[Resenha] A Jornada do Escritor – Christopher Vogler

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Sinopse:unnamed

Em 1949, no clássico O herói de mil faces, o estudioso Joseph Campbell conceituou a chamada Jornada do Herói: uma estrutura presente nos mitos e replicada em todas as boas histórias já contadas e recontadas pela humanidade. Em A Jornada do Escritor, Christopher Vogler faz uma detalhada e esclarecedora análise desse conceito, tomando como base diversos filmes importantes. Resultado de anos de estudo sobre mitos e arquétipos, somados à experiência de Vogler na indústria cinematográfica norte-americana, esta edição, revisada pelo autor, é uma obra de referência fundamental não apenas para quem deseja escrever boas histórias – bebendo da fonte dos mais belos e fascinantes mitos já criados pela mente humana –, como para quem quer entendê-las melhor, relacionando-as à própria vida.

Você já percebeu como as mais diversas histórias, seja de livros ou de filmes, tem certos elementos básicos que, de uma forma ou de outra, estão quase sempre presentes? Pois é, mas esses padrões vão além da cultura pop, e acontecem nas mais  diversas mitologias de povos ao redor de todo o planeta. Joseph Campbell, um famoso estudioso dos mitos, percebeu isso e detalhou esses padrões em seu livro O Herói de Mil Faces. Por mais diferente que seja a cultura, os heróis mitológicos passam por situações parecidas, o chamado à aventura, a recusa do chamado, e mais diversas outras fases, e se relacionam com outros personagens que vestem as máscaras de arquétipos como o mentor, o sombra, e tantos outros.

jornada_capaCom base em todo o estudo de Campbell e em sua experiência em Hollywood, Christopher Vogler escreveu um pequeno guia que acabou se tornando muito popular, no qual apresentava o mitologema do herói de um modo mais palatável e metodizado para criação de histórias, tanto áudio-visuais quanto escritas. Tempos depois esse material foi ampliado e deu origem o livro A Jornada do Escritor, obra de grande importância para qualquer pessoa que tenha interesse por escrita criativa.

O livro estava esgotado no Brasil e acaba de ser relançado pela Editora Aleph, como de costume numa belíssima edição, gostosa de ler e ótima para eventuais consultas, e muito bem diagramada. Considero esse ponto essencial para uma obra repleta de diagramas e gráficos, como é o caso. Mas, porque ler um livro que ensina como contar sua história? Não seria melhor contá-la do seu jeito? Bem, sim. E não.

Veja bem, a Jornada do Herói está presente na maioria das histórias, mas nem sempre do modo mais clássico como foi descrita. Um exemplo desse modo mais ao pé da letra são os filmes de Star Wars (George Lucas, aliás, era amigo de Campbell), onde temos o herói relutante (Luke) que acaba se envolvendo numa aventura com o auxílio de um mentor (Obi-Wan), e a partir daí todas as situações se desenrolam o mais perto da estrutura clássica da jornada. O grande lance é conhecer de forma mais bem definida esses padrões, o nome que se dá aos tipos de personagens, chamados de arquétipos, quando e onde eles foram utilizados e tudo mais. Estar por dentro dos meandros da Jornada do Herói é um grande ferramenta, tanto para quem quer utilizá-la diretamente, quanto para quem quer usá-la como base para traçar caminhos diferentes.

A Jornada do Herói de Campbell, até mesmo por se tratar de um livro com teor mais acadêmico, é composto de mais etapas, 19 para ser mais exato. Vogler nos apresenta uma estrutura de 12 etapas dividas em três atos, mas para os que possam se preocupar se isso os limitaria de alguma maneira, é bom lembrar que a jornada é uma forma, nunca uma fórmula, como ele próprio diz. Na primeira parte do livro temos a definição da jornada, assim como a descrição e explicação dos principais arquétipos, a saber: herói, mentor, guardião de limiar, arauto, camaleão, sombra, aliado e pícaro. Aqui aprendemos como esses personagens se comportam, e também que um personagem pode representar mais de um arquétipo no decorrer da história.

Na segunda parte temos o detalhamento de cada um dos 12 passos da jornada, que são:

  1. O mundo comum;IMG_20150823_201821050
  2. Chamado à aventura;
  3. Recusa do chamado;
  4. Encontro com o mentor;
  5. A travessia do primeiro limiar;
  6. Provas, aliados e inimigos;
  7. Aproximação da caverna secreta;
  8. A provação;
  9. A recompensa;
  10. O caminho de volta;
  11. A ressurreição;
  12. Retorno com o elixir;

Mesmo se você não conhecer os arquétipos e as etapas da jornada, já dá pra imaginar bastante coisa pelos nomes, não? Eu garanto que conhecer isso tudo a fundo é muito interessante e útil na criação de qualquer história, mesmo que você não use esses conhecimentos num nível consciente, os conceitos estarão sempre presentes, e num momento de indecisão ou quando a trama chegar num ponto sem aparente solução, analisar sua história usando os preceitos de Vogler pode ser muito útil.

E não se preocupe, o livro não é chato, extremamente teórico ou de leitura difícil. Vogler explica pacientemente, a leitura flui muito bem, e por todo percurso do livro os conceitos são explicado e explorados usando obras da cultura pop que vão de Star Wars a Pulp Fiction, que você já  deve conhecer. Se não conhecer, tome um tempo para consumir algumas dessas coisas depois de ler o livro, e assista com o olhos de quem já conhece a jornada, é uma experiência bastante interessante.

Além de tudo isso a edição da Aleph trás alguns apêndices muito interessantes tratando de outros assuntos relativos à jornada e expandindo discussões que são brevemente apresentadas anteriormente, como por exemplo o interessantíssimo apêndice sobre polaridade. Ainda está em dúvida sobre se te interessa conhecer a Jornada do Herói? Bom, nós já falamos desse tema no CabulosoCast #124, então escute o programa, e, se for adquirir o livro, use os links mais abaixo!

 

Ficou interessado(a)? Então compre o livro nos links abaixo:

logolucas_vectorized (1)Editora: Aleph
Autor: Christopher Vogler
Origem: Estrangeira
Título original: The Writer’s  Journey
Ano: 2015
Número de páginas: 488
Skoob

  • Wesley Nunes

    Parabéns pela resenha. Enquanto estava lendo, me deu um frio
    na barriga e já fui pensando “Deve ser aquela linguagem quase científica”. Só
    fiquei aliviado quando vi na resenha que a linguagem não é tão complicada.

    Pelo que vi parece ser um excelente livro, daqueles para
    deixar ao lado do monitor enquanto está escrevendo.

    Pode ser loucura da minha cabeça, mas no terceiro parágrafo vi a frase:

    “Veja bem, a Jornada do Herói está presenta”

    O certo seria

    “Veja bem, a Jornada do Herói está presente”

    Se por um acaso eu li o texto de forma erra e estou
    corrigindo o que não devia, peço desculpas.

    • Lucas Rafael Ferraz

      Boa noite Wesley!

      Obrigado pela correção, você está corretíssimo!

      =D

      • JF Wagner

        “Se por acaso eu li o texto de forma ERRA e estou”… Desculpe-me, Wesley, não é minha intenção debochar de sua observação. Muito pelo contrário. Ela me permite esclarecer um ponto interessante com relação ao modo como muitas vezes vemos os textos na internet. Erros na escrita são mais frequentes do que imaginamos. E pode ocorrer que, ao corrigirmos os outros, nós mesmos cometermos erros.
        A função de um revisor de textos é corrigir isso. Mesmo o melhor escritor comete erros! (até o revisor – pobre coitado! – deixa às vezes escapar algo!). Por isso, se ater a erros num artigo informal como este do Lucas é desnecessário (o que não desmerece a qualidade da mensagem proposta).
        Quanto ao artigo, meu caro Lucas, gostei muito. E meu exemplar deve chegar hoje. Estou “anCioso” pra ler!! (Vê como a gente erra?!… mas foi possível compreender a mensagem, não?).
        Um abraço.

        • Lucas Rafael Ferraz

          Oi JF!
          Cara, acho que você vai curtir! É realmente uma ótima fonte!

          Quanto à correção, eu até agradeço mesmo, hehe. Sou meio perfeccionista, revisei o texto 2 vezes, mas sempre passa algo.

          Abraço!

          • JF Wagner

            Lucas,

            O livro chegou hoje mesmo. A Amazon cumpre o que promete! rs

            Como eu respondi ao Wesley, eu sou mesmo “viciado” em achar erros (afinal, é minha profissão!). Mas, sim, o livro do Vogler promete, e, depois de sua resenha, fiquei ansioso pra começar a ler. Que acabamento bonito! E as ilustrações, belíssimas. Gostei das iluminuras. Andei folheando e acho que vou mesmo gostar da leitura, de fato. É mais uma ferramenta pra desenvolver minha escrita. Quem sabe assim eu crio coragem e volto a escrever meu livro!

            Rapaz, se você achou muito revisar 2 vezes seu texto, fique sabendo que fazemos incontáveis vezes um texto pequeno! O livro que estou revisando já está na 4ª leitura – e acredite, ainda é possível encontrar um errinho aqui ou ali. Como já ouvi um editor dizer: “editar textos é a mais árdua tarefa imposta a um ser humano!”

            A propósito… “Além de tudo isso a edição da Aleph TRAZ” (verbo TRAZER), e “audiovisuais” se escreve tudo junto. É estranho, mas é assim. 😉

            Abraço!

        • Wesley Nunes

          Boa tarde Wagner

          Corrigi seguindo o seguinte pensamento “Se fosse eu, queria que alguém me corrigisse para que eu possa prestar mais atenção e melhorar”

          Agradeço por você ter pontuado o meu erro, vou ficar mais atento. Compreendia a mensagem sim.

          Resumindo todo mundo erra rs

          • JF Wagner

            Wesley,
            Também gosto quando me mostram onde errei (se bem que, a princípio, dá um pouco de raiva – não de quem apontou o erro, mas de mim mesmo! “Como fui errar nisso???” rs É que eu tenho um problema psicológico sério: Sou perfeccionista ao extremo!). Ainda bem que consigo entender que TODO MUNDO ERRA! E por isso, procuro ser mais tolerante. Afinal, pra que se preocupar tanto? A morte é certa! rs Abraço.

  • FHC

    Muito boa a análise, Lucas!

    Li a edição da Nova Fronteira de A Jornada do Escritor e foi uma ótima experiência, essa da Aleph deve estar incrível. Fiquei curioso pelo apêndice sobre polaridade.

    Vale pedir pro pessoal ouvir o cabulosocast sobre o assunto, pois como foi dito, a Jornada do Herói pode ser um perigo, como podemos ver em holywood com seus filmes extremamente genéricos. O monomito deve ser visto como um guia, não como diretriz, até por que acho muuuuuuito mais legal quando o autor, conhecedor das etapas da jornada, a subverte criando situações diferentes e originais.

    Para o pessoal mais hard, vale muito a pena comprar o livro do já citado Campbell, O Herói de Mil Faces, em que todos os aspectos do monomito são explorados nos mínimos detalhes, usando os arquétipos de Carl Jung e vários exemplos de mitos de toda parte do mundo. Além de compreender a Jornada do Herói muito melhor, você vai conhecer várias culturas incríveis e seus mitos.

    Já falei demais! Parabéns mais uma vez e abraços!

    • Lucas Rafael Ferraz

      Oi FHC!

      O Herói de Mil Faces do Campbell é realmente fascinante!
      Quanto aos apêndices, valem muito a pena e acredito que não tem na edição da Nova Fronteira. São 5 tópicos muito legais que expandem bastante a discussão.

      Abraço!

      • Wesley Nunes

        Eu que agradeço pela resenha.

        Esse livro é de vital importância para quem quer escrever.

        Engraçado é como eu sempre fico pensando “Será que tem como
        fugir desta jornada do Herói?”

        Mas antes de querer mudar algo, ou fugir de algo, devemos
        conhecer muito bem sua estrutura e o livro trata exatamente disso.

        • Lucas Rafael Ferraz

          Com certeza absoluta Wesley! É necessário conhecer os blocos básicos da construção de uma história para só depois ousar dispor os mesmos de maneiras originais.

          Obrigado!