[Coluna] O Ovo, O Cliché E O Poché

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Sim, você leu certo, pensou certo, e agradeço pelo seu quinhão de paciência se você conseguiu começar a ler este texto: Vamos falar sobre clichés. A velha (e enorme) discussão certamente aparentemente interminável sobre o que deveria ser –ou deixar de ser – feito durante nossa produção textual, em especial as de cunho ficcional ou poéticos. Em suma, a repetição ou uso de fórmulas.

Mas convenhamos: Virou cliché falar de cliché.

A discussão é coerentemente irritante. Em primeiro lugar, não existe porque ser obrigado de maneira ditatorial ao que escrever ou não. Isso é chato pacas. E quem são esses petulantes pra determinar que sua obra é ruim por que tem uma ou outra referência, claramente homenagens a obras que te influenciaram e que são bem legais? Mas no fim das contas, o fato é que o ato de ter nossa obra denominada como cliché é extremamente ofensivo.

Pense comigo: Você é uma pessoa, em seus tenros 15 ~ 19 anos, em pleno século 21, nesta nova década de 10. Ninguém teve a decência de te apresentar a trilogia original de Star Wars; sua literatura se resume A série Young Adult como as de Harry Potter ou Percy Jackson, e sua lista de autores mais adultos incluem nomes como Dan Brown, E.L. James, mas pelo menos constam Makus Zusak e Khaled Hosseini. Ah, você também leu F. Scott Fitzgerald, porque o Grande Gatsby foi muito louco (Mas não sabe que ele escreveu The Curious Case of Benjamin Button). De repente, você tem a incrível idéia de escrever sobre um mundo de fantasia onde magia é um bem comum e um grupo de aventureiros tem que se reunir para combater um mal crescente que se ergue ao longe, e a única maneira de derrota-lo é fazer uma jornada secreta com um grupo pequeno de poderosos aventureiros até uma montanha longínqua onde reside o segredo do ponto fraco do vilão para que assim os heróis possam triunfar.

Oh, não, melhor!

Vai escrever sobre um garoto que se descobre descendente de uma linhagem milenar de guerreiros do bem a muito extinta e que precisa lutar contra o mal que reina seu mundo, aprendendo com o último grande mestre da ordem a usar seus poderes miraculosos, que são muito maiores do que o normal, pois na verdade seu sangue é mais nobre que o normal e isso faz de você O Único que pode vencer este combate, ao lado de seus companheiros conseguidos em jornada, dentre eles, um parente desconhecido.

Ah, melhor escrever algo mais adulto!

Porque não fazer algo diferente de Hunger Games ou Divergente e em vez de escrever uma distopia de aventura, fazer algo sobre política, onde um braço político tomou controle de todo o país e através de técnicas políticas e de incentivo ao ódio, controla com punho de ferro toda uma nação para seus interesses escusos.

NÃO! MELHOR AINDA! UM ROMANCE ONDE OS MOCINHOS MORREM NO FINAL!!!

Imagino que o Deja Vú tocou forte, certo?

A questão é que o Cliché – Vide dicionário on line, “s.m. Frase (ou forma de escrita, tomo a liberdade de adicionar neste conceito) repetitiva e sem originalidade; expressão que peca pela repetição, pelo lugar-comum; banalidade repetida com frequência.” Torna-se prejudicial por si só. Sua presença é execrada, odiada, marginalizada por ser o que é. O Cliché é o lugar-comum, e o lugar-comum é um câncer na sociedade da produção literária.

O cliché é o Ovo

Todo o dia o ovo está aí, presente ou escondido em sua dieta. Proteína e gordura, guardados por uma capa resistente de carbonato de cálcio que envolve os nutrientes do ingrediente. Pelo menos umas três vezes por dia em horários diferentes ele é, pobre coitado, condenado por três famosos nutricionistas apenas para ser dito inestimável e insubstituível por outros três. E como ovo mexido (com manteiga, por favor) é muito gostoso, a gente deixa por isso mesmo. O ovo é alimento de todo o dia, aparece em receitas que você nem imagina que está, mas quando descobre, logo torce o nariz e se irrita porque o raio gourmet te enganou de novo a comer apenas “um prato feito com ovo” por mais caro. Tipo um bolo. Que absurdo!

Ou Talvez não seja tão absurdo assim comer esse ovo.

Note: Cliché é lugar-comum. Mas lugar-comum é, queira ou não, a essência da vida natural. Sim, o termo foi proposital. “Vida Natural”. Não “Vida Normal” ou “Banal”. Nem é difícil de entender. Duas pessoas se gostam de maneira romântica. Elas têm inúmeras maneiras de elas demonstrarem seu carinho uma pela outra. Mas uma das mais comuns é através de um beijo. Um beijo apaixonado é cliché? Claro. É lugar-comum, é elemento utilizado em um sem número de obras românticas ou não por aí. Mas é justamente por ser um elemento claro e com pouco espaço a interpretações diferentes não intencionais, fora da curva de pensamento do autor. Adivinha só, você pode colocar os personagens demonstrando seus sentimentos através de peidos na cara do outro. Mas, imagine você, também vai ser ligeiramente fora da realidade imaginar essa forma de carinho – além de ser desagradável.

Talvez, só talvez, Cliché seja uma palavra que não esteja sendo bem empregada pelos críticos literários que amam definir qual a regra correta para a produção de uma obra literária. Afinal, o que é um cliché? No cerne da palavra? Um elemento. Repetido a exaustão, mas ainda assim um elemento literário. Como dito, o beijo apaixonado. O final feliz. O bem vencendo o mal. A espada mágica. O vilão megalomaníaco. A redenção daquele vilão mais legal. Frases de efeito. O ovo. Tudo isso são elementos que comumente se repetem em obras. Mas repetem-se por pura maldade da cópia? Às vezes não. Vê o exemplo da pessoa que coloquei lá em cima? Ela não tinha nenhuma dessas referências em sua mente quando teve suas ideias. Portanto, seus clichés vieram em sua cabeça apenas por ser o que são: Boas e interessantes ideias! Justamente por isso, muito repetidas.

Mas ainda assim, são idéias batidas. Repetidas a uma exaustão inimaginável, tornando assim seu uso quase uma garantia de fracasso de originalidade (mas talvez não qualidade.). Que fazer então?

Longe de mim indicar o que fazer com sua obra. Não sou um super-foda-autor com vários livros publicados como uma Ju Costa ou um Eduardo Spohr da vida. Mas como Chef de Cuisine competente que sou, posso te indicar uma coisa: O que eu faria com o ovo?

Sabem o que é Ovo Poché? Simplificando a coisa toda, é um ovo cozido sem casca em água temperada fervendo. Numa panela com água fervendo, temperada com sal e azeite, coloque o ovo na água e deixe ferver por 5~7 minutos. O resultado é um ovo cozido, mole por dentro, mas macio e magro. O mesmo ovo, com textura, gosto e forma totalmente diferentes, tudo isso só mudando a maneira como eu preparo o prato. Ótimo para dietas e quem não pode comer muita gordura, mas curte o gosto do ovo ou precisa dele na dieta.

O que isso quer dizer para produção textual? Que talvez utilizar este elemento comum, mas com uma roupagem totalmente diferente, pode dar o gosto a mais que sua obra precisa. Afinal o Vilão que se “redime” pode não fazer isso por bondade, mas sim só para conseguir ganhar alguma coisa com isso e se voltar para o mal depois. O beijo apaixonado pode não ser tão bom, ou ser interrompido, ou mesmo só acontecer na mente dos amantes. A espada magica pode ser amaldiçoada. O bem vencer o mal pode ser uma coisa ruim, no fim das contas. O vilão megalomaníaco poderia ter razão, afinal. O escolhido pode não ser O escolhido para alguma coisa boa. Tantas e tantas outras ideias super utilizadas, mas repaginadas, observadas por outros pontos de vistas normalmente ignorados ou pouco estimados!

Ou talvez eu esteja te sugerindo para cozinhar seu conto em água fervente e temperada, sem casca. Vai saber?

No fim, a escrita é um processo de auto-descoberta. Talvez você escreva a melhor história do mundo para muita gente, mas que te desagrade e que você jogue fora por achar uma merda ou não querer escrever sobre um rapaz vestindo pijama branco com uma espada laser. O que importa é que você deve ser mais responsável por sua obra do que o conselho dos outros. E se por acaso ela for uma porcaria, você sempre pode reescrever.

Afinal, no fim das contas o ovo é seu parceiro.

ovo_clichê

  • Iana Serensky

    *descasca o livro e joga ele em água fervente* Assim?

    Gostei muito do texto! E é exatamente isso: não é ‘fugir’ do cliché, não tem como fugir dele, pra ser bem sincera. Mas reinventar-se dentro dele. Tornar os personagens diferentes do padrão menino-branco-heróico, e principalmente, borrar mais a linha entre Bem x Mal, talvez até mesmo não ser uma linha entre Bem x Mal, mas entre Grupo do Bem Que Acha Que o Melhor É Agir Assim x Grupo do Bem Que Acha Que É Melhor Agir Assado.
    E também personagens com profundidade, pelo amor de deus. Eu leio seu enorme livro de cliché sobre um grupo de aventureiros numa terra mágica com a maior felicidade do mundo… SE os personagens forem críveis, com defeitos, características próprias, conflitos morais e um passado bem elaborado. O problema, a meu ver, não é o cliché, mas a superficialidade da narrativa e dos personagens.