[Resenha] Cenas de Nova York do Jack Kerouac

0

As pessoas que me conhecem sabem que depois que provei da entorpecente geração beat, Jack Kerouac virou meu amante, incrível paixão. Venho lendo as obras dele, completando aos poucos a coleção de seus livros lançados aqui no Brasil [bendita seja a L&PM Editores]. Até falei dele aqui no site certa vez, mas nunca resenhei nenhum de seus livros.

A fim de reparar essa heresia, resolvi trazer para vocês as impressões que o livrinho Cenas de Nova York e outras viagens, publicado pela L&PM, pela coleção 64 páginas [que custa apenas R$ 5,00], me trouxe. Para quem nunca ouviu falar do Deus Beat ou quem tem vontade de conhecer sua obra mas não faz idéia de por onde começar, eis a dica…

Amo essa capa <3
Amo essa capa <3

Confesso que minha estreia se deu com On the Road, que pretendo reler pra resenhar aqui, mas Cenas de Nova York e outras viagens transmite bem a essência beat e a sede de aventuras e experiências exóticas que Kerouac quis passar ao escrevê-los… O livro é composto por uma breve apresentação do autor, seguido de relatos de viagem publicados em outro de seus livros, a obra Viajante solitário, além do poema Rimbaud. São textos curtinhos mas que nos trazem belas reflexões e torpores…

Cenas de Nova YorkSozinho no topo da montanha e O vagabundo americano em extinção são sobre viagens percorridas pelos Estados Unidos, pegando caronas, subindo e acampando em montanhas, cruzando rios e conhecendo todo tipo de pessoas, além de viajar às escondidas em vagões de trens de carga. Pode parecer algo simplório, mas a maneira como Kerouac relata essas histórias beira o lirismo e o poético… Claro que sem desperdiçar uma pitada de marginalidade e escrita ‘suja’, crua, típico da geração beat… O grotesco se une ao lírico resultando em uma leitura que beira o transcendental…

“…mas aqui é a fantástica Third Avenue de Nova York, almoço grátis, cheiros da rua triste, rio de dejetos, almoço na estrada suja, portas que se fecham, heróis guitarristas de suíças longas, aroma nos degraus de madeira das soleiras do entardecer sonolento,” 

jack-kerouac-2_0A escrita de Jack Kerouac é uma espécie de fluxo de consciência, ele vai escrevendo e é como se estivesse ali ao seu lado, conversando de forma ininterrupta com o leitor, não há regras de pontuação a serem seguidas, ele vai relatando tudo como se fosse em tempo real, e isso é uma das características que mais me encantaram nele…

“Depois de todo esse tipo de farra, e ainda mais, cheguei ao ponto em que precisava de solidão e de desligar a máquina de “pensar” e “curtir” o que chamam de “viver”; tudo o que eu queria era deitar na grama e olhar as nuvens. […] “A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão.”.”

As pessoas com quem ele se depara em viagem sempre trazem algo de interessante à sua própria aventura particular… São como pontos de luz se conectando ao longo de suas viagens, fios invisíveis que se entremeiam, todos conectados com o grande universo, e que com a mesma intensidade se desconectam, ao despedir-se num lugar onde ele pernoitou… Mas a solidão se faz presente na maioria do trajeto, fazendo com que Jack se encontre consigo mesmo e com a natureza…

 “Que estranhos e doces pensamentos brotam nas solidões montanhosas.”

Em seus pensamentos solitários, ele ora, pensa na família, nos amigos, nos desconhecidos que  cruzam seu caminho, na imensidão do mundo, no que vai comer no dia seguinte… A aventura de sair sem rumo pelo mundo é uma dádiva da vida, que ele não pensa em desistir de aproveitar…

 Fechando o livro temos o poema Rimbaud, que foi publicado originalmente no livro Scattered Poems, em 1960.

 “foge de trem para Paris,

o miraculoso guarda-freios mexicano

o joga para fora do trem

veloz, pro Céu, onde

ele não mais viaja porque o

Céu está em todo lugar – “

Poderia descrever Kerouac em suas viagens como um vagabundo sem vintém, buscando algo indefinido, com destino a lugar nenhum, e sorrindo feliz ao contemplar o manto de estrelas sobre sua cabeça em madrugadas frias ao relento… ‘um estranho e solitário católico, louco e místico’

Ficou interessado(a)? Compre o livro nos links abaixo:

Amazon (ebook)

NOTA:

05-selos-cabulosos

Autor: Jack Kerouac 
Origem:
Estrangeira
Editora: L&PM Pocket
Ano: 2012
Páginas: 64
Skoob

 

 

SHARE
Previous article[Coluna] Seleção de quadrinhos nacionais
Next article[Coluna] O que Desejo?
Maria Valéria tem 29 anos [mas sempre me dão entre 20 e 25], cabelos coloridos, tatuagens e professora de História. Um dia ainda vou ao Egito, à França e à Grécia, fazendo uma escala em Praga e Moscou. Gosto de coisas e pessoas estranhas e de música dos anos 80. Escrevo para nunca esquecer de mim, uso batom laranja ou vermelho e coturno desgastado. Tenho fascínio por suicidas e me lambuzo comendo algodão-doce... como diria Ana C., pois sem saber, ela escreveu isso pra/sobre mim: "Sou amativa antes de tudo embora o mundo me condene...".