[Coluna] A arte de perguntar: não tenha medo da pergunta

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Eu geralmente recebo perguntas de novos autores pedindo ajuda com alguns aspectos dos seus trabalhos. Adoro essa interação com o pessoal – essa coluna é um bom exemplo! – e sempre tento ajudar como posso.

Ao longo do tempo, no entanto, eu percebi que novos autores tendem a fazer três categorias de perguntas muito diferentes que mostram o tipo de escritor que eles são e eu aprendi a responder de acordo.

1 – A pergunta técnica

Perguntas técnicas envolvem dúvidas sobre registro, ISBN, envio para editoras, propaganda, eventos de lançamento… Essa categoria de perguntas geralmente é feita pelos dois extremos: os autores prontos e os ansiosos.

Para descobrir com qual autor estamos lidando basta a pergunta: “Você já terminou o seu original?”

Quando a resposta é sim, eu vou junto com o autor. Passo lista de editoras pro estilo dele, links do EDA, ajudo com preenchimento de formulário. Esse cara está pronto. Só precisa de um empurrãozinho.

Se você está nessa situação: não tenha receio de perguntar. Mesmo que pareça uma bobagem… perguntando você ganha tempo.

Quando a resposta é “não”, eu já sei que é um autor ansioso.

Eu sei disso porque fui uma autora ansiosa, dessas que pensa em vender o primeiro livro quando ainda nem terminou de montar o roteiro. Embora sonhar seja o primeiro passo para qualquer conquista, esse tipo de atitude pode ser prejudicial.

Sonhar com ter um livro publicado é válido. Sonhar com fazer uma noite de autógrafos e começar a procurar lugares e montar lista de convidados quando você não escreveu nem mais de 100 páginas é perda de tempo. Escrever é um trabalho árduo e demorado. Não inverta a ordem das coisas! Mantenha suas prioridades!

Se o seu sonho é publicar um livro, a primeira preocupação que você deve ter é escrever. Depois você se preocupa com o resto.

2 – A pergunta abstrata

São as perguntas do tipo “como eu faço pra organizar minha história?”, “como eu monto um personagem?”, “como eu faço uma boa cena de ação (ou qualquer outro gênero)”.

Esse tipo de questionamento mostra que o autor está interessado em aprender e buscando um caminho, mas também mostra que ele ainda não firmou o pé em nenhum lugar em especial.

Com isso eu quero dizer uma coisa muito simples: não há resposta para essas perguntas abstratas. Talvez em cursos de letras ou oficinas de escritas, os autores consigam um direcionamento maior, e muitos fazem essa pergunta apenas porque querem quebrar a inércia.

Mas há alguns que chegam a quase querer que a gente escreva uma cena para eles (já me pediram isso).

Se você se encontra nessa posição e suas dúvidas são abstratas, o melhor caminho é praticar.

Autores com um pouco mais de quilometragem não tem mais essas dúvidas abstratas porque eles fazem isso com naturalidade: já tem seu modo de pesquisar como descrever cenas, já sabem montar seus personagens, já tem o método de trabalhar no roteiro… e fazem isso tudo sem pensar a ponto de nem saberem exatamente como responder.

Não existe mistério ou dom: para fazer isso com naturalidade, você tem que praticar.

Às vezes é difícil, às vezes você acha que não consegue. Mas, fazendo minhas as palavras de Neil Gaiman, “O único jeito de fazer algo é fazendo”. Não tem outro jeito.

3 – As perguntas específicas

Esse já é o autor mais experiente.

Ele está no meio da escrita e não tem dúvidas abstratas e também não está se adiantando e já preocupado com a parte técnica. Ele está escrevendo e está preocupado em escrever.

Muitas vezes é difícil ajudar esse tipo de escritor porque ele tem um problema específico e você não tem como contribuir para a solução sem conhecer a história.

Se você é um autor que se encontra nessa posição e se faz questionamentos como “Eu queria que esse personagem virasse um vilão, mas tenho medo da transformação”, “eu não sei se esse personagem está soando sarcástico ou arrogante”, “eu queria saber se esse diálogo ficou crível”, ou “não sei se é melhor fazer um livro contínuo ou transformar em uma série cortando aqui e ali”… Questionamentos desse tipo tem uma solução perfeita, e ela se chama “leitor beta”.

Pessoas de confiança, que não tenham receio de te dizer verdades que machuquem e que têm tempo para ler tudo e te dar uma resposta.

Leitores betas são as pessoas mais indicadas para resolver esse tipo de situação.

  • jedimdk

    Acho uma sacanagem ninguém ter comentado esse texto útil e bem escrito. Não sou um escritor profissional, tanto menos desejo ser um. Estou escrevendo um livro, e tenho vários outros em minha mente. Desejo contar o desenrolar dos fatos para mim mesmo e para quem desejar ouvir, não tenho aspirações em publicar. Na minha cabeça os personagens conversam entre si, até de livros diferentes. É engraçado.
    Pode me contar um pouco mais sobre você e as razões de escrever essa coluna?
    E eu gostaria de uma opinião sobre a minha “Gostosuras Letradas” se não for pedir muito, além de continuar esse papo.