[Conto] O valor da música

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valor da musicapor Wesley Nunes

O ser humano e o seu contato com a arte. Já ouço um saudosista “antigamente se fazia arte” Muitos podem dizer que a arte é algo inatingível, elitizado e de acesso restrito. Outros insistem que a arte é para poucos, que é necessário ter um repertorio cultural e um amplo conhecimento para desfrutar de todo o seu esplendor.

Como criador deste texto vou dar a minha opinião.Não e todo mundo que já visitou o Louvre em paris , já assistiu a um filme de Woody Allen, que já leu alguma poesia de Carlos Drummond de Andrade ou que folheou alguma HQ de Alan Moore.

Me apego a uma arte que parece meio esquecida , mas que todos tem acesso , desde o mais humilde morador de uma periferia, ao mais arrogante dono de uma cobertura. De que arte que estou falando? Uma que muitos dizem que não conseguem viver sem , que movimenta milhões em dinheiro , que daqui a um tempo estará presente até em lavadoras, que é ramificada em centenas de estilos diferente e a que mais mudou no decorrer da historia.

É claro que estou falando da música. Isso mesmo, esse sons feitos com instrumentos a qual são chamados de notas, quase sempre acompanhado de uma voz é uma arte. Já tentei convencer um funkeiro disso , mas isso não vem ao caso.

Em um dia qualquer Gabriela saia com pressa de sua casa para mais um dia do que ela chama de “Ensino Médio – Os melhores e piores anos da minha vida”. Depois de se olhar pela trigésima vez no espelho e de recusar o café da manha devido a um suposto regime. Ela pega seus dois celulares, um para fazer ligação e outro para se exibir e navegar na internet. Como estava lotado de fotos e vídeos procura pelo seu MP3 player, ou como ela gosta de dizer “não é um MP3 player é um Ipod”. Só falta morrer com a ideia de que seus amigos descubram que sua mãe o ganhou em uma rifa.

Logo o achou, antes de escolher a primeira música ouviu o grito da sua mãe:

– Está indo para a escola e já ia esquecendo a mochila! Você não tem jeito mesmo.

– Você viu onde está?

– Você não sabe cadê a sua mochila? Vai chegar atrasada na escola. Só Deus na minha vida.

– Me ajuda mãe! – Disse Gabriela enquanto revirava toda a sala.

– Você já olhou no seu quarto?

– Já achei. Obrigado mãe.

Enquanto ouvia os resmungos da sua mãe deu mais uma olhadinha no espelho. Pegou a mochila cheia de bottons, tudo da mesma banda , que seguia bem o estilo “não canto nada, minha música é ruim , mas sou gatinho”.

Tirou o Ipod do bolso e prendeu na alça da bolsa. Foi correndo até o portão sem dizer tchau, mesmo assim não conseguiu evitar uma nova bronca da mãe:

– Esse tocador de música na alça da sua bolsa é um convite para ladrão.

Gabriela não se importava, ali na alça da bolsa ficava muito mais estiloso e todos poderiam ver.

Andava depressa e procurava por uma música:

– Não gosto, já cansei , essa é do mês passado e da aonde saiu está outra.

Colocou no modo aleatório, passado duas musicas o seu ônibus chegou. Ficou feliz por encontrar um lugar vago. Colocou a mochila em seu colo e sentiu um vibrar no seu bolso, era sua amiga Vanessa no Whatsapp:

– Falou com aquele gato ontem?

– Que nada, ele nem entrou.

– Que azar.

– Nem me fala amiga. Ficou um nerd mauricinho me enchendo o saco a noite toda.

– Como assim?

– Ele é todo metido a músico, ficou falando de umas músicas antigas chatas.

– Ninguém merece Gabi.

– Baixei a discografia inteira de uma banda que ele tinha falado, falei que tinha gostado de uns álbuns.

– Nossa Gabi que gentil , acho que você está afim kkkkkkkkkk.

– Acorda Van , só fiz isso porque fiquei com pena. E o trouxa ficou mó feliz.

Olhou para ver aonde estava, tomou um susto, enviou mais uma mensagem:

– Amiga tenho que descer na escola a gente conversa.
Saiu as pressas, esbarrou em duas pessoas e conseguiu descer no seu ponto.

Andando pela rua percebeu que a música tinha parado , olhou no pequeno visor “formato não suportado” e disse para si mesma:

– Isso que eu ganho por ficar baixando música velha.

Irritada tirou o fone do Ipod e conectou em seu celular. Lembrou que tinha um amigo maluco que sempre posta vídeos engraçados no Facebook. Não demorou e já tinha achado um que tinha chamado a sua atenção. Reclamou do seu plano de internet até o vídeo carregar, andava na calçada segurando o celular com as duas mãos , em meio a gargalhadas nem observava o caminho.

Não viu um homem apressado vindo em sua direção , quando se deu conta havia sofrido um enorme encontrão e foi direto ao chão.

– Presta atenção retardada.

Disse desculpa bem baixinho pegou o celular do chão, viu que o outro ainda estava no bolso e foi assustada para escola.

Havia algo que Gabriela só iria se dar conta na hora do intervalo. De que ela tinha perdido o seu Ipod e só se importou quando ouviu uma bela bronca de sua mãe.

Mateus era como muitos moleques de rua. Descalço, cabelo desgrenhado, todo imundo , camisa de vereador toda furada um pouco acima do joelho, shorts todo manchado , unhas pretas de sujeira e canela cinza. Do seus oitos anos de vida , três deles eram das ruas. Ao olhar muito dos garotos que são como Mateus , já se tem a pergunta pronta:

– Quem é o pai e a mãe desta criança?

Digo que todos são filhos do mesmo pai e da mesma mãe , que nunca olha por eles e que a cada dia enche o mundo com as suas crias , nada mais são que o seu próprio retrato. São filhos da cidade, dessa metrópole cansada, feia e cinza , criada de concreto e suor e sem um pingo de amor e compaixão.

Mateus andava sozinho, já tinha aprendido que quando andava em grupo seria sempre visto como um trombadinha. Cansado de procurar comida no lixo tinha decidido pedir esmolas, sabia de cor os locais que conseguia algum dinheiro e outros que lhe rendiam uns bons tapas de uns coxinhas.

Foi para a porta de uma escola . Uma cara de choro para aquelas patricinhas poderia render um belo trocado. Andava devagar , inventou de um dia correr brincando de pega pega com outros meninos e “tropeçou” na perna de um policial, um cascudo na cabeça seguido de um:

– Tava roubando marginal? Esvazia os bolso.

Chegando na escola , não viu mais ninguém.Seguiu emburrado de cabeça abaixada e fazendo bico.Estava com raiva da própria sorte , a barriga roncava em sinal de que não ligava de comer do lixo. Sabia de cor o caminho de uma lanchonete e foi andando já pensando no que poderia encontrar, quando se deparou um objeto prata caído no chão. Olhou para ver se ninguém o havia perdido , disfarçadamente levou a mão até o objeto , olhou para um lado e para o outro agachou nem olhou e colocou dentro da cueca.

Saiu correndo sem se preocupar com nada , com a mão no saco com medo do seu pequeno tesouro cair. Chegou no viaduto que chamava de casa, não via a hora de mostrar para os seus amigos.

Foi até eles com o sua preciosidade na palma da mão. Todos olhavam admirados e com inveja do Mateus. Nem o tocavam e de olhos arregalados falavam:

– Da hora mano , vale muita grana isso aew. Você tem que vender.

– Que nada fica pra você.Dá para você ouvir umas musicas

– Você me empresta?

Mateus não sabia o que fazer. Queria ouvir, emprestar e mostrar tudo ao mesmo tempo.Ficava olhando , colocou junto ao peito como se tivesse abraçando. Não percebeu que todos tinham ido embora. Ergueu a cabeça para ver o que tinha acontecido e logo viu Tiago , que apesar dos seus 13 anos não era muito maior do que ele , mas que todo mundo sabia que encara uns moleques de 16 :

– Me empresta isso aew.

O tom em sua voz não deixava dúvida , caso desce o seu tesouro nunca mais teria de volta. Apertou mais forte em seu peito e disse em um tom infantil:

– Não, é meu.

– Me dá logo isso filho da puta – falou Tiago enquanto fechava os punhos.

Quando pensou em correr , tomou um soco no nariz e caiu chorando e sangrando. Seu tesouro foi tomado , tomou um chute e ouviu:

– Para de chorar seu cuzão.
A cidade tem os seus filhos e eles crescem, apesar da fome de esperança. As únicas coisas que a cidade alimentava, eram seus vícios.

Tiago começo a tremer só de pensar que teria mais uma pedra na mão, era inútil tentar se controlar. Deu uma ajeitada na aba do seu boné , um pigarro. Foi até a sua galera e disse com uma voz rouca , mostrando os poucos dentes que tinha na boca:

– Dá um tempo ai, que vou ver se vendo essa merda pra consegui algum barato para nois.

Não tinha muito o que dizer de Tiago , não há muito o que falar de um viciado, seu passado vai apagando a cada nova tragada.O que se sabia era que quando não estava usando , estava brigando. De cinco palavras 4 eram palavrões e passou um tempo na fundação casa.

Andava quase pelo meio da rua , encarando todo mundo e respondia com o dedo do meio cada buzinada. Pulou uma mureta e atravessou um beco e chegou aonde queria.

Naquele lugar encontrava-se de tudo , mendigo , prostituta , traficante, engenheiro , musico e até mesmo alguns pastores.Tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos.

Em meio aos rostos cadavéricos , mendigos com os seus trapos nas costas e mães com seus filhos vivendo em um amontoado de lixo , sentia-se a vontade.Ao reparar em tudo aquilo sabia que não estava sozinho na merda.Olhou com raiva para um grupo de pessoas que distribuía lanches e com ódio para outros que entregavam a Palavra.
Foi correndo em direção ao cara com que sempre comprava , sem dar a atenção a ninguém.

– Descola uma pedra.

– Cadê a grana.

Tiago quase deixou o Ipod cair de tanta ansiedade.

– Toma isso aqui.

O cara olhou com certo desdém, devolveu e falou:

– Isso não vale merda nenhuma.

Tiago coçou o braço , coçou a cabeça, mexia a perna agitado.Empurrou o ipod em direção do traficante e disse atropelando as palavras.

– Quebra essa dai mano? Estou desesperado , estou quase um dia sem. Me da uma? Somente uma – Agarrou o braço não disfarçou o choro – Porra somente uma . Tiago viu ele enfiar a mão no bolso guardando o ipod. Tiago sorriu de maneira bisonha quando viu o brilho do papel alumínio. Recebeu a menor delas.

– Some da minha frente seu noia .É a ultima vez que faço caridade.

Alemão , como era chamado nem se lembrava mais qual era o seu nome, o apelido o definia bem. Apesar de branco e loiro era bem feio, roupa brega e uma arrogância de quem se achava um rei. Olhava com atenção para aquele estranho aparelho, arrependido do que tinha feito.

Um moleque veio até a sua orelha e cochiou algo,de pagamento ganhou uma pedra. Irritado Alemão foi em direção do seu carro.Ligou o Monza, engatou a primeira.

– Que merda , a policia enchendo o saco justo essa hora.

Tirou o ipod do bolso e jogou no painel. Acelerou para chegar bem a tempo de pegar a sua namorada no trabalho.Ela fazia bem o tipo comum , shorts curto com dois números a menos sem se incomodar com a barriga caindo dos lados, um tomara que caia da 25 de março laranja neon , que era puxado insistentemente para baixo, problema esse que seria resolvido quando desse uma bela siliconada.

Ela entrou no carro , deu tchau para umas 10 amigas, somente depois falou com o Alemão. Um beijo discreto. Moça de mãe costureira e pai pedreiro, daquelas que tinham de tudo para dar certo , que nunca tinha faltado nada em sua vida. Porem de pouca autoestima, que não se importava de se tratada como puta, com direito a muitos tapas e pouco respeito. Tudo isso para dizer com todo orgulho do mundo que namorava um dos traficantes mais perigosos da cidade.Coitada, o alemão não chegava nem perto.

– Nossa o dia hoje no trabalho foi um saco.

– Cala a boca e pega o presente que eu te dei, está ai em cima do painel.

Não achando nada que lhe interessava perguntou:

– Não estou achando nada.

– Você é burra hein – jogou o Ipod em seu colo – Toma , você sempre diz que eu nunca te dou nada.

– Obrigado amor. Já vi a vaca da minha chefe com um desses . Imagina a cara dela quando me ver com um.

Ela tentou ligar e não conseguia , apertava repetidamente e nada:

– Está quebrado.

– Você que é burra e não sabe ligar. Coloca o fone. Melhor, me dá logo isso daqui.

Gritou com a voz estridente e fina :

– Não. Se afastou e começou a mexer novamente – Eu sei mexer.

Pegou o fone de seu celular em sua bolsa e viu que não cabia.Apertou todos os botões de uma vez e nada. Ficou irritada e gritou:

– Você comprou uma imitação de merda, dessas que não funciona! Eu não vou querer isso. Abriu a janela e o arremessou.

Alemão quase bateu o carro enquanto berrava e batia nela.

Aquele pequeno objeto caiu na rua, e como por um milagre, de forma intacta. Um cachorro colocou na boca e o levo para longe, foi chutado sem querer por um engravatado, foi seguindo, até encontrar o seu destino e cair em uma pequena fresta da tampa de um bueiro.

E o futuro?

É incrível como através de um objeto podemos ver o mundo em que vivemos. Agora imaginem está realidade daqui a alguns anos? Toda essa desigualdade, todo esse consumismo. A população aumentada 10 vezes, a riqueza concentrada em uma quantidade ainda menor de pessoas, sendo criadas a desejarem algo que nunca poderão ter,para consola-los drogas de efeito cada vez mais curto, entretanto, mais acessíveis e muito mais destrutivas.

Colocamos tudo isso em um índice que cresce 5% ao ano , daqui a dois anos aumenta para 10%, ninguém se preocupa , a mídia distorce e insiste que todo mundo é muito feliz e que você um dia chegara lá , basta você comprar tudo aquilo que todo mundo tem. Passados 30 anos e já estamos 50%.

O renascimento! A sociedade aprendeu ?

A resposta é não! Tudo é controlado pelo medo , um ditador assumiu o controle prometendo que faria o impossível para que o mundo não passasse novamente por tudo que passou.Abdicamos de tudo , da liberdade , do pensar, do desejo , da alegria e da tristeza , abdicamos até mesmo da arte..

Ano de 2114

Seu nome é… Não existem mais nomes. Simplesmente conhecido B2006N13. Não é um valioso robô , é um ser humano qualquer. De cabeça raspada , sem barba , nem magro e nem gordo , olhos negros , sem nenhum pelo no corpo , sem nenhuma mancha , cicatriz ,sinal , pinta ou marca.Tão perfeito que chega a ser único? Não nesta era. Todos são assim, homens e mulheres velhos e jovens (não tem nada que nos oprime mais do que a perfeição). Tudo que gera alguma distinção foi abolido , a frase“Porque ele é assim e eu não?” foi esquecida ha décadas pela raça humana.

Muitos respondem com orgulho:

“Um preço pequeno a se pagar “

B200N13 anda por uma rua estreita , lojas amontoadas de produtos sem rótulos, o chão sem nenhuma sujeira , prédios de tamanhos uniformes com o mesmo tom cinza. Pessoas com roupas escuras de um caimento perfeito , de postura rígida com olhares mortos , mantendo uma distancia friamente calculada uma da outra. Ele espirra , ninguém percebe , coloca a mão no nariz e uma das milhares de câmeras aponta uma pequena luz vermelha em sua direção, se desprende e vai serpenteando com seu longo cabo negro em seu caminho . É passado um scanner óptico por todo o seu corpo. Colada em seu rosto ela emiti a sua voz metálica:

– B200N13 , sua temperatura não está anormal , há uma porcentagem de 85% que você esteja gripado. Deve imediatamente procurar por este hospital.

Retira o papel guarda em seu bolso. Altera o seu caminho para o hospital , irá chegar atrasado em seu trabalho , mas não liga. Em meio ao mundo cheio de maquinas , câmeras, cheio de informação e nenhum mistério a ser solucionado é contratado para apertar parafusos. É assim que é, todos tem uma ocupação, nem que seja a mais absurda.

Sente o corpo cansado olha para a esfera negra que sempre observa a tudo e a todos, que tem uma mensagem codificada para cada par de retinas. Vê nitidamente escrito digitalmente em vermelho:

– Tem 15 minutos para chegar na consulta.

Acelera o passo , mas não chega a correr.

Chega no consultório , amplo com centenas de cadeiras tudo branco e impecável. O eco dos seus passos só termina quando chega ao balcão.Ele observa uma mesa enorme , sem nenhuma ficha ou telefone , apenas um robô atrás de uma tela de tamanho médio:

– Bom dia.

Sentiu que era a pessoa mais idiota do mundo ao cumprimentar uma maquina. Decidiu ir logo ao assunto:

– Vim para uma cons…..

A voz metálica do robô o interrompeu , entregou um papel:

– Sala 341.

Se sentiu ainda mais idiota depois que agradeceu.

Seguiu por um longo corredor que ia até o número 350 , se perguntando o porque de tantas salas. O hospital estava praticamente vazio. Ficou curioso para saber o que acontecia em cada uma delas, será que tinha um paciente sendo atendido em cada uma?

Viu que o seu número estava próximo e que se quisesse tomar uma atitude teria que ser agora:

– O que custa? Somente alguns segundos. Uma pequena olhada por uma dessas janelinhas, em uma das centenas destas portas. Provavelmente não terá nada de interessante, mas seria bom ter certeza.

Foi até a sala de número 300 e olhou. Tudo estava escuro e não conseguia enxergar nada, encostou levemente na maçaneta não acreditando em sua coragem, a virou lentamente.Viu o robô que estava lá dentro ligar , já pensando em uma punição saiu desesperadamente daquele local e seguiu o seu caminho, pensando consigo mesmo:

– Poderia ser severamente púnico , simplesmente para confirmar algo que já sabia.

Entrou na sala tenso e ofegante, mas o robô nem notou.

Aguardou por alguns segundos então ouviu a mensagem:

– Sente na cadeira.

A maquina tocou em seu pulso. Todo trabalho que envolvesse contato humano havia sido abolido.Uma coleta de sangue , um novo escaneamento ,por fim um papel contendo todas as informações possíveis sobre o seu corpo. Foi entregue uma quantidade exata de comprimidos que deveria tomar e uma notificação que não deveria trabalhar naquele dia.

Saiu da sala já imaginando como seria tedioso o seu dia.Como estava bem no final do corredor notou uma grande porta que dava para um outro corredor. Até ai tudo normal, até o momento que observou um pequeno risco do lado esquerdo da porta.Risco este que seria desapercebido se não fosse todo aquele branco sufocante daquele local.

B2006N13 se aproximou tendo o olhos a poucos centímetros de distancia. Não era um risco reto como se algo tivesse raspado, era irregular, um pouco curvo e a marca começa forte e vai enfraquecendo até desaparecer.Instintivamente olhou para as suas mãos e então concluiu:

– Isso foi feito por uma unha.

Entrou sem ter nenhuma hesitação, depois de andar um bom tempo no escuro tateou uma porta e teve que usar bastante força para abri-la , acendeu uma luz fraca. Este local era muito diferente, com paredes de concreto sem nenhuma pintura, 10 portas de ferro, cinco em cada lado com brechas gradeadas, menores que a palma de sua mão, o ar pesado que tinha o mesmo odor da rua ou até pior.

Olhava com medo por cada brecha . Chegou até a nona porta sem nada encontrar, não acreditando na tolice de tudo aquilo. Aproximou-se , pensou ter ouvido algo , parou por um instante olhou para os lados e só depois continuou. Colou os olhos na grade. Um homem acorrentado se jogou na porta , o susto foi tão grande que caiu em pânico no chão. Foi engatinhando até a porta quando ouviu berros em uma voz rouca:

– Fuja daqui. Eles fazem experiências.

O que parecia ser um ser humano batia de forma ensandecida na porta.

– Vá para a rua 090070080 é o ultimo fragmento de vida existente na humanidade.

Sua cabeça foi inundada de desespero e rodeava com as inúmeras punições que iria sofrer se algum agente da ordem o visse naquele local.

Correu como nunca havia corrido em toda a sua vida , tomado por emoções que nunca tinha sentido.Quando voltou a si estava no corredor das 350 salas, tentou sem sucesso se controlar. O robô da recepção não percebeu como estava alterado. Na rua tomou um fôlego.

Seguiu para a sua casa , as poucas pessoas que estavam por ali reparavam nele. Não controlava os seus passos, não via a hora de chegar em sua residência e tudo isso teria um fim.Mas aquele número ficava martelando em sua cabeça.Tentava esquecer e não conseguia.

– Não devo pensar nisso, é loucura.

Estava a poucos metros do prédio em que morava e pensou:

– É muita coincidência. Não pode ser? Minha licença serve somente para hoje , amanha eu volto ao meu trabalho e nem sei quando irei folgar de novo. É certo que o tempo irá me acovardar e me fazer esquecer de tudo isso , irei me conformar e direi para mim mesmo que tudo não passou de um grande erro que não cometi.

Colocou a chave na fechadura:

– O que poderia ter em uma rua igual a tanta outras? O que poderia significar tanto assim? Na certa trata-se de um louco que não se enquadrou no sistema e que não quer desfrutar do seu triste fim sozinho.

Virou a chave.

– Fazer uma escolha , ou passar a vida inteira lamentando por não ter feito.

Largou a chave na porta , sentiu dentro de sí que nunca mais iria voltar para aquele lugar.Seguiu para o endereço andava apressado de maneira largada , não se incomodava com todas aquelas câmeras te observando.

Um leitor vermelho apontou em sua direção, se apressou , abaixou a cabeça e tentou acreditar que não era com ele . Misturou-se em meio a uma pequena multidão , não reparou nos olhares atravessados . Olhou para cima com intuito de ter despistado quem tanto lhe afligia, o que viu foi dezenas de pontos vermelhos em sua direção.

Empurrou quem estava próximo e saiu em disparada , nem perdeu tempo de se preocupar com o desespero que havia causado a todos que ali estavam. Um esbarrão em um dia qualquer pode gerar agonia, em que está acostumado a viver por décadas na mesma rotina.

Agentes da ordem estavam espalhados por todos os lados controlando de forma brusca toda aquela multidão.

Viu que não tinha mais saída , teria que arcar com as consequências de sua escolha. Não importava para que local olhava , sempre era mostrada a mesma mensagem, com letras digitais em vermelho “Pare B200N13” acompanhado de um barulho ensurdecedor, parecia que a própria cidade gritava tendo perdido um dos seus filhos . Sentiu um gosto amargo na garganta, algo que nunca havia sentido. Não tinha mais como parar , apesar de sua mente ficar remoendo o arrependimento e prevendo o sofrimento da punição ele continuou.

Chegou ao endereço , viu uma estranha faixa num pequeno portão na quinta casa a esquerda “NÃO SE APROXIME”.

Abriu um sorriso , aquela mensagem lhe deu esperança , estava convicto de que iria ver algo totalmente novo em sua vida. Arrebentou o portão e foi descendo uma pequena escada, descia sem parar , parecia que daqui a um tempo estaria no centro do mundo. Ouviu de longe o barulho do pequeno portão se quebrar , largou do corrimão e começou a correr, pulava a maioria dos degraus . Caiu ralou o joelho e o braço , mas encontrou a saída , colocou todo o peso na porta e a arrombou.

Sua narinas foram dominadas por um cheiro podre e azedo , vomitou no chão , tossia de maneira compulsória e levou as mãos ao chão. Respirou profundamente e aquele cheiro invadiu os seus pulmões , dava pra sentir o gosto na língua , novamente vomitou.
Ergueu a cabeça aos poucos foi se acostumando a toda aquela atmosfera. Viu inúmeros objetos espalhados e entulhados, gravuras , cores, objetos com formas geométricas, coisas que parecia muito com as que via no seu dia a dia e outras inimagináveis.Andou por uma montanha que avia se formado e disse:

– Todos os segredos e erros do mundo escondidos em um só lugar.

O barulho da sirene invadiu aquele local, pensou em se esconder debaixo de um entulho:

– Com os leitores será fácil me achar. Tenho que sair deste local.

Viu uma tampa de metal solta, mal prendida em um buraco , foi rapidamente ao seu encontrou. Desceu pelo que parecia um tubo em uma escada, o cheiro que sentia fazia o cheiro anterior ser o mais doce perfume.

Se no andar de cima eram guardados os segredos , naquele andar tinha toda a podridão produzida pelo mundo. Cheio de lodo, fezes , uma água escura e uma gosma verde escorrida da parede.Conseguia dar um passo com muita dificuldade, quando começou a pensar de que forma iria voltar.

Viu aquele pequeno objeto de um prata desbotado , cheio de riscos , uma esfera branca de plástico no centro , tinha desenhado no centro algo que parecia uma seta e logo acima algo que era uma miniatura do visor dos capacetes dos agentes da ordem, na parte de trás alguns pequenos furos esquisitos.

Apertou delicadamente e nada aconteceu , viu uma abertura esfregou o dedo e nenhuma mudança. Apertou novamente o centro e nada aconteceu .Ansioso apertou duas vezes seguidas e o resultado foi o mesmo. Parou , ficou observando e instintivamente pressionou o botão por alguns segundos.Uma luz azul brilhante preencheu todo o vazio de sua alma , percebeu que tudo o que tinha vivido não passava de uma grande expectativa para aquele momento.

Reparou que no visor passava algumas palavras em um dialeto , da esquerda para a direita como nos inúmeros letreiros eletrônico que tinha como paisagem todo os dias.

Apertou o botão mais uma vez , com delicadeza e cuidado temendo que tudo se apagasse e tendo que se conformar que tudo não passou de um breve deslumbre, um pequeno consolo , para um triste final a qual sabia que não poderia escapar.

Um som saiu.

Ele ouviu aplausos . Som este feito somente uma vez por ano , em sincronia, por todos os homens e mulheres para saudar o grande líder daquele mundo.

Sentou de qualquer jeito e ouviu uma voz grave e estridente, abriu um sorriso, trouxe o pequeno objeto para próximo de si. Prestou atenção que ao fundo um som agudo e suave que era repetido em sua mente e o relaxava.Ouvia aquela voz que alongava as vogais , que aumentava e diminuía, para ser triste ou alegre, tudo acompanhado de uma melodia suave que jogava o seu corpo de um lado para o outro.

Ele prestava atenção em cada palavra e pensava:

– Não sei de que tempo e nem da onde vem isto , só sei que ele tinha os mesmos problemas que eu.

A voz aumentou, para acompanha-la vários sons estridentes e fortes, que lhe provocou arrepios, como se uma força desconhecida percorresse todo o seu corpo. Foi fácil de imaginar aquele homem usando toda a força dos seus pulmões para passar a emoção a quem ouvia. E ele conseguia .

Terminou .O fim estava próximo ? Ele não sabia dizer. O que sabia era que essa pergunta não tinha a menor relevância.

(P.S: Você tem ideia de que música ele estava ouvindo?Comente!)

  • Eriton

    Ideia do que ele ouviu eu até tenho, mas tenho uma certeza também, não foi funk senão ele tinha se matado :v
    Gostei muito do conto, mesmo! Achei bem interessante essa proposta de acompanhar o objeto.

    • Obrigado Eriton.

      Quis fazer algo diferente com este conto e contar a trajetória de um objeto.Demonstrar como temos facilidade a arte hoje em dia e não damos o devido valor.

      Funk nem passou perto enquanto escrevia este conto kkkkkkkk.Confesso que a musica que estava ouvindo era My way do Sinatra.