[Manifesto] Relacionamento virtual

3

Quem explica a razão da nossa tendência de individualizar a dor? Ou nossa disposição em tentar soar diferente de quem nos é semelhante? De quem carrega os mesmos problemas.

A Flavinha era uma pessoa com diferentes personalidades, diziam os mais próximos. Ela ocasionalmente era mais extrovertida na presença de seus colegas de trabalho, nas saídas para as festas e era a alegria dos aniversários, mas demasiadamente solitária. Começou a se relacionar com Otavinho, de semblante parecido. A afinidade virtual era gigante, mas com um agravante: ambos eram parecidos demais. Encontraram-se num aniversário de um amigo em comum. Ficaram desviando os olhares por alguns minutos, antes de finalmente se cumprimentarem.

– Oi, tudo bom?

– Tudo, e você?

– Tudo bem.

– Ah, legal.

– Sim. Bem, eu vou ali falar com a Jê. Nos falamos depois.

– Beleza.

Voltaram a se falar na internet. De alguma forma, a facilidade era muito maior. A entrega, igualmente. Podiam ser eles mesmos. A presença física pode ser perturbadora, em determinadas situações.

Atualmente, Flavinha e Otavinho namoram, mas não se vêem pessoalmente desde aquela festa. São outros tempos, contam os amigos.

Da série “Rapidinha”:

(Inspiração)

Procuro pensar onde foi que a perdi. Talvez nos olhos da Sônia. Ou na boca da Flávia. Nos poemas sobre Beth, quem sabe. Saí pelas ruas à sua procura. Não estava nos botecos que freqüento, nem nos restaurantes, muito menos nos cinemas. Busquei na felicidade, nunca apareceu por lá. A tristeza disse que não a vê há algum tempo. Meu catálogo de filmes e livros seria um lugar óbvio demais. Preciso encontrá-la, mas ela é metamorfa. Quem dirá como se parece.  Como é seu cheiro ou seu gosto. Minha última saída é escrever até achá-la novamente, possuí-la e não deixá-la mais. Espero que seja o bastante.

  • Lucas Rafael Ferraz

    Interessante que eu e minha esposa no conhecemos e falamos MUITO pela internet antes de nos encontrarmos pela primeira vez.
    A diferença fica por conta de termos amigos em comum no “mundo real”.

    • Andrey Lehnemann

      Pois é, eu parti de experiência própria. hahaha Mas há inúmeros casos de relacionamentos começados virtualmente. Os tempos são outros, realmente, nessa época de interatividade. Basta saber como aproveitar-se disso e expandir o universo. Ainda não consegui, mas quem sabe algum dia. =D

      • Lucas Rafael Ferraz

        Mas acredito que sem ter nenhum link no “mundo real”, como disse, deve ser realmente mais difícil. No meu caso, ela era amiga da noiva do meu amigo de faculdade há muito tempo. Ai as coisas fluíram mais tranquilas.
        🙂