[Estante Mágica] Athelgard: a construção de um universo fantástico

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Mapa da fantasia

10588786_10202554001079130_579818331_nFrequentemente, numa entrevista ou nos debates de que venho participando em eventos, as pessoas me perguntam de onde surgiu a inspiração para criar o universo de Athelgard, onde se passam meus livros “O Castelo das Águias”, “A Ilha dos Ossos” e “Pão e Arte”, além de novelas e contos publicados em e-book.

Minha resposta sempre começa pela única regra que considero absoluta na criação de universos fantásticos: eles não surgem do nada. Howard, Tolkien, Le Guin, Martin, Pratchett, Rowling, todos usaram referências que vão desde a Antiguidade (ou a Era Hiboriana, ou a Pré-História) à

Mapa da Terra-Média
Mapa da Terra-Média

projeção do que seria um futuro distante, mas que se torna plausível por ter sido imaginado com base naquilo que já conhecemos. Alguns escritores criam universos extremamente complexos, com uma mitologia própria, idiomas, raças e uma geografia que não encontramos na Terra; outros os fazem bem mais simples, mas isso é o que menos importa. O fundamental é que a descrição desse universo e o desenrolar das histórias dentro dele se baseiem em parâmetros que o leitor possa compreender; o universo tem de fazer sentido para o leitor. Isso porque, como sublinha o próprio Tolkien, a credibilidade de um universo fantástico é tão maior quanto mais ele se aproxima do mundo que conhecemos (1), assim como a melhor forma de tornar um personagem interessante é emprestar-lhe características com as quais o leitor possa se identificar.

Seguindo esse raciocínio, existem hoje artigos, capítulos de livro e até obras inteiras dedicadas à construção de universos fantásticos, o

Mapa da fantasia
Mapa da fantasia

chamado “worldbuilding” (2). Existem, também, as listas e dicas do que não se deve fazer, como esta disponível online (3). Os conselhos são próximos do senso comum – não criar uma religião ou sociedade monolítica, não pensar na infraestrutura básica (por exemplo, o que as pessoas comem e como elas se vestem) ou não pensar em como uma tecnologia poderosa pode afetar a vida cotidiana – e por aí se pode perceber justamente a necessidade do autor de se manter coerente, de criar verossimilhança dentro do seu universo, ainda que este possua cinco luas, tenha o tamanho de uma bola de gude ou seja povoado por seres reptilianos que andam montados em cães.

Uma das dicas que sempre ouvimos de escritores mais experientes e que passamos adiante a partir da primeira entrevista que nos solicitam (o que eu acho certíssimo; é uma coisa óbvia, mas por incrível que pareça há quem não se preocupe em fazer sentido) é que devemos pesquisar e basear os vários aspectos de nosso universo em similares existentes no mundo real. Por exemplo: se queremos criar um sistema de Magia, devemos conhecer as tradições mágicas, as teorias e os tipos de ritual que são praticados (não importa se acreditamos que funcionam ou não) para ter profundidade e coerência ao lidar com a Magia em nosso universo. Mesmo que se parta de algo tão trivial quanto agitar uma varinha, uma história mais complexa do que um conto curto exige que se tenha uma ideia do alcance daquela Magia, do efeito que ela produz, de quem pode praticá-la e assim por diante. Ser um mago, na Terra Média de Tolkien, não é o mesmo que sê-lo no contexto da série “Harry Potter” nem na minha Athelgard (4). A mesma regra vale para instituições, religiões e tudo o mais. O interessante é que, ainda que as referências básicas sejam muitas vezes as mesmas, o resultado varia muito de acordo com a imaginação e a intenção do autor. Por exemplo, no que se refere a raças, Rowling, Tolkien e eu pesquisamos as tradições nórdicas e celtas para criar nossos elfos; mas quem há de negar que uns são bem diferentes dos outros?

Legolas exemplo de elfo do universo de Tolkien
Legolas exemplo de elfo do universo de Tolkien

Dentro dessa ideia de criar verossimilhança, passo a falar um pouco mais detalhadamente de Athelgard. Esse universo não foi planejado como um todo antes de eu começar a escrever; pelo contrário, foi construído a partir das várias cidades, florestas, territórios em que se passavam minhas histórias. Em outras palavras, trata-se de uma ilha-continente que comporta vários cenários criados em textos isolados. Como eu sempre gostei de fazer meus personagens se encontrarem, comecei a escrever crossovers, até que um dia percebi que os universos de onde eles provinham eram todos microcosmos que podiam perfeitamente fazer parte de um todo maior. Eu só precisava tornar esse universo coerente. Assim, aos poucos, foram-se desenhando a mitologia, a ideia da origem comum, algumas respostas para quem se perguntasse como e por que aqueles povos chegaram até ali, criaram aquelas culturas e estabeleceram aquele tipo de convivência uns com os outros.

Dobby exemplo de elfo no universo de Rowling
Dobby exemplo de elfo no universo de Rowling

Para criar tudo isso – ainda dentro daquela ideia de que um universo não surge do nada -, usei uma bagagem que se acumulou ao longo dos anos com leituras de História, Antropologia, Mitologia, além de viagens e experiências pessoais. No início eu iria basear o universo no mito de Atlântida, tanto que existem um mar e uma ilha interior, mas depois mudei de ideia e passei a usar principalmente os mitos nórdicos, com os quais sempre me identifiquei. Testei uma série de possibilidades e acabei ficando com um universo em que os humanos se misturam a descendentes de elfos e vanires, os quais partiram de seus mundos antes do Ragna-Rok, a batalha final da Mitologia nórdica. Isso explica, a meu ver, o porquê dos elfos de Athelgard serem tão parecidos com humanos: é que eles não são elfos de verdade, mas sim seus descendentes misturados a vanires e a povos humanos que já viviam naquela ilha. Eles se desenvolveram de acordo com o clima que encontraram e demais circunstâncias, e para falar das diferentes sociedades usei o background de várias culturas – os nórdicos mesmo, os gregos, os árabes -, porém em linhas bem soltas.

Quando escrevi as primeiras histórias em Athelgard, nada disso estava definido. Não havia um mapa, não havia coisa alguma. As histórias eram sobre uma tribo élfica, o Clã da Raposa Branca, que morava nos Penhascos Gelados, a região mais ao norte da ilha – para escrever sobre eles eu pesquisei muita coisa sobre Pré-História e sobre povos como os Inuit. Depois comecei a criar uma história também no norte, mas numa cidade de humanos chamada Siberlint. Foi aí que surgiu a primeira referência a Bryke, que em princípio seria uma colônia de elfos, vindos de cidades mais avançadas no sul. O primeiro desenho do mapa, que eu fiz em meados da década de 1990, não tinha nada no sul além dessas Onze Cidades. Depois apareceram a Floresta do Sol e Vrindavahn, onde se desenrola a trama de “O Castelo das Águias”. Tudo o mais foi sendo acrescentado à medida que eu precisava de localidades, rios, montanhas, florestas e tudo o mais. Ainda assim, dá para ver que o território nortenho é bem mais detalhado que o meridional.

Em alguns casos, os personagens vieram “transferidos” de histórias ainda mais antigas. O melhor exemplo disso é o Cyprien de Pwilrie,

Elfa do universo de Athelgard da Ana Lúcia Merege. Arte de Angela Takagui
Elfa do universo de da Ana Lúcia Merege. Arte de Angela Takagui

protagonista do livro “Pão e Arte” e do e-book “O Jogo do Equilíbrio”. Ele surgiu como um trovador provençal, descendente de árabes, numa tentativa de escrever um romance histórico, que fracassou estrondosamente. Um dos problemas (fora a péssima escrita) era que as coisas que eu queria que o personagem fizesse ficariam anacrônicas na Europa do século XII. No entanto, se ele estivesse num universo fantástico de características medievais, porém não no cenário medieval “real”, não haveria problema algum – e assim eu tomei a decisão de transferi-lo para Athelgard, onde ele se encaixou muito bem.

A primeira ideia da Escola de Artes Mágicas, do Castelo das Águias e de Vrindavahn – cujo nome é adaptado de “Vrindavan”, uma cidade da Índia onde se diz que o deus Krishna passou a infância -, surgiu justamente quando eu escrevia histórias do Cyprien, pois ele viaja para o sul com o grupo de marioneteiros e lá é convidado pelos fundadores da Escola, Theoddor e Camdell, para ficar como um de seus mestres. Como ele não aceitou, esses personagens ficaram em suspenso até 2002, 2003, por aí, quando eu comecei a rabiscar uns textos sobre uma contadora de histórias chamada Anna. Ela passou por algumas aventuras no norte, as quais talvez eu retome no futuro, mas sua história contava que tinha vindo de Bryke, uma cidade já existente no norte de Athelgard, e que, depois de ter começado a viajar, acabou se apaixonando por um mago. De repente, já em 2005, me deu um estalo: que tal se esse cara estivesse na Escola de Magia que eu deixei lá atrás? Foi a partir daí que toda a história se desenrolou e Anna de Bryke virou a protagonista de “O Castelo das Águias”, “A Ilha dos Ossos” e do livro que estou escrevendo para leitores um pouco mais novos.

Hoje, muito tempo depois e com o mapa publicado, boa parte dos personagens já está em seu lugar. Já é possível ter uma cronologia mais ou menos segura dentro do arco de histórias do Castelo das Águias e também das histórias do Cyprien, que inclusive vão se cruzar mais tarde. E apesar de isso às vezes ser inevitável – a novela “Saga de Thorold”, por exemplo, se passa nas Terras Geladas, que não estão no mapa -, eu tento não citar muito lugares que não são mencionados lá, ou pelo menos anexar a eles referências possam ajudar o leitor, como “Aldeia X, próxima a Siberlint”. Por outro lado, considero positivo o fato de o universo não estar completamente mapeado, pois isso significa que ele ainda se encontra em expansão – e, sendo assim, muitas histórias podem surgir quando e onde menos se espera.

De tudo isso, o mais importante para mim é ter a convicção – e o testemunho dos leitores em suas resenhas, que confirma isso – de que, com todas as falhas que eu possa ter como escritora, Athelgard é um universo complexo, interessante, em que os personagens evoluem e as coisas se passam de maneira verossímil. Ou seja, as histórias são coerentes, embora de acordo com as regras daquele universo e não o com as do nosso. Acho que esse é um ponto fundamental para escrever boa Literatura Fantástica.


 

Referências:

  1. http://ateaultimapagina.blogspot.com.br/2013/02/olhar-divergente-cartografia-fantastica.html – artigo de A. Z. Cordenonsi sobre a cartografia de mundos fantásticos
  2. http://en.wikipedia.org/wiki/Worldbuilding – artigo da Wikipedia sobre worldbuilding (em inglês)
  3. http://io9.com/7-deadly-sins-of-worldbuilding-998817537 – artigo “Os sete pecados mortais do worldbuilding (em inglês).
  4. http://castelodasaguias.blogspot.com.br/2011/03/magia-em-athelgard-1.html e http://castelodasaguias.blogspot.com.br/2011/03/magia-em-athelgard-2.html – artigos do blog da série Castelo das Águias sobre a Magia no universo de Athelgard
  • Lucas Ferraz

    Tenho bastante curiosidade com o universo da Ana Lucia Merege, ainda não li nada dela, salvo um conto que não se passa nesse universo, mas que achei muito bom. Vou procurar isso.

  • Gabriel Mendes

    Muitas vezes precisamos que alguém nos diga o óbvio para percebê-lo.

  • Luiz Teodosio

    Excelente texto. Como escritor de literatura fantástica, sei das dificuldades em criar esses cenários; porém, faço o tipo que prefere atuar em um microcosmo e desenvolver ali mesmo os conflitos. Caso a história peça um cenário mais abrangente, começo por um único lugar e expando-o gradualmente no decurso da trama. Por isso que às vezes não faço o uso de mapas; pois prefiro me dedicar individualmente em apenas algumas regiões.

  • Eriton

    Eu escrevo quando dá, mas tudo sobre o qual escrevii até agora não necessitou de um mapa, porque eu sempre fiz histórias que se passassem em nosso mapa :p apesar disso sei o quanto é dificil fazer um mapa e gostei muito das dicas aqui apresentadas

  • O artigo é excelente! Faz tempo que estou a procura de artigos sobre worldbunding, e esse foi bastante esclarecedor.