Perseguidor

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Espelho perseguidor
Não existem vidas genéricas. Todo ser humano possui, de uma forma ou de outra, sua própria história. A de Anderson, efetivamente, começou em maio de 1992.

Foi enquanto se admirava no espelho, observando cada cicatriz do que já havia sido o rosto de alguém jovem. Estava com 40 anos e o homem que o julgava do outro lado do espelho não era mais o mesmo de dez anos atrás. Era uma pessoa completamente diferente e que avaliava cada passo percorrido por ele, ponderava sobre cada ação e parecia ironizar para onde a vida o levava.

Analisando cada centímetro de seu rosto, lembrava-se de algo que custava a chegar até a superfície de sua memória – a morte. Era isso que a sua face parecia refletir: a própria morte. Chocante, cínica, possuidora de ares levemente selvagens, mas indolor para quem está ao seu lado. Fazia sentido! A razão de nunca ter conseguido dividir seus temores com outra pessoa e encontrar felicidade era exatamente isso: seus contornos assustadores.

Espelhos podem dizer tudo o que precisamos saber a nosso respeito, calculava Anderson. Ainda que prefiramos mentiras ao invés de verdades em nosso dia-a-dia, quando estamos à frente dele, nossa alma parece ser completamente desnudada: sentimo-nos vivos e naturais.

À medida que brincava com os vestígios que o vapor quente do chuveiro deixava no espelho, lembrou-se do avô. Havia sido assim que sua vida expirou. Sozinho em seu apartamento, sem ninguém para ouvir os gritos desesperados que pontuavam o barulho da água que caía em sua banheira. Anderson nunca conseguiu se perdoar por não ter ficado ao seu lado nos instantes finais ou ter o acompanhado ao hospital no seu primeiro diagnóstico.

Sonhou com ele na noite passada. Com seu espírito, na verdade. Foi um sonho um pouco macabro. Vários familiares faziam um círculo ao seu redor e embalavam uma cantiga em uma língua estranha. Foi seu avô que pediu para ele estender uma das mãos que serviria para receptáculo do ódio. Segundo o que foi dito, pelo menos o que Anderson ainda lembrava, quando repousasse a palma da mão escolhida em uma pessoa que estivesse em seu caminho, o primogênito desta seria amaldiçoado até o fim de seus dias. Ele estendeu a esquerda. Logo, uma bíblia foi deitada ali e enquanto o canto dos familiares ao redor se intensificada, o livro divino era queimado. Era até ali que lembrava.

Pensando bem, o reflexo do espelho parecia-se muito com seu próprio avô. Ao passo que esses pensamentos o atormentavam, Anderson não percebeu entre um desvio de olhar e outro aquela imagem refletida não correspondendo aos seus passos. Sentiu um último arrepio percorrer seu corpo antes de pegar uma navalha para fazer a barba.

  • Gabriel Mendes

    Olha a merda…

    4 selos cabulosos