LIVROS: Sebos vendem livros para decoração – Ué? Mas não é para ler?

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estante-de-livros-destaqueReportagem no site da Folha de S. Paulo, trouxe à tona uma realidade triste mas que não surpreende dada a uma sociedade que vive para o ter e não para o ser. No texto, assinado pela jornalista Letícia Mori, lemos sobre como livreiros negociam o valor dos livros por metro para decoração de espaços. Sim, você leu certo, por metro, não é pelo valor da obra, mas pela quantidade. Alguns relatam que os clientes chegam com fitas métricas.

Os livros são escolhidos pela capa, cor, formato e quantidade. Os livreiros afirmam que seus compradores são desde advogados que compram livros para preencher suas estantes e impressionar clientes até decoradores, à mando dos seus clientes, que querem salas repletas de livros. Não importa o tipo, o gênero, se é enciclopédia ou paradidático a estética é um único critério para a escolha.

Muitos, Cabulosos, já devem estar pensando: “Os culpados são, em primeiro lugar, os livreiros que não deveriam vender livros para essas pessoas”. Discordo deste tipo de pensamento, pois alguns leitores tem uma visão utópica do mercado literário achando que seus profissionais o fazem por amor e por isso deixam de enxergar a função comercial dos livros. Se existe dinheiro envolvido então alguém tem custos para cobrir. Os livreiros pagam pelo espaço, espaços que além do aluguel, gera despesas de água e luz, alguns possuem funcionários, fora que não podemos esquecer de despesas com suas próprias famílias… todo este dinheiro advém da venda dos livros. Logo se aparece um cliente querendo comprar um metro de livro e eles o vende por R$ 250,00 não importa realmente para que objetivo foram adquiridos. Alguns, como cita a matéria, até tem esta preocupação e repassam livros sem muita rotatividade.

Para mim, se existe um culpado são as pessoas que fazem as compras. Mas a prática não é recente. Como sou formado em letras, já ouvi diversas histórias, do período colonial, de madames que compravam livros para decoração. Uma professora minha chegou a relatar que uma amiga comprara vários livros para expor na sua recém-comprada estante e quando percebeu que os livros eram maiores do que o espaço entre as prateleiras mandou cortá-los para que coubessem. Outro fato, postado ontem aqui no LC, mostrou uma autora de livros que cortou com um estilete uma coleção completa para formar um mero enfeite (se você não sabe do que estamos falando leia a matéria: Esta mulher é uma assassina literária).

Nossa sociedade sempre construiu o conceito de que a primeira impressão é a que fica. Qual a primeira impressão de uma estante repleta de livros a não ser conceder um status de intelectualidade para aqueles que a possuem? Mesmo sabendo que a partir de uma simples conversa possamos descobrir a superficialidade do “expositor”. O que vemos na televisão é uma prova cabal disto ou vamos esquecer que grande parte dos participantes do BBB têm curso superior? Mas ao longo do programa fica a pergunta: cadê a erudição? Cadê o conhecimento? Adquirir conhecimento, aprender dá muito trabalho. Você passa uma vida aprendendo (já que nunca se sabe o bastante), mas para estas pessoas que compram livros por metro para decoração para montar uma biblioteca pessoal demora muito e a visita virá no dia seguinte. Primeiro vem a aparência depois a essência. E venhamos e convenhamos a rotina de  um leitor para estas pessoas é um estorvo, já que ao comprar livros por metro, elas deixaram bem claro que queriam apenas preencher aquela estante. Quem lê por amor, sofre com o espaço. Uma estante não é suficiente.

Como uma pessoa como esta vai compreender a sensação de entrar uma livraria e não saber o que levar? Ficar triste por querer ler oito, nove, dez livros, mas saber que não possui dinheiro suficiente para comprá-los… como uma pessoa que comprou livros para ficarem expostos pode saber como é belo quando alguém chega à sua casa e lhe pergunta se você leu aquele livro que ela vê e vocês podem passar horas falando ele… como uma pessoas dessas que pediu três metros de livros vai sentir o prazer de terminar um livro e colocá-lo de volta à estante? Uma pessoa como essa não sabe nada disso e talvez nunca venha a saber. Pois são vazias  como aquela prateleira que tem metros e metros de livros, porém está vazia, já que livros que não foram lidos são apenas papéis com tinta.

Como disse no começo do meu texto, esta reportagem trouxe um fato triste, mas que não surpreende. Hoje as pessoas são como grandes estantes repletas de objetos se retirá-los o que fica? Nada. Esta é a vantagem de um leitor. Um leitor sem livros é como a mesma prateleira sem livros, contudo quando se olhar bem de perto lá estará uma poeira fina e discreta marcando, delimitando que ali já houve algo de muito valioso que mora agora dentro dele… para sempre.

Agradecimento ao leitor: Pedro Victor Santos pela sugestão da matéria.

Fonte

  • Rita souza

    Só digo uma coisa: estante cheia e mente vazia ñ constrói uma pessoa!