca para viajar até Polis e entregar uma mensagem sobre o novo inimigo que se aproxima. Em um cenário sufocante e permeado de monstros, o protagonista precisa cumprir sua jornada, mas diferente de livros do mesmo gênero, Artyon tem um caminho focado na introspecção e descobrimento daquele mundo, sendo muito mais uma viagem espiritual do que uma grande aventura.

É nessa jornada que a habilidade do autor em explorar diferentes culturas e filosofias ganha destaque, beneficiado por diálogos bem construídos e expositivos da maneira correta, cada estação e cada personagem que é apresentado ao leitor tem suas convicções que abordam tópicos como religião, política, história e filosofia. As estações mostram formas diferentes de sobrevivência, adaptando costumes antigos para esta nova realidade, um processo orgânico que reflete a inclinação humana por formar aglomerados. Nesse sentido, o Metrô é um grande ecossistema, mutável e vivo, um espelho sujo e quebrado que reflete uma época esquecida, criando seus próprios mitos e acontecimentos sobrenaturais. Nesta colcha de retalhos, um ponto importante parece surgir entre tantos assuntos: qual a função do Homem no mundo, quando existem seres mais adaptados que ele? E qual a relação que o Metrô tem com seus habitantes?

Uma sequência de Metro 2033 foi lançada em 2009 na Rússia com o título de Metro 2034, obtendo ótima recepção, permanecendo no topo dos mais vendidos daquele ano. Mas por não ter relação com a adaptação para os video games e ser uma sequência indireta do primeiro livro, ele não será abordado aqui.

 

Menos Conversa, Mais Tiro?

metro04Em março de 2006 a produtora Ucraniana 4A Games anunciou a parceria e colaboração de Glukhovsky na produção da adaptação para video games do livro Metro 2033. O anúncio oficial do jogo saiu em 2009 junto de um trailer na Convenção de Games em Leipzig. Com um lançamento inicial planejado para Xbox 360 e Windows, o game foi feito na versão de Pré-lançamento da X-Ray Engine, uma poderosa ferramenta criada para o jogo S.T.A.L.K.E.R.: Shadow of Chernobyl que foi lançado em 2007. Metro 2033 chegou nas lojas em março de 2010 com uma ótima recepção, sendo aclamado por seus elementos de horror e enredo instigante.

O jogo apresenta a mesma premissa do livro, com um enredo muito próximo do que é contado na obra original, porém seu final oferece duas escolhas, sendo um bom e outro ruim. Embora bugs de gráfico fossem recorrentes, a recriação dos metrôs foi elogiada por seu nível de detalhes e a imersão proporcionada por uma atmosfera sombria e claustrofóbica construída com elementos de terror gráfico e visceral, usando sons incompreensíveis, solidão e a constante necessidade da lanterna que possui bateria limitada. Caminhos complicados guiados por uma bússola, respiração acelerada do protagonista e a importância das máscaras de oxigênio completam a experiência de gameplay de forma incrível.

Alguns preciosistas podem alegar que o jogo tem muita ação em contrapartida da jornada quase espiritual do livro, mas Metro 2033 consegue conciliar uma jogabilidade consistente com enredo maduro e fiel, sem negar que ele, acima de tudo, é um jogo Triple A (termo que designa jogos de grande alcance) e precisa de retorno financeiro para garantir uma continuação, coisa que consegue fazer satisfatoriamente. Com notas ente 8 de 10, uma média de 77 de 100 no Metacrític e um incrível 9 de 10 da Game Informer, a produtora 4A Games teve passe livre para fazer uma continuação.

 

Metro: Last Light

metro05Lançado em 2013 para Windows, Xbox 360 e PlayStation 3, com versões remasterizadas para Xbox One e PlayStation 4 em 2014, Last Light é uma continuação direta dos acontecimentos do primeiro jogo e tem seu roteiro escrito pelo criador Dmitry Glukhovsky, mas indo contra as especulações, a história do jogo não segue os acontecimentos do livro Metro 2034 e cria sua própria linha temporal. A versão literária do jogo está programada para ser lançada no final de 2015 na Rússia com o título de Metro 2035. Espera-se uma versão em inglês para 2016.

Produzido na nova 4A Engine, Metro: Last Light chegou chamando atenção com gráficos estonteantes, usando um novo sistema de iluminação e física que garantem uma experiência única. Agora com mais momentos fora do metrô, o jogo apresenta cenários incríveis, com destaque para o Kremlin, destruído e abandonado, tomado pela natureza que invade todos os cômodos e corredores. Com um gameplay aperfeiçoado do primeiro jogo, muita coisa permanece familiar e bem aproveitada. Seguindo as consequências do final do livro, Artyon deve lidar com suas escolhas e viver com constantes pesadelos. Agora um oficial, o protagonista conhece Khan, um místico que vem de D6 para lhe informar que ele precisa ir atrás de um Dark One antes dos Rangers. Esta nova jornada oficialmente guiada por um místico se torna muito mais intimista que o primeiro jogo e aborda pontos psicológicos do protagonista de forma original e bem estruturada.

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A esperada sequência da franquia recebeu boas notas da crítica especializada, com elogios em especial para seus gráficos e história. O game tem uma média de 8 de 10 no Metacritic e ficou com 8.75 de 10 na análise da Game Informer. Para coroar, o game foi premiado como melhor jogo de tiro do ano na Spike’s 2013 VGX Game Awards, o maior evento de premiação da mídia, lhe concedendo o merecido reconhecimento.

 

Não Deixe A Lanterna Cair!

Ao fim dessa longa jornada (a coluna ficou extensa, né?), uma incrível franquia foi apresentada, com seus diversos temas, fica claro sua relevância no gênero de ficção científica e importância para literatura atual. Explorar o Metrô de Moscou pode ser perigoso e aterrorizante, mas conhecer as diversas tribos que lá habitam é atrativo demais para recusar a aventura. Encontrando diversos grupos que se denominam das mais variadas formas, indo do comunista ao neonazista, de cristãos até satanistas, dos profetas aos místicos, a obra de Dmitry A. Glukhovsky é uma deliciosa salada cultural, temperada com introspecção e filosofia. A dedicação do autor com a adaptação para os video games garante a qualidade e fidelidade à obra, tornado essa franquia uma das poucas que chegou em tão altos patamares e que ainda possui muita pilha para gastar.

  • Diego Ferreira

    Tenho muita vontade de jogar e conhecer esse universo. Mas acho que vou ficar pelos livros mesmo. Sou um jogador muito cagão, jogos muito tensos assim me perturbam um pouco. O que acabam sendo um elogio a atmosfera que tentam passar nas imagens e cenas.

    O que acho interessante é que apesar de ser um FPS, estilo conhecido por tiroteio desenfreado, o foco não é nisso. Até porque o dinheiro na verdade é a munição para as armas. Então saber dosar é essencial.

    “…And now we use cartridges for currency, how morbid is that? If you think about it, one bullet is somebody’s life. A hundred grams of tea cost five lives. A sausage… a mere trifle, fifteen lives. A nice leather jacket? It’s your lucky day, it’s on sale. Not three hundred, but just two hundred and fifty human lives.”

    • FHC

      Hahah! Eu também tenho muito medo, mas por algum motivo, encontro forças não sei de onde e jogo. SOMA é um exemplo.
      Mas falando do jogo, toda a situação abordada é muito interessante, temos alguns questionamentos como: quem realmente é o inimigo do Homem? Qual a importância da diversidade cultural?
      Eu particularmente adoro jogos assim, que pegam um estilo de jogo massificado e quebram esse padrão, oferecendo uma experiência intensa e inovadora.

      • J M

        SOMA foi uma das coisas mais perfeitas que ja joguei.Que plataforma vc usa Fernando?

        • FHC

          Eu jogo no PC, mas sinto falta de um videogame.