[Estante Mágica] O Laboratório de Arte e a Comédia Humana em Bakuman

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Embora eu não seja uma leitora contumaz de mangá, a indicação de Raphael Fernandes, editor da revista Mad e dos quadrinhos da Editora Draco, me levou a conferir a série Bakuman (1), escrita por Tsugumi Ohba e ilustrada por Takeshi Obata (a mesma dupla que criou o sucesso Death Note (2). É um relançamento, e quem for à banca hoje vai encontrar o terceiro volume, ao passo que eu aproveitei o fato de minha sobrinha ter comprado a primeira edição e já devorei todos os vinte.

Neste post, quero falar sobre as razões que me levaram a compartilhar o entusiasmo do Raphael pela série, que ele afirmou conter um verdadeiro “curso de roteiro e produção de histórias e quadrinhos”. De fato, isso foi muito interessante para mim, mas o que achei ainda mais fantástico foi a galeria de tipos humanos – daí a menção a Balzac, feita no título (3) – apresentada e desenvolvida ao longo da série. Naqueles personagens reconheci várias características minhas e também as de outros escritores e artistas gráficos que conheço, cada um com seus próprios conceitos sobre o que é a arte, seu próprio estilo de trabalho e, acima de tudo, sua forma de percorrer os caminhos que podem levar ao sucesso.

bakuman-ana-1A série, que também originou um anime exibido em três temporadas (4), gira em torno de dois protagonistas: Moritaka Mashiro, desenhista de talento e sobrinho de um falecido mangaká (artista de mangá) e seu colega, Akito Takagi, o primeiro da classe (o que no Japão quer dizer muita, mas muita coisa). Ainda no Ensino Médio, os dois se unem sob o pseudônimo “Muto Ashirogi” para produzir um mangá que, submetido a um dos editores da prestigiada revista Jump, acaba por ser o ponto de partida de uma longa, tumultuada e sofrida carreira. O último adjetivo vem por conta da loucura que é o trabalho dos mangakás, que precisam produzir histórias em série – em geral, publicadas semanalmente – e que, além de tudo, se veem numa competição feroz com outros artistas para ficar em primeiro lugar nas enquetes. Independentemente de várias diferenças – idade, sexo, dinheiro, qualidade de sua arte –, aquelas pessoas têm jornadas de trabalho completamente insanas, virando noites para entregar os capítulos no prazo e sem um dia sequer de descanso, isso durante anos.

Antes de prosseguir, é preciso lembrar, mais uma vez, que as diferenças culturais têm o seu peso. O papel e a posição das mulheres no Japão não são os daqui, assim como a dedicação e a fidelidade que se tem ao trabalho (não apenas no que se relaciona à arte produzida por alguém, mas no sentido de dever e compromisso mesmo). As relações sociais, amizades, namoros também são muito diferentes, de forma que o compromisso assumido entre Mashiro e sua amada, Miho Azuki, é quase incompreensível para um adolescente ocidental contemporâneo: não apenas os dois combinam que não se verão enquanto ele tenta fazer sucesso como mangaká, mas, além disso, esse sucesso é definido como algo muito específico, já que o mangá desenhado por Mashiro deve conquistar uma série na televisão e Miho deve dublar a personagem principal. Assim, cada passo dado por eles em suas carreiras, desde os 15 anos de idade, deve ter em vista esse objetivo, mesmo que para isso seja preciso sacrificar muita coisa, como lazer, amizades, ensino superior e até o sono e a saúde. Tudo, menos a honra, tão importante para eles quanto para os samurais de outras séries e outras épocas.

Falar mais sobre a história seria dar um spoiler indevido, mas creio que posso dizer que os vinte volumes se desenvolvem em torno da produção de mangás. A todo momento surge uma dica interessante para quem quer trabalhar com quadrinhos, desde as mais básicas, como as explicações sobre como funcionam um roteiro e um storyboard, até insights – vindos dos personagens ou fornecidos por seus editores – que mostram o que fazer para alavancar uma história e manter o interesse do público-alvo. Este pode variar enormemente de acordo com sexo, idade e vários outros fatores. Há mangás para todos os gostos: para meninas românticas, para outras nem tanto, para meninos menores de 10 anos, para pessoas mais velhas, para executivos, para quem gosta de motos, histórias de detetive ou até calcinhas à mostra. E existem as histórias e o tipo de desenho adequado a cada um deles, de forma que o menor desvio pode representar um sucesso a ser explorado ou um estrondoso fracasso. Quem reclama dos “rótulos” e dos enquadramentos da arte por aqui – não digo que não tenham sua razão – devia ver a loucura que é o mercado editorial japonês! 😉

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Eiji Niizuma
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Kazuya Hiramaru

Enquanto os talentosos Mashiro e Takagi tentam encontrar o estilo no qual realmente irão se destacar, convivem com todo tipo de mangaká. Isso leva o leitor, principalmente o que também é artista, a perceber as diferentes maneiras como cada um encara o trabalho e reage aos desafios. Há o que se cerca de livros e faz pesquisa de campo, o recluso deprimido, o que se recusa a ver a arte como entretenimento, o que só faz o que gosta, o que só faz o que vende, o que não sabe escrever roteiro e o que não sabe desenhar. Há o ajudante que quer virar mangaká, o que se contenta em ser assistente profissional e o que vive prometendo criar um storyboard próprio, mas nunca cumpre. Há ainda dois gênios da profissão: Eiji Niizuma, uma espécie de paranormal de moletom, que dança, faz caretas e sons como shuuuu-pin! enquanto trabalha (absurdamente rápido e bem); e Kazuya Hiramaru, que largou o emprego para fazer mangá, pretende ganhar dinheiro logo para nunca mais ter que trabalhar na vida. O próprio personagem de Hiramaru, um homem-lontra que usa terno e gravata, é a expressão de sua revolta contra a competição e o massacre do mercado de trabalho, do qual, no entanto, o autor não consegue escapar. Pelo contrário, ele passa a trabalhar no ritmo doido dos mangakás, sempre à base da chantagem emocional e da pressão exercida por seu editor, Yoshida, um dos melhores personagens da série.

Por falar nisso, os editores são um caso à parte, pois se envolvem pessoalmente com os mangakás e seu trabalho, e sua opinião tem um peso enorme para a maioria dos artistas. Eles também passam por uma grande pressão ao tomar decisões e sofrem com seus erros, alguns dos quais – pedir para forçar situações de humor, insistir em personagens que não agradam – podem arruinar séries e até a vida de seus criadores. No staff da Shueisha, empresa que edita a Jump, vemos ainda a tradição japonesa de permanecer numa empresa durante muitos anos, subindo de posição degrau a degrau e tratando como veteranos funcionários ligeiramente mais antigos. Por outro lado, mangakás mais idosos não são muito encorajados a mostrar seu trabalho – e expressões aflitas aparecem entre os protagonistas quando se apercebem de que eles também, dentro de alguns anos, estarão no grupo dos tiozões.

Com seu roteiro bem pensado, uma boa dose de humor e uma arte legal (5), a série Bakuman me manteve interessada até o vigésimo volume. O mais importante, porém, for ter-me dado muito sobre o que refletir. No meio literário, encontrei e encontro gente cuja atitude me faz lembrar aqueles personagens – e a série me ajudou a entender melhor como as coisas funcionam, como cada tipo de pessoa lida com o sucesso de outro autor ou com expectativas não atendidas. Não dá para saber ao certo quem terá sucesso, até porque isso depende dos parâmetros que você mesmo estabelece e, em geral, também de um pouco de sorte; mas é possível ter uma boa ideia de quem vai desistir ou se acomodar, de quem vai saber mudar de estratégia e – quase sempre – de quem vai se manter íntegro independentemente de quaisquer circunstâncias.

E, para meu alívio, essa reflexão também me ajudou a reafirmar meu compromisso, resumido nas palavras de um escritor ocidental: sob qualquer circunstância, o fundamental sempre será fazer boa arte (6).


 

REFERÊNCIAS

  1. Bakuman Wiki (em inglês): http://bakuman.wikia.com/wiki/Bakuman_Wiki
  2. Death Note – Wikipedia (português): http://pt.wikipedia.org/wiki/Death_Note
  3. Comédia Humana: o conjunto da obra de Honoré de Balzac, retratando a sociedade francesa no início do século XIX, em que mostra não apenas os costumes, mas as características psicológicas de uma extensa galeria de personagens. http://pt.wikipedia.org/wiki/La_com%C3%A9die_humaine
  4. Abertura da segunda temporada do anime (vídeo em japonês): https://www.youtube.com/watch?v=BnEHZ8bi5Zk
  5. Artigo sobre a metalinguagem em “Bakuman” (português: atenção: contém spoilers da série): http://www.genkidama.com.br/gyabbo/2011/12/08/a-metalinguagem-idealista-de-bakuman/
  6. Make Good Art (texto do Neil Gaiman, arte de Gavin Aung Than. Em inglês): http://zenpencils.com/comic/50-neil-gaiman-make-good-art/
  • Celly Monteiro

    Que matéria incrível, Ana! Super bem escrita e interessante. Fiquei com muita vontade de conhecer esse magá, conheço Death Note e sei que é de uma qualidade ímpar. Enquanto lia me vi em alguns perfis e reconheci outros em alguns amigos tbm, de modo que, além de divertido deve ser no mínimo encorajador e instrutivo ler esse mangá para quem trabalha no ramo das artes. Obrigada pela dica. 🙂

  • Rita Souza

    Sempre tive mt vontade de ler esse mangá e agora de pois dessa analise aprofundada fiquei ainda mais curiosa, ele traz a temática diferente da maioria q sempre tem mais ação e lutas!

  • Victor Hugo Oliveira

    Já me falaram muito desse manga, mas sempre fugi dele por não encarar Mangá como uma mídia que mereça tal nível de metalinguagem, preferindo aqueles voltados ao entretenimento mais óbvio de lutas e ou mistérios, mas estou mais um passo próximo de ler após o artigo.
    Só para constar, mais importante que recomendar Bakuman foi a citação do texto/discurso Make Good Art, mais do que nos quadrinhos e livros, foi nesse texto que Gaiman me conquistou de vez 😉

  • Walisson Pine

    Já li todo o manga, um material que nos faz refletir sobre a vida, nos da motivação para correr atras de seus sonhos, eu particularmente fiquei super torcendo pelo Mashiro e Miho, outro fato interessante é intender como funciona um departamento editorial.
    super recomendo, já convenci amigos a ler.
    Leia tb 🙂