[Resenha] Quissama: O Império dos Capoeiras do Maicon Tenfen

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Sinopse:

Rio de Janeiro, dezembro de 1868.

O moleque Vitorino Quissama foge da senzala para procurar a mãe desaparecida. Recorre ao viajante Daniel Woodruff, ex‑agente da Scotland Yard que pode ajudá‑lo em sua missão. Transitando entre os salões da corte e as precárias moradias dos cortiços, a dupla terá de enfrentar os perigos e as injustiças de uma sociedade sustentada pelo trabalho escravo.

Baseado nos manuscritos de Daniel Woodruff (1832-1910), O Império dos Capoeiras reconstitui a saga de uma cidade dividida pela guerra secreta dos Nagoas e Guaiamuns, duas das maiores e mais temidas maltas do século XIX. Numa época em que o escritor José de Alencar era Ministro da Justiça e o Império do Brasil destinava todos os seus recursos à Guerra do Paraguai, Woodruff mal podia imaginar que, por trás da busca pessoal de Vitorino, insinuava‑se uma conspiração que mudaria os rumos da nossa História.

Análise:

Uma conspiração. Um herói injustiçado com um forte senso de justiça. Uma quadrilha que não mede forças para atingir seus sórdidos objetivos. Parece clichê de filme hollywoodiano, ou coisa que o valha, mas… Não! Quissama – O Império dos Capoeiras, trata de todos esses assuntos, mas ao invés de uma quadrilha de gângsteres, temos escravocratas e burocratas, metidos em dramas a níveis tão absurdos que parece ficção – e é! Mas nem por isso, a obra de Maicon Tenfen perde em originalidade e realismo. Mesclando ficção e realidade, Maicon Tenfen consegue criar uma trama criativa – e imaginativa! –, bem elaborada nos mínimos detalhes e sem muitas pontas soltas.

O livro é dividido em duas partes, sem contar com a atenção do autor em logo após o Epílogo (p. 291) presentear o leitor com uma parte exclusiva às notas (p. 293) que conta com exatamente 20 explicações muito úteis, por sinal. O livro é todo narrado em primeira pessoa, pelo próprio protagonista e herói do livro, Daniel Woodruff.

A história começa com Daniel Woodruff sendo confrontado por Vitorino Quissama – um moleque, para utilizar a palavra usada pelo próprio narrador – que pede a ajuda de Daniel para encontrar a sua mãe há muito desaparecida. As primeiras páginas não chegam a convencer, mas tão logo somos iniciados no mistério que Maicon Tenfen nos envolve e já nos vemos impelidos a não largar mais o livro. Ao longo do enredo muita coisa acontece e muitos outros personagens interessantes aparecem. Somos colocados no meio de 1868, no meio de crises escravocratas, joguetes políticos, guerras regionais, injustiças, traições e dissabores amorosos. O mistério criado pelo autor é digno das histórias de Arthur Conan Doyle e em pouco tempo, já estamos lado a lado de Daniel Woodruff tentando decifrar o quebra-cabeça por trás do sumiço da mãe de Vitorino Quissama e da morte de Amâncio Tavares, personagem que aparece na trama para confundir ainda mais a mente do leitor. A partir daí o livro é tomado por uma aura de suspense e ação a todo o momento, chegando a ser eletrizante em certas partes. Maicon Tenfen convence o leitor a se maravilhar com a arte da capoeira, beirando o exagero algumas vezes – alguns confrontos entre mocinhos e bandidos –, em cenas deveras cinematográficas.

No entanto, o que pesa para o realismo do livro são os fatos históricos muito bem expostos, sendo habilmente colocados na hora certa, muitas vezes na boca dos próprios personagens – de forma sutil –, como evidenciado em:

Na aparência, talvez. Na prática, pergunto: o que acontecerá a esses moleques livres que, no bem da verdade, continuarão sendo filhos de escravos? Quem cuidará deles? Haverá trabalho e escola para todos? Vou ainda mais longe: no caso de uma alforria total, que destino seria reservado aos negros repentinamente emancipados? Estariam fora das senzalas, é fato, mas teriam casas para morar, terras para cultivar, comida para comer? É lógico que não. Assim como nosso imperador, os abolicionistas estão preocupados demais com os fogos de artifício para pensar nas consequências dos seus sonhos irresponsáveis. Não pense que Dom Pedro deseja acabar com a escravidão por causa de suas aspirações humanitárias. Está sendo pressionado por entidades internacionais. Sente vergonha de comandar um país que continua com a economia atrelada ao elemento servil. Embriagado de vaidade, o que quer é ser reconhecido ao redor do mundo como um governante justo e iluminado, mesmo que isso custe a saúde política e financeira do Brasil. (Pág. 173)

O mais novo livro (primeiro de uma trilogia) de Maicon Tenfen cumpre o que se propõe a fazer, que é entreter o público jovem com uma história divertida, cheia de ação e mistério, mas sem deixar de cumprir seu papel educacional, uma vez que o livro serve de fortes bases para a compreensão de nossa própria história e cultura – claro, tendo a noção de que a obra é uma ficção, pedindo atenção para aquilo que é fato e o que é ficcional. A linguagem do autor é condizente com a época, evidenciando a atenção do autor com a veracidade da sua obra.

Os personagens são carismáticos, destaque para Miguel, e para o antagonista Herr Müller. O autor também brinca com nossa própria cultura e coloca não só um, mas vários personagens históricos, como personagens do seu livro, como a princesa Isabel e o próprio Dom Pedro (mesmo que a níveis secundários) e até o escritor e político José de Alencar (esse já como um personagem de maior ação).

Acho que as ilustrações de Rubens Belli caíram como uma luva, e apesar de simples, conseguem expressar bem o que o livro quer nos passar. Quanto à edição da Biruta, o livro foi todo ornamentado como se de fato pertencesse ao tempo a que se remete a história, sendo que tiveram atenção até para as letras de título e aos adornos nas páginas! Salvo alguns erros ortográficos, o resultado final está de parabéns.

Considerações finais…

Quissama – O Império dos Capoeiras, foi um livro que me surpreendeu de modo tão positivo, que recomendo a leitura fortemente não só para jovens, mas para todos aqueles que apreciam uma boa leitura e que gostem de ação e de um bom mistério. Salvo algumas incongruências que confesso terem me chocado bastante, não tenho do que reclamar. Mesmo um livro muito revisado muitas vezes, alguns equívocos acabam por ficar, mas nem por isso a obra deixa de ser boa, pelo contrário; se torna mais humana! Não obstante, o protagonista foi um dos personagens que não me convenceu. Apesar da insistência do autor de tentar criar um modelo de herói, Daniel Woodruff me pareceu ficcional demais, “perfeito” demais para ser palpável e de certa forma, passível de empatia. O que mais me agradou, no entanto, foi o fato de Maicon Tenfen não subestimar o seu leitor em momento algum; como pude notar: até mesmo a informação mais banal, mais tarde provava ser de extrema importância para o entendimento da história.

Nota: O nome “Quissama” faz alusão a uma tribo angolana de onde saíram os primeiros escravos.

Nota:

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Avaliação: 5 Selos Cabulosos

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Nome: Quissama – O Império dos Capoeiras

Autor: Maicon Tenfen

Edição:

Editora: Biruta

ISBN: 9788578481377

Ano: 2014

Páginas: 308

 

Ficou interessado(a)? Então compre o livro:

 

  • Mariana

    O estilo do Maicon Tenfen lembra o do Jô Soares em “O Xangô de Baker Street”? Dá vontade de ler! Literatura da época imperial brasileira é sempre interessante, ficção ou não (:

    • Primeiramente, obrigado pelo comentário, Mariana. Ainda não li “Xangô em Baker Street”, mas se você conseguiu fazer esse link e isso te despertou curiosidade, que ótimo!

  • Hum… Acabou de ir para a minha lista de “obras a ler”. Parece mesmo muito interessante, e agora que foi feita a relação com “O Xangô de Baker Street”, fiquei ainda mais propenso a subi-lo umas posiçõezinhas no ranking, hehe.

    • Rodrigo,
      Obrigado pelo comentário e acho que “O Xangô de Baker Street” também acabou de entrar na minha lista de “obrar a ler” haha.
      Abraços

  • Arthur Barra

    Algm q leu o livro poderia me dizer quais as nacionalidades e etnias q aparecem no livro?