[Conto] Encontrando-se

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Por Marcos Martins

Quando vaguei perdido pelo inferno pude observa tudo o que se passava naquele lugar de tormento e dor. Pude ouvir lamentações gritantes, observar dores constantes e olhos pesarosos sem esperança de quem lá habitava por séculos.

O passar do tempo não existem naquele lugar, apenas arrependimentos sufocados pelos gritos dos culpados que de tão massacrados, mutilados e humilhados esqueciam o que fizeram, pois a dor sufocava o raciocínio.

Ouvi gritarem por meu nome, procurei e procurei e procurei, não achei quem me chamava, mas a voz parecia ser a de meu pai. Tive medo. Tive medo de ser ele a me chamar e não poder acha-lo ou acha-lo naquele lugar frio. Sim, o inferno é frio, não tem fogo eterno, apenas frio e pessoas se debatendo em noites intermináveis. Algumas pessoas congelam e são quebradas no inferno, iguais a espelhos velhos que não geram mais reflexos perfeitos.

No inferno existem salões de festas, são milhares espalhados por todo o lugar, para que os anjos caídos possam se banquetear com nossas almas, pobres e miseráveis. Os tetos dos salões são pintados com temáticas celestiais, para que as almas que lá são devoradas possam observar o que nunca poderão tocar, onde nunca poderão entrar. Fui a todos os salões, pude observar tudo, fiquei horrorizado com o que via; os anjos decaídos não poupavam ninguém, com exceção de mim que, não sei o porquê, não conseguiam enxergar.

Ao circular por aqueles lugares insanos ia deixando minha sanidade cair em pequenos pedaços em formato de bifes, que logo rolavam para debaixo da mesa onde cães rabugentos lutavam para devora-los – deliciavam-se com minha sanidade.

O que mais me chocou foi descobrir que no inferno também moravam crianças, mais tarde soube que eram crianças com almas seculares que ali estavam e que, mesmo tendo uma segunda chance, não mudaram em nada suas essências no tempo em que passaram na terra, muito pelo contrário, ficaram mais perversas. E a cada ano crianças mais novas chegavam ao inferno, pois a inocência estava morrendo cada vez mais sendo.

Um senhor idoso, de semblante simpático, se aproximou de mim, sorriu e quis saber o que eu fazia ali, respondi que não sabia:

– Eles nunca sabem – falou ironicamente em voz alta como se tentasse avisar a todos que eu estava ali.

– Como o senhor pode me ver, se ninguém mais pode? – perguntei intrigado.

– Sou o porteiro, posso ver tudo e a todos – respondeu surpreso com minha permanência ali sem ser visto ou devorado por ninguém.

O porteiro não havia me visto entrar, por isso, estava tentando montar o quebra-cabeça de minha estadia e permanência sem ser torturado ou dilacerado no inferno.

– O que você quer garoto? – me perguntou.

– Sair daqui.

– Aqui só se entra ninguém jamais saiu. Aceite sua pena eterna.

– Mas como posso cumprir uma pena eterna se nem sei qual foi meu crime? – perguntei para tentar argumentar com ele sobre minha possível saída daquele lugar.

– Não sei, pergunte ao Kafka.

– O escritor? – perguntei.

– Vá se acostumando com o frio, garoto – falou sem me responder e foi saindo de perto de mim.

– Para aonde o senhor vai?

Ele era o único que podia me ver, então pensei em ficar perto dele para ter com quem conversar, já que eu poderia ficar ali para sempre.

O porteiro me olhou com desconfiança, mas não impediu que o acompanhasse.

– Tenho que voltar para meu ofício – respondeu.

– Posso ir com o senhor? – quis uma conformação.

O chaveiro coçou o queixo, passou a mão direita nos cabelos ralos e grisalhos e acenou com os olhos que eu poderia ir com ele. Aquele gesto me fez um bem que quase o abracei.

Andamos por quase duas horas, eu acho, mas nunca vou saber por que não tinha como contar o tempo – não se tem noção de tempo, espaço ou feriados no inferno.

– Não se preocupe garoto, aqui você não tem que se apegar a nada – falou o porteiro ao perceber que eu estava um pouco impaciente com nossa caminhada.

Fomos caminhando, sempre com o sol frio a nossas costas, passamos por lugares totalmente desertos, outros com lagos de um vermelho escuro e tenebroso – peixes mortos boiavam nas águas. Fiquei espantado com alguns rostos conhecidos que cruzavam nosso caminho, todos cumprimentando o porteiro, mas não a mim, pois não continuavam sem mim ver.

Todos os filósofos, gregos ou não, estavam no inferno, na verdade todos os pensadores, não importando o século em que viveram, estavam no inferno – eram os que sentiam mais frio. Meus escritores preferidos também estavam no inferno, na verdade todos os escritores, poetas, médicos, políticos honestos ou não, religiosos, ateus, homens e mulheres comuns, homens e mulheres extraordinários, atores, atrizes, esportistas, donos de ONG’s, banqueiros, contadores, enfim todos juntos e misturados viviam aos montes no inferno.

Fiquei surpreso com a quantidade de pessoas naquele lugar de tormento e perguntei ao porteiro se ele sabia se, fora Deus e sua santa família, vivia mais alguém no céu. O chaveiro me olhou e sorrio mostrando seus dentes branquinhos, branquinhos; dava para ver que eram bem cuidados, não tinham uma única carie.

– Um piadista – continuou a falar enquanto andava – temos muitos piadista no inferno, mas quanto mais, melhor… Ninguém entra no céu, garoto – respondeu de forma seca.

Fiquei espantado com a revelação, não podia ser verdade, ninguém conseguir entra no paraíso?

– O senhor só pode estar brincando – falei totalmente incrédulo.

– Nem os ladrões que estavam com Jesus na cruz entraram, quer dizer, entraram e foram expulsos – me respondeu o velho porteiro com um sorriso irônico.

– Então quer dizer que Deus vive só? – perguntei.

– É o Ser mais solitário de todo o universo, garoto, nem os anjos vivem lá, só vão quando é dia de faxina – a cada mil anos.

– Meu Deus, eu não posso acreditar – falei espantando e horrorizado.

– Acredite garoto, pois nenhuma criatura, jamais, foi digna de entrar no céu.

O chaveiro parou, sentou-se num tronco velho e continuou a falar – Todas essas rezas, orações, penitências, promessas que fazem, bondade que acham que fazem, absolutamente nada faz com que os homens adentrem as portas do paraíso, que por sinal estão precisando de uma pintura.

– E a santa família, onde vivem? – perguntei, pois queria saber de Jesus, sua mãe e seus discípulos.

– Ninguém sabe, depois da briga entre o Pai e o Filho, ninguém sabe aonde Ele, sua mãe e os outros foram.

– Então quer dizer que os discípulos não entraram no paraíso?

– Ficaram esperando Jesus do lado de fora, rezando, mas adormeceram – como é do costume deles – e só o viram quando o seu mestre retornou chorando. Quem pode confiar no homem? – falou, sorriu com escárnio e levantou-se.

Voltamos a andar, comecei a avistar portões enormes, tão altos que pereciam tocar as estrelas e eram tão extensos que se perdiam no firmamento. No lado de foram uma fila interminável se formava.

– O que é aquilo, porteiro? – perguntei apontando para os portões.

– É onde eu trabalho – falou me olhado e continuou a me explicar – São os portões que tenho que tomar conta para que todos possam, ordeiramente, entrar.

Fomos aproximando-nos e os portões ficando cada vez maiores. Quanto mais me aproximava, mais pessoas esperando para entrar, eu via.

O porteiro me falou que se estivéssemos na terra nossa caminhada teria sido o equivalente há sete dias, por isso é que tinha tanta gente esperando nos portões.

– Parece até a fila do SUS – falei.

O porteiro riu bem alto, chegou a gargalhar e a me assustar com seu riso diabólico.

– A do SUS é bem pior – disse e segui para por em dia seu ofício.

Chegamos na entrada, o porteiro puxou uma chave, toda feita de prata, colocou na fechadura – um silêncio se fez – rodou a chave três vezes, para destravar a porta, e deu as boas vindas aos recém-chegados.

À medida que os pobres diabos iam entrando, uma chave era entregue em suas mãos. “Essa é a chave da caixa que guarda todos os seus pecados, ache a caixa e estará livre daqui”, dizia o porteiro, mas não havia caixa alguma.

Passei séculos com o porteiro, aprendi tudo o que ele sabia que com paciência me dava todas as informações sobre seu trabalho, tirava todas minhas dúvidas – foi um bom professor.

Certo dia estava a vagar por um dos desertos frios do inferno, quando o porteiro veio até me, tocou em meu ombro e falou:

 – Garoto, estou cansado, já se passaram mais de mil anos, é preciso passar meu ofício para alguém e agora sei que é você quem tem que me substituir.

– Eu?

– Sim. – continuo – Não ache que nada é de graça, lhe ensinei tudo o que você deveria saber, agora é sua vez de tomar meu lugar.

– E para aonde você vai?

– Para um dos salões, para ser devorado.

– Mais, mais, eu vou ficar aqui sozinho? – falei em pânico.

Ele olhou para mim, senti um pouco de pena e misericórdia em seu olhar. – Você sempre esteve sozinho aqui – falou de forma serena.

– Como vou fazer isso porteiro, se nem conheço o diabo, se nunca pude ver ou falar com Deus para tentar entender o que faço aqui?

O velho homem tirou de seu bolso esquerdo a chave dos portões do inferno e do bolso direito um espelho e me entregou.

– Para que o espelho? – perguntei.

– Sempre que você quiser falar com Deus ou com o diabo, olhe-se no espelho e os verá.

 

  • João Lucas

    Seu conto deveria ter sido melhor revisado, mas eu gostei dele.