[Coluna] Não precisamos de liberdade…

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Acredito que vocês chegaram a assistir a um vídeo que viralizou onde um aluno desrespeita uma professora. Confesso que não cheguei assistir ao vídeo completo e com áudio. Como professor já vi cenas e fui personagem de outras tantas situações, por isso a recusa, mas vi o suficiente para me sentir indignado. (Não estou disponibilizando o vídeo pelo mesmo motivo).

Contudo o assunto hoje é outro. Usando esse vídeo como mote queria discutir duas palavras que julgo importantes: liberdade e autonomia.

Primeiro preciso começar fazendo uma série de recortes para não ser mal interpretado. O título deste post é provocativo, mas se você parar para perceber há uma reticência ao final da frase o que indica que um pensamento ficou incompleto e garanto que a frase será complementada neste texto.

Este não é um texto a favor de ditaduras ou censuras e tenho consciência que a filosofia e outras áreas das ciências humanas trazem debates muito interessantes e extensos quanto ao uso semântico da palavra liberdade. O foco é fazer um contraponto entre a palavras citadas com base na expressão que mais ouço quando um aluno ou qualquer criança/adolescente passa dos limites: “Isto foi muita liberdade que os pais deram…”.

Ao ouvir isto fico a pensar: se o problema é o excesso de liberdade a solução aparente seria a não-liberdade? Mas o que seria a liberdade? Em exemplos práticos a liberdade implica possuir uma gama de opções. É claro que nosso mundo é regido por regras próprias e essas opções acabam se tornando restritas. Posso acordar cedo e ir ao trabalho cumprir minhas funções, retornar a minha casa e no final do mês serei recompensado por honrar esse compromisso social. Obviamente, posso acordar tarde e não ir ao trabalho. Mas no final do mês não serei agraciado com meu salário íntegro ou com a minha permanência neste emprego.

liberdade (2)

Retomando o exemplo do aluno a palavra liberdade parece evocar que existe uma dose certa, uma medida precisa para a liberdade. E que medida seria essa? Quando saber o limite exato? Para mim, a resposta é simples e basta completar o título:

Não precisamos de liberdade, precisamos de autonomia!

Em um curso que fiz, o professor definiu bem a diferença entre um e outro. Segundo, ele liberdade é essa sensação de temos diversas escolhas. Já autonomia é saber dizer não e saber qual escolha fazer. Exatamente! Ter autonomia é saber dizer não. E acredito que seja isso que devemos ensinar a nossos filhos a ter autonomia. Eu posso gastar todo o meu dinheiro comprando livros, quadrinhos, mangás e o que mais me der na telha. Eu tenho liberdade de fazê-lo, mas, então, por que não o faço? Porque eu tenho autonomia. Eu sei que se usar cada centavo para comprar aquilo que quero, ficarei sem dinheiro para pagar minha contas. Liberdade, dadas as devidas proporções todos temos, mas autonomia será que temos?

Liberdade sem autonomia é anarquia. Um filho precisa ouvir não, precisa de limites para quando estiver longe dos pais ou daqueles que o protegem possa tomar decisões sem prejudicar a si próprio ou a outras pessoas.

O que dizer de pessoas que apesar de extremamente endividadas continuam a comprar? O que dizer do pai que mesmo vendo o filho agindo errado não intervem acreditando que “com o tempo ele vai aprende, a vida vai ensina”. Tirar a liberdade de uma criança ou adolescente não resolve nada apenas gerar revolta e mais atitudes extremas. Proibir o filho de assistir televisão, de sair com os amigos, de acessar a internet vai fazê-lo procurar maneiras de fugir de tamanho controle e o final é inevitável. Ele se acostumará a bular regras e sentirá prazer ao fazer isso. Afinal de contas “o que é proibido é mais gostoso”.

Em vez disso, que tal mostrar-lhe que há consequências para suas ações e o mais importante permitir que ele passe por isso, que vivencie a frustração. A autonomia precisa ser internalizada. Um filho autônomo sabe que apesar dos pais não estarem por perto cada ação terá uma reação. Contudo será sempre assim? É tão perfeito? Claro que não. Mas agradeço até hoje a quantidade de nãos que ouvi dos meus pais, às vezes que falaram sobre as consequências de fazer isso ou aquilo. Eles não precisaram talhar minha liberdade, apenas me deram autonomia.

Eu posso, porém será de devo?

  • Cobalto

    Concordo e vou além: Acredito na nossa capacidade (humana) de realização, e decisão de tarefas. Sinceramente, eu me sentiria péssimo se o que auxiliasse (para não dizer “determinasse”) as minhas escolhas fosse um “criador” “onisciente”, ou até mesmo regimentos sociais dogmáticos. Tais exemplos, ao meu ver, subtraem de minha existência o discernimento lúcido sobre minhas escolhas. Estas que valorizo demasiadamente (talvez além do recomendável). Exemplifico, de forma superficial, o nosso próprio corpo. Somos máquinas de sobrevivência aptas para as mais diversas atrocidades que, entretanto, mesmo sabendo que posso, decido não realizá-las (não acho que o universo colapse caso eu tente, logo são possíveis). Atualmente estou em um debate interno (careço de pontos de vista alheios) sobre meios e fins. Apesar de dois caminhos diferentes, sendo um de plena consciência e o outro de limitações, será que os fins serão os mesmos? Especulo que à curto prazo, pouco se distancie, porém, depois de muito tempo, o bater (ou não) das asas dessa borboleta poderão causar um tornado em nossas vidas.
    Desculpe caso tenha algum erro grotesco, não sou tão confiante em nossa língua quanto gostaria.
    Parabéns Lucien, gostei muito de você ter compartilhado tal conteúdo. Obrigado, e um abraço.

    PS.: Não questiono a possibilidade de tais entidades supracitadas existirem. Só não vejo necessidade delas para minhas escolhas.