As Aventuras Sobrenaturais de Marcos Mignola – Capítulo 1

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marcos mignola

por Alan Cosme

Iolanda se considera cética, mesmo assim foi convencida a fazer uma visita àquele homem. Quem indicou foi uma amiga do trabalho.

Ela estava meio nervosa, não sabia bem o que dizer ou como se portar, pois nunca visitou um vidente antes.

O prédio humilde ficava em um bairro popular, era estreito e pequeno, com apenas três andares. O vidente morava no segundo andar, mas atendia em uma sala situada no terceiro. A sala tinha de tudo um pouco: símbolos exotéricos, estatuetas de Jesus, orixás, deuses hindus e de outras religiões mais desconhecidas. O escritório era uma confusão de informações disputando por espaço.    O vidente em si conseguia chamar mais atenção do que seu local de trabalho. Assim que o viu Iolanda pensou até em dar meia volta e desistir da consulta. Mas o homem era sedutor e ela acabou se deixando envolver pelas suas palavras.

O vidente tinha vinte e oito anos. Sua boca era marcada por uma cicatriz discreta. Pele branca, alto e magro, seus braços eram cheios de tatuagens que faziam referências há vários mitos e saberes antigos. Sua camisa social era de um vermelho vivo, por cima ele usava um colete preto e uma gravata de mesma cor. Para completar em sua cabeça usava um chapéu. Parecia bem mais um artista, um músico, um membro de banda de Rock do que um homem espiritualizado.

Antes que percebesse Iolanda contou praticamente toda a sua vida para aquele homem que acabara de conhecer. O vidente durante a sessão jogou búzios, olhou para sua bola de cristal, checou seu tarô, contatou alguns parentes falecidos, consultou runas, olhou para a borra de café na caneca… Enfim, serviço completo. No final de uma hora de consulta Iolanda ouviu as mais favoráveis previsões. Ela abriu o sorriso e, para alegria do vidente, a carteira.

****

O psicólogo tinha cinquenta e poucos anos, era barrigudo e calvo. Mantinha um semblante calmo, era treinado para não expressar aprovação ou repúdio pelo que ouvia dos seus pacientes. Apesar de não seguir essa regrinha sempre.

Deitado no divã um homem peculiar recebia o atendimento.

– Essa tatuagem é nova? – Apontou o psicólogo para a mão direita do seu paciente. – O que ela representa?

O paciente olha para a sua mão direita e vê o desenho de um olho dentro de uma estrela estilizada de quatro pontas. Sua reação é de surpresa desinteressada, como se não estivesse esperando pela presença daquele desenho, mas que sua aparição não fosse assim tão relevante.

– Então, senhor Marcos Mignola. Quero saber se nós estamos conseguindo progresso ou não.

– Minha vida está boa. Quer dizer, ao menos sou completamente funcional. Não preciso da ajuda de ninguém e ganho meu próprio dinheiro.

– É bom ouvir isso. Mas esse ainda não é o ponto em que eu quero chegar.

Marcos coçou a cabeça desconfortável, sabia muito bem ao quê seu psicólogo se referia.

-Vejo uma coisa ou outra de vez em quando. Mas isso não incomoda mais. Está superado.

– Sei.

O psicólogo bate suas mãos nos braços de sua poltrona antes de se levantar. O gesto chamou a atenção de Marcos pela rapidez. – Acho que tenho algo que pode te ajudar. – O psicologo vai até uma gaveta de um armário que ficava no canto de seu consultório e de lá tira uma caixa de remédios. Na embalagem estava escrito Esperiflina.

– Não sou psiquiatra, por isso não posso receitar oficialmente nenhuma medicação. Mas essa coisinha aqui tem trazido muito bons resultados para pessoas com problemas similares ao seu. O remédio por algum motivo não foi aprovado, mas não se assuste com isso. Bobagem, deve ser só alguma frescuragem da Anvisa. Ele é muito bom.

O psicólogo entrega a caixa a Marcos para que ele pudesse examiná-la. – Olha, mas não conta isso para ninguém, se não você vai me lascar de banda.

– Pode deixar, doutor. Mas como eu tomo isso?

– É simples. Sempre que você ver algo que não existe é só por um desses para dentro que tá “sussa”.

– Existe, não existe… Isso é muito relativo, doutor.

– Que mané relativo?! Espírito, fantasma, assombração, alma de outro mundo… não existe e ponto final.

****

Vinte anos atrás. Antes das tatuagens. Antes do emprego de vidente. Antes do tratamento psicológico.

– Ele está comendo a empregada. – Domingo, um casal fazia uma visita social à família Mignola. Pai e mãe faziam sala ao casal convidado quando de repente o pequeno Marquinhos interrompe a conversa soltando essa bomba.

– Que é isso, menino?! – Reclamou o pai enquanto dava um sorriso bem amarelo para a visita. – Vai para o quarto, vai. Deixa de falar bobagem.

Naquela noite Marquinhos dormiu chorando devido a reprimenda severa que recebeu mais tarde dos pais. Uma semana depois um fato curioso, o amoroso casal que visitava a casa se desfez. Um adultério foi revelado.

De início os pais de Marquinhos não davam muita atenção as excentricidades do garoto. Alguns amigos imaginários aqui, alguns palpites surpreendentemente certeiros acolá… Não demorou para a característica curiosa da criança se transformar em um incomodo. De toda maneira os pais tentaram “consertar” o menino. Transformar uma criança com um dom especial em uma criança “normal”, que seria mais fácil de lidar.

Levaram para o pastor, para o padre e para o pai de santo.

Nada.

Marquinhos continuava a ser Marquinhos. E isso deixava seus pais muito putos da vida. – Qual o mal desse menino?! – Se perguntava o pai. – É necessidade de atenção?!

A antipatia inicial foi se desenvolvendo a medida que Marquinhos foi crescendo. No final da adolescência veio o fim da picada. Quando a primeira tatuagem foi impressa em seu braço o ultimato.

– Não criei um filho para ver ele se tornar um marginal! – Gritou o pai. – Para fora!

Marcos foi expulso de casa. Usando o dinheiro que sua mãe lhe entregou escondido, ele alugou um apartamento em um prédio popular. Marcos precisava arranjar dinheiro, mas tinha acabado de sair do colégio. Era pouco capacitado.

A solução foi ganhar a vida fazendo o que ele fazia de melhor. Usar seu dom.

****

Hoje.

Aquela segunda-feira estava muito calma. Trabalho incerto, tinha dias que ele precisava se virar em dois para atender a todos os clientes. Já outros, como aquela segunda, eram extremamente monótonos. Nenhuma alma viva entrou no consultório de Marcos procurando ajuda. Só alma morta. Mas infelizmente esses não pagavam.

Marcos Mignola estava sentado atrás de sua mesa de trabalho. Como não havia ninguém para atender ele decidiu gastar seu tempo tomando uma decisão. Com a caixa de Esperiflina na mão  o vidente pensava. – Será que vale a pena?

Com um rápido movimento de mão Marcos tira um comprimido do seu involucro. Ele olha atentamente para o remédio. O remédio parece olhar atentamente para ele. Quase como em um romance lentamente Marcos aproximava a Esperiflina de sua boca. Estava prestes a engoli-la quando…

– Cara, se eu fosse você não tomava isso não. – Marcos dá um pinote na cadeira e quase deixa o comprimido cair. Ele estava acostumado com fantasmas, principalmente com aquele, por isso não tinha medo. Porém aquele morto o pegou de surpresa.

– Quem te pediu opinião, Alex?! Sai daqui! Sai!

– Esses psicoativos costumam dar muito sono, engordar, é uma merda. Eu usava muito quando era vivo e olha só como fiquei. – O fantasma projetou sua barriga etérea para frente enquanto dava tapinhas nela.

Marcos preparava uma boa resposta para dar ao morto quando um cliente aparece em sua porta. Um cliente vivo para variar.

Para que o cliente não o visse com um tarja preta na mão, Marcos colocou o remédio de volta na caixa e o escondeu embaixo da cesta onde jogava búzios.

– Por favor, entre. – Disse Marcos estampando o sorriso mais cortês que conseguia fingir.

– Cheguei em má hora? Pensei ter ouvido alguém brigando.

– Não foi nada. Por favor, sente-se, diga seu nome e me conte o que te aflige. – A cliente não devia ter mais do que vinte e cinco anos, mas uma olhada rápida em seu dedo indicador direito revelou que ela era casada. – Algum problema com seu marido? – A cliente era morena, baixinha e tinha o quadril largo. Isso chamou a atenção do vidente. A constatação de que ela era uma mulher casada veio com uma pontada de desapontamento. Se bem que isso nunca o havia impedido antes.

– Me chamo Neide. O problema não é meu marido, sou viúva, é minha casa. – Uma luz de esperança se acendeu no coração de Marcos ao ouvir aquela palavra, viúva. – Não tenho dinheiro para me mudar, se não já tinha me livrado dela. Coisas sem explicação acontecem o tempo todo lá, como sons de passos quando não há ninguém em casa ou a televisão da sala ligar sozinha.

– Você já fuçou no menu para ver se deixou a tevê programada sem perceber? – Perguntou o fantasma a Neide mesmo sem ser ouvido. – Se não foi esse o caso sugiro tirar a tevê da tomada sempre quando não a estiver usando. Já vi morto conseguir apertar o botão de ligar, mas colocar um fio na tomada nunca.

– Quieto!

– Mas foi você que me pediu para falar!

– Não! Não foi com a senhora que… Esqueça. Onde você mora? Despachar casa custa quinhentos reais.

Fora da cidade, em uma zona rural, morava Neide.

Marcos tinha se arrependido de ter cobrado quinhentos reais. Se soubesse antes que ela morava tão longe e que sua casa era tão grande ele cobraria pelo menos o dobro.

O casarão tinha as paredes brancas, telhas de zinco, só possuía um andar. Mais parecia uma mansão de dono de escravos do século XVIII. Meio perdida no tempo. Meio defasada. Quando Marcos entrou na casa chegou a esperar que ela não tivesse luz elétrica. Estava enganado. Ao menos isso.

A casa parecia ser cara, o carro que Neide dirigia não era popular. Juntando A mais B ficou difícil para Marcos acreditar naquele papo de dificuldade econômica em se mudar. Não importava, desde que recebesse o pagamento tudo bem.

O vidente trouxe consigo uma mochila escolar, de lá de dentro tirou tudo o que precisava para despachar a casa, espantando tudo o que fosse possível de influência ruim. O primeiro instrumento que pegou foi uma lata de alumínio presa a uma corrente fina. A lata era aberta e possuía vários furos. Era um incensador improvisado. Em seguida Marcos pegou um pouco de carvão vegetal e algumas ervas. Pôs tudo na latinha e com um esqueiro acendeu a chama. O incenso tinha um cheiro suave, doce e muito agradável.

– Pronto. Já vou começar a despachar sua casa.

Neide ficou encostada na porta de entrada da casa enquanto Marcos incensava de cômodo em cômodo. O vidente percebeu assim que entrou no lugar que o ambiente era carregado, só não imaginava o quanto. Seres espectrais sem forma definida zanzavam pelos quartos, pela sala, pela cozinha, até no banheiro.

– Bora, cambada! A farra acabou. Todo mundo circulando! – A medida que a fumaça ia se espalhando pela casa os espectros iam se afastando. O incenso tinha o poder de expelir tais criaturas. Quando Marcos terminou seu trabalho a casa estava limpa de entidades negativas. Estava despachada.

Terminado o serviço, Marcos foi correndo até Neide com a mão estendida. Estava com pressa, queria só pegar seu dinheiro e dar um sumiço dali. A mulher, porém, tinha outros planos.

Marcos ainda não havia apagado seu incensador, por isso ele ainda expelia fumaça. O vidente inclusive se aproximou de sua cliente com ele na mão. Marcos não deixou de notar algo curioso, a mulher parecia repudiar o incenso tanto quanto as entidades que ele acabara de expulsar da casa.

– Deixa de frescura, dona. Esse cheirinho é tão bom e… Aí, Jesus!

Quando a fumaça encostou na pele de Neide sua real aparência foi exposta. O rosto jovem e feminino deu lugar a algo torto, deformado, monstruoso, feio.

Marcos ficou tão chocado que não teve reação. Sua paralisia inicial fez com que a monstra ganhasse iniciativa e pudesse agarrá-lo. O vidente é jogado a vários metros de distância, voando da porta de entrada até o final da sala. Ele se choca contra a parede, mas a adrenalina estava tão ativa que ele não sentiu a dor do impacto.

A boca de Neide se movia, mas sua voz não era mais a mesma. Aquela vozinha meiga que deixava Marcos tão ouriçado deu lugar a uma voz gutural e arrastada. – Você não é especial. Não passa de um charlatão com problemas mentais.

Marcos contra-argumentaria se tivesse entendido ao menos uma palavra. Ele se levanta do chão, esquecendo toda a finesse desfere um soco em sua antiga cliente. O rosto do bicho se vira para o lado e só. Ela mal sentiu o golpe.

Neide tenta agarrar o vidente uma segunda vez, mas agora ele estava mais esperto enquanto a isso. Marcos corre até a janela mais próxima e tenta abri-la sem sucesso. Estava trancada. Havia outras janelas, além da porta de entrada, mas Marcos podia apostar que estavam todas muito bem fechadas.

O monstro andava com passos vagarosos, mas naquele espaço limitado mais cedo ou mais tarde ele pegaria Marcos. Dito e certo, o vidente foi arremessado uma segunda vez, sendo que agora foi parar na cozinha. Marcos podia se considerar com sorte, com a força que a entidade tinha ainda bem que ela gastava tempo o jogando de um lado para o outro. Se ela decidisse dar um soco em sua cara bem dado o confronto terminaria.

A terrível Neide estava chegando perto. Marcos tinha que pensar rápido. Ele olha para a sua volta enquanto pensa em uma estrategia para se livrar da situação.

Panela de aço. Micro-ondas. Mangueira de gás de cozinha. Explosão.

****

– Essa queimadura não estava pior antes?

– Deve ser impressão sua. Pelo menos os sinais vitais do paciente estão fortes.

– Você está de brincadeira?! Estão fortíssimos! Esse homem é um cavalo por acaso?! Chama o técnico rápido! Essa máquina deve estar desregulada.

Marcos abriu seus olhos muito lentamente. Sua cabeça latejava e seus olhos doíam, pois não estavam habituados ainda a claridade do leito.

– Onde estou? – Perguntou o vidente para as duas enfermeiras que conversavam ao lado de sua cama.

– Tenha calma, seu moço. A polícia já está aí e quer falar com você.

– Polícia? – A primeira reação de Marcos foi não entender o porquê de homens da lei quererem conversar com ele. Após alguns minutos a resposta obvia se revelou. Marcos tinha explodido uma casa, tinha muito o que explicar. Infelizmente ele não sabia como relatar os fatos sem passar uma imagem de doido varrido. – Droga, manicômio de novo não!

– Disse alguma coisa, senhor?

– Não, nada. Só pensei alto.

As enfermeiras deixaram o quarto dando espaço para que outras pessoas entrassem. Quando a porta estava se abrindo o coração de Marcos gelou ao imaginar homens uniformizados querendo prendê-lo. Ao invés disso dois rostos familiares se fizeram presentes, seus pais.

– Meu amor, o que foi que aconteceu? – A mãe foi direto para o lado do seu filho e agarrou sua mão. O gesto de carinho doeu, pois as feridas ainda estavam sensíveis. Marcos no entanto se esforçou ao máximo para que seu desconforto não transparecesse. – Você vai ficar bem, tenho certeza. Você sempre foi muito forte.

Mãe e filho conversaram durante dez minutos, depois disso ela deixou o quarto. O pai pediu para conversar com o filho a sós.

– Diga. O que foi dessa vez? Vampiro? Lobisomem? Bicho papão? Que inimigo imaginário você enfrentou agora?

– Nossa! Mas você não muda mesmo não é?

– Eu não mudo?! Você é que continua causando problemas! Porra, esse diabo de tratamento não está dando em nada! Menino, ao menos você está indo ver o doutor, não está?!

– Estou, pai.

– Então estou jogando meu dinheiro custoso no ralo. Você continua tão biruta como sempre.

– E você tão mesquinho e fútil como sempre.

O pai olhou para os braços de Marcos ficando horrorizado ao constatar desenhos novos. – Credo, você está cada vez pior. Onde foi que eu errei?

– Pai, tenho uma previsão para o senhor.

O senhor Mignola fez muxoxo. – Vai, grande vidente. Diga sua “previsão”.

– Você já tem mais de sessenta anos. Não vai demorar para chegar aos oitenta, aos noventa. Minha mãe é mais velha que tu, não vai ter forças para cuidar do senhor. O filho que você teve com sua amante não o considera um pai. Seus irmãos nunca gostaram de você. Vai chegar o momento que você vai precisar de ajuda e não terá ninguém para recorrer a não ser a mim. Quando esse dia chegar eu irei responder: não.

 ****

 – Vixe, Marcos, que cara é essa? Algum problema?

– Agora não, Alex.

De volta a sua casa, Marcos recebeu alta. Milagrosamente seus ferimentos se mostraram mais leves do que pareciam de início. Seu corpo físico estava bem, mas seu emocional não conseguia se curar assim tão rápido.

– Sabe, também tive alguns problemas com meus pais. Quer dizer, não com meu velho que era maravilhoso. Mas minha mãe sumiu no mundo quando eu tinha doze anos e…

– Agora não, Alex! Fica quieto, merda!

Marcos se senta atrás de sua mesa de trabalho. O vidente se sentia derrotado. Ele deita sua cabeça sobre seus braços e tenta se isolar do mundo e esquecer seus problemas, o que naquele instante era difícil.

– O problema não é você. Acho que seu pai nunca amou ninguém na vida. Acho que nem amar ele sabe.

Marcos olha para sua esquerda e vê sua cesta de jogar búzios. Embaixo da cesta o tal remédio receitado pelo seu psicólogo. A Esperiflina.

O vidente pega um comprimido da caixa e o joga direto garganta a baixo. Não deu nenhuma chance para que algum imprevisto qualquer o interrompesse.

De repente o silêncio.

– Alex? Você está aí?

Marcos não ouvia mais nada. Nenhum comentário impertinente, nenhum pedido de ajuda inconveniente. Só o silêncio. Algo com a qual ele podia vir a se acostumar.

 

Continua…

  • Gabriel Mendes

    Gostei. Nunca li uma estória nesse estilo, mas a escrita agradou muito. Quero ler mais aventuras do Marcos.

  • Rick Galasio

    Muito bom ! Muito bom, mesmo !

    Queremos mais.

  • Succ Kammiekazzie

    Muito legal, também quero mais.