Lendas do Dragão do Céu: A Sombra do Ranger – Capítulo 1

4

Corrupção

arqueiro-conto-destaqueBeleriand, reino de Harut, Haggem, Estalagem Cavalo Incansável, 23:45 do dia 24 de Outubro de 1340 da Terceira Era.

Todos haviam ido dormir. Eles alugaram dois quartos da estalagem para passar a noite, pois a cidade ficava próxima de uma presença maléfica e eles a investigariam pela manhã. Ley, Guilherme e Wanda ficaram em um quarto e Gustaff, Jed, Lily no outro. Lily se recusou a dividir a cama de casal com Gustaff ou Jed e obrigou ambos a dividi-la. Já no outro quarto a situação estava tensa. Guilherme e Wanda vinham brigando todo dia havia mais de um mês e as brigas só pioravam a cada dia. Ley estava tentando melhorar a situação ao máximo, agia como intermediário entre os dois para impedir mais brigas e tentava reconciliar ambos. Desde o incidente com Gustaff e o anel de poder, Guilherme agia diferente, levando Ley a crer que alguma coisa nele tinha mudado. Ele só não conseguira descobrir o quê. Guilherme não queria dividir a cama com Wanda e pediu que Ley o fizesse. A reação de Ley foi inesperada.

– Agora chega. – Disse Ley – Vocês dois precisam parar de agir como adolescentes e resolver isso como os adultos que são! – Guilherme e Wanda olharam assustados para Ley. Ele percebeu que estava extravasando seu Rage acumulado na discussão deles. Acalmou-se – Vocês estavam tão bem. Quando eu vi vocês juntos a primeira vez eu tive certeza de que seriam o casal mais feliz do mundo. E durante os últimos dois anos essa previsão estava certa. Mas alguma coisa mudou e isso afetou a relação de vocês. Eu não sei se o problema é seu, dela ou de ambos, mas vocês precisam resolver isso logo ou eu vou resolver isso da pior forma possível. – O tom mudou de calmo para uma ameaça à medida que ele falava. Percebendo que iria ter um ataque de fúria se continuasse ele propôs o mais sensato – Vou criar uma zona de silêncio para que vocês tenham privacidade durante a discussão. Esse é meu último aviso.

Ley fez a magia. Criou um círculo dentro do quarto que envolveu a cama de casal e uma boa parte do quarto, livrando a porta e sua própria cama. Procurou se ocupar com outra coisa. Decidiu afiar sua espada. Pegou a pedra de basalto e granito e pôs-se a afiar a lâmina de mithril. Quando ficou satisfeito com seu trabalho decidiu continuar a afiar suas armas.

Guilherme e Wanda discutiam em voz alta, tendo toda a conversa abafada pela magia de Ley. Apenas os gritos mais altos escapavam da magia com o barulho de murmúrios. No outro quarto, Jed escutava os murmúrios tentando decifrar o que Guilherme e Wanda diziam, mas sem sucesso. Após um grito especialmente alto de Guilherme, Ley voltou sua atenção ao casal. Normalmente até os gritos mais altos saiam do círculo de silêncio na forma de murmúrios, mas aquele em especial saiu como se ele falasse normalmente. Ele viu que Wanda agora chorava, respondia aos gritos de Guilherme apenas para ter mais gritos em resposta. Guilherme saiu do círculo de silêncio em direção à porta. Abriu-a com força e bateu a porta com o máximo de força, mas Ley segurou-a.

– Não desconte sua raiva acordando as outras pessoas. – Censurou Ley. Guilherme desceu as escadas até o primeiro andar e saiu pela porta. Precisava esfriar a cabeça, respirar ar fresco. Ley sabia disso e respeitou a privacidade do amigo. Quando fechou a porta do quarto, encarou Wanda. Ela estava inconsolável. Chorava às toneladas, ainda dentro do círculo de silêncio. Ley deitou-se ao seu lado tentando de tudo para consolá-la, mudando de assunto, abraçando-a, perguntando de assuntos que ele pensava que iriam fazê-la esquecer do Ranger por algum tempo.

– Ele não gosta mais de mim! – Chorou Wanda – Ele não me corteja mais, não é mais romântico, não é mais ele! – Ley a abraçou com mais força. Ele concordava com Wanda que aquele homem não era mais Guilherme. Durante os últimos dois anos ele continuou o mesmo, mas no último mês ele mudou completamente em questão de dias. A amizade de Ley não se abalou, mas a relação de Guilherme com o resto do grupo foi destruída. O Ranger que antes tratava todos como iguais e se sacrificava pelos outros agora estava distante de todos, com relações cortadas e seu namoro com Wanda, que estava quase se tornando um casamento, ia de bom a ruim e de mal a pior.

– O que aconteceu com ele? Por mais que eu tente, ele não me escuta. – Wanda soluçava no meio da frase, tornando difícil decifrar o que ela dizia – Eu já tentei procurar falhas em mim, físicas, comportamentais, mas não! Nada. Eu sempre fui desse jeito e de repente ele não gosta mais de mim! – Wanda soltou um choro agudo. Ley já estava farto. Já fazia um mês que Wanda chorava deitada sobre seu colo uma vez por semana.

– Eu concordo com você. – Ley acariciou os cabelos de Wanda. Aqueles cabelos loiros, lisos e curtos. Quantas vezes ele não fez aquilo nas últimas semanas? – Alguma coisa mudou em Guilherme. E essa coisa mudou ele. Eu estou tentando descobrir o que é há duas semanas e a única relação que consegui fazer foi com o anel de poder. – Por algum motivo aquilo fez Wanda se acalmar.

– Você tem certeza? – Perguntou ela. Ela ainda chorava, mas parou de soluçar.

– Tenho. – Respondeu Ley – Que mais causaria isso?

– Eu não sei. Tudo que eu aprendi de magia foi com você. Se você não sabe, então eu não faço a menor ideia do que pode ser.

Dessa vez o abraço veio dela. Ela sentou no colo de Ley de frente para ele, beijou-o no rosto e o abraçou com força. Ley respondeu com outro abraço. Ele sentia as lágrimas ainda quentes escorrendo do rosto dela e molhando seu ombro.

– Lembra daquela noite? No Col’s Bär. – Perguntou ela.

– Aquela do jogo? Que Guilherme se recusou a participar.

– Exatamente essa. – Dois anos atrás, Ley e Wanda participaram de um jogo erótico no Col’s Bär, um bar de Mordhoth. Nesse jogo, à medida que as pessoas saiam da roda de participantes elas formavam casais e como em todo jogo erótico… Ley e Wanda acabaram formando um casal.

– O que tem essa noite? – Perguntou Ley. Ele encarou Wanda com um olhar interrogativo. Ele sabia onde aquela conversa iria acabar.

– Quer repetir a dose?

– Você quer? – Wanda hesitou. Ley a estava alertando para um erro. Fazer aquilo seria um erro. A pergunta pedia a decisão: Esquecer completamente do Ranger que fora seu companheiro durante anos e tentar vida nova ou tentar restaurar o vínculo de alguma forma. Ela entendeu nas entrelinhas e na expressão de Ley que ele estava disposto a apoiar qualquer decisão. A parte racional de Wanda queria escolher tentar consertar o problema de Guilherme. Mas a parte emocional dizia para esquecê-lo. Wanda era uma mulher emotiva, era uma artista, agir emotivamente era parte de sua natureza. E naquelas circunstâncias, as emoções sempre falariam mais alto. A resposta que ela deu a Ley foi beijo, desta vez na boca. Um beijo que ela queria dar em Guilherme há mais de um mês e não conseguira. Todas as emoções ruins agora se esvaiam, ela parou de chorar, foi como se uma luz aparecesse para guiar seu caminho. Ela viu um futuro novo, ao lado de Ley. E era um futuro muito tangível para ela.

Guilherme andava pelas ruas escuras de Haggem. Chovia. As gotas batiam em sua capa camuflada impermeável e escorriam até o chão. Outras o acertavam diretamente na face, molhando seu rosto e disfarçando uma ou outra lágrima. Seu nariz estava entupido. Ele fungou. Desde o incidente com Gustaff ele se sentia diferente. O que quer que estava naquele anel falou com ele por um instante, acordando uma parte dele que ele nem sabia que existia. Era como um fantasma que o acompanhava. Uma sombra dele mesmo que falava com ele, influenciando suas decisões, mostrando caminhos que ele nunca pensara em trilhar antes e recompensando ele com coisas que ele nunca sonhara ter. Em troca de conhecimento e poder ele havia sacrificado todas as amizades e relacionamentos, exceto um. E agora aquela “sombra” falava com ele sobre isso.

– Agora só falta aquele rato. – Falava a entidade em sua mente.

– Não o chame de rato. – Retrucou o Ranger – Ley me ensina muito mais que você.

– Mas o que ele ensina? – Questionou a Sombra – Ele lhe dá conhecimento de história, lhe conta Lendas que você nem sabe se são verdadeiras ou não, lhe ensina coisas que você não poderá usar nunca. Ele…

– Basta! – Interrompeu o Ranger – Ley não é uma entidade. Ele me passa conhecimentos que se tornam úteis conforme o tempo passa. Está certo em algumas coisas sobre ele. Sobre essas Lendas e o fato de que não se pode confiar nele, mas Ley já me ensinou técnicas de uso de faca, sobrevivência e muito mais. Ele nunca me ensinou nada sobre técnicas de arco porque ele não sabe quase nenhuma. Mas me ensinou a fazer melhorias em arcos e criar arcos melhores.

– Mas isso eu posso fazer melhor. Eu posso lhe dar relíquias que nem mesmo ele pode.

– Ley me prometeu dar um presente quando voltarmos a Angband de novo. Segundo ele, terminada Beleriand rumaremos de volta para casa e iremos até as Montanhas de Ang. E lá ele irá fazer para mim umas “paradinhas de sucesso” como ele disse.

– É só uma promessa. Nada concreto.

– E o que você pode me dar de concreto? Até agora apenas me deu habilidades que eu tive que aperfeiçoar e até mesmo Ley me ajudou com isso. Ele é um vínculo que eu não posso perder. Além de ser um homem de palavra.

– Sua amizade me admira. – A entidade suspirou – Mas aqui está a prova de que posso lhe dar muito mais.

Da escuridão surgiu um arco. Guilherme o pegou. Era um arco composto, feito de um metal negro. Tinha o mesmo tamanho de um arco longo, mas o formato de um arco recurvo. A peça central era revestida com tiras de couro macio, tingidas de negro. A corda era presa em cavidades das extremidades e parecia impossível de puxar. Mas era surpreendentemente fácil!

– Apenas você pode puxar a corda desse arco. – Disse a entidade.

– Isso é bom. – Guilherme ainda estudava o arco, analisando cada centímetro dele. Era pesado, mas não era nada para ele carregar 7 Kg. Tinha espinhos na parte frontal, que serviam obviamente para golpear a curta distância. Nas laterais havia encaixes para flechas. Três na esquerda, três na direita. Com eles, Guilherme poderia atirar três flechas em tempo recorde e mandar outra rajada tripla em seguida.

– Agora se me pagar eu posso lhe dar o resto do kit. – Disse a sombra. Guilherme sorriu e deixou a entidade entrar em seu corpo. Era como se, aos poucos, a alma dele desse lugar à entidade e ele ganhasse poder por isso. E junto com o poder vinham muito mais coisas. Mas a sombra só podia se alimentar da alma dele à medida que ele ia cortando relações com outras pessoas, agindo como a entidade desejasse, deixando de ser humano e Ley era o último empecilho para que ela terminasse de devorar a alma de Guilherme. Quando se saciou, a entidade fez surgir da escuridão duas facas. A princípio eram idênticas às que Guilherme tinha. Mas quando ele olhou direito viu que eram feitas do mesmo material que o arco. Um metal negro, pesado, que parecia ser muito superior ao aço. Ele testou a faca de arremesso. Arremessou-a contra a parede de uma casa próxima. A lâmina negra penetrou a rocha com facilidade, batendo com uma força que a faca antiga nunca conseguiria bater. Depois ele foi até a parede recuperar a faca, mas aproveitou para testar a faca de caça. Arrancou a faca de arremesso da parede, deu um passo para o lado e estocou a parede de pedra com a faca de caça. Foi como estocar um homem com uma armadura de couro. Aquelas facas fizeram ele lembrar das de Ley. Estava curioso para perguntar as propriedades das facas, mas a entidade sumira. Deixando-o sozinho, na chuva, livre para fazer o que quisesse. Qualquer coisa que ele desejasse.

por Gabriel Mendes

  • Augusto Tenório

    Tirando algumas repetições de palavras, e uma possível melhora na pontuação, muito bom.

    • Gabriel Mendes

      Obrigado pela dica, Augusto.

  • Achei uma boa introdução à história. Dá uma revisada no texto pra ajeitar a pontuação =P

    • Gabriel Mendes

      OK. Vou dar uma revisada no segundo capítulo. Deve sair semana que vem.