A falsa moralista [+18]

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Se duas pessoas se amam uma à outra, não pode haver final feliz.

Ernest Hemingway

Me come!

Anônima

língua-mulher - destaqueMerda! Preciso me apressar! Oh, você está aí… Não repare na minha pressa, Caro Leitor, é que a lua está cheia e logo um monstro sairá para fazer mais uma vítima inocente. O que eu tenho a ver com isso? Bem, eu sou o único que pode impedir o banho de sangue. Não, não sou um caçador de lobisomens nem nada do gênero. Não, também não sou um lobisomem lutando contra a própria maldição. Para dizer a verdade, não há nenhum lobisomem nesta história, nem mesmo um vira-lata pulguento. Meu monstro é tão humano quanto eu ou você (supondo, é claro, que você não seja um chimpanzé alfabetizado) e a lua cheia… Rá, a lua cheia é mera coincidência.

Ela desce do andar de cobertura e aproveita o espelho do elevador para conferir a silhueta: cabelos longos e molhados (daquele tipo ideal para se usar como rédea), seios modestos (mas empinados), cintura fina (mas não a ponto de fazê-la se parecer com uma vespa), uma bunda decidida (feita para amortecer impactos fortes) e um par de pernas que escorre até os sapatos de salto agulha, tipo pega-homem. A (pouca) roupa que está em volta desta donzela de intenções dúbias também é digna de ser comentada: em cima temos um vestido vermelho mais justo que a lei de Deus, do tipo gangorra (puxe em baixo e os peitos se libertam das amarras opressoras da ditadura fashion, puxe em cima e é a vez da buceta dar o ar de sua graça). Digo buceta porque esse é o tipo de mulher onde os avistamentos de calcinhas são raros. E em baixo temos uma cinta-liga mordendo uma dupla de meias-arrastão (quinze reais no crediário nas Lojas Renner) de forma que as presilhas fiquem aparecendo, deitadas em cima das coxas filantrópicas. Agora vem dois detalhes para acrescentar uma pitada de classe ao conjunto: no pescoço, uma coleira de couro onde se lê “fuck me”, no pulso direito, uma pulseira de couro que pede “fuck me harder”.

Bonitinha, mas ordinária? Pense de novo. Para ambos os adjetivos. Ela olha em volta, esquadrinhando a cobertura. Em essência é o tipo de prédio para pessoas ricas, talvez ricas demais para a sua própria capacidade intelectual, onde, apesar da ostentação faraônica, pode-se ouvir um peido no banheiro do vizinho às seis horas da manhã de um sábado tranquilo. Coisas da vida. Mas ela não ouve nenhum peido. O barulho que escapa por debaixo da porta de um dos dois apartamentos da cobertura se parece mais com o barulho que Sodoma fazia. Isto é, num bom dia, não no dia em que ela foi vaporizada, bem entendido. A garota massageia as tempôras e se dirige para o outro apartamento, o que permaneceu quieto durante estes dois parágrafos. Ela toca a campainha, a Nona Sinfonia, e aguarda, mordendo o lábio inferior. A porta se abre imediatamente e uma coisa rasteja até o umbral. Pode ser humano, mas parece mais um professor universitário de esquerda. A coisa abre sua boca, numa tentativa torpe de soar como Marcello Mastroianni.

 – Buonanotte, La mia ragazza bella…

Nostro uomo. A garota molha os lábios com a língua e coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha, mais sexy que Jesus Cristo.

– Buonanotte, Il mio stallone italiano…

A coisa sorri, ainda tentando soar como Mastroianni, mas conseguindo apenas botar um Jece Valadão para fora. Num dia sem inspiração.

– Eu adoro quando você se veste assim, dessa maneira suja…

A garota dá uma gargalhada que preocupa o ser em posição de sentido no umbral (um deles, na verdade. O outro ser em posição de sentido no umbral tem cabeça, mas não pensa, veja você). Deboche? Ela se inclina para frente e para baixo (agora é imperativo mencionar que o guardião do umbral é baixinho, daqueles que precisam de um banquinho para escovar os dentes na pia, antes que você pense mal da nossa Virgem Maria) e abraça-o, os cabelos longos e gelados como os invernos escandinavos fazendo cócegas no nariz do professor com gosto duvidoso para partidos políticos, fazendo-o ter vontade de espirrar. Não, precisava se controlar. A garota sussurra no ouvido dele:

– Eu vim aqui para um assunto sujo…

Depois disso, tudo aconteceu muito rápido. Ela entrou, ele espirrou, cuspindo o fluxo na direção do corredor, acertando sem o saber um casal bêbado que tropegava na direção do apartamento Sodoma Inn, de maneira que o catarro verde e amarelo (só faltou o branco e o azul anil) escorresse pelas faces dos parceiros etílicos que, aparentemente, acharam o presente hilário. Nosso professor tranca a porta, o nariz pingando no trinco, e se volta para o pedaço de carne que rebola suavemente perto dali. Ele limpa o vazamento com as costas de uma das mãos e a coloca no bolso, rezando para que algodão seja um bom absorvente. Depois enlaça os tornozelos da garota (que é mais ou menos onde ele alcança sem precisar ficar nas pontas dos pés) e a conduz para a sala de transar (ninguém pretende estar ali), trazendo o toca-discos de volta para o mundo dos vivos. Música clássica:

– Satisfaction!

– Adoro Beatles!

Vou sair daqui antes que isso vire uma homenagem atroz, digo, um ménage à trois. O que se segue é uma coisa que mais parece saída de um filme de terror barato dos anos 80: o professor agarra a garota e começa a sugar sua boca, como se quisesse transferir para ela algum parasita alienígena ou comer seus lábios, sei lá. Bem, não vamos ser maldosos… A verdade é que o professor estava apenas beijando-a. Beijando do jeito dele, mas beijando. E nisso ficou por alguns minutos, a bolinagem sendo regada a champanhe (chileno, que a crise não perdoa ninguém) e muita saliva gosmenta, o que talvez não seja muito diferente de champanhe chilena. A garota sentiu um leve (cerca de três toneladas) cheiro de ostras na saliva do professor, mas isso não foi confirmado. O que importa é que logo o homem fez jus aos instintos que Mamãe Natureza lhe deu e agarrou a cabeça da mulher, forçando-a na direção da sua virilha.

A garota se liberta e pula por cima do sofá enquanto agarra a traquéia do professor com garras vermelhas de esmalte. A outro braço contorna a cabeça dele, para garantir que o abusado perca a capacidade de manter o pescoço preso nos ombros se tentar alguma gracinha. O barulho vindo do outro apartamento estoura os tímpanos dos dois, ela grita:

– Você queria foder a minha garganta, agora sou eu que vou foder com a tua!

Puta que o pariu! Era só o que me faltava! Depois de passar um trabalhão para vestir o macacão da Dedetizadora Caça-Baratas (quem você vai chamar?), dirigir em círculos e ovais por quase toda a cidade, quase implorar de joelhos (uepa!) para convencer o síndico do prédio de que o morador do 2002 chamou um serviço de dedetização às duas da madrugada, subir vinte andares de escadas porque tem uma porra de um casal bêbado transando no caralho do elevador e conseguir arrombar a porta com um clipe de papel de plástico rosa (tentei com um chute e quase quebrei a perna), agora eu chego aqui e me deparo com essa putaria! Ela (a garota, não a putaria) me encara e seus olhos faíscam, enquanto a boca se estica num sorriso que mais parece um esgar. Um dos caninos rasga o lábio inferior e uma solitária gota de sangue escorre pelo queixo dela, pingando numa das lentes dos óculos no nosso professor. Antes que eu possa começar meu discurso ensaiado ela faz um movimento rápido com a mão e uma coisa mole, molhada e quente bate no centro do meu peito. Pode ser um pedaço de vitela com molho, mas eu duvido.

– OK, sua vagabunda, isso termina aqui.

– Termina mesmo, chatinho. Já fodi com a garganta dele.

– Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Você acaba aqui.

Saco minha Luger (vovô não precisa saber) e miro na testa dela. No tempo em que levo para fazer isso ela dá uma risadinha e chuta minha mão, acertando-a com um salto alto tão alto que faria Neil Armstrong dispensar a Apolo 11 para alcançar a lua. A Luger voa pela janela e alguns segundos depois ouvimos um disparo e alguém gritando. Orgulhosa, ela põe as mão na cintura e começa a guerra psicológica:

– Você não quer me matar e sabe bem disso.

– Não aposte nisso.

Deus, ela sabe da verdade.

– Aposto sim. E também aposto na casa 69, que é o que você quer fazer comigo…

– Já andei frequentando outros cassinos…

Deus, ela está lendo minha mente.

– Eu sei, você é um graaande jogador. Um verdadeiro rei de espadas…

– É o que as bancas me dizem, minha dama de paus…

Ela joga a cabeça para trás e ri. Estou conseguindo virar a mesa, mas minhas pernas ficam bambas quando ela ri com sinceridade das minhas piadas.

– E aí? Vai ficar parado que nem um dois de paus ou vai me comer?

– Como! Digo, como?

Deus, não consigo pensar com o sangue todo no pau.

– Um soldado eu contrato para crescer e ganhar fama. E ser alvejado por seis centavos a semana. Seu soldado já cresceu e, pelo menos comigo, já ganhou fama, baby. Só falta agora eu dar uma boa alvejada nele, por uma semana, se você aguentar. E, é claro, sem cobrar nem seis centavos…

Ela pisca para mim e gargalha novamente. Um banheiro! Eu preciso de um banheiro!

– Vem pro papai, gostosa!

Ela salta na minha direção e nos engalfinhamos. Agarro os cabelos molhados dela enquanto suas pernas longas se enlaçam nas minhas costas. Pressiono o corpo dela com violência contra a parede. Ela solta um gemido e enfia as unhas nos meus ombros. Sinto o sangue escorrer por minhas costas enquanto a pressão das coxas dela nas minhas costelas me obriga a me virar e recostar na parede. Continuo puxando seu cabelo, já agarrando sua cabeça, ao passo que ela morde meu pescoço. Peço ao Caro Leitor que não vá ficando todo assanhadinho, isso não são as preliminares de uma sessão de sexo selvagem. Na verdade, é assim que duas pessoas que não querem machucar umas as outras lutam. Tensão sexual é o caralho, meu nome é tesão mal resolvido, porra! As coisas acabaram logo depois desse amasso violento, mas acho que é hora de um pausa didática.

A Guerra do Vietnã foi o mais longo conflito militar que ocorreu depois da II Guerra Mundial. Estendeu-se essa guerra em dois períodos distintos. No primeiro deles, as forças nacionalistas vietnamitas, sob orientação do Viet-minh (a liga vietnamita), lutaram contra os colonialistas franceses, entre 1946 a 1954. No segundo, uma frente de nacionalistas e comunistas – o Vietcong – enfrentaram as tropas de intervenção norte-americanas, entre 1964 e 1975. Com um pequeno intervalo entre os finais dos anos 50 e início dos 60, a guerra durou quase 20 anos. Depois de imobilizarem militarmente as forças americanas em várias situações, levando-as a serem retiradas do conflito, os norte-vietnamitas de Giap, juntamente com os vietcongs, prepararam-se para a ofensiva final. A unificação nacional foi formalizada em 2 de julho de 1976 com o nome de República Socialista do Vietnã, 31 anos depois de ter sido anunciada.

Brincadeira. Minha pausa didática é para explicar como cheguei até aqui. E para isso precisamos viajar no tempo usando nossa incrível máquina do tempo alimentada com energia metalinguística: o Flashback 3000. Peço ao Caro Leitor que aperte o cinto e aviso que a sublimação do cérebro é um efeito colateral observado. Tapem suas orelhas e narizes, lá vamos nós! Pronto! Chegamos! Viagem rápida, hein? Bem, tudo começou muito tempo depois do começo de tudo, cerca de quinze bilhões de anos depois. Um de nossos colegas de sala descobriu, o pobre bastardo, que a garota das páginas aí de cima não era santa como ela própria construía sua imagem para ser. A fatalidade envolveu um pendrive trocado e uma cabeça decapitada. O pobre bastardo.

Depois foi a vez de outro colega nosso fazer a descoberta. Dessa vez o negócio girou em torno de uma webcam. O legista do Instituto Médico Bacana não conseguiu identificar a causa da morte. Já foi sorte que chega ter achado os dentes do infeliz para poder identificá-lo. O que se pode dizer com certeza é que o loirinho morreu. Mortinho. Chutou o balde. Esticou as canelas. Juntou os pés. Abotoou o paletó de madeira. Virou comida de minhoca. Visita agora só de urubu. Acho que o Caro Leitor já entendeu, vou parar por aqui. Foi comer capim pela raiz. Então eu descobri (não me pergunte como) que era a minha amiga que estava matando esses incautos e resolvi (não me pergunte por que) impedir que ela continuasse com a matança. Feliz agora? Podemos prosseguir de onde paramos? Ótimo. Eu precisava resolver isso logo ou minhas bolas ficariam do tamanho de ovos de avestruz. Digo ovos porque não sei se avestruzes têm testículos grandes. Diabos, não sei nem se têm testículos… Foi pensando em banheiros, carros e sexo (o que pra mim são praticamente sinônimos) que atingi o nirvana.

Ela precisava matar pervertidos e eu precisava controlá-la, certo? Pois bem, parece que temos um vencedor aqui. Desvencilho meu pescoço daqueles dentes afiados, agarro sua crina e puxo sua cabeça para trás, mordiscando sua orelha. Ela geme alto e sussurro algo para ela. Seus olhos se arregalam e ela me encara. Continuo sussurrando e depois a encaro, esperando. Ela sorri e enfia sua língua na minha boca, sem pedir permissão, do jeito que eu gosto. Soa como sucesso para mim. E foi isso. Agora, se vocês me dão licença, preciso sair. Ela e eu temos um compromisso importante. Como? Ah, o que eu sussurrei? Bem, foi uma idéia que me ocorreu de repente. Agora nós torturamos e matamos pedófilos! Eu sei que parece complicado, mas na verdade é bem simples: Ela se exibe na webcam com uma roupa de Lolita (Lolita! Lolita! Lolita!) e diz que tem quinze anos. Eu rastreio o IP do telespectador, nós o visitamos, capturamos, torturamos (por mais ou menos uma semana), matamos (enterrado só com a cabeça de fora perto de um formigueiro é uma boa pedida) e depois doamos a carne para a cozinha do centro comunitário (tem gosto de galinha, acredite se quiser).

Como? Desumano? Eu não acho. Desumano seria abandonar um cãozinho só porque você quer ir à praia e não tem onde deixá-lo, ou abandonar um bebê numa lixeira só porque você é vagabunda demais para não abrir as pernas para qualquer um e burra demais para usar camisinha. OK, OK, vou encerrar essa história com uma moral edificante: Por favor, faça sexo seguro. Se você estiver dirigindo a 150 quilômetros por hora e sua parceira resolver cair de boca no seu pau, tenha a decência de usar o cinto de segurança. Po-por ho-hoje é é só só pe-pessoal! Boa Noite!

by Kurt Vicenzi (Para Nelson Rodrigues)

  • Eriton

    Kkkkkkkkkkkkk Curti o conto ácido e engraçado =D bem bacana mesmo (P.S.: Quem não curte um +18? Q não seja 50 tons de alguma coisa claro)