[Coluna] Um pudim com uma dose de blues

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Esta é uma sobremesa que a pupila de Tiago Boanerges fez e lhe deixou como surpresa na geladeira de seu apartamento, gentilmente observada por Ori. O bichano passeia por entre as canelas de Julia, tocando-a com a cauda e aproveita para roubar um pouco de energia, bem de leve, o suficiente para que ela o sinta.

Eram dias difíceis para Tiago, com a Liz em perigo e seu coração que mais parecia um buraco. Bem, era assim que ele se sentia. Chegou da rua e nem percebeu que havia alguém em casa. Foi até o aparelho de som onde colocou para tocar um vinil antigo do King.

The Thrill Is Gone

 The thrill is gone
The thrill is gone away
The thrill is gone baby
The thrill is gone away
You know you done me wrong baby
And you’ll be sorry someday

The thrill is gone
It’s gone away from me
The thrill is gone baby
The thrill is gone away from me
Although, i’ll still live on
But so lonely i’ll be

The thrill is gone
It’s gone away for good
The thrill is gone baby
It’s gone away for good
Someday i know i’ll be open armed baby
Just like i know a good man should

You know i’m free, free now baby
I’m free from your spell
Oh i’m free, free, free now
I’m free from your spell
And now that it’s all over
All i can do is wish you well

Julia permaneceu na cozinha, enquanto desenformava o pudim num prato largo e xadrez. O exorcista estava reparando numa garrafa nova junto às suas. Olhou pra etiqueta e começou a ler: o preferido do Príncipe Charles, scotch envelhecido com mel e especiarias, desde mil setecentos e uns bocados. Como aquela garrafa entrou em sua casa? O seu veneno de sempre era o Bourbon, e disso até o gato sabia. Foi quando ouviu a voz dela por trás, enquanto aproximava-se daquele trapo de homem.

-É Drambuie. Um tipo especial de whisky, contendo mel, noz moscada, e um pouco de especiarias. É bem gostoso. Achei que algo um pouco mais sofisticado ia te ajudar. Tem uma surpresa pra você, deixei na geladeira.

–E o que é Julia?

-Um pudim. Sei que você não é exatamente um maluco por doces, mas este é diferente. Eu o fiz com esta bebida que está segurando.

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A necromante olhou bem o estado de seu mentor e amigo. Uma lástima. B.B. King por outro lado não estava ajudando, lamentando-se por uma emoção perdida. Com certeza era reflexo da musa, e do que estava ocorrendo em Yume. Ele estava mal, e algo precisava ser feito.

Achou que explicando como fez o pudim, poderia trocar o tom da tarde.

-Eu fui num mercadinho e comprei todos os ingredientes, já a bebida eu ganhei de um colega. É claro que se eu aparecer com isso em casa, minha mãe me estapeia e sendo assim eu trouxe pra cá. Mas não vale beber sozinho, viu?

Caso queira replicar o resultado, eu usei uma caixa de leite condensado de umas 400 gramas, o mesmo de leite, quatro ovos inteiros, e trinta gramas de Drambuie. Só não vale derramar a garrafa toda no liquidificador quando estiver tentando, pois não fica legal. É um pudim com estilo, não um whisky com ovos.

Bati tudo no liquidificador e depois foi só fazer o caramelo, colocar na fôrma de pudim e assar em banho-maria por uma hora em fogo médio e depois mais três quartos de hora no fogo um pouco mais alto. É claro que eu não o fiz literalmente agora. Quando você chegou eu estava somente tirando o pudim da fôrma.

-Ahh Julia, sabe de uma coisa? Eu vou tomar um banho e pensar sobre como pôr em ordem a minha vida. Três anos se passaram e eu ainda estou um caco.

Na secretária telefônica aparece um recado, um cara que se identificou como Marcos Sardegna, marcando um encontro pra mais tarde. Tiago parecia interessado e ao mesmo tempo intrigado.  Por via das duvidas foi tomar seu banho, e na volta comeria um pedaço dessa sobremesa que a Julia fez com tanto carinho.

Exclusivo: Aprenda a fazer o caramelo de pudim (com a participação do bichano)

 

Nota

Esse texto foi criado com base na obra literária “Exorcismos, amores e uma dose de blues” de Eric Novello.