[Conto] Shadow

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Por Isabel Muniz

Amete está sentada no sofá há mais de duas horas, a televisão assobiando algo e ela olhando fixamente para alguma rachadura ou risco na parede branca. Ela chegara a pensar se havia alguma motivação que a mantivesse respirando e se, um carro a atropelasse, alguém sentiria sua falta. De repente, o inquilino poderia sentir falta do dinheiro que sempre caía em sua conta e, naquele mês que não viesse a pecúnia, iria cogitar que algo pudesse acontecido a Amete, ou pelo menos iria verificar se estava tudo bem. Por algum motivo, Amete levanta, pega a chave e sai para a rua. O sol está aberto, mas seus olhos são cinzentos.

Andando a esmo, como era de praxe, ela passa por uma jovem em torno da idade dela, pele bronzeada, cabelos negros como os dela, mas um olhar totalmente diferente. É este brilho que emanava dela, Ela, que chamou a atenção de Amete. Resolve, por instinto, observá-la. O jeito de caminhar, os homens que a encaram. Algo nEla, lembrava Amete há alguns anos. Hoje não mais.

Uma cena a tira de seu torpor: um homem se encontra com Ela. Ele a toca na cintura, na altura da lombar, levemente, guiando-a para um café que parecia ser comum aos dois. Sentam-se numa mesa que fica no perímetro da loja, separando-a da rua por meio de um vidro. Amete consegue vê-los da rua. Cada toque, as mãos unidas, o olhar fixo um no outro, os sorrisos em sintonia.

Por que ela não tinha aquilo? O que ela fez para não merecer? Ou o que Ela tinha feito para merecer enquanto Amete ficava naquele vácuo?

Amete se aproxima do vidro sem ser notada… Olha o seu reflexo fundido com a vista dEla – como se as duas se fundissem. Amete deseja Ela. No sentido mais puro possível. Um desejo de posse. Afasta-se, escondendo-se entre a banca de revistas e os táxis estacionados, quando vê o companheiro dEla dando-lhe um suave beijo em seus lábios.

Ele sai da cafeteria e passa por Amete. Enquanto coloca seu gorro e se protege, eles cruzam o olhar. Amete mergulha nos olhos dele, mas ele não consegue vê-la. Amete tem um breve impulso de ir atrás dele, ver onde ele mora ou qualquer outra coisa. Mas, enquanto cogitava esta possibilidade, percebe que Ela sai do café em direção ao metrô.

Amete acompanha Ela mantendo-se alguns metros de modo que não seja vista, mas permitindo-se enxergar o modo como Ela caminhava, as lojas que ela olhava, que tipo estilo se vestia, o que a chamava atenção – , uma biblioteca pequena, a floricultura da esquina – que cheiro Ela teria?

Amete ia próximo, à sombra dEla, sem ser percebida. Como uma sombra, ela vai grudada, sem ser dona de si, mas vinculada ao ser que está presa.

Ela entra em um edifício de apartamentos residenciais na esquina da Rua Vileneve com a Avenida Vitor Arruda, no Bairro Castanheiras. Amete se separa dEla. Para. Sem rumo. Depois de conseguir raciocinar que Ela morava ali, passa a observar o local. Era um bom lugar para se viver, quem sabe ser feliz. Os olhos lacrimejam e ela retoma para sua casa.

No dia seguinte, 6h, já estava no mesmo local, no Castanheiras. Quando Ela sai, Amete decide encostar nEla, como um breve esbarrão. Queria sentir a pele dEla e, rapidamente, seu cheiro pela manhã. Eram macia e doce, como imaginara. Aquele toque tinha aproximado elas. Mais adiante, quem sabe…

Amete decide não ficar muito perto, acompanhá-la, sem ser notada. Isso poderia assustá-la.

Os dias se passaram e Amete, aos poucos, conhecia mais Ela: já sabia onde morava, onde trabalhava, qual era sua rotina. Amete se encontrava num momento de expectativa, de excitação, de transição, de curiosidade, de abertura – tudo por causa dEla. E adormece com esta sensação nova.

Amete está caminhando de noite, em um local que não conhece. A noite está chuvosa e quente. Está sem guarda-chuva e os pingos molham sua roupa, colando sua camiseta ao corpo e deixando seus seios expostos à transparência. Vai andando a passos ligeiros, tentando encontrar o caminho de volta. Amete sente que alguém, ou algo, está caçando ela como se estivesse prestes a alcançá-la, mas não consegue ver nada. As pessoas olham para ela – quase nua – com um olhar de quem aponta, mas não enxerga. Acuada e cansada, ela entra num beco sem saída. O coração dispara e quando vê alguma coisa ou alguém se aproximar (como se fossem abutres), uma luz negra aproxima mais rapidamente e a engloba, levando-a longe dali. Ela apenas sente o cheiro e a sensação macia idêntica àquela quando esbarrou nEla.

Amete acorda suada, os olhos arregalados. Levanta decidida a encontrar com Ela. Algo precisava ser explicado e compartilhado. Já havia a intimidade necessária. Coloca o cachecol, enrolando-o fortemente em seu pescoço e sai para a rua. O corpo segue o caminho, sem consultar a mente. Amete sente, sabe, que Ela é o que precisa. Ela a quer – quer sua vida, seus sentidos, sua atenção. Amete merece o que Ela vive, até mais que Ela mesma. Ela teve alguns erros, alguns pérfidos, mas Amete a perdoara à sua maneira. Apesar de não trocarem diálogo, Amete a conhecia como ninguém. E fora atrás disso.

Amete aguarda no ponto onde Ela sempre pega o metrô para sair trabalhar. Aos prantos, aborda Ela, tenta abraçá-la, perguntando por que ela deixava as pessoas tomarem conta dela, se ela era forte e independente. Por que Ela deixava o namorado decidir seu destino, em troca de sexo? Ela tinha tudo, mas estava estragando. Amete estava ali para ajudá-la. Ela tinha que entender.

Ela se apavora com a situação e tenta se afastar de Amete. O metrô chega e Ela consegue se desvencilhar e entrar, mas, logo em seguida, Amete a envolve com o cachecol tentando trazê-la para si, com movimentos calculados. Mas a porta fecha e Ela empurra, alguns segundos antes, Amete para fora.

O cachecol prende na porta e Amete é arrastada pelos trilhos, vários minutos, até o motorista ser avisado do acidente e para o metrô. Do lado de dentro está Ela segurando a ponta, presa na porta, do cachecol de Amete, e a outra ponta está enrolada no pescoço desta, com os olhos abertos brilhantes como nunca, e um sorriso leve, satisfeito no rosto ensanguentado e já sem vida. Amete conseguira. Tomou a vida dEla.


Texto: Isabel Muniz Corradini
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