RESENHA + ENTREVISTA: “O Espelho”, quando o abismo lhe retorna o olhar

6
Capa
Capa

Autor: Jorge Plá y Cid
Editora: Editora Dracaena
Origem: Brasileira
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 496
Skoob
Sinopse: Existem momentos em que as portas do passado devem ser fechadas para sempre. Mas, a vida não segue o curso que queremos e o passado permanece ali, à espreita pela fresta ainda aberta.

Pedro Cantillejo gostaria de esquecer seu passado, sua infância, mas os pesadelos o mantém acordado para os acontecimentos de uma noite trágica. Nem sua frieza, nem ambição, permitem que as portas em suas memórias se fechem para sempre.

Das planícies áridas de um povoado no sul da Espanha às ruelas e subterrâneos de uma Barcelona invernal, esta é uma história de amizade e loucura.

Pode um objeto manipular as pessoas? Ou são as pessoas que se deixam manipular? Numa corrida contra o tempo, um garoto, um homem e uma mulher. Vingança, condenação e redenção entrelaçam o destino de todos eles. Personagens insólitos que se entrecruzam num mosaico que resume os vícios e desvios de uma sociedade.

E uma lembrança perdida, esquecida no passado, ameaça abrir as portas de um mundo sem luz, que se esconde por trás dos reflexos no Espelho.

Onde comprar? Impresso – Editora  Dracaena, Livraria Siciliano, Livraria Saraiva, Amazon, CIA dos Livros, Lojas Singular, Direto com o autor (com direito a autógrafo): jorge.pla@bol.com.br / E-book – Livraria Travessa, IBA, Mundo Positivo

Análise:

“Lembre-se que é apenas um espelho, lugar de imagens, terra de reflexos. Não esqueça, o que ele reflete é o que a vida lhe apresenta.”

—Pág. 438.

Saudações, caros leitores! Objetos podem manipular pessoas, pelo menos quando conferimos tal poder a eles. Se vocês duvidam do que afirmo, lhes pergunto: alguém que seja fanático por carros consegue não desviar o olhar ao perceber um belo veículo se aproximando? Obviamente, não. Todavia, se ainda questionarem as minhas palavras, indago: nós, leitores assíduos, conseguimos entrar em uma livraria e não admirar dezenas de livros, mesmo que tenhamos ido ao estabelecimento apenas para comprar um que já escolhemos antes? Tudo bem, os exemplos que citei não retratam uma influência perniciosa, mas e se o objeto em questão fosse algo que ressaltasse o que há de mais abissal em você? Imaginem algo tão horrendo que lhe faria querer furar os olhos, pois a verdade é demasiadamente hedionda. Esse é “O Espelho”, vamos saber o que vi nessa trama em que a mente humana é o principal palco, mas tomem cuidado com a superfície reflexiva…

O prólogo nos puxa para um cenário em que a realidade e a fantasia, tecida pela percepção pasmada de um garoto, se confundem. O medo vem de duas direções, um sentimento de pesar por um falecimento e uma “sombra” que oprime a criança e nos serve claramente de aviso que algo terrivelmente errado está se desenrolando. Mas o que representa este ser que antagônico à luz? Essa é a interrogação para a qual a obra vai progressivamente construindo uma resposta.

Depois,  o romance nos mostra um povoado onde a própria vida parece se arrastar duramente. O que quebra um pouco essa atmosfera mortiça é um grupo de amigos, entre eles Pedro e Júlio, peças fundamentais na trama.

O primeiro capítulo é percebido pela ótica de um corvo, clara referência a Edgar Allan Poe. Isto também serve de aviso para o fato de que o se segue é uma narração de terror mais psicológico do que choque visual, o que particularmente adoro. Não consigo me envolver com enredos onde o derramamento é maior do que a preocupação do escritor em nos fazer sentir os dramas dos personagens.

Neste pedaço de terra, o miasma maligno se manifesta a partir da velha Eulália, avó de Júlio e dona de um passado desgraçado. Inicialmente, consideramos que seja ela o que há de mais venenoso para os espíritos incautos que cruzarem a sua trilha, mas a verdade é muito mais assustadora.

O cerne d’O Mal é um espelho, peça de origem desconhecida, mas com um único objetivo: corromper o ser humano. Ou seria apenas dar um empurrãozinho naquilo que já carregamos, deixando claro como água límpida o que nos esforçamos para camuflar? Essa pergunta suscita um debate intenso no leitor sobre a natureza do homem. Será que nascemos bons e a sociedade é o que torna alguns podres? Existe uma predisposição aos delitos? Será que até o mais justo dentre nós pode se transformar em um monstro psicótico? Neste ponto, Pedro surge como fundamental cobaia nesse exame da psique, pois mesmo em sua fase infantil, demonstra sinais perturbadores, coisas que nos fazem sentir medo dele. O caráter do pequeno se prova ainda mais suspeito quando ao confrontar o Espelho pela primeira vez sente empatia e não pavor.

Com uma virada impactante, somos lançados para o futuro, onde reencontramos Pedro Cantillejo adulto, vivendo em Barcelona. Ainda mais vil, em meio ao mundo corporativo, e ocupando um posto privilegiado, graças ao fato de ser o noivo da filha do chefe, seguimos os passos de Pedro por uma camada da sociedade que coexiste, envolta em mistérios, abaixo da nossa. Enfim, caminhamos por trás do baile de máscaras.

Como toda boa história pede um embate de propósitos, não necessariamente contrários, mas distintos, conhecemos Daniel, um garoto órfão muito simpático que acaba ligando-se irremediavelmente a Pedro. O menino sente-se compelido a enfrentar a força que estende os braços para agarrar toda a pureza que encontrar para subvertê-la.

Humildemente, considerando que não sou um sociólogo ou algo próximo disso, posso dizer que o romance disseca o corpo do chamado “homem moderno”, consumido em uma corrida desenfreada pelo poder, mas que carece de uma razão além da aquisição de um posto elevado. Com uma escrita que conquista facilmente, olhamos para o abismo do espírito humano.

No ambiente urbano, onde a opulência convive ao lado da miséria em uma massa viva e em movimento constante, o horror, que estava supostamente trancado em um passado distante, vai se infiltrando em acontecimentos fortuitos. Até parece que uma força atua para que diversos elementos convirjam para um local, estabelecendo um confronto que determinará o destino de muitas pessoas. As últimas noventa páginas, mais ou menos, são simplesmente impossíveis de serem largadas!

Um traço que também me cativou neste trabalho de Jorge Plá y Cid é os moldes com os quais ele enquadra a perda de sanidade. Lembrou-me Lovecraft, onde o sobrenatural é uma coisa além de nossa própria compreensão e qualquer encontro com ele ou tentativa de esclarecê-lo conduz inevitavelmente à seguinte bifurcação: morte ou loucura.

O trabalho com a capa ficou excelente, usando tons de preto e azul para transmitir a sensação de um clima inóspito, ameaçador. Minha única crítica é quanto ao número de erros de revisão, o que me chateou um pouco. Se você quer desfrutar de uma obra de terror, essa é uma dica que deixo! Dou quatro selos cabulosos.

Nota:

Avaliação
Avaliação

Entrevista:

Jorge Plá y Cid
Jorge Plá y Cid

Olá, Jorge, tudo bem? Aqui estamos conversando, depois de minha leitura do seu primeiro romance, espero que se divirta tanto quanto eu. Sinta-se completamente à vontade nas respostas.

1 – Como foi o seu processo de escrita?

J.P.C: Comecei a escrever O Espelho entre 2004/05, e originalmente era para ser um conto. Só que o conto acabou ficando longo demais, quase 90 páginas. Em suma, era longo como conto e curto como romance. Não funcionava. Entre 2006/07 retomei-o, com o firme propósito de torná-lo um romance. Aproveitei boa parte do material já pronto, algumas coisas ficaram de fora, e em um ano e meio terminei o que veio a ser a primeira versão. Escrevia principalmente à noite, pois durante o dia tinha que trabalhar. O pouco tempo diário para dedicar ao romance fez com que demorasse mais do que gostaria. Lá pelo final de 2008 O Espelho foi para a gaveta, para descansar, seguindo conselho do mestre King. Quase um ano depois retomei a história para inserir alguns elementos a mais e revisa-la. Entre 2010 e 2011 enviei para umas três ou quatro grandes editoras, mas jamais obtive resposta delas. Quando comecei a direcionar o trabalho para editoras que cobram para publicar, obtive aceitação de quatro delas, Novo Século, Multifoco, Dracaena e Chiado (Portugal). Acabei fechando com a Dracaena.

2 – A história é essencialmente sobre como a nossa sociedade se sustenta de aparências, ou seja, um drama que poderia dispensar a parte sobrenatural, caso você quisesse, então gostaria de saber como o terror foi nascendo no enredo em sua mente.

J.P.C: Realmente você tem razão. Mas os dois elementos são parte essencial que compõe a minha personalidade, a do homem que sempre teve uma postura crítica diante da realidade do mundo e daquilo que nos é incutido como verdade, sobretudo uma posição bem definida com relação ao que considera como injustiças da nossa sociedade, e a do leitor que sempre adorou uma boa dose de suspense/terror e que tinha como ícone na infância Christopher Lee, o Drácula por excelência. Portanto, por mais que eu quisesse, não conseguiria fugir de mim mesmo, ainda que seja numa história que reflete fielmente a nossa realidade. Até porque, o ponto central da trama é um objeto com poder inimaginável, então, o ponto de partida já é uma fantasia em si. Lembro que esta magia do poder dos objetos deixou uma forte impressão em mim ao assistir, ainda criança, a novela A Sucessora, e a influência que o retrato na parede tinha sobre todos no casarão.

3 – O que o terror, como gênero literário, significa para você?

J.P.C: Particularmente, assim como em filmes, o terror que me interessa é aquele psicológico. Poe e Lovecraft são mestres nisso, sobretudo o segundo. Tenho uma grande aversão ao terror sanguinário, que considero apelativo e de mau gosto. Por vezes até patético. Lembro de assistir a alguns filmes no gênero Sexta-Feira 13 e ficar irritado com o comportamento de alguns personagens, que fugia completamente ao que se supõe ser racional. Deve ser a influência da escrita de Poe. Idem para o tão badalado Walking Dead. Claro que mesmo em tramas de terror ou suspense psicológico, em algum instante você vai lançar mão de momentos de clímax em que o terror explode de forma puramente física, como acontece em O Espelho, mas não fazer disso o centro da trama e girando em volta uma quantidade de personagens que de tão pouco construídos são impossíveis de se fazerem críveis.

Quando penso no terror na literatura, sempre me vem à mente um pensamento do Stephen King, em que questionado mais ou menos neste sentido, ele disse que o nosso cérebro é como uma rede, e a rede de cada um retém fatos, sonhos, histórias, de uma forma mais ou menos aleatória. Que a dele – King – sempre teve essa proximidade com o terror. Em suma, você não procura, isto está dentro de você, como uma outra pessoa vai preferir histórias românticas e alguém vai preferir escutar Beethoven.

4 – Como você avalia o resultado final do seu trabalho?

J.P.C: Acho que a escrita reflete um momento de sua vida. O estágio no qual você se encontra. Para uma primeira obra, considero que o resultado é excelente. Se for considerar o livro em si, a capa e a arte final da Dracaena ficaram sensacionais. Sobretudo porque ela veio a partir de um esboço desenhado por minha esposa Cristiani, a partir de uma conversa que tivemos os dois e que enviamos à editora como imagem digitalizada. Vendo a obra hoje, meses depois de lançada, creio que faria algumas coisas diferentes. Como autor principiante, acho que fiz o que era possível naquele momento. Havia o entusiasmo da primeira obra, o prazo exíguo para lançarmos até o natal. Digo isso, porque hoje eu faria as coisas com mais calma, com menos urgências.

5 – Você pode comentar se há projetos em andamento? Se for possível, também nos diga um pouco do que se trata.

J.P.C: Tenho dois projetos em andamento.

Possuo diversos contos escritos, alguns deles premiados, e estou trabalhando em dois novos. Com isso, acho que até o final do ano devo ter um volume bem consistente de contos. Boa parte deles tem elementos de suspense e terror, mas também a os que falam de amizade, companheirismo, solidão. Este é o projeto mais imediato.

Para o ano que vem devo concluir meu segundo romance. Título provisório Terra e Ossos. Ambientado na Espanha, cobre um período desde o pós-guerra civil (anos 40) até o final do século vinte (anos 90). Posso dizer que este romance tem menos elementos sobrenaturais, por enquanto, e os vilões da história estão mais para psicopatas reais.

6 – Quanto às suas principais influências literárias (Stephen King, Edgar Allan Poe e Gabriel Garcia Márquez), o que o atraiu no trabalho de cada um deles?

J.P.C: Dos três citados, considero Stephen King o melhor contador de histórias, aliás, suas tramas que misturam realidade, fantasia, terror e sobrenatural são uma constante fonte de inspiração. Allan Poe tem uma escrita mais metódica, mais sombria também. É justamente esse lado mais denso de sua narrativa que me atrai em sua obra, bem como a racionalidade de alguns de seus personagens. Dos três, Garcia Márquez é sem dúvida o melhor em estilo. Esse cuidado com a forma como a história é contada é fundamental, e este brilhante escritor colombiano faz isso de forma soberba. Não há que ter pressa para escrever, sob pena de prejudicar o resultado final. Além disso, Garcia Márquez também tem esse lado fantástico em algumas de suas obras, mostrando que devemos cuidar da forma da escrita mesmo em terrenos menos sólidos que a realidade.

7 – Além dos seus principais ídolos, há algum que você gostaria de recomendar para os leitores do blog? Pode citar quantos quiser.

J.P.C: Tenho repetido isso sempre que possível. Um bom escritor deve ler de tudo, mas, sobretudo, bons escritores. Os clássicos são indispensáveis. Machado de Assis, Dostoievsky, Franz Kafka, Umberto Eco, José Saramago, Ítalo Calvino e tantos outros. Claro que cada qual vai procurar os melhores dentro daquilo que o atrai como escritor ou leitor, mas ler os autores mais renomados é fundamental para o crescimento como escritor.

8 – Qual foi o último livro que você leu e o que achou?

J.P.C: A Torre Negra – Vol. IV. Para este eu daria cinco estrelas cabulosas, bem como para o volume I. Achei a obra excelente, sobretudo por termos a dimensão dos fatos no passado do pistoleiro e de sua paixão com a jovem Susan. King se sai muito bem nesta incursão por uma bonita história de amor. Não há praticamente lugar para o sobrenatural neste volume, apenas quando o assunto é a bruxa da Colina Coos, mas o argumento e o desenrolar da trama que, de antemão, já sabemos que não terá um final feliz, são feitas de forma muito competente pelo autor. Existem alguns trabalhos de Stephen King que acho um pouco alongados demais, às vezes com partes desnecessárias que truncam um pouco o desenrolar da trama, mas, sinceramente, este não é um deles.

9 – É meu costume deixar o espaço final para o entrevistado falar o que quiser, então…

J.P.C: Se você é fã de romances de terror psicológico, vá em frente e adquira O Espelho. Aqueles que admiram o trabalho de Allan Poe e Lovecraft certamente não vão se arrepender. No mais, queria agradecer a você, Ednelson, a oportunidade de ocupar um pouco deste espaço que já considero como uma referência no trabalho de divulgação da literatura nacional. Realmente, vocês estão fazendo um trabalho admirável.

Jorge, muito obrigado pela atenção em conceder esta entrevista, toda a equipe do Leitor Cabuloso lhe deseja muito sucesso! Abraço!

Onde encontrar o Jorge no ciberespaço?