[Manifesto] Qual a nossa verdadeira casa?

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Por Andrey Lehnemann

Na próxima terça-feira, eu não irei para a minha casa. Abandonarei a residência que fez parte da minha história por 17 anos para seguir adiante algumas quadras. O novo local que me hospeda é um apartamento situado na capital catarinense: bairro Abraão, João Meirelles, bloco 2, térreo. Deixarei para trás alguns cartazes de filmes, alguns livros, umas capas de DVDs vazias, fitas de vídeo e minhas memórias. A primeira conversa com meus pais sobre drogas e sexo reside no lugar onde a mesa foi retirada; minha primeira queda mais dura, no asfalto que levava até a entrada; a primeira festa que organizei na área frente a casa; o telhado que acumulava uma espécie de cascata com a água da chuva e me banhava depois da piscina também está lá, ainda com o mesmo precário acabamento. Sem contar a primeira garota que se apaixonou por mim ou o quartinho do corredor, que contém tantas lembranças: visitas, transas e rompimentos. Na sala que hospedará, na atual empreitada, sabe-se lá o que, ainda se escuta os acordes de um violão emocionado, as vozes desafinadas de um grupo épico e a percussão de um ou outro rapaz que nunca soube o que estava fazendo, apenas queria divertir o restante. Uma sala que possui a essência do afeto.

O velho casarão do bairro Coqueiros, 218, termina uma etapa nesta segunda-feira. Uma etapa que virou história. A história de um garotinho saído de porto-alegre, de dois pais adotivos e das pessoas que foram recebidas durante este percurso. Um local que nunca esteve vazio – não no sentido metafórico, ao menos. É uma das últimas casas da região, uma das mais antigas, mas a primeira para uma família forasteira.

Casas podem ser definidas sentimentalmente ou o valor econômico tem que estar ligado a questão?

Eu, quando morava em Porto Alegre, por exemplo, nunca vi a casa de minha mãe como a minha casa. Era da minha mãe. Estava hospedado nela por um limite de tempo. Ambas eram alugadas, mas apenas uma era minha. Como diagnosticar esse valor sentimental? Pouco soube da política que envolvia a propriedade durante todo o meu período de crescimento. Aliás, o mais próximo que me aproximei de pensar sobre isso foi quando refleti a maneira que iria pagar o aluguel num falecimento futuro de meus pais.

Existe em nós um amor tão evidente que é capaz de fazer com que a mais intocável sensação vire algo orgânico. Transforme algo que não seja seu numa posse. O vazio, o abandono, quando você se vê obrigado a sair do seu lar é muito mais que a perda de uma moradia; é como se uma parte sua deixasse de existir. Fica ali, silenciosa, enraizada nas paredes desgastadas, nos tapetes antigos, nos cupins, na maresia que afeta seus aparelhos eletrônicos. Claro que outras memórias poderão ser feitas na nova moradia. Algumas melhores, outras piores. Mas a minha casa, a verdadeira, não faz mais parte do meu rumo e da minha rotina. As outras serão apenas uma moradia em que me hospedarei por um limite de tempo. Até, quem sabe, encontrar um novo lugar que possa chamar de meu. Como isso pode acontecer? Não sei. Mas espero que, qual seja a imobiliária, inquilinos ou o novo empreendimento que transforme o velho casarão de Coqueiros, não se assuste ao ouvir na meia-noite de um sábado as vozes desafinadas de dezenas de pessoas junto a uma percussão ensurdecedora. Serão apenas as minhas memórias.

  • Diego Cavalcanti

    Olá Andrey, bom dia!

    Muito nostálgico seu texto cara. Moro numa casa há 17 anos da minha vida, vim para aqui em Paulista-PE quando tinha apenas 6 anos de idade, coincidência com a sua história? Talvez não, não estou me mudando e não sei como seria se isso acontecesse. Já é bastante difícil abandonar a família pouco a pouco, digo isso porque quando vim de Casa Caiada em Olinda-PE, moravam dez pessoas comigo, parece ser um número quase insuportável de pessoas não? Mas para mim isso fez parte de toda minha infância e hoje com apenas quatro pessoas já não me sinto tão acolhido, sei lá, não é a mesma coisa. Várias propostas já surgiram para me mudar e eu luto para que isso não aconteça, moro com meus avós e são eles que tomam as decisões e por isso preciso sempre influência-los a não me tirar desse que eu possa chamar de Lar. A rua, a casa, o lugar, as pessoas isso me traz um sentimento de pertencimento sabe? Te desejo sorte na sua aventura.

    • Andrey Lehnemann

      Então, Diego. Primeiramente, eu fico comovido pelo seu comentário e sua associação com minha história. Procurei escrevê-la da forma mais honesta possível. Compreendo completamente sua associação, eu morava com meus pais adotivos, que me acolheram em 98 aqui em Florianópolis. Sou gaúcho de Porto Alegre. Minha família ficou lá, mas de alguma forma construí uma aqui. Não acho que dez pessoas soe tão insuportável, pois ninguém explica nossa própria forma de sentir, não é mesmo? Mas mudança é realmente algo difícil. Fiquei pensando nisso quando as últimas coisas saíam da minha casa. O processo é lento, aos poucos, e bem lógico. Porque chegou um determinado momento que olhei para a sala e só via algo vazio, uma coluna no meio daquela área, foi ali que percebi que aquele não era meu lar. As coisas que saem lentamente simbolizam uma parte de você que também está saindo daquele lugar. E é de alguma forma um impulsador para tomarmos atitudes, justamente como essa citada por você (propostas de estudo ou trabalho para sair daqui), que antes não tomaríamos. É possível pensar em procurar novos rumos, pois o meu normal não é mais meu. Enfim… Fico feliz com seu comentário e peço desculpas por ter sido prolixo na resposta. Risos.

      Grande abraço,

      Andrey.