[Coluna] Ué?! Mas não parece com a foto!

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Têm umas coisas que envolvem o meio da cozinha que me incomodam. Normalmente você vai encontrar essas características em serviços de alimentação onde existe uma produção escalante de serviços, a nível fordista.

É. Estou falando de Fast Foods!

Talvez vocês concordem comigo: é uma das práticas mais vis deste tipo de estabelecimento (e olha que estamos falando de lojas que tratam funcionários como escravos, vendem hambúrgueres que por vezes são acusados de ter origens discutíveis e o refrigerante refil SEMPRE tem pouco gás). Não existe dúvida  do que é, né pessoal?

A comida nunca é igual a da foto

Sendo bem condizente, isso não é um problema único da indústria fordista alimentar. Quaisquers empresas que vendem carradas de produtos iguais vão enfrentar o mesmo problema do molde nunca ser igual a propaganda. Pudera, o setor de marketing tem o seu trabalho e o faz direitinho: Maquiar um produto ao ponto de se tornar o mais vendível possível. Ou você acha que alguém se torna um galã de cinema ao usar ReXXXXXX ou a menstruação vira prazer ao usar o absorvente InXXXXX GXXX com abas?

E daí? E daí que literatura também é mercado colega. E todo o consumidor vai sofrer do excesso de maquiagem.

Tais características serão demonstradas “di cum força” quando observamos os lançamentos dos “livros marolas”, aqueles que acompanham a onda do momento. Note bem: O livro-chave, aquele que fez sucesso comercial – independente de ser bom ou ruim – tem sua identidade visual marcada. É ela que venderá (e será vendida com) o sucesso do livro. Viu um brasão que lembra algum tipo de liberdade na capa? Distopia de aventura (Hunger Games). Cenário gigante, horizonte aberto e humanoides ínfimos em relação a escala? Mundo Fantástico com aventuras (Game of Thrones, Senhor dos Anéis). Tons de Cinza e Preto? Um ou outro acessório? Literatura erótica. O exemplo é obvio.

Sim, velhos ou novos, todas as áreas da literatura têm seus carros fortes na atualidade e os livros que seguem após a vanguarda – novamente, sem me ater à nível de qualidade – tendem a seguir seus padrões artísticos de capa.

Tá. Mas até aí é só uma curiosidade. Sério que eu escrevi todas essas linhas só pra deixar o óbvio um pouco mais óbvio assim? Não é nenhum crime vincular um tipo de obra a uma identidade visual, afinal você tem que atrair seus leitores das maneiras possíveis, certo?

Aí é que está um dos problemas, jovem padawan.

Longe de chegar ao extremo e falar que é um problema de todos os leitores e editoras, mas o fato é que às vezes vemos livros presos justamente a estas formas de divulgação e promoção. Para o bem e para o mal, quando você promete uma coisa na capa, o resultado pode não ser o esperado, principalmente quando o que está sendo vendido não casa bem com a promoção.

Vou pegar um exemplo da casa. Julianna Costa, autora de “23 noites de prazer” e “4 semanas de prazer”. Literatura erótica, porreta, bem sensual e com um sem número de resenhas positivas por aí. Vamos colocar aqui a capa de seu primeiro livro erótico:

23 noites de prazer

A promessa aqui é bem reta: Cinquenta Tons de Cinza. Aquele erotismo maroto onde um personagem sensual vai pegar uma personagem recatada e… Bem, vocês sabem.

Aí é que está. O livro da Julianna é bem, beeeeem mais do que isso.

De uma tacada só, é bem escrito. Não é por nada não, mas o estilo do 50 tons é bem fraquinho, ainda mais comparado ao livro da Ju. Fora que a história da Ju tem elementos mega diferentes que vão desde a discussão da própria compreensão da personagem de sua feminilidade até um misticismo bem curioso aqui e ali. Mas, na boa, olhando essa capa você imagina isso?

Acho curioso justamente isso. É impossível de negar que no momento da produção da capa algum elemento vai ser prioritário para chamar a atenção do leitor. Mas é triste saber que além de chamar a atenção de uma leva de gente, vai afastar outra leva.

Se posso dizer com certeza quem vai se caracterizar como o maior público desta equação? Não faço ideia, embora ache que o pessoal que trabalhe com isso saiba analisar bem a escolha. (Se não souber, é muita fé, viu?). Mas a maior lição que podemos tomar disso é: Antes de analisarmos um livro pelo que a capa promete, seria melhor analisar pelo que realmente está ali dentro. Só assim para descobrirmos se vale mais a pena aquele big mac bonitão (na foto pelo menos) ou o “x-tia da esquina” que mal foto tem.

Não raras as vezes, podemos nos surpreender.

  • Nay

    Achei simplesmente fantástica essa análise! Fazemos isso o tempo todo mesmo com os livros e sem perceber. Eu sou uma que torço o nariz, usando o seu exemplo, para todos os livros na sombra do cinquenta tons achando que são “farinha do mesmo saco”, cheia de preconceitos mesmo…

    O mesmo para os livros que estão agora na sombra de Guerra dos Tronos que eu não curti. Enfim… nem tenho o que acrescentar. Texto incrível!

  • Realmente acontece o julgamento pela capa, é fato. No meu caso eu já fujo de gêneros em si. Não tenho a mínima dúvida que o livro da Ju é excelente ainda mais comparando com 50 tons, mas não curto o gênero erótico e mesmo que ele proponha algo completamente diferente, não vou lê-lo.
    Normalmente quando a capa me atrai, leio a sinopse e aí sim se os dois atraíram penso em realizar a compra. Acho que nunca comprei nada olhando somente pela capa.

  • Igor Rodrigues

    O que é uma crítica terrível ao departamento de marketing das editoras que costuma apostar em fórmulas para compor a identidade visual de certos gêneros. O exemplo do 23 semanas mostra que aproximar um livro de uma obra mais conhecida pode até ajudar a vender, mas afasta um outro consumidor e rouba a chance da autora e sua obra acharem seu próprio espaço.

    Outro exemplo quem vem ocorrendo é a superutilização do mesmo artista em capas de F&FC. Marc Simonneti está tão presnete que até confunde os leitores. No Brasil fez “Crônicas de Gelo e Fogo” (capas normais e nova edição exclusiva), “Mistborn”, “Trilogia do Assassino”, “Star Wars: Herdeiros do Império”, “Crônicas do Matador do Rei”, “Dragões de Éter” e por aí vai. Tudo num período de 5 anos, tornando a identidade cansativa e os livros invisíveis nas prateleiras.

    É complicado. O engraçado é que essa planificação visual acaba reduzindo as possibilidades de venda através do apelo da capa já que a enxurrada elimina o destaque do livro. Claro que um gênero deve ser claro na capa, mas há maeiras de se fazer isso sem apelar para a aproximação de ideias. Muito bom seu artigo!

  • Ótimo texto, com uma discussão bastante pertinente. Esse é um problema que assola as livrarias brasileiras, e a sensação é que as editoras nacionais abusam demais dessa técnica de associação de identidade visual.

    Confesso de corri por anos de As Crônicas de Gelo e Fogo. “Mais um wanna be Tolkien”, eu pensava. Só comecei a ler depois de muita insistência dos amigos. Mas a barreira do preconceito visual com o livro era grande. Ainda não consigo chegar perto daqueles livros adolescentes de fantasia que tem jovens mulheres lindas envoltas em um suave glow com algum quê de romance ou floresta mágica. Quase espirro; a aversão é forte. E pior que nem sei onde começou essa moda.

    O jeito mesmo é ler resenhas na internet, dar uma olhada no Goodreads/Skoob, e ficar atento ao que se fala da obra. Já comprei livros só pela capa. Alguns, não me arrependo, outros, nem consegui passar do capítulo um. O fato é, a aventura, a surpresa de se comprar um livro sem saber quase nada sobre ele (sem ler resenhas, opinões alheias, ou até a orelha do livro), é uma experiência que eu prezo muito. E nesses casos, julgar o livro pela capa é tudo o que se tem.

  • Vanessa Straioto

    bem, a capa me atrai muitoooo…..e depois vejo a sinopse, se casar compro/leio..senao….torço o nariz mesmo…kkkk

    otimo texto!