[Coluna] Chama o Síndico!

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Quando se trabalha longe de casa, longe demais para ir ao escritório de transporte público, a sombra de uma figura grande e desajeitada assoma no horizonte de todo proletário logo pela madrugada: é o ônibus fretado chegando.

Muitos podem imaginar que o fretado é um simples meio de transporte. Não é. O fretado é um condomínio móvel, onde cada condômino tem sua poltrona e o síndico fica lá na frente, na cabine, dirigindo. Mas não se engane, seu papel não é dirigir. Ele o faz porque afinal de contas está num ônibus, mas sua função primária é resolver as picuinhas dos condôminos.

E como tem gente complicada nos fretados, vou te dizer. Meu condomínio, o de verdade, de apartamentos, tem menos problemas e confusões do que esse que me carrega todos os dias através da rotina incessante.

Certa feita eu me sentava no corredor e a poltrona da frente ficava quase sempre vazia. Mas a senhora da janela não me deixava coloca-la na posição vertical para ter mais espaço para as pernas. Sabe-se lá o porquê. As teorias são de que lá viajava seu amigo imaginário ou então seu encosto. A segunda é mais pesada, mas me parece mais acertada.

Enfim, tive que trocar de lugar devido à sua implicância sem limites. Fui mudado para o fundo, onde tudo ia bem. Muito bem. O homem ao meu lado era tranquilo, nunca tive qualquer problema com ele. Gente boa. Logo no começo notei que o meu banco deitava demais, além do limite, então eu media a inclinação com o banco dele e ficava tudo certo.

Uma vez, algumas semanas atrás, entrei no fretado de madrugada com muito sono, deitei o banco e dormi até chegar na empresa, onde tive de ser acordado. Não medi a inclinação. Na volta, o motorista me chamou e disse que o homem atrás de mim reclamou que foi a viagem toda tendo o joelho machucado pelo meu banco, que estava deitado demais.

O que não consigo conceber é como alguém viaja mais de uma hora com dor e não fala nada? Mas o fretado é isso. Um condomínio onde parece às pessoas muito mais simples ir reclamar ao síndico. Ele trocou de lugar mas alguns dias depois voltou. Motivo? Essa é muito boa: ele havia sido colocado no corredor e as pessoas esbarravam nele quando passavam. Nem vou comentar.

Pobre síndico. E isso nos trás ao dia de hoje. O homem ao meu lado saiu, ou está de férias, ou Deus sabe o que. Ontem um novo indivíduo veio e se acomodou. Eu dormi do mesmo modo que sempre fiz, sem qualquer alteração em meu modus operandi de sono. Hoje o motorista me diz que o cara reclamou que eu era espaçoso e estava invadindo o lado dele.

Novamente o condômino julga mais sensato chamar o síndico do que acordar o companheiro e pedir que se ajeite melhor. Veja bem, não me farei de santo. Quando durmo, me mecho muito. É fato, me mecho mesmo, e posso incomodar certas pessoas. Nunca incomodei meu colega anterior. Já esse foi no primeiro dia.

Pessoalmente, se um dia alguém próximo me incomodar não vou levar isso ao síndico. Vou eu mesmo falar e resolver o problema, depois coloco meus fones de ouvido e volto a dormir, um som relaxante e animado me embalando. Faz tempo que não escuto Tim Maia.

 

 

 

 

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  • E quando não tem o síndico o que faz?
    Joga a conversa pra vó, pro pai, pra mãe, pra professora, pro amiguinho, pro filho.
    É…. deixem o síndico em paz!

    • Lucas Rafael Ferraz

      Pois é! Só querem o síndico, resolver o problema por si mesmos necas!

  • Rick Galasio

    Este parece ter uma ligação com aquele da aliança. O dia que colocou o banco demais inclinado parece ser o mesmo dia da aliança perdida.

    • Lucas Rafael Ferraz

      Oi Rick! Puxa, você se lembra desse? hehehee
      Não foi o mesmo dia, o da aliança já faz um certo tempo.
      Enfim, receio que acabaram minhas histórias de fretado, já que parei se usá-lo.

      Obrigado por comentar!