[Coluna] Estudar é chato? Ainda bem!

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Caminharei sobre ovos para dissertar sobre este tema, mas a ideia para escrevê-lo vem maturando em minha cabeça há tempos. Como todos sabem sou professor (isto já está se tornando lugar-comum, eu sei) e percebo que existe uma forte correte pedagógica que só tomei ciência na minha graduação que condena a aula expositiva. Para quem desconhece o termo, aula expositiva é a aula tradicional, o professor em pé e os alunos sentados recebendo o conhecimento. Não vou adentrar muito no assunto, já que para mim, antes de criticar a aula expositiva primeiro precisamos recriar a educação brasileira no zero. Quem sabe um dia fale mais sobre isso. Então, se não vou abordar a aula expositiva, porque a citei? Porque ela traz uma outra discussão à tona.

Quem diz que a aula expositiva é ruim que prejudica a aprendizagem do aluno geralmente usa como argumento que não há dinamismos nas aulas e que por isso a aula ficar chata e o aluno não aprende.

Comumente recebo país na porta da sala dizendo não saberem mais o que fazer com seus rebentos, pois eles não gostam de estudar, acham chato. Preferem o vídeo game, o computador e brincadeiras de rua. Outra situação muito comum é quando questionado por parentes ou pessoas próximas que querem fazer concursos públicos qual o segredo para estudar. Diante de minhas explicações nada a lá “Mister M”, ouço: “Você é professor, gosta de estudar. Pra você é fácil.”

Ok, vamos por parte. 1) Eu não nasci professor e nunca fui um bom aluno. Isso mesmo. Eu não era bom aluno, ficava divagando na aula. Detestava português e na 8ª série fui até um bom aluno de matemática, mas também parei ai. Até hoje fico me perguntando como diabos consegui concluir meu ensino médio. Fiz cursinho, nessa época, graças a um amigo já lia muito, mas matemática, física e química eram abstrações como uma pintura pós-modernista (OBSERVAÇÃO: CONTINUAM SENDO). Logo nunca tive competência para passar no vestibular de uma faculdade pública, resultado, por insistência da minha mãe fiz vestibular para uma particular e passei em Letras/Inglês. Na faculdade comecei meio perdido, mas aos poucos fui tomando gosto pelo saber. É importante frisar que comecei a dar aulas desde o primeiro período e isso foi um grande diferencial. Apesar de ser um leitor eu não sabia estudar. Essa é a verdade. Ninguém nunca parou para me ensinar a estudar. E obviamente falo de fazer provas e tirar dez. Reter conhecimento, aprender não decorar. Como disse mais acima, estar numa sala de aula como professor mudou minha maneira de ver o conhecimento e a aprendizagem.

Aprendi na prática da docência e não na teoria pedagógica o valor do ato de aprender. Contei um pouco da minha vida como estudante para derrubar o mito de que gosto de estudar, já que sou professor.

professor2) Respeito o discurso de diversos pedagogos, mas percebo que suas teorias de “o aluno deveria aprender enquanto se diverte.” que geralmente é seguido de uma belíssimo e comovente explanação da infância do escritor em questão relatando sobre como ele aprendeu brincando no quintal de casa acabam por parecer como eventos casuais e não métodos de aprendizagem. Dizer que Bill Gates e Mark Zukeberg nunca terminaram suas graduações, mas hoje são multimilionários; ou como Neil Gaiman fugiu da escola e hoje é um escritor mundialmente bem-sucedido. Não é uma regra, mas uma exceção. E aqui vai o meu primeiro aviso: Não transformemos, exceções em regras.

E agora posso retomar meu ponto sobre as aulas expositivas. Imaginar que o aluno precise se divertir aprendendo é uma das maiores ilusões que a educação atual quer apregoar. O que não significa dizer que o aluno não possa achar divertido estudar, mas uma coisa não implica a outra. Confuso? Em minha infância e adolescência ficava fascinado quando via meus mestres proferindo todo aquele conhecimento sem nem gaguejar. Na pós-graduação, encontrei professores incríveis que sabia coisas que eu nem imaginavam que existiam no campo das letras, sem livro ou fichinha, davam aulas de 1h, 2h, 3h… e tudo de cabeça! São gênios? Não! Sabem porque são professores? Não! São exceções? Não! Acreditar nisso é tirar o mérito de quem passa horas sentado lendo, tentando compreender aquilo que os livros contêm – reparem que falei compreender. Vê-los como seres especiais é desmerecer seu esforço.

Gates e Zukebergs são milionários e financiam pesquisas dos mais diversos campos? Verdade, mas um cientista, um professor precisou sentar a bunda e fazer acontecer. Um médico não faz uma cirurgia por que jogou um simulador de cirurgia, mas porque passou noites em claro debruçado em seus livros. O mesmo aconteceu comigo. Como ensinar gramática e suas diversas regras, estimular à leitura e a produção de texto dos meus alunos? Eu sentei a bunda e li. Passei horas fazendo anotados e andando de um lado para outro no quarto falando sozinho (faço isso costumeiramente). Eu precisava repetir para mim o que tinha acabado de ler, precisava anotar, pensar com as palavras, para ter certeza que tinha assimilado aquilo que os meus livros diziam. Não para recitar como um ator numa peça teatral, mas porque aprendi. A melhor metáfora para explicar isso é a de Neo. Eu não queria apenas ver o movimento dos agentes para poder escapar deles, eu queria ver a Matrix. Alguém que sabe, vê a Matrix.

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O mesmo vale para o CabulosoCast. Como surge uma série como a dos Movimentos Literários? Eu pego diversos livros e começo a ler um por um, os respectivos capítulos que correspondem ao que preciso saber. À medida que vou lendo, vou anotando em um caderno (isso mesmo, na mão, pois ao digitar não sinto que estou pensando enquanto escrevo) tudo que acho relevante. Vou tentando fazer conexões: será que foi por causa do evento A que aconteceu B? Será que por causo do evento B desencadeou a revolta C? E assim passo dias, meses, às vezes anos copilando conteúdos para que possa montar uma pauta concisa e coesa  e levar o programa ao ar. Vê? Não há mágica ou truque. Sou só alguém esforçado.

estudando-6Aprendi a estudar. Me divirto? Muito. Estudar para mim, hoje, é um ato de diversão. Sinto-me feliz por conseguir ler e fazer os meus registros. Sinto-me feliz quando entendo algo que há pouco tempo não entendia. Conheço várias pessoas que aprende só assistindo a uma aula. “Que captam a coisa no ar”. Porém insisto. Não transformem exceções em regras.

Lucien, você não cansa? Não vai a um cineminha? Canso, sim. E vou ao cinema, mas sei que não posso viver do ócio. Preciso sentar e estudar. Sinto prazer ao ler e aprender e não me envergonho de dizer que sei porque estudei.

Se a mãe que bate a minha porta me perguntando como posso ensinar o filho dela a gostar de estudar, se a pedagogia me manda ensinar brincando? Como posso cobrar que meu aluno sente a bunda e estude durante duas ou três horas aquela matéria que ensinei? Pois, mesmo que o saber seja passado de uma forma diferenciada alguma hora é necessário abrir o livro e ler. É necessário tomar notas, pensar e refletir. É necessário levar aquele momento a sério. O professor Pierluigi Piazzi, que faleceu recentemente, tem uma palestra ótima onde mostra que não há nada de errado com as aulas expositivas, mas que é preciso que alunos cheguem em casa e estudem. Simples assim. E fica claro em sua fala que o discurso atual de considerar o aluno um pobre coitado que passa horas na escola sofrendo com nossa terrível educação retrograda na verdade é uma consequência do não hábito de estudar em casa. Não debruçar sobre os livros e gastar horas e horas absorvendo o que os mestres silenciosos dizem.

Deixarei um vídeo do professor aqui para que posso entender do que estou falando:

Pessoal, espero ter me feito compreender. Não dê vazam para comentários que consideram o ato de estudar um dom para poucos ou uma característica de determinadas profissões. “Para ser médico, você precisa estudar muito”. Você já ouviu isso? Não só médicos, mas professores, arquitetos, advogados, SEO’s, designers… e o mais importante de tudo: não se sinta envergonhado por estudar. Diversas pessoas afirmar bradam aos quatro cantos que fizeram maratona da série tal, qual é o problema de dizer que você passou o final de semana estudando ou está estudando para escrever um artigo para o seu blog ou montando a pauta do seu podcast ou pesquisando para escrever o seu romance? Pense nisso e estude, sempre.


  1. Repito que quanto a educação regular no Brasil, precisamos de muito mais do que isso. Estou em sala de aula e sei disso.
  2. As mesmas regras se aplicam ao ensino superior. Foi muito comum, receber a alcunha de aluno inteligente dos colegas, como se eu não tivesse varados noites e mais noites em vez de estar bebendo no barzinho mais próximo.
  • Paulo Viana

    Legal. Esse ato de escrever “a mão ” é bem o que o professor píer fala. Isso faz diferença.

    • Lucien o Bibliotecário

      Paulo,

      É uma coisa que faço sempre é um hábito. Não quero que ninguém ache que é uma fórmula. Mas comigo funciona.

      Obrigado pelo comentário.

      Abraços.

  • Ezequias Campos

    Que artigo legal!

    Estou neste momento dando uma pausa nos meus estudos, num domingo a tarde, para um cafezinho. Sem dúvida dá trabalho, é como fazer academia, os “músculos cerebrais” doem, mas novos limites são alcançados.

    Só faria um adendo, na verdade,ressaltar o conteúdo ao excelente texto: há uma cultura de nãos e valorizar o esforço. Seja na faculdade, seja no ensino fundamental não se valoriza o esforço e as conquistas pessoais de se conseguir o conhecimento. Sem isso, nunca se terá PRAZER, pois sempre se estará fazendo contra a vontade.

    Nisso, passa-se a ausência de respeito próprio, que conduz a ausência de respeito alheio. E nas salas de aula (até na faculdade) é uma verdadeira lástima.

    Em tempo: escrever a mão é excelente. Mas só dominando a arte da taquigrafia para poder dar conta de tudo!