[Manifesto] O último pedido

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Não me recordo precisamente onde li/ouvi, mas sei que o último pedido do astrônomo Edmond Halley teria sido um copo de vinho. Morreu logo depois. Tinha 85 anos. É algo que me intriga: o nosso fim. E não quero criar uma divagação mais profunda sobre a morte, mas sobre nosso direito de escolha. Reflito que não possuímos controle algum sobre nosso início, mas certamente sobre nosso fim – de alguma maneira. Claro que não conseguimos controlar a forma que iremos expirar, mas penso que temos autoridade sob nossas últimas ações.

Qual seria seu último pedido, portanto, caso você soubesse que seu tempo estivesse findando? Ou sua última ação?

Há alguns filmes que raciocinam sobre isso. Recentemente, eu assisti ao As Últimas Horas que falava exatamente sobre a negação do fim. Caminhava pela estrada oposta do filme Melancolia, ao recusar a morte e não querer consentir a desesperança. É um caminho curioso e que sublinha nossas várias facetas humanas: nele, você observava o sujeito que não quer perceber a morte, por isso usa todas as substâncias alucinógenas que tem em mãos; a criança que apenas quer reencontrar o pai e destinar suas últimas horas à ele; a última grande festa, onde todos os jovens estão nus e se permitindo à prazeres finais; uma roleta russa que brinca com a concepção do próprio fim; além de, claro, suicídios amedrontados.

Nesta linha de raciocínio, talvez, a ideia de poder diagnosticar nosso próprio fim, tê-lo por certeza, não seja um grande recurso. Mas sigo na intenção inicial da crônica, ainda que não tenha um grande pensamento sobre meu fim. Sentir o gosto de algo pela última vez ou ler o trecho de um livro ou uma passagem cinematográfica marcante? Quem sabe. Cercado de amigos e familiares? Tomara. A única certeza é de que gostaria que meu obituário fosse escrito por duas pessoas distintas: a apaixonada e a contrária. Seria um alívio deixar uma dubiedade no meu repouso final e, assim, saber que deixei pessoas tão inseguras sobre mim quanto eu mesmo fiquei por toda a minha vida. E que na minha lápide estivesse escrito, como pensou Miele: absolutamente contra à minha vontade.

  • Gabriel Mendes

    Eu só quero ser lembrado depois de minha morte. É reconfortante, pois ser lembrado é sinal de que se fez algo importante.

    • Andrey

      Pensei o mesmo por muito tempo, Gabriel. Hoje, eu não sei o que quero mais. hahaha Só quero viver uma boa vida. E, quem sabe, registrar algo com ela. ;))

  • “Seria um alívio deixar uma dubiedade no meu repouso final e, assim, saber que deixei pessoas tão inseguras sobre mim quanto eu mesmo fiquei por toda a minha vida”

    Ótima crônica Andrey. Muito boa mesmo. Parabéns. 🙂

    • Andrey

      Valeu, Lucas. :)))