[Resenha] Max e os Felinos do Moacyr Scliar

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O livro foi escrito pelo escritor gaúcho Moacyr Scliar e está divido em três partes: O Tigre Sobre o Armário; O Jaguar no Escaler; A Onça no Morro; respectivamente. Partes essas que como os nomes sugerem, explicitam as relações de Max com os vários felinos que perpassaram sua vida, relação que por sua vez é evidenciada no título do livro — trocando em miúdos: o título faz jus ao nome.

Max capa

Temos já na abertura do primeiro capítulo a célebre frase:

“Envolvido com felinos Max sempre esteve, de um modo ou de outro.” (Pag. 9)

Após o término do livro, constatamos que nunca uma afirmação foi tão bem colocada do que essa.

Filho de um peleteiro, Max cresceu entre peles dos mais diversos felinos, incluindo o próprio pai, que nem de longe era o melhor exemplo de pessoa: rude, grosseiro, Hans Schmidt era o enfadonho estereótipo do pai de família do século XX.

“Como negociante, e como pessoa, Hans Schmidt não era um tipo refinado. Atarracado como um urso, era veemente demais no exaltar da qualidade de sua mercadoria; ficava vermelho, berrava, salpicava de perdigotos a cara dos clientes; e em casa, entre uma colherada e outra da sopa ruidosamente sorvida, gabava-se à mulher e ao filho de já ter enganado muitos trouxas na vida.” (Pag. 9)

O livro escrito pelo gaúcho Moacyr Scliar é breve (meras 78 páginas), mas mesmo assim, consegue abarcar a grande aventura que foi a vida de Max Schmidt e nos ensina uma gama de conhecimento. Os primeiros felinos que atravessam o caminho de Max eram um tigre de bengala empalhado, orgulho do pai, que havia na loja do mesmo e o próprio pai, a principal figura opressora. A infância do jovem Max resume-se aos conflitos do jovem com o próprio pai, mas principalmente com o tigre. Max tinha muito medo do tigre, medo que tão logo Max conheceu os prazeres e desprazeres do amor, foi esquecido e superado. Frida era o nome da mulher. Ela trabalhava para seu pai e logo Max entrou numa aventura adolescente proibida.

E é por causa desse romance — que se estendeu por anos — que Max é obrigado a fugir da Alemanha, fugindo do marido de Frida — um nazista — e deixando para trás sua família e seu amigo Harald, um socialista que acabou por enlouquecer.

O livro corre rápido, mas mesmo assim somos impelidos a ter empatia por Max, devida a genialidade de Moacyr Scliar que em 78 páginas aborda tantos temas, eliciando reflexões tão profundas, que muitos autores precisariam de mais de 500 páginas para isso, e ainda não o fariam direito o que em tão poucas páginas Moacyr explicita com maestria.

Moacyr cita psicologia, história geral, história brasileira (ao citar os integralistas que logo que apareceram na trama causaram aversão em Max, pois esse achou tratar-se de nazistas) e mesmo os infelizes preconceitos raciais no Brasil e o antissemitismo.

No tocante à psicologia, Moacyr Scliar brinca com a teoria freudiana, através do Doutor Rudolf, homem versado em medicina e literatura, apreciador de Sigmund Freud, que através da didática ensina conceitos da bíblia, de mitologia e de psicologia aos nativos.

“Falava de Ego, jovem artesão que fabricava lindíssimos bonecos, e dos seres que o atormentavam: Id, anão fescenino e peludo (espécie de curupira); Super-Ego, autoritário e aristocrático patrão. Depois de um dia de estafante trabalho, Ego deitava-se mas não podia dormir: Id vinha do porão e punha-se a dançar em torno ao catre, fazendo caretas obscenas. Ego levantava-se e seguia o anão pelos campos, até o que parecia ser a boca de um buraco de tatu, mas era na realidade a entrada para o fabuloso palácio subterrâneo da Fada Morgana. Nos grandes salões iluminados por tochas bailavam, diante dos olhos maravilhados de Ego, moças loiras e nuas. Estendiam-lhe os braços, mas, quando o rapaz ia se atirar a elas, surgia Super-Ego, com seu fraque, sua cartola, seus lábios finos. A um sinal de sua bengala de castão de prata as bailarinas sumiam. Ele então se punha a zurzir o pobre Ego, repetindo monotonamente, não pecarás, não pecarás. O final era propositadamente otimista, com Ego livrando-se de seus algozes e casando com a Fada Morgana.” (Pág. 57)

Durante toda sua vida, Max passa por dissabores e reviravoltas, encontrando afetos e desafetos, mesmo depois de muitos anos.

No entanto, eu acho que a principal mensagem que Moacyr quer nos deixar com este livro, é que não importa quanto tempo passe, tudo aquilo que nós fazemos, resultará numa consequência para nós. Um dia iremos ter que prestar contas sobre tudo o que fizemos; mais cedo ou mais tarde. Não fugindo à regra, Max presta contas com o seu último felino (A Onça no Morro) que, ironicamente, só é seu predador por causa de suas ações no auge dos seus dezoito anos, na Alemanha. Então mesmo após muitos anos, o destino volta a bater na sua porta, cobrando o que ele havia feito.

 Considerações finais…

A narrativa é sobre um tema bastante incômodo, mas bastante atual, mesmo hoje em dia. Moacyr aborda e critica temas que envolvem autoridade, ideologias políticas e opressão, pela visão de mundo do jovem Max. A vida de Max é a história de sua vida com “felinos”, que nada mais são que a representação metafórica desses poderes opressores que o rodeiam desde o seu nascimento até sua morte. Não bastassem os felinos “reais” e a figura autoritária do pai, eis que Scliar trabalha as alfinetadas em situações extremamente desconfortantes e controversas: Os estados totalitários e desumanos, a exemplo do Nazismo Alemão e do Integralismo Brasileiro. E é exatamente nesse cenário inóspito que a trama se desenrola.

Na segunda parte do livro, vemos o tão famoso episódio que Max protagoniza com um jaguar num escaler, que ficou mais conhecida após a polêmica envolvendo o livro As Aventuras de Pi. Não querendo vir em defesa de Yann Martel e não querendo entrar no mérito se se trata de um plágio ou não, o que pude perceber na verdade é que ambas as histórias são completamente diferentes. A trama de Max e os felinos não se limita ao episódio no escaler, enquanto que a trama das Aventuras de Pi, inspirada nessa cena de Max e os felinos, é apoiada exatamente nessa cena. Ora, trata-se de uma inspiração — uma notável inspiração? Sim. —. Mas ainda sim uma inspiração.

NOTA:

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Ficou interessado(a)? Então compre o livro:

Nome: Max e os felinos
Autor: Moacyr Scliar
Editora:
L&PM
Ano: 1937
Páginas: 78
Skoob

  • Jonas Daggadol

    Tenho uma vontade enorme de ler esta história. ‘Tá na minha lista (que o LC só faz aumentar!).

    • Pois eu o aconselho fortemente que leia. É curto e vai ser bem rápido e divertido, garanto! Obrigado pelo comentário e abraços!