“John Carter: Entre Dois Mundos”, romanceação do filme homônimo

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Autor: Stuart Moore
Editora: Fantasy – Casa da Palavra
Origem: Americana
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 160
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Sinopse: Guerra Civil, EUA. John Carter, um soldado veterano, é misteriosamente transportado para Barsoom, o planeta vermelho, conhecido como Marte. Envolvido em um conflito de proporções épicas, em meio a uma guerra alienígena, Carter precisa lutar para manter vivos dentro de si dois dos sentimentos humanos mais conhecidos: a esperança e o amor.

Análise:

Antes de qualquer coisa, explico que a autoria do livro que irei examinar é de Stuart Moore (editor e escritor de quadrinhos e romances) e não de Edgar Rice Burroughs, criador do personagem John Carter, porque a obra é uma romanceação, feita por Moore, do filme dirigido por Andrew Stanton que, por sua vez, é baseado no livro “Uma princesa de Marte” de Burroughs. Como vocês puderam perceber, a obra sobre a qual irei refletir é um evidente afastamento, para não dizer desvirtuamento, do texto original. Esclarecido esse quesito, vamos adiante.

O romance é composto por um prefácio, prólogo e dezoito capítulos, ao longo dos quais, majoritariamente, a narração é em terceira pessoa. Quando o narrador é heterodiegético, ou seja, não é participante da história, as cenas constantemente variam o personagem enfocado, mostrando tanto o lado dos heróis e personagens secundários quanto o lado dos vilões. Além de Edgar Rice Burroughs ser usado como personagem, literalmente aquele responsável por descortinar os feitos fantásticos de Carter, para tornar ainda mais fascinante a aventura que nos será relatada, o enredo começa in ultima res (cronologicamente, pelo final) e no desfecho retorna a esse ponto, reproduzindo em sua estrutura a ideia de ciclo que envolve a Jornada do Herói, conceito delineado por Joseph Campbell. Vistos esses dois pontos, não há outro traço do enredo que valha a pena mencionar, pois segue o padrão de inúmeros outros romances.

Carter, um homem traumatizado pelos horrores da guerra civil americana, principalmente por um detalhe particularmente doloroso em seu passado, não consegue mais se identificar com a causa que outrora defendeu. Com isso, ele entra em decadência e busca refúgio na bebida, deixando completamente de lado o cuidado com a própria aparência e imagem na sociedade, característica típica de um herói falido (exemplo: Hancock, personagem do filme homônimo). Todavia, como uma ironia do destino, ao tentar escapar de uma segunda convocação do exército, por causa de sua exímia habilidade em combate, termina por cair em outra guerra em um lugar onde percebe que possui aptidões especiais, tais como: a capacidade de pular grandes distâncias e super força. Intuitivamente, afinal o personagem é um herói, um indivíduo acima do homem-comum, Carter habitua-se às novas habilidades.

Sem tempo para compreender o que aconteceu consigo, John Carter é logo envolvido no evento turbulento no qual se encontra o planeta de Barsoom (Marte), obtendo rapidamente alguns aliados e inimigos mortais. Como toda clássica história de heroísmo, nesta há uma figura feminina que funciona como uma âncora para que o protagonista se mantenha dentro da aventura. Nesse caso, a “incentivadora” do bravo guerreiro é uma princesa que se chama Dejah Thoris, filha do rei da cidade de Helium e noiva prometida a Sab Than, o déspota da cidade móvel de Zodanga que ameaça, além de levar o planeta à completa esterilidade por causa de sua cidade que se alimenta dos recursos naturais do planeta, impor a sua vontade a toda Barsoom.

Dejah, ao ver uma estupenda façanha de Carter, enxerga nele a possibilidade de realizar o seu maior intento: acabar de uma vez por todas com a opressão perpetrada por Sab e seus lacaios e livrar-se do compromisso indesejado com alguém que não ama. Com o desenrolar dos acontecimentos, os bastidores da guerra entre Helium e Zodanga são revelados, trazendo à tona algo que se acreditava ser apenas uma lenda, e John Carter é forçado a fazer uma escolha que irá influenciar incontáveis vidas, incluindo a sua. Todavia, essa escolha não será nem um pouco fácil, pois, quando ele menos esperava, surge uma última prova, uma última tentação, afinal, Barsoom não é o seu lar…ou será?

Mesmo com uma narrativa extremamente rápida, houve apenas uma quebra de verossimilhança. O maior defeito do romance, ao menos considerando a possibilidade de desenvolvimento e como isso poderia aumentar a qualidade do livro, termina por ser o raso aprofundamento psicológico dos personagens. Até mesmo o drama de Carter poderia ter sido descrito com mais vigor. Outro ponto que ficou devendo foram as descrições de algumas sequências de ação, mas eu já esperava por isso. Quando afirmo que as descrições ficaram aquém de um bom texto narrativo, não me refiro a explanações de minúcias do cenário, mas elucidação de pontos que poderiam auxiliar o leitor a ter uma noção mais firme daquilo que lhe está sendo contado.

Enfim, como o romance é nada mais que uma reorganização do roteiro do filme e o longa-metragem dispensa o esclarecimento de pormenores visuais, lembrando que o espectador cinematográfico normalmente não tem de fazer tanto uso de sua imaginação a fim de formar um quadro daquilo que testemunha (aludo aos dados imediatos – imagens -, não às metáforas etc), essa já era uma falha previsível. Tentar transformar roteiros em romances não parece um bom negócio, pois ambos possuem especificidades que não permitem uma transposição fidedigna de qualquer texto de um formato para o outro sem que algo seja perdido no caminho. Se assim fizermos, estaremos lendo algo em que corremos o risco de mal sentirmos o sabor do material primordial.

Recomendo a leitura de “John Carter: Entre Dois Mundos” para leitores que gostam de se deleitar com tramas relativamente simples, mas com alguns encantos que parecem nunca saírem de moda, uma vez que a Jornada do Herói ainda é uma estrutura de enredo altamente simbólica que consegue dialogar com a humanidade em sua maior parcela, para não dizer totalidade e cair em um equívoco, tendo em conta as eventuais exceções. Minha nota é dois selos cabulosos!

Nota:

Dois selos cabulosos
Dois selos cabulosos
  • Pois é Ed, nunca entendi o porque desse livro. Porque alguém que pode ler Uma Princesa de Marte, leria esse que é um “livro do filme”? Nesse caso é melhor ver o filme…

    • Uma possibilidade para a existência desse livro é que a editora não conseguiu os direitos de publicação para uma nova edição de “Uma Princesa de Marte”, mas, ainda assim, queria tirar a sua fatia do bolo com o lançamento do filme. O resultado, como já era mais do que esperado, foi uma obra fraquíssima.